quinta-feira, março 18, 2010

Sangue


Os vampiros estão na moda. Séries de televisão, filmes, livros, artigos, revistas, o mundo parece enternecido com as intermináveis variações a partir da figura do conde Drácula. Não tarda haverá vampiros em peluche para ajudar a adormecer criancinhas, embaladas por sonhos arrepiantes de seres sobrenaturais com dentinhos proeminentes.

A apropriação do monstruoso vampiro pelos exploradores do universo adolescente parece-me abusiva. O monstro perde em carisma o que ganha em vulgaridade e falta de espessura. A figura hiper-romântica do Drácula de Bram Stroker, aquele que morre na contemplação da mulher amada, adaptado às sagas novelescas para consumo das massas acaba coberta de ridículo e presta-se a variações verdadeiramente apalhaçadas. O vampiro perde a aura de ser extraordinário e único para se transformar numa personagem digna daqueles filmes impossíveis com o Elvis Presley a protagonizar jovens palonços por quem todas as rapariguinhas desfalecem.

Esta vaga sangrenta que tem coberto os mass media de subprodutos intragáveis guardava um desenvolvimento inesperado,este no palco do mundo real. As recentes manifestações de rua em Banguecoque, capital da exótica Tailândia, arrasaram de vez o imaginário popular, deixando os vampiros de ficção em muito maus lençóis. Os manifestantes oferecem aos repórteres de imagem de todo o mundo um autêntico festim macabro quando recolhem e derramam nas ruas centenas de litros de sangue humano em sinal de protesto contra os governantes locais.

É uma espécie de auto-vampirismo contestatário e sacrificial carregado de um simbolismo abstruso que, decerto, é lido de forma diferente conforme o país ou o continente onde as imagens são mostradas.

Retiradas do contexto tailandês, as imagens ganham outras dimensões quando lidas na Europa urbana ou na China rural. Um habitante da Amazónia decerto verá naqueles rios de sangue um augúrio diferente do que um camponês das estepes russas. O espectáculo do sangue a correr nas ruas asfaltadas de Banguecoque é uma coisa estranha que merecia um estudozinho iconológico sobre o impacto das imagens televisivas no mundo globalizado.

Os vampiros reais, aqueles que vivem dissimulados entre nós, decerto ficam a salivar perante tamanho desperdício.

3 comentários:

Caçador disse...

Tendes toda a razão meu senhor. Desde a mais tenra adolescência que sou um aficionado por esses seres da noite, esses lívidos não-mortos que me(nos) povoam o imaginário. Heróis não-vivos de celulóide, que eu visitava há longos anos, na noite cálida da minha, então, vila alentejana. E depois, o regresso a casa, rápido e um pouco nervoso, pelas ruas empedradas, um olhar de relance por cima do ombro, não se vá materializar de repente, vindo da névoa ou de um morcego - e havia tantos no verão - a figura imortal do grande Christopher Lee.

Daí para cá, nunca mais resisti ao convite de visitar esses senhores da noite, do mesmo modo que eles não resistem a uma jugular palpitante num alvo pescoço perfumado. E alguns encontros foram magníficos, lembro os 2 Nosferatus que só vi mais tarde (tal como Bélla Lugosi)ou o do grande Coppola ou aquele dinamarquês mais recente.

Por isso, tal como vós, meu senhor, só tenho a lamentar tão prolífica quanto indigna multiplicação. Um horror sem precedentes. Uma ignomínia.



Essa coisa da Tailândia, que eu não sabia e já fui ver, é particularmente interessante "tiram-nos tudo, levem-nos também o sangue". A mais terrível metáfora, ou não-metáfora, destes tempos. Talvez, o gesto mais profundamente marcante e genuinamente original no início deste século. Sei lá... veremos.

expressodalinha disse...

E vai haver mais...

Silvares disse...

Caçador, depois de ver o Nosferatu de Murnau um gajo fica a pensar em cinema de uma maneira diferente. Mas, depois de ver morrer o vampiro nesse filme, não é só a nossa perspectiva cinematográfica que muda. Parece que, no tempo em que os filmes não falavam, o cinema era feito a partir de substâncias diferentes... quanto ao sangue nas ruas também não sei se entrará directo para os livros de História ou se fica de fora.

Jorge, o mundo precisa de monstros como nós de pão para a boca.

Jorge,