domingo, outubro 22, 2006

Little Miss Sunshine

Não interessa de onde vens nem para onde vais, o que interessa é o que te acontece no caminho.

Mais um caso de título impossível. Little Miss Sunshine no original dá, em português, "Uma família à beira de um ataque de nervos". Admito que não desse para fazer uma tradução literal. Miss Little Sunshine é, tanto quanto percebi, a designação de um concurso de beleza infantil, daqueles que são promovidos nos States o que por aquelas bandas terá outro impacto nos espectadores. Mas colar o título deste filme a uma expressão que se vulgarizou entre nós graças a um outro, de Pedro Almodóvar, é, no mínimo, lamentável até porque os filmes não têm nada comum.

Este Miss Little Sunshine vê-se com interesse do primeiro ao último plano. É um daqueles filmes americanos que nem parecem sê-lo (estou a lembrar-me do recente "A lula e a baleia", um título decente e literal). Poucos meios de produção, um conjunto de actores perfeito para os papéis, um argumento bem recortado e uma realização esmerada, onde mesmo os planos mais inocentes parecem ter sido estudados com a minúcia de uma pintura neoclássica. A montagem refina a qualidade potencial das filmagens e o resultado, apesar de um ou outro momento mais redundante, acaba por ser mais do que satisfatório.

O tema da viagem, tão recorrente desde, pelo menos,a Odisseia(:-), é mais uma vez revisitado. Não será aquilo que se chama ou road-movie (tanto quanto me parece) mas a ideia de que as viagens nos modificam, que interessa mais aquilo que nos acontece entre o ponto de partida e o de chegada mais do que outra coisa qualquer, fica claramente expressa na redenção final das personagens sobreviventes.

Para o espectador europeu fica também aquele travozinho adocicado de compreender que uma certa visão dos EUA e dos seus habitantes não é sinónimo de anti-americanismo primário mas apenas uma visão possível, colocando o cérebro numa determinada perspectiva. As cenas finais, rodadas durante o tal concurso, são bem significativas.

Um filme a ver sem sombra para qualquer dúvida.

1 comentário:

Filipa D. disse...

Realmente, com essa tradução nem apetece ver, fica desinteressante. Mas o que vale é que certas alminhas minimamente informadas acerca dos parâmetros do cinema indie reconhecem a qualidade de um filme sem ligar ao título adaptado.
Fui vê-lo a semana passada e adorei a abordagem a um assunto já tão remexido como a típica família disfuncional reunida para algo que mudará as suas vidas. Neste caso, a tão improvável participação de uma míuda sonhadora, hiperactiva e porreira que usa óculos fundo de garrafa numa competição de beleza infantil, um "freak show" de Barbies Shelleys, melhor dizendo, que leva esta família à beira do tal estado de nervos pouco sugestivo. Tá muito fixe o filme, as interpretações tão excelentes e a caracterização das personagens é sublime...adoro a expressão vazia e inanimada do puto niilista!