terça-feira, agosto 11, 2009

Uma questão de chá

lá ao fundo está a Gioconda, absorvendo por completo todo o espaço em volta


Atirar um pouco de chá contra a urna de vidro que envolve e encerra a Mona Lisa parece ser uma acção algo frouxa. Aconteceu no passado dia 2. Segundo os relatos, uma turista russa atirou chá à mais célebre pintura de Leonardo não provocando qualquer dano. "As autoridades acreditam que a mulher sofre da síndrome de Stendhal, que faz as pessoas agirem de forma irracional, quando tocadas por uma obra de arte."

Ora aí está uma maleita pouco conhecida mas eventualmente bastante comum, a Síndrome de Stendhal. A descrição dos sintomas que podemos encontrar na Wikipédia (onde poderíamos encontrar essa informação a não ser ali?) é um tanto estranheca. Uma pessoa fica sem ar, sente vertigens, alucina perante uma sequência demasiado avassaladora de obras de arte que a deixam palpitante, em absoluto ataque de nervos. E... pimba! Uma pessoa ataca a obra responsável por tanta agitação. É lógico.

É mais ou menos célebre a história de Joe Berardo que terá comprado uma reprodução da Gioconda (um poster) convencido de estar a adquirir uma pintura original. Na época foi a sua mulher quem lhe chamou a atenção para o facto de que não haveria dinheiro que comprasse o original e o futuro Comendador decidiu ali mesmo que a aquisição de obras de arte verdadeiras seria parte do seu futuro (parte do seu presente), numa manifestação ligeira de uma variante da Síndrome de Stendhal. Não lhe deu para destruir obras de arte mas sim para as amontoar, aparentemente para se vingar da sua própria ingenuidade, agora largamente ultrapassada. Ainda bem que o homem adoeceu assim. Hoje podemos admirar o resultado da sua doença para nosso proveito próprio.

Voltando ao caso da turista russa que atirou chá à Gioconda, penso que todos nós devemos alguma solidariedade à senhora. Não é fácil visitar o Museu do Louvre sem ficar profundamente impressionado pela enormidade monstruosa das suas colecções. Visitei esse monstro cultural aqui há uns anos. No primeiro dia vagueei pelas suas salas e corredores durante 9 longas horas. E saí com a sensação de que tinha perdido imensa informação importante. Dois dias depois voltei ao ataque. Desta vez aguentei apenas 7 horas (uma pessoa tem limites!) e senti uma revolta profunda. Não sei se fruto do cansaço ou se acometido de um ataque da Síndrome de Stendhal, dei por mim a maldizer aquilo. Aquele lugar é um caixão de civilizações. Frisos de templos gregos enfiados em pátios interiores em camadas sucessivas, atarracados e descontextualizados; estátuas clássicas arrumadas em salões imensos, como se fossem florestas de mármore ou carcaças de animais penduradas num matadouro; corredores atravancados das mais extraordinárias pinturas de todas as épocas, nomeadamente dos mestres italianos do Renascimento; salas e salas com vitrinas repletas de pequenos objectos saqueados nos mais variados pontos do globo terrestre... um mundo sem fim enfiado num lugar vagamente finito, num quase insulto à Humanidade. Foi o que senti.

É evidente que me emocionei até às lágrimas perante diferentes objectos, que me perdi do meu corpo em mais do que uma situação, tive revelações espantosas que me deixaram em êxtase religioso mas, quando saí daquele lugar infernal, estava profundamente indignado. Nenhum povo tem o direito de se apropriar assim dos tesouros dos outros povos e fazer disso bandeira de grandeza.

A turista russa podia ter bebido o seu chá, muito simplesmente. Mas compreendo que se tenha privado desse prazer na tentativa de fazer justiça pelas suas próprias mãos.

9 comentários:

Beto Canales disse...

excelente texto.

Eduardo P.L disse...

Se não foi um ato inteligente da turista russa, deu uma boa crônica.

Silvares disse...

Beto, Eduardo, grato pelos comentários.

peri s.c. disse...

Overdose, mesmo de artes, não é o mais audável.
Se eu fosse o dono do Louvre, faria vários Louvres ( temáticos ? ).

Não tive o prazer de conhecer, mas tenho certeza, mesmo à distância que teria a mesma sensação de saque, pior ... "civilizatório".
Já tive esta sensação lá no Museu Vaticano.

Selena Sartorelo disse...

Olá Silvares...Leio teu texto num tom de crônica e tentarei dar a esse comentário o mesmo tom.

Acredito que essa síndrome seja avassaladoura para pessoas apaixonadas não sei se era o caso dessa mulher...mas enfim isso é uma outra história.

Há poucos anos atrás em Haia na Holanda, foram roubada diversas jóias da coroa Portuguesa juntamente com peças valiosas de outros paises, um prejuízo estimado em 6 milhões de euros se não me falhe a memória. Até hoje não sabem seu paradeiro...Porém o governo português recebeu, pelo que dizem os jornais uma quantia satisfatória da companhia de seguros e dizem que parte foi usada para pagar dividas de algumas obras públicas e sanar outras dividas do governo...Isso aqui no meu país é muito comum e quando sabemos continuamos sem nada fazer. Há proposito dizem que esse ouro usado nas jóias portuguesas era também brasileiro...bem como muitas pedras preciosas. Quem sabe algumas gerações futura não veja essas jóias num museu brasileiro ou mesmo Português. Seria histórico.

"Nenhum povo tem o direito de se apropriar assim dos tesouros dos outros povos e fazer disso bandeira de grandeza" disse você
"a minha pátria é a língua portuguesa" disse Pessoa. É a nossa pátria, diremos nós.

jw disse...

é o demais, o amontoar, o desindividualizer quer da obra de arte, quer de quem a recebe. fica-se numa espécie de ikea da arte. acho que é isto que torna violento. ou triste. por alem de que museus, eliminando a fragilidade, a hipotese de desaparecer, eliminam uma parte da beleza.

Anónimo disse...

quem tem o poder de compra, dá o lance, leva e faz das suas. Adorei o texto, reflexão danada de bão.
abs
madoka

Quase Blog da Li disse...

100 Cabeças
Minha primeira vez aqui
(via "comentários que são posts").
...
Sem cabeças.
Perdi a minha aqui
vou procurar.
Tenho muito onde procurar
(ainda bem!)
e leva tempo.

Quanto a russa, quando ouvi a notícia na tv pensei: a mulher perdeu a cabeça...

Silvares disse...

Peri, aquele museu dava mesmo muitos museus... dos grandes. A Europa tem uma concentração de objectos de arte muito densa. Paris, Londres, Berlim, Madrid... Lisboa (Roma não visitei ainda!) as capitais dos velhos impérios estão cheias de coisas que, aparentemente, não lhes pertencem.
:-(

Selena, a língua portuguesa é um mundo à parte, que é nosso. Quanto ao roubo das jóias e a aplicação dos fundos do seguro, bom, a pobreza actual da República Portuguesa obriga a muitas habilidades que nem sempre são do nosso agrado. Mas, enfim...

JW, assimé. AA acumulação de sinais frequentemente retira clareza e visibilidade. A beleza passa a ser acidental. Ela pode tropeçar em nós 8ou nós nela). Ou então não!
:-)

Madoka, isso acontece quando há leilão. Napoleão, por exemplo, não comprou nada. Olha o Obelisco que está no topo do Jardim das Tulherias (como se chama a praça?), foi retirado de um templo egípcio e, ainda hoje, lá está o lugar vazio. Em Paris está no centro de uma rotunda cheia de automóveis...

Li, aqui as cabeças voam e, por vezes, não encontram lugar para aterrar. Acontece muitas vezes com a minha. Seja benvinda!
:-D