quarta-feira, outubro 18, 2006

Tempos difíceis


A ocupação do Rivoli e a análise da fatiazinha do Orçamento de Estado para 2007 destinada ao Ministério da Cultura mostram como o problema já não se reduz à proverbial saloiice dos dirigentes do PSD no que diz respeito à política cultural. A coisa propaga-se como nódoa de azeite em camisinha de veludo.

O ex-vereador da cultura da CM do Porto disse, após se ter afastado do cargo, que Rui Rio confunde cultura com lazer. Se fosse só ele estaríamos nós menos mal mas o problema vai mais fundo, até às entranhas da geração que actualmente desempenha os cargos de poder no nosso país.
Educados na penumbra fedorenta do salazarismo, os nossos governantes continuam a emprenhar pelos olhos com uma facilidade apenas comparável à alegria que os inunda sempre que inauguram um novo centro comercial, maior que o anterior e normalmente o maior da Europa. Aos fins de semana as famílias vão passear-se nesses edifícios grandiosos admirando as montras e os bens de consumo, como se estivessem num museu, numa qualquer catedral de cultura, enriquecendo deste modo o seu espírito, moldando assim a sua visão do mundo circundante.
Muito se tem falado nos últimos tempos do endividamento das famílias portuguesas. Com os seus hábitos "culturais" não é de admirar que isso aconteça. Tantos fins de semana a cobiçar as obras de arte expostas nas montras da Zara e da Singer enquanto ruminam um Big Mac e respectiva Coca-Cola só pode dar exactamente naquilo que dá.
Outro problema é que, além da atávica falta de hábitos culturais, somos um povo falido. Quem não tem dinheiro não tem vícios, não há papel, não há palhaços e por aí fora. Se a maioria dos portuugeses mal tem dinheiro para comer como haverá de comprar livros, assitir a espectáculos de teatro, concertos, etc. Como irá pagar a entrada nos museus (sim, porque museus à borla só aos Domingos e até às 2 da tarde que depois do cozido já não há mais pão pra malucos!) ou, muito simplesmente, comprar um jornal diário?
Sobra a TV e pouco mais. O êxito das novelas é tal que, penso, revela bem a avidez cultural de um povo semi analfabeto. O povo gosta de rir e de grandes estrondos que lhe façam saltar a tampa de espanto. Gosta de festa e de excesso não está cá para se perder em discussões bizantinas sobre a questão da luz na pintura impressionista ou a representação do poder na arquitectura do Estado Novo.
A arte é e sempre foi elitista porque os pobres não têm nem tempo nem dinheiro para investir nela. São os ricos quem investe nas formas artísticas logo é natural que elas representem preferencialmente um universo de elites. Sejam essas elites culturais ou financeiras, a história da arte revela-nos a realidade com uma nitidez impressionante. Entramos num ciclo vicioso ao qual não se adivinha porta de saída.
Os ocupantes do Rivoli são uma face emotiva da sensação de que as coisas estão a piorar no campo da cultura. São a expressão de um sintoma que se acentua com um governo socialista ao contrário do que foi prometido e do que seria de esperar. Mas a Economia é a nova expressão artística dominante e o seu discurso não se compadece com sensibilidade estética e, muito menos, com ética.

2 comentários:

alice disse...

é deprimente,, nem sei o que comentar, parece que temos 1 milhão de pessoas no limiar da pobreza, ou seja POBRES com fome, doença e filhos, muitos...
só nos restam as galerias gratuitas e que no entanto estão ás moscas...qualquer blog tem mais visitantes por dia do que as galerias...

merdinhas disse...

É muito fácil transferir a responsabilidade de fomentar a produção cultural para a iniciativa privada...assim se escamoteia a omissão dos orgãos públicos...