segunda-feira, agosto 03, 2009

Gulodice tropical


Acabei de ler Barroco Tropical de José Eduardo Agualusa. Tinha começado a leitura no fim-de-semana anterior e interrompi-a. Neste fim-de-semana regressei ao ponto em que havia suspendido a leitura . Este regresso deixou-me um pouco confuso devido ao tempo que, entretanto, se tinha entrometido entre mim e as aventuras de Bartolomeu Falacato, personagem mais ou menos central da narrativa. Assim sendo resolvi voltar atrás, ao início. A releitura das primeiras 80 páginas revelou-se um exercício de puro prazer (para os curiosos que pretendam ler o 1º capítulo clicar aqui, entrada para a revista LER). Quantos livros eu devia reler na busca de experiências como esta? Mas, se não lesse novos livros, como haveria de saber que releituras fazer? Este dilema deixa-me frequentemente indeciso. Por vezes compro livros que já li e coloco-os na prateleira depois das primeiras páginas com a firme convicção que será aquela a próxima leitura a fazer. Entretanto começo um livro que nunca li e esqueço aquele. Uma confusão mais ou menos nada confusa mas capaz de me fazer rodopiar que nem uma folha batida pelo vento dos dias que se atrasam caindo do calendário.

Este foi o meu 3º livro de Agualusa. Depois de Nação Crioula e O Vendedor de Passados, Barroco Tropical mantém-me curioso e com vontade de ler mais livros deste artista. Não falta por onde escolher, há 18 títulos disponíveis.

Em Agualusa gosto das histórias que vêm sempre dentro da história que ele conta, como bonecas russas (esta imagem serve para tudo!). Segui com interesse grande parte das crónicas que ele publicou na revista dominical do Público ao longo de alguns anos (quantos anos?) graças à extraordinária inventividade da sua escrita. Com ele o Português sabe umas vezes bem e outras vezes sabe melhor ainda. Confesso que o leio por pura gulodice.

5 comentários:

Eduardo P.L disse...

Taí, nunca li. Vou faze-lo um dia! Tenho esse péssimo habito de comprar por TOTAL engano, livros já lidos! Mudam as capas, e eu embarco. Na primeira página me dou conta de que já li. Mas é tarde para devolver! E vai para a estante semi virgem!
Mas este seu autor esta anotado!

Silvares disse...

Eduardo, segundo li algures, Caetano Veloso ficou particularmente entusiasmado com o romance de Agualusa "O ano em que Zumbi tomou o Rio". Agualusa vive entre Portugal, Angola e... o Brasil, claro está! Olha aqui uma "biópsia":

José Eduardo Agualusa (13/12/1960) é natural de Huambo, Angola. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa, Portugal. Sua família é portuguesa pelo lado paterno e brasileira pelo lado materno. Casado, pai de dois filhos, seus livros são sucesso de vendas na língua de origem e são traduzidos em diversos idiomas. É jornalista e divide seu tempo entre Luanda, Lisboa e viagens ao Brasil. Seu romance, "O vendedor de passados", foi agraciado com o Prêmio de Ficção Estrangeira concedido anualmente pelo jornal inglês "The Independent", em 2007.


Tá a ver que é um gajo com nome atirado prás estrelas!
:-)

Ví Leardi disse...

O Jogo do Anjo,foi devorado... já tenho vontade de reler...um destes livros que precisam de mais do que uma leitura. Agora vamos a este ou a um dos outros do mesmo autor,depende do que encontrarei por aqui.Suas dicas são sempre preciosas!
;-)

Silvares disse...

Ví, Eduardo Agualusa tem vindo a crescer em termos de aceitação crítica e do público. Pessoalmente gostei bastante mais de "O Vendedor de Passados" que deste "Barroco Tropical". Agora vou procurar "O Ano em que Zumbi tomou o Rio". Entretanto tenho outras leituras agendadas. Tempo de férias é mesmo bom para ler...

Rui Sousa disse...

Em relação aos livros e aos escritores estou a começar a desenvolver um princípio de teoria. Dá-me a sensação que um escritor não aguenta em toda uma vida dedicada à escrita muito mais que dois, no máximo três livros de excepção ( isto falando dos escritores ditos bons, claro está ). Esta teoria tem sido gradualmente confirmada por mim ao longo dos anos mas não consigo ainda explicar bem qual a ordem dos factores que me leva a esta conclusão. Em relação à música, ao cinema, artes plásticas, não só é possível, como é desejável para a consagração do autor ter uma obra cheia, no geral. Creio que nenhum artista destas áreas consegue a consagração por ter meia dúzia de coisas geniais e uma grande maioria de coisas banais/ medianas ou mesmo até medíocres. É a regularidade que lhe confere credibilidade, creio eu. Em relação aos escritores é diferente, a história está cheia de escritores que atingiram a genialidade apenas numa ou em duas obras, mesmo quando escreveram dezenas, e isso valeu-lhes o céu. Em primeiro lugar creio que escrever um bom romance ( porque é deste género que o post se refere ) é um trabalho gigante e exaustivo na solidão de quem o produz ( sem comparação possível com as outras áreas ) e isso deve consumir muita da energia criativa do escritor, depois porque o tempo de consumo de um livro ( que varia de leitor para leitor ) é também incomparavelmente maior que o que é necessário para qualquer uma das outras áreas referidas, o que também provoca um “desgaste emocional” maior no receptor. Um filme, uma música ou uma pintura pode permanecer eternamente na nossa vida, mas o tempo de choque ou de contacto é rápido. Com o livro é diferente. Uma leitura pode arrastar-se no tempo e com isso o enamoramento/ relacionamento também se arrasta, logo o desgaste é maior, logo a fasquia fica mais elevada e a exigência aumenta. No próximo livro, do mesmo autor, vamos ser implacáveis com aquela terrível sensação de déjá vue e no final não perdoamos o autor. Depois há outra coisa, um livro não se volta a ler com a mesma facilidade que se volta a ouvir uma musica ou a ver um quadro e por isso a leitura de um livro está mais ligada à circunstância em que foi consumida a obra dos que as obras de outras artes. É muito provável que aquilo que nos fez gostar de um livro lido na juventude, tenha sido apenas a circunstância, não a obra ( quem é que nunca se desiludiu com uma releitura? Eu tenho pavor de releituras ).
Vem isto a propósito do Barroco Tropical. O primeiro livro que li do Agualusa foi a Estação das Chuvas e adorei, depois li o Nação Crioula e continuei enamorado, depois li Um Estranho em Goa e também gostei, mas aqui suspeito que tenham sido das circunstâncias e por isso segundo a lógica da minha teoria deve-me estar a bater à porta, a qualquer momento, a desilusão. Afinal de contas tudo isto para dizer que tem sido essa uma das razões pela qual eu ando a resistir a esse livro,…até quando ? ( a outra é a quantidade enorme de outros autores de quem ainda não li nada e quero ler )…..enfim é apenas uma teoria…..não mais do isso.