terça-feira, junho 02, 2009

Adultescência


A adolescência é uma coisa maravilhosa!

Ter filhos adolescentes ou contactar com dezenas deles todos os dias, são exercícios que testam com rigor científico a nossa sanidade mental. Estas ex-crianças são, ainda, projectos de adultos e funcionam como espelhos para os mais velhos. Mas são espelhos especiais, mais da família do espelho da bruxa má da Branca de Neve que dos espelhos banais que nos esperam na parede do quarto-de-banho para nos convencerem de que somos aquilo que eles nos mostram.

Um adolescente serve para um adulto compreender que, afinal, ser adulto não é nada de extraordinário. Na verdade, mesmo em adultos, não somos mais que adolescentes com rugas e cabelos brancos. Nós sabemos isso mas os adolescentes estão convencidos de que somos muito diferentes deles e, por isso, incapazes de os compreendermos com um mínimo de justiça. Há também alguns adultos que não compreendem a sua condição de eternos adolescentes o que os torna amargos e irascíveis. Este estado tristonho acontece mais aos adultos que vivem afastados de adolescentes. Afastados em termos físicos ou psíquicos o que, para o caso, é mais ou menos a mesma coisa.

Os adolescentes esperam que os adultos sejam uns autênticos chatos, o que acontece montes de vezes, e os adultos esperam que os adolescentes se comportem como vulcõezinhos de sentimentos contraditórios, o que é perfeitamente normal.

Lá no fundo, bem no fundinho de nós, sabemos perfeitamente que as diferenças não são assim tão grandes. Pronto, está bem, eu sei que a maioria dos adultos tem responsabilidades acrescidas. Um adulto trabalha, ganha dinheiro para manter os adolescentes na sua qualidade de adolescentes por mais tempo e alimentar a sua ilusória sensação de ser adulto. Mas um adolescente também é perfeitamente capaz de manter um emprego (há milhões de adolescentes que trabalham) sem que isso o transforme automaticamente num adulto. E porquê? Porque não nos podemos transformar naquilo que já somos.

Hoje sinto-me adulto, o que quer dizer que me sinto um adolescente. Com rugas e cabelos brancos. Na verdade sinto-me um "adultescente".

18 comentários:

Eduardo P.L disse...

Discordo, Silvares, finalmente.....
Os adolecêntes é que são uns chatos! srsrs

Lina Faria disse...

Delicia de texto. Ser adulto não é mesmo grande coisa. hehehe

Selena Sartorelo disse...

Pois eu precisei chegar na adultênscencia pra descobrir a maravilha que é ser um adolescente adulto.
Tenho filhos maravilhos e meu filho de 11 anos esses dias entre muitas disse que não se considerava um adolescente ainda, mas sim uma criança madura...e dias depois me perguntou porque que adolescente é tão perturbado...mal sabe ele!

Silvares disse...

Eduardo, muitas vezes eles apenas se precipitam nos julgamentos que fazem do mundo que os rodeia. Só precisam de treinar mais um pouquinho até chegarem a pensar como... adultos!
ahahahah, a vida é tramada!
:-)

Lina, aer adulto é muito parecido com não o ser.

Selena, "uma criança madura" é muito bem visto. Talvez um adulto seja isso, um adolescente maduro. É preciso tomar atenção e não deixar apodrecer o adolescente que trazemos dentro de nós!

Silvares disse...

Lina, queria dizer "ser adulto é muito parecido com não o ser"
:-)

Tiago Alves disse...

quando era mais novo olhava para os mais velhos, na esperança de um dia vir a ser como eles. queria saber como era pensar com mais anos em cima.
hoje, continuo a querer o mesmo, pois não acho que tenha mudado grande coisa.

lá está, provavelmente alterei as minhas prioridades, passei a valorizar mais certas coisas em deterimento doutras.

podemos mudar por fora, dando a impressão que também mudamos por dentro, mas lá bem no fundo, quero e que me deixem em paz enquanto brinco no quarto.

Abraço

entremares disse...

Isto faz-me recordar aquela sensação de irritação que sempre experimento quando vejo aqueles cartões a dizer "para jovens até aos 26 anos" ou "campanha da juventude,tudo menos trintões".
Aí, o caldo fica logo derramado.

Para que saibam, sou um adolescente. Um dolescente de 47 anos. Para mim, só se chega a adulto aos 48.
É claro que disse a mesma coisa o ano passado, só os números eram levemente diferentes.

Fora a ironia, acredito que a grande diferença entre os adolescentes e os adultos é precisamente... a ironia.

Ora vejam lá a coisa assim: Conseguem imaginar um adolescente a ironizar sobre si próprio, imaginando-se adulto ? Claro que não, ele pensa que nunca vai ser adulto.

Conseguem imaginar um adulto a ironizar sobre o que ele próprio era, quando adolescente ?

Claro que conseguem... não é isso que estamos neste momento a fazer ? ( eu a escrever, vocês a ler? )

expressodalinha disse...

Eu acho somos todos uns chatos. A chatice e a incompreensão fazem parte da nossa herança genética. O nosso território individualizado não gosta dos territórios dos outros.

peri s.c. disse...

Em meu corpinho de 57, que aparenta 56, ainda subsistem em perfeita harmonia uma cabecinha de uns 24/25 e algumas molecagens de 17/18. Ou vice-vice-versa conforme a hora, o dia, o mês, a companhia.
Somos umas deliciosas contradições ambulantes.

Beto Canales disse...

Excelente, Silvares

Abração

disse...

...acho que conscientes ou não somos todos adultescentes( adorei o termo)....agora chato mesmo é ser colocado em patamares...parece que tachados de 'membros da terceira idade'entra-se num limbo ...um limbo de invisibilidade e no entanto como tão bem diz o Peri, em um só dia..podemos ser....deliciosas contradições ambulantes.;-)

MarinaRuiz disse...

"os adolescentes estão convencidos de que somos muito diferentes deles e, por isso, incapazes de os compreendermos com um mínimo de justiça." Se assim não é, porque não o mostram? Como adolencente que sou, assisto a muita incompreensão por parte dos "grandalhões", pois quando tentamos mostrar a nossa indignação perante qualquer coisa, fazem-nos parecer ignorantes ou qualquer coisa como "eles sabem lá o que dizem com aquela idade." Apesar de tudo, acho que chegamos a uma altura que mesmo sendo adolescentes já começamos a perceber qualquer coisinha e começamos também a desenvolver um pouco mais afincadamente a nossa parte intelectual, como tal, por vezes penso que deviamos ser levados mais em conta. Às vezes não queremos apenas mandar disparates para ao ar, às vezes tem mesmo uma razão de ser. E na minha opinião, na maioria das vezes tiram-nos qualquer esperança de que nos compreendam. Eu mesma, às vezes sinto-me desmotivada pela diferença que fazem entre os assustadores adultos e nós. Desde que haja respeito, estamos todos no mesmo saco.

imelda disse...

Concordo, a adolescência é mágica, perturbadora, sonhadora, contraditória,lutadora, sábia, pueril... e tudo no mesmo dia.
Os adultos, espelhos benévolos, onde os adolescentes misturam imagens para serem adultos melhores, cada vez melhores.

Sejamos,então, adultecentes:
misturando as lembranças com os sonhos.
Sem a prudência egoista de quem nada arrisca.
Negando os velhos do restelo e acolhendo a "sabedoria" de um adolescente.
Sem querer levar os seus rios ao seu mar... e esperar( a roer as unhas,claro) para os ver voar.

Gostei de saber que sou adultescente.
Vivam os adultescentes

Jo-zéi F. disse...

Fez-me lembrar os desenhos do Robert CRumb.

- Nã dexam a malta em Paz!!!!!
- Pai dá-me $$$$$

:-))

Caçador disse...

Não concordo mesmo nada com o que tu dizes.
Um adolescente é um adolescente é um adolescente. E um adulto é um adulto, como eu. Pessoa séria, responsável, estruturada, segura, com cartão de eleitor e sem cartão jovem.
Os adolescentes são uns chatos e filhos adolescentes ainda pior, muito pior.
Mais valia ser-mos como as galinhas que mal saem do ovo se põe logo a esgravatar, e não cravam os pais.
E depois, as borbulhas, que horror. E é preciso mandá-los tomar banho senão esquecem-se. Um inferno.
E quando se juntam? Em bando são muito pior, hordas descontroladas...

Não têm graça nenhuma, não percebo qual é a tua!...

Conceição Duarte disse...

kakakakaka Você é um grande barato, e eu me divirto muito com você e seu modo de pensar, pois acredito e sinto você com um humor interessante, único e muito inteligente, observador. Isso me delicia, sabia?

Acabei de escrever para o Ferreira, um artigo que fala sobre a velhice, e venho aqui e vejo seu texto sobre a "adultenscência" adorei a palavra e peço licença para usar a partir de agora... ahahahahahahah

É complicado tudo isso, pois em um momento da vida, acredito que o seu o de agora, é aquele em que vc não é nem velho, nem moço...srsrsr Está em pleno vigor da vida, mas teve a bendita sorte se ter filhos, e se vê neles, afinal, foi outro dia que vc era igualzinho a eles...

No entanto, ja temos outras "responsas" e apesar de nossa cabeça, tronco e mebros, serem jovens ainda, as contas vêm no final do mês sem perdoar um tostão ... Além do que pensamos por dois, ou mais, depende do número de filhos que temos, pois nosso maior medo é perdê-los. Deus que nos livre deste terror.

Enfim, o lance, é que quando ficamos velhos, ja não prestamos para muita coisa, e precisamos enquanto jovens ainda, pensar nisso.

Difícil, não?

Kakakak nossa, que papo cabeça né?
Um super beijo e vou continuar minha dança pra meu marido, resolvi que agora vou infernizá-lo... Animei de vez! kakakakaka

bj CON

Silvares disse...

Tiago, o quarto vi-se alargando...

Entremares, podemos sempre tentar mostrar as maravilhas da ironia aos adolescentes com idade adolescente. Eles até compreendem, apesar de não acharem muita graça.

Jorge, a nossa genética não deve ser completamente parcial. Assim, se formos chatos (genéticamente) também devemos ser não(genéticamente)chatos. Seremos assim a dar para o rotundo.

Peri, somos tão contraditórios que chegamos a tirar a razão de ser ao conceito de contradição.

Beto, abração.

Ví, como não somos objectos inanimados não temos de ficar na prateleira. Se nos puserem numa, a gente vem embora. A menos que se sinta confortável lá em cima. Sossegadinho.

Marina, "os assustadores adultos"? Então...? O mais assustador deve ser o Angus Young quando aparece com aqueles cornichos na testa! Os adultos não metem medo a ninguém. Por vezes só são capazes de assustar a si próprios e é por isso que acabam a disparar em todas as direcções.

Imelda, é necessário manter o espírito adultescente.

Jo-Zéi, quando encontrei a imagem pensei que era um desenho dele (do Robbie Boy) mas estava assinado por outro matreco qualquer.

Caçador, se não te conhecesse diria que és um adolescente completo... com essa conversa...

Conceição, é isso mesmo. Os filhos são demais! Enquanto os ossos não me doerm quando acordo de manhã penso que me manterei adultescente (o ideal seria que nunca doessem!)
Use a palavra à sua vontade. Fico contente por poder oferecer palavras.
:-)

myra disse...

acho muito melhor ser velho, que adolescente e/ ou adulto!!!
gosto muito, muito de teu blog!!
e agradeço tuas palavras!
um beijo
myra