terça-feira, julho 17, 2012

Ceder espaço

Quando se conduz dentro da cidade há umas quantas regras não escritas que convém guardar e observar a todo o momento. São questões de civilidade, quase cavalheirismo, na medida em que seja possível continuar a imaginar a figura difusa e recalcitrante do Cavalheiro.

Quando estamos a sair de um estacionamento directamente para a estrada e vem uma daquelas filas de carros que parecem materializar-se apenas para nos irritar e atrasar, carros que não estavam ali mas agora parecem brotar do alcatrão como que por magia negra, vamos metendo o nariz (ou o cú) do nosso veículo, ganhando uns centímetros, até que alguém abranda e nos dá passagem.

É de bom tom, quando entramos finalmente no fluxo de trânsito, agradecer com um gesto que tanto pode significar reconhecimento quanto serve para apaziguar a possível fúria do outro condutor por nos estarmos a atravessar à sua frente. O gesto deita água na fervura e não há buzinadelas nem gritos de filho-da-puta, como acontece com tanta frequência, apesar de tudo.

Da parte que me toca faço-o sempre e gosto que, quando sou eu a dar passagem, o outro condutor gesticule da mesma forma. Os homens, invariavelmente, fazem o gesto mas as mulheres... não.

É raro haver uma mulher, uma senhora, que agradeça a cedência de passagem mesmo quando as regras de trânsito não obrigam, como se fosse um direito que lhe assiste pelo simples facto de trazer agarrado ao corpo o sexo que a caracteriza.

Isto irrita-me com alguma profundidade. Prometo a mim próprio que da próxima vez não serei cavalheiro, que porra! Porque carga de água as senhoras não fazem o gesto? Não lhes ensinaram isso na escola de condução? Talvez não, mas estas coisas aprendem-se na vivência do quotidiano.

Ainda agora me aconteceu exactamente isso. Por três vezes seguidas. De todas elas cedi a passagem jurando a mim próprio não voltar a fazê-lo.

11 comentários:

Eduardo P.L disse...

Meu caro Rui, elas não fazem nenhum gesto de agradecimento ou reconhecimento pela gentileza, para que não confundam esse eventual gesto como um aceno ou abertura para um flerte amoroso. Por outro lado, e muito mais dramático, tem motoristas homens, especialmente do Rio Grande do Sul, que também não fazem nenhum gesto de agradecimento para não se passarem por afeminados! São os "machos" no volante! Aqui onde moro, esta cheio de turista gaúcho, como os chamamos, e invariavelmente me aborreço com eles! São incapazes de um abano de cabeça, um sorriso de canto boca, ou um movimento com os dedos na direção!! Macho que é macho não agradece. E por essa razão tem as "femeas" que merecem!

Silvares disse...

Eduardo, este comentário abriu mais do que um sorriso na minha face, eu quase ri à gargalhada. Não tinha pensado na situação do modo que você descreve. Estava na minha, cavalheiro ligeiramente ofendido, mas a perspectiva do macho que puxa a carroça estava me faltando. O seu comentário abriu um novo horizonte para mim. Tem toda a razão: macho que é macho, puxa a carroça e fêmea que é fêmea só conhece macho! A coisa ficou mais simples.

Agora espero comentários menos compreensivos e mais alterados.

Viva a Zumbisfera!!!

expressodalinha disse...

Eu devo estar maricas macho (?). Agradeço a toda a gente. Sendo assim acaba já amanhã.

rui sousa disse...

Rui, eu sei que esta é uma pergunta prosaica e algo brejeira, mas é a que me ocorre: Eram giras as moças?
:-)

Silvares disse...

Jorge, não estás a ser maricas macho, estás a agir correctamente. Deve-se agradecer sempre, é uma forma de tornar o ambiente mais desanuviado compensando a emissão de CO2 do veículo.

Rui, sinceramente nem deu para reparar. Ao volante parecem todas giras, desde que sejam moças.

Lais Castro disse...

Da minha parte, sempre agradeço quando algum marmanjo me cede a passagem... e também tenho o hábito de ceder a passagem nessas situações citadas, muito embora reconheça que a maioria das mulheres não cede!
Tenho dito! hehe

fada*do*lar disse...

És um cavalheiro inato, reconfirma-se!
Já ouvi as mesmas queixas, muitas vezes, de outros cavalheiros condutores. A fada neste caso está ilibida, pois nem carta de condução têm %-\
Mas não imagino a situação e NÃO agradecer.
Pelo menos nas passadeiras agradeço sempre (e lá está, também não é "necessário").
Civismo, educação, simpatia, tão simples, não custa nada.

Silvares disse...

Lais, não há regra sem excepção!
:-)

Fada, bons olhos te revejam.
:-)
Dizes tu que "civismo, educação, simpatia" não custam nada? Pelos vistos anda por aí muita avarenta...

Li Ferreira Nhan disse...

Gargalhadas!!!
Em cólicas de tanto rir!!!!

Vamos lá, o Edu arrasou no comentário.
Por aqui em São Paulo há muitos homens que não agradecem; serão os tais dos pampas tche? Deusmelivreguarde!
São Paulo é uma cidade com um trânsito caótico. Mas quando há filas, transito congestionado e carros querendo "entrar" há um consenso de "um por vez". E todos agradecem, na maioria das vezes na buzina. Não dá para andar com o veículo aberto e muito menos a fazer gestos; corre-se o risco de ter uma arma apontada nas fuças.
Curioso aqui é que se buzina por tudo e por nada. E, depois dos motoqueiros, as mulheres são as campeãs no toque!
Gesto, por aqui, só mesmo para xingar.

peri s.c. disse...

Eduardo e Li foram precisos nos comentários sobre o trânsito aqui no Patropi. Acho que as mulheres não agradecem porque se acham merecedoras de todas as atenções, sempre.Pocas queimaram, de fato, os sutiãs.

Silvares disse...

Li, por estes lados ainda se conduz com os vidros abertos (fechados só mesmo quando se liga o ar condicionado). Uma amiga minha de há muitos anos, veio da Bélgica para viver em Lisboa durante um ou dois anos e ela dizia "Os portugueses são muito bem educados, é "com licença" e um pontapé no cú!"... já as portuguesas...

Peri, e muitas que queimaram já compraram "wonderbra".