quarta-feira, abril 30, 2008

Duas coisas completamente diferentes

É assim mesmo, após uma ausência longa, o 100 Cabeças regressa para dar notícia de uma perplexidade. Recentemente assisti a dois concertos (em cima imagem dos bilhetes que será analisada lá mais para o fim do post).

Primeiro o de Nick Cave, no Coliseu de Lisboa. As expectativas num concerto deste matreco são sempre elevadas. Antes deste já tinha assistido a vários espectáculos do velho Nick mais os seus Bad Seeds. As memórias eram boas. Intensidade, dinamismo, rock'n'roll. Esperava mais do mesmo. Só isso.

A sala estava a abarrotar de um público rendido à partida, entusiasta, como de costume. Nick Cave tem em Portugal uma legião de adeptos fiéis e conhecedores nos quais me incluo. Mais ou menos. Mas o que eu vi e ouvi não foi aquilo que esperava. Vi um Nick Cave algo enfadado (talvez seja a idade a pregar partidas, a dele e aminha, não sei bem) e ouvi uma banda desacertada, amorfa, a cumprir a função sem ponta de entusiasmo. Uma espécie de coisa inevitável. Nós compramos bilhete, eles tocam e pronto. Está feito. É negócio, como dizia Frank Zappa no título de um dos seus numerosos álbuns de originais.

Saí igualzinho ao que tinha entrado. Nem sequer posso dizer que fiquei desiludido.


5 dias mais tarde fui ao Grande Auditório do CCB para ver e ouvir Meredith Monk uma senhora com 65 anos que faz música muito estranha. As minhas expectativas eram pouco elevadas. Esperava passar um bom bocado mas imaginava um bocejo aqui, uma pálpebra mais pesadota ali, enfim, fui mais pela companhia, tempo e espaço, menos pela hipótese musical.

Mas, surpresa das surpresas, a coisa funcionou em pleno. O concerto foi estranhamente agradável. Pela diferença, pelo inesperado, pelo resultado estonteante que Meredith Monk consegue obter aplicando processos criativos de uma simplicidade desarmante. Beleza pura como só a beleza pode ser.

Em tempos de empacotamento global com rótulo digital, os bilhetes dos dois concertos (imagem acima) são iguais como duas folhas da mesma árvore. Os espectáculos com eles relacionados não podiam ser mais diversos. Aqui há uns anos, os bilhetes dos concertos eram "personalizados" ao ponto de serem guardados com algum prazer de coleccionador (ainda tenho alguns por aí esquecidos). Os bilhetes diziam qualquer do artista e da sua performance. Hoje sai tudo da mesma maquineta. Sinal dos tempos.

Outra coisa que me ficou destes dois bilhetes tão parecidos foi perceber (mais uma vez, andava meio esquecido) como o preconceito em questões relacionadas com a arte pode deixar-nos longe de objectos excelentes e levar-nos para perto de outros bem mais modestos na sua essência mas cuja aparência nos atrai como borboletas para a luz de uma vela.
Perigoso!

7 comentários:

Jo-zéi F. disse...

Rui: agora percebo a razão da tua ausência. Coisas para outrros sentidos...rock&roll, o concerto pelo que li parece que foi "fracote", e mais sons eruditos(?).
Muito Bem!

Silvares disse...

Realmente tenho andado a passear pelo mundo real... e vou continuar. Mas a verdade é que o teclado do computador cada vez mais me parece demasiado negro. Os pincéis estão mais atractivos, não sei bem... abraço.

jo-zéi disse...

quanto aos pincéis estou de acordo. E os posts na MUMIA fruto dessas pinceladas?? A T Ã O !!!

Silvares disse...

Falaste, lá está novo post! :-)

MoiMêMê disse...

Eu sei, porque é que o Nick ficou assim, amorfo... é do bigode... não sei que espécie de revivalismo é este que faz os homens pensarem que um bigode é uma coisa gira... depois dá nisto...
E os bilhetes é uma verdade, são todos iguais... é uma pena, mas ainda há algumas excepções, os do Cirque Du Soleil, os meus que de tão diferentes até pensei que tinha de os ir trocar por uns iguais... mas não

Silvares disse...

Coisas finas, miga, coisas finas... mas olha que o espectáculo que fui ver com afamília ao Pavilhão Atlântico foi uma cena assim a dar para o faz favor. Já sei que esse aí é coisa de outro planeta. Tá-se bem. Quanto ao bigode, convém que venha acompanhado, pelo menos, de uma barbichazita... eheheh.

jo-zéi disse...

A barbicha tipo chibo, não?