sexta-feira, abril 23, 2010

O Belo


Era apenas uma pequena viagem de automóvel dentro da cidade. Uma daquelas que se fazem quase de olhos fechados, das que nem tempo dão para articular dois pensamentos seguidos ou ouvir qualquer coisinha na rádio. Distraídamente.

O cruzamento, entre uma rua que sobe e desce para quem vai em sentido contrário e que corta uma outra, meio inclinada para um dos hemisférios, lá estava no seu lugar de permanência. Aproximei-me vindo de cá. Do outro lado vinham dois carros. Na passadeira, logo à entada da rua inclinada, dois peões preparavam-se para meter os pés no asfalto zebrado. Eram um rapaz daqueles que agora se parecem todos uns com os outros, de boné branco coberto pelo capuz de um blusão vermelho tipo "gangsta" e uma senhora velhota, meio tombada para o lado do saco de plástico que lhe pendia numa das extremidades. Outro carro se aproximava, vindo da minha esquerda.

Um carro, dois carros, duas pessoas, mais o meu carro, todos os objectos se dirigiam para o mesmo ponto com velocidades variáveis e, tudo indicava, iriam atingi-lo em simultâneo sem um semáforo que lhes intermediasse os movimentos.Desastre?

Não; maravilha!!!

Graças a um conjunto meio difuso de factores (desde a experiência quotidiana dos intervenientes às regras do Código da Estrada) o momento de colisão transformou-se numa situação de rara beleza, em que todos os elementos se cruzaram com suavidade, quase sem pararem. Uns abrandaram graciosamente, outros aligeiraram os passos e, aquele momento em que nos cruzámos uns com os outros, momento decerto único nas nossas existências, foi simplesmeste deslumbrante, tal a fluidez dos movimentos.

Ordem, equilibrio, proporção, alguns dos principais atributos da Beleza tal como a demandavam os clássicos estavam ali presentes. Agora posso afirmar, com uma audácia prima afastada da audácia de Marinetti, "um cruzamento na cidade ao início da tarde é mais belo que a Vitória de Samotrácia".

3 comentários:

Eduardo P.L disse...

Um bom texto, como sempre, e uma inédita e original reflexão sobre o belo!

Beto Canales disse...

Falar de um acidente seria fácil... da ausência dele nem tanto.

Parabéns, Silvares.

Silvares disse...

Eduardo, Beto, por vezes, procurar a beleza na arte acaba por se tornar cansativo.