A vida das personagens que habitam um filme, tomemos Blade Runner como exemplo, é uma metáfora da rotina total e absoluta. São vidas suspensas que se animam de cada vez que um espectador entra em contacto com elas. E repetem exactamente a mesma sequência de acontecimentos, no tempo exacto que tinham durado na anterior ocasião em que tudo aquilo voltou a acontecer.
Por muito extraordinária que tenha sido e continue a ser a vida de Roy Batty, ela repete-se sempre da mesma forma, sob a mesma luz, as mesmas frases grandiosas, o mesmo final melancólico. Entretanto Rutger Hauer faleceu mas Batty perdura. A personagem é aparentemente imortal.
Blade Runner é uma rotina extraordinária. Uma narrativa é sempre uma suspensão à espera de uma alma que a contacte e reponha em movimento, todas as personagens são fantasmas, todos os espectadores (ou leitores, ou ouvintes, seja lá qual for o processo que permita o contacto entre alguém e alguma coisa) são animadores de coisas que hibernam.
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