sexta-feira, maio 13, 2016

Magia

Tentar compreender o mundo que nos rodeia é tarefa impossível de concretizar. Sempre foi. Os grandes pensadores oferecem-nos lampejos clarividentes, iluminam por instantes o negrume universal.

Quando reflectimos sobre a imensidão percebemos que somos menos que um átomo no corpo frágil de uma formiga. Além disso, condenados que estamos à extinção, podemos sentir a angústia infinita de não sermos nada. Mas, no entanto, estamos aqui. Temos esta vida para viver e este universo para compreender.

É com estes pensamentos que entro no dia que se segue. Não posso dizer que esteja particularmente entusiasmado. Sei que, mais logo, terei esquecido esta deprimente reflexão. Quando der a primeira gargalhada do dia tudo se iluminará, como que por magia.

terça-feira, maio 10, 2016

Monstros

Perguntas:
- Quem nos protege dos monstros que assolam este mundo? Quem consegue impedir a brutalidade absoluta desses monstros? Quem tem força para derrotar os monstros?

Respostas:
- Outros monstros. Outros monstros. Outros monstros.


segunda-feira, maio 09, 2016

Vison

Um homem de cabeça branca passeia no palco com uma gola circular, reflectora, gola que lhe dá uma volta completa ao pescoço. A luz cai sobre a gola num gracioso ângulo de, mais ou menos, não sei  quantos graus e faz com que o homem, vestido de negro, se transforme numa cabeça planante (como a do Rei da Lua nas Aventuras do Barão Munchausen).

O homem sorri, arreganha os brancos lábios. Tem os dentes vermelhos. Acho que esteve a comer tomate. Molho de tomate. A beber sumo de tomate. O tomate é um estranho fruto.

Depois há aquele malabarista vestido com um fato de escamas de peixe que salta como um sapo ou como um coelho (não parece nada um canguru a saltar), que salta por ali e por acolá, que dá pinotes e pinotes, atirando objectos ao ar: um guarda-chuva, um telemóvel esperto, um tijolo cor de laranja e um ursinho de peluche ao qual está quase, quase, a saltar um dos olhos (que já é um botão de gabardina há bastante tempo).

Olha, agora é uma ave transparente que entra em cena. Tem rodinhas no lugar dos pés e rola sobre o palco com suavidade. A ave comeu uma rosa vermelha ao pequeno almoço, vê-se bem que foi isso o que comeu.

Mais atrás um casal flutua sobre o negrume do palco, equilibrando-se num esquife de metal. Uma das figuras encontra-se protegida por um pano azul que a cobre da cabeça aos pés (presumindo que tenha cabeça e que tenha pés).

Finalmente, um cavalo cujo corpo já é mais uma armadura que aquilo que deveria ser o corpo de um cavalo, passa em primeiro plano com um corneteiro incrustado no lombo, como um artilheiro enfiado na tampa aberta de um carro de combate.

sexta-feira, maio 06, 2016

Da vaidade

Folheio as páginas do suplemento cultural do "meu" jornal. Leio aqueles títulos em letras mais gordas que a vénus de Willendorf, frases magníficas, sugestões enigmáticas, descrições com elevado teor poético elogiam escritores, músicos e outros artistas, disparam-nos em direcção à categoria de pequenos deuses neste Olimpo de papel impresso. E sinto inveja, confesso que sinto inveja.

A inveja que arranha o interior do meu peito faz-me sentir que não sou digno daquele panteão da cultura. Um deus, mesmo um deus de papel impresso, decerto é superior a sentimento tão mesquinho, tão pequenino, tão provinciano, como esta inveja que aqui exponho. Inquieto-me, roo as unhas: não sou um artista? Sou um mero professorzeco, não sou um intelectual, sou um... nem sei o que sou.... um Joseph Merrick, na melhor das hipóteses.

Oh, como eu gostava de um dia ser página de suplemento cultural (página dupla levar-me-ia ao Paraíso!), como eu gostava de ver o meu nome elogiado por alguém com o dom da escrita e argúcia suficiente para ver nos meus trabalhos aquilo que nem eu serei capaz de perceber. Oh, como seria feliz se, por uma vez, pudesse despejar na gamela onde a minha vaidade chafurda e se alimenta substância suficiente que lhe saciasse a fomeca.

Foi em Narciso e Goldmund, de Herman Hesse, que li, há largos anos, uma frase que nunca esqueci (decerto a transformei, a memória é traiçoeira). Numa das conversas entre as personagens centrais deste romance, uma dizia à outra qualquer coisa como "a arte arrisca-se a ser apenas uma expressão de vaidade individual". Se não é isto, peço desculpas a Hesse, mas foi isto que me ficou gravado a ferro e fogo nos recessos do cérebro.

Hesse é bem capaz de ter ali fixado um ponto importante, digno de profunda reflexão.

quarta-feira, maio 04, 2016

Contrários

Não estar zangado não é o mesmo que estar feliz. Não estar morto não significa que se esteja vivo. O contrário do branco não é o preto. Nem o céu é o contrário da terra. O contrário de ser bom não é ser mau. O cão não é o contrário do gato. O contrário de contrário é, precisamente, o contrário.

Ok, estou a registar uma série de ideias controversas, parvoíces, admito. Acabo de escrever e fico imediatamente suspenso na dúvida.

Quero apenas notar que entre coisas aparentemente opostas existem outras, existem coisas intermédias. O contrário de alguma coisa pode ser mais ou menos evidente, mais ou menos vincado. O contrário de uma coisa pode ser apenas um bocadinho o seu contrário. O contrário absoluto não é mais que o extremo de uma escala.

Será? 

terça-feira, maio 03, 2016

Esfera

Podemos virar uma esfera ao contrário que ela não deixará de ser uma esfera. Podemos olhá-la de diferentes ângulos; parecer-nos-à idêntica. Será por isso que a esfera é considerada uma forma perfeita, por ser, aparentemente, incorruptível? 

sexta-feira, abril 29, 2016

Matina

                Matina
Temos necessidade de defender com unhas e dentes os nossos mais pequeninos. O papão multiplica-se, como hidra de corpos malévolos, leva-os o vento e os espalha pelos quatro cantos da realidade e da memória virtual. As crianças ficam melhor quando restam em casa, protegidas das bestas que por aí andam à solta, livres e alegremente largadas neste mundo e no outro; as bestas estão sempre prontas a fincar o dente em algum pedaço de carne mais tenrinha. São gulosas, as putas. As filhas-da-puta das bestas nunca ficam de barriga cheia: devoram tudo o que apanham a jeito e, pelo jeito que levam, logo digerem o que antes paparam e cagam de imediato o que ainda há pouco digeriram; vivem num estado de infinita caganeira, o que é incomodativo e contribui fortemente para as tornar ainda piores do que más. Assim cresce uma besta, filha e mãe do papão, e este mundo fica mais perigoso, mais parecido com o outro, o ar que respiramos acordados a misturar-se no que expiramos quando adormecidos e esquecidos das agruras da coisa. Os nossos pequeninos precisam de nós. Estejamos atentos.
                O menino deixava-se ir no colinho do pai que tinha cara de bruto e semblante sombrio, vincado de rugas ou simplesmente indisposto pelo facto de ser manhãzinha tão cedo. O sol, aquela hora, fazia ainda alguma falta. Mais tarde haveria de sobrar em calor e suor. A verdade é que nunca estamos satisfeitos com a meteorologia ou, então, precisamos apenas de um pretexto para não emudecermos quando encontramos outro ser vivo semelhante a nós e ficamos face a face, como o boi e o palácio. A mãe ia mais atrás, a fazer sons carinhosos e a dizer coisinhas fofas em direcção à cabecinha do menino que se encostava de forma comovente ao ombro bruto do pai com rugas e preocupação antecipada pelo suor que o sol haveria de multiplicar mais tarde, quando a manhã avançasse sobre as montanhas e o Monte Olimpo.
O pai do menino não dormira descansado. Talvez por isso levasse aquela cara de cú a postar bosta da grossa. Sonhara com o papão a fazer mal à criança. Um daqueles sonhos lixados nos quais sentimos tudo e não vemos quase nada. Um sonho daqueles onde os nossos medos são apenas sombras gelatinosas que teimam em não fazer sentido. A única imagem sólida fora a do filho a chorar, a berrar, a espernear, a gritar como um cabrito desmamado, o filho envolto em sombras, ameaçado por nuvens informes, como se aquele mundo fosse o interior de uma garrafa translúcida repleto de fumo soprado por um deus drogado com uma droga impossível de conceber por um simples mortal; e as drogas já são o que são!
 O homem despertara profundamente incomodado. Acordara antes que a ameaça se tivesse concretizado, sem perceber que ameaça era aquela, sem saber se preferia dormir ou mergulhar de novo na realidade; ele não se apercebia de que a sua dúvida era se ao acordar adormecia e ao adormecer acordava, ou talvez fosse o contrário e estivesse tudo de pernas para o ar. Estas coisas podem contribuir seriamente para a perda de juízo, caso não sejamos capazes de compreender que raio de dúvida nos mordisca a sanidade mental, como rato a roer pacientemente as folhas de uma enciclopédia, ao longo de anos. Tal como o rato não fica mais inteligente por comer páginas de conhecimento, também a loucura não fica igual a nós por nos devorar a imaginação e as ideias mas é assim que nós ficamos loucos. O homem acordou violentamente depositado na cama por uma onda de pesadelo monstruosa, o corpo torcido, encharcado em suor. Os lençóis empapados mostravam-lhe como tinha sido longa a árdua luta, Camões a salvar a sua obra, Ulisses amarrado ao mastro, exemplos pequeninos quando comparados com o que o homem havia acabado de viver no outro mundo.
O menino não parecia particularmente seguro de si. Talvez aquela expressão um tanto desligada, um pouquinho estúpida, até, talvez aquela fosse a cara de todos os dias do menino ou apenas a cara que o menino costumava ter pela manhãzinha, impossível afirmar o que quer que seja com segurança de doutor catedrático. A cabecinha encostada, as sobrancelhazinhas arqueadas, a boquinha húmida e um fiozinho de baba que continuava a ligar o menino ao sonho de que fora arrancado pela mão suave da mãe. O menino não tinha ainda desenvolvido percepção exacta (quem a desenvolveu?) que lhe permitisse distinguir este mundo do outro.
O pai abriu a porta do carro. A mãe fez mais uma festinha, repenicou outro beijinho. O menino a viajar na confusa sensação de que os monstros estão por todo o lado. Mais um abracinho, mais uma ternurice, “adeus meu tesouro, até mais logo”, os bracinhos esticados num gesto de desespero infantil. O beijo seco dos pais pôs fim ao momento que viviam, selado pelo bater da porta. O pai, ao volante, haveria de recordar uma última vez toda a confusão que enforma o mundo a que chamamos “realidade”. Arrancou a passo de caracol, levando o filho preso no banco de trás, para segurança geral. A mãe ficou em terra, a ver partir os seus amores, docemente enleada por um ser gigantesco que não via mas que sabia estar ali, com ela, a dizer adeus, a secar-lhe a garganta, tudo amalgamado, pernas, pelos, ossos, sangue, verdade e mentira feitas mundo, o mundo todo a que ela pertencia e continua a pertencer.

O carro desapareceu na curva. A mulher voltou para trás. O dia prosseguiu até agora.

quinta-feira, abril 28, 2016

Cansaço

Percorro o Facebook e leio mensagens que variam entre a lamechice mais enjoativa e a violência intelectual mais mesquinha. Sinto-me cansado. Precisava de algum conforto após um dia de trabalho cansativo mas não foi ali que o encontrei.

Pego num livro que estou quase a acabar de ler. Páro a duas páginas do fim. Sinto-me cansado, nem vontade tenho para chegar à última palavra daquelas quase duzentas páginas. O que se passa comigo?

Experimento o jornal... qual quê!

Tento imaginar algo para fazer e ponho-me a escrever estas linhas. Mas também a escrita me parece um peso insuportável.

...



domingo, abril 24, 2016

Hoje era Domingo

Comprei o jornal e um maço de tabaco. Paguei com o meu cartão de débito. Percorri os corredores do centro comercial até entrar na FNAC. Hoje era Domingo, dia de contar contos às crianças no palcozinho do bar. O bar repleto e barulhento (os alarmes estão sempre a apitar, estridentes como alfinetes a espetarem-se-nos no cérebro). As crianças, no palco, estão hipnotizadas, os pais, embevecidos, observam. Aquele lugar não é para mim.

Saio da FNAC e dirijo-me ao Starbuck’s. Um café e um muffin de mirtilo. Sento o cú numa poltrona confortável a abro o jornal. Hoje era Domingo. O Alentejo, a Uber, a nova temporada de A Guerra dos Tronos, vou lendo notícias e artigos até que um título capta a minha atenção: “A crise da água que está a ameaçar a Índia”. A descrição dos factos é aterradora. Crianças que morrem percorrendo territórios secos em busca de água. Populações inteiras que migram em busca de água; conflitos, refugiados…

Olho pela vitrina e vejo duas crianças a reclamar qualquer coisa. Caras feias, caras tristes, os pais, severos, esticam dedos, pregam moral. De súbito sou assaltado por uma sensação de incomodidade. Penso nas crianças do outro lado do vidro e tento imaginar as crianças que morrem na Índia, em busca de água.


Fecho o jornal, dobro-o e meto-o debaixo do braço. Saio dali meio perdido. Não me lembro bem o que ia a pensar quando entrei no meu carro e liguei a ignição. O mundo é tão grande e tão diverso… talvez não pensasse em nada. O que há para pensar?

quinta-feira, abril 21, 2016

Deus nada ex machina

Acabo de me aperceber que Deus, a existir, não deverá ter criado o Universo, em particular o nosso sistema solar. Isto porque, conforme a pregação, Deus terá criado a Terra para usufruto das suas criaturas, ou seja: nós.

Mas, sabemos agora, o Sol tem um período de vida limitado. O Sol vai morrer um dia e, com ele, toda a Criação.

Das duas uma: ou Deus estava distraído e não soube fazer as coisas, o que Lhe confere um estatuto nada condizente com a Sua suposta infalibilidade, ou então não passa de uma criação de mentes limitadas e ignorantes, como são as nossas.

Uma perspectiva mais melancólica poderá sugerir que Deus nos criou para O adorarmos sabendo de antemão que essa adoração tinha os dias contados. Oh Deus, que raio de coisas Te passam pela cabeça! És masoquista?

Os desígnios do Senhor são, de facto, tão insondáveis quanto a mente de uma minhoca.

segunda-feira, abril 18, 2016

Ser criativo

Há por aí quem se questione sobre os mecanismos da criatividade, como se pode enxotá-la lá do fundo do galinheiro das nossas ideias. Há quem acredite que ela pode sair a correr, agitando as asas com estardalhaço, fazendo saltar os incautos e os distraídos à sua desvairada passagem. Há por aí quem acredite que se pode forçar a criatividade.

Talvez seja possível fazê-lo, acredito nesse possibilidade, embora esteja convicto de que espevitar a criatividade individual tem de se fazer com jeitinho, assim como quem não quer a coisa.

Um dos maiores problemas prende-se com a maravilhosa variedade que caracteriza o Ser Humano. Aquilo que me estimula pode dar-te um sono dos diabos e vice-versa. Podes mesmo ser estimulado por um sono dos diabos (isso é bonito).

Pessoalmente, estou (quase) convencido de que a criatividade é um processo caótico e, como tal, é despoletada quando menos se espera, embora possamos criar condições favoráveis ao seu despertar a horas certas. Aquilo que funcionou hoje pode não resultar amanhã e a diferença entre um dia e o outro pode ser uma unha negra ou um alarme estridente que parou de guinchar num determinado momento. Um segundo antes ou um segundo depois e nada teria acontecido.

Perguntam-me como faço quando pretendo criar alguma cisa nova. Não faço, deixo acontecer. De vez em quando funciona.

quarta-feira, abril 13, 2016

3 dos meus heróis



Após concluir a montagem da exposição que vou inaugurar na próxima sexta-feira contemplei os trabalhos nas paredes da galeria e senti aquela coisa quentinha que nos é proporcionada pela sensação de um trabalho concluído.

Sentei-me um pouco a pensar naquilo que fiz e pude constatar a forte influência de 3 artistas do passado.

Por ordem cronológica: Hyeronimus Bosch, pela delirante imaginação que muito me sugestiona; Francisco de Goya y Lucientes, pela desenvoltura no tratamento dos materiais e pela forma profunda como olhou o ser humano; Max Ernst, o glorioso Dadamax, pela inventividade extraordinária nas propostas de tratamento dos materiaise nas técnicas que trouxe à luz do espírito.

Outros haverá que me guiam a mão e a mente quando trabalho mas estes 3 são, sem dúvida, os meus maiores heróis. Os meus 3 heróis.

segunda-feira, abril 11, 2016

Tempo morto

Acabo de chegar do aeroporto de Lisboa onde fui deixar a minha filha. São seis horas e onze minutos da manhã. Ela vai voar, eu estou sentado. Tenho duas horas até começar o meu dia de trabalho, duas horas entaladas entre ainda agora e mais daqui a nada.

A quebra das rotinas cria estes espaços indefinidos durante os quais podemos fazer o que quisermos e, na verdade, a vontade de fazer seja o que for não é lá muito grande. Sinto-me um pouco fora de mim, algo desorientado. A quebra das rotinas transforma-me em algo indefinido.

O dia vai ser longo. Além das aulas tenho duas exposições para montar. Serão longas horas de algum esforço físico e concentração em níveis máximos. Longas horas em que muitas coisas vão depender da minha capacidade de mobilizar e canalizar energias. No entanto... tenho este espaço de tempo vago, sereno; é a isto que se chama um tempo morto?

domingo, abril 10, 2016

Um Mundo Pior

Deus criou o nosso mundo. Perfeito, como é apanágio de Deus. Mas até mesmo Deus comete erros de cálculo como o que cometeu ao colocar no mundo a Humanidade.

Nós encarregamo-nos de fazer deste mundo um mundo cada vez pior. Ignoramos Deus (há quem acredite que Ele morreu embora outros pensem que se foi embora, apenas) destruímos com maior ou menor grau de consciência a Sua obra.

Da parte que me toca, penso que Deus não é tido nem achado nesta história. Inventámo-Lo muito mais do que Ele nos terá inventado a nós. Ignorá-Lo ou venerá-Lo não atrasa nem adianta o processo de destruição que encetámos há milénios.

A destruição da nossa própria espécie é o fim anunciado da narrativa Humana. Talvez porque temos consciência de que o Sol se haverá de extinguir e o suicídio será a melhor forma de pôr termo a esta merda.

Um Mundo Pior é uma exposição de desenhos negros (ver clicando aqui).

quarta-feira, abril 06, 2016

Ladrões e bandidos

Os designados Panama Papers puseram de fora o rabo do gato escondido. Todos nós sabemos que a corrupção é uma qualidade indispensável ao exercício do poder. Mas a exposição pública dos negócios duvidosos de tanta gentalha impressiona.

Chefes de estado, personagens públicas de diversas áreas, gente polida e mais ou menos educada, muitos tementes a Deus, outros agnósticos convictos, todos eles com as patas enfiadas na merda, agora sabemos quem são.

As centenas de vigaristas revelados impressiona não tanto por serem imensos mas por conhecermos os dados secretos de apenas uma das milhentas empresas que se dedicam ao negócio de roubar o povão por este mundo fora. Multipliquemos o número de esquemas corruptos promovidos pela Mossack Fonseca agora revelados pelos esquemas semelhantes promovidos por empresas suas concorrentes e teremos a dimensão aproximada das razões que explicam o desvario total em que sobrevive a espécie humana.

A Democracia treme e vacila. Agora que estes ladrões começaram a ser publicamente expostos como irá reagir a besta capitalista? Duvido que se deixe engaiolar, decerto vai começar a destilar um veneno qualquer, vai estrebuchar e retaliar.

Aguardemos.

quinta-feira, março 31, 2016

Leitura

Estou quase, quase a terminar o 2.º romance de João Ricardo Pedro, intitulado Um Postal de Detroit.
É a confirmação de um autor interessante, muito interessante, que tem toneladas de literatura dentro do peito e na ponta dos dedos.

O teu rosto será o último, o romance de estreia do autor, tinha deixado excelente impressão. Agrada-me a forma escorreita como Ricardo Pedro vai construindo o texto, a forma da escrita.

Não serei a pessoa mais indicada para aconselhar literatura mas, caro e ocasional leitor, se tiveres tempo e curiosidade lê os livros deste gajo. Parecem-me coisas dignas de serem lidas.

segunda-feira, março 28, 2016

Perdido

A cabeça traz dentro uma coisa bem esquisita, aquilo a que chamamos cérebro.

Penso que seja ao cérebro que devemos os designados "estados de espírito", havendo uma ligação estreita entre uma coisa e outra se bem que as consideremos distintas e, muitas vezes, distantes.

Então, temos o cérebro no interior da cabeça e o espírito algures, não sabemos bem onde.

O corpo, ao que parece, transporta ambos ou talvez transporte apenas o cérebro, não podemos afirmar ao certo. O espírito é menos perceptível, mais difícil de localizar. Seja como for, é o corpo que reflecte uma e outra coisa, cérebro e espírito, e é no corpo que assenta a nossa relação com o mundo e, em última instância, a relação que estabelecemos com nós próprios.

Neste momento já me sinto perdido.

Tudo isto  porque, ao longo deste dia, tenho vogado em desorientação absoluta, entre a tristeza vazia e a sensação de que talvez alguma coisa boa esteja para acontecer. Entre a incapacidade de inventar seja o que for e a suspeita de que alguma coisa extraordinária está quase, quase a chegar vinda de trás do sol posto.

Sinto-me verdadeiramente perdido.

Antes de dormir

Por vezes o passado não encaixa bem no tempo que foi o seu. Temos aquela imagem enfiada debaixo do cérebro e, na verdade, a realidade foi outra. Não interessa, não interessa... o passado só tem de encaixar no presente. Desde que ontem faça sentido no dia de hoje o que interessa se isso é ou não verdade, se isso alguma vez fez parte da realidade?

Talvez esta noite tenha um sonho que nunca tive.



segunda-feira, março 21, 2016

Dada-Punk-Romântico

Valha-nos Nossa Senhora! (Março de 2016)

Por vezes gosto de imaginar que, pelo menos dentro da minha cabeça, existe qualquer coisa que resulta do cruzamento do imaginário Punk Rock com a criatividade desvairada do movimento Dadaísta, tudo humedecido por uma singela chuva com gosto Romântico. Esta coisa a tomar forma nas folhas que cubro com papel colado com tintas por cima.

Na minha cabeça estas épocas e estes movimentos artísticos alinham-se de forma mais ou menos recta, mais ou menos sinuosa (na minha cabeça o Tempo não existe do mesmo modo que existe fora dela), o passado e o presente transmutam-se no futuro da imagem que vai surgindo e que, a cada micro-segundo, já é presente e já é passado na imagem que permanece.

A minha existência ganha sentido nestes objectos que vou criando.

sexta-feira, março 18, 2016

Leitura

Ler um texto bem escrito é uma absoluta fonte de prazer. Não me refiro a estas linhas que te vão passando para dentro do espírito, leitor amigo, tomara eu escrever sempre um pouco melhor que mal. Refiro-me ao trabalho de escritores capazes de fazer de um pensamento algo que se veja.

Quando leio um texto bem escrito (não saberia explicar o que caracteriza "um texto bem escrito") sinto algo próximo daquilo que sentia em criança, quando o meu lugar no mundo, naquele preciso momento, me parecia completo pela simples razão de eu estar ali. Eu e o bonequito, o bonequito e a minha mãe por perto, as paredes da casa e o meu avô sentado na sua cadeira preferida, a ler o jornal.

A Literatura é algo que tem esse poder de nos transportar em todas as direcções, sejam no tempo, sejam no espaço.

quinta-feira, março 17, 2016

Os poetas

Lá está Camões, no alto do pedestal, em pose que se imagina ser pose de poeta. Lá está o monumento, Camões rodeado, em plano inferior, por uns quantos outros vultos das lusas letras.

São poiso para pombas, essas ratazanas aladas, que tudo cagam com indiferença ofensiva; coisa de bicho.

Indolentes, acachapadas no interior das penas que lhes cobrem as carnes, as pombas descansam (estão sempre cansadas?), patas fincadas no cocuruto e nos ombros dos poetas, poetas eternamente cagados.

segunda-feira, março 14, 2016

Ilusão demoníaca?

Ao que parece todos os nossos problemas, individuais ou colectivos, têm uma raiz comum, reduzem-se a uma só questão. Dormes mal à noite? Os refugiados são barrados nas fronteiras da Europa? A extrema-direita arrebita cabeça um pouco por todo o lado? O teu vizinho espanca a mulher e bate nos filhos? Pois bem, a raiz de todos estes problemas é económica.

A Economia investe forte e feio sobre o nosso quotidiano delirante, transformando coisas diferentes numa única e mesma merda. Ela justifica todos os desmandos e cauciona todas as malfeitorias. Não há moral, não há valores nem princípios que se sobreponham à questão fundamental: a riqueza material.

É este o caminho que trilhamos enquanto indivíduos e enquanto comunidade global. Temo que, quando chegarmos a algum lado, não encontremos o mundo do vinho e das rosas que nos querem fazer acreditar ser o lugar para onde nos dirigimos.

sábado, março 12, 2016

Ficções

As pessoas passam por mim. Altas, baixas, magras, gordas, umas com um sorriso, outras carrancudas, algumas com olheiras castanhas, outras luminosas e bem dispostas. Deslocam-se em todas as direcções.

Fico a pensar que cada um de nós vive a sua própria ficção e é a soma de todas estas ficções que constitui aquilo que imaginamos ser a realidade. Ou seja, a realidade é, apenas, a super-ficção que nos une a todos. E é também a realidade aquilo que nos divide e separa uns dos outros.

Não é lá muito bonito, mas parece ser o que se arranja.

quarta-feira, março 09, 2016

Pensamento vespertino

Por vezes chamo às coisas nomes que não sei se elas têm, Talvez porque procuro algo que sei ser impossível, talvez porque muitas coisas escondem o que não possuem. Seja como for, é um caminho que se faz pelo mero deleite de ser feito.

domingo, março 06, 2016

Adeus Cavaco

Aproxima-se o dia em que Cavaco Silva regressará ao nevoeiro de onde nunca chegou realmente a sair. Após tantos anos a ver a vulgaridade e a estreiteza de espírito ocupando a governação do país, como um vírus ocupa o corpo enfermo, chega, finalmente, a hora do adeus. Adeus Cavaco.

Eu nunca gostei de Cavaco. Posso mesmo dizer que sempre o detestei. Nos dias que correm vejo nele, apenas, um velhote meio senil, Já não sinto mais do que desprezo pela personagem.

Leio alguns artigos sobre o tema deste adeus português, as opiniões de certas figuras mais ou menos públicas, de jornalistas... parece haver uma cautela generalizada em classificar a longa penumbra cavaquista que obscureceu Portugal durante todos os anos em que Cavaco foi 1.º ministro e, depois, presidente da república. Todos dizem que é prudente deixar a História julgar o legado que este ser vivo deixa à nação portuguesa.

Fico a matutar no assunto. Irá a História colocar Cavaco numa prateleira mais ou menos dourada? Será a sua mediocridade transformada em virtude com o passar do tempo? É bem possível que tal aconteça e que, daqui a muitos anos, quando Cavaco for apenas mais um nome numa longa lista de personagens históricas, seja visto como um estadista cauteloso e frugal, um homem interessado em fazer de Portugal aquilo que o nosso país é.

A História enverniza, limpa e enaltece tanta gente que Cavaco não será, certamente, excepção. Por agora basta. Adeus, ó Cavaco.


segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Lamentosos

Ok, a mensagem parece meio parva e, sobretudo, descabida. O cartaz é fraquinho e vem fora de tempo. Mas as reacções que vai provocando estão de acordo com a qualidade do objecto: a igreja não encaixa, os PáFes tentam cavalgar o bicho e, pasme-se, até dirigentes do Bloco de Esquerda criticam com algum azedume o aspecto da coisa. Fico com a sensação de que os lamentosos, todos eles, pretendem lucrar algo com o respectivo lamento.

Os argumentos apoiam-se numa suposta falta de respeito pelos sentimentos dos crentes e provocação à igreja e, quem sabe, provocação à própria divindade (tema-se a Sua ira e não a dos seus representantes na terra).


Na minha óptica, as reacções de repúdio e censura ao cartaz do “Jesus também tinha 2 pais” são do mesmo género das que motivam os crentes islâmicos que matam e trucidam em resposta a semelhantes faltas de respeito à sua visão do sagrado, variando apenas no modo como se materializam. Uns matam outros lamentam mas, a vítima, num e noutro caso, é o direito à liberdade de expressão; morta a tiro ou apenas esbofeteada, é ela quem sofre com tanta parvoíce.

domingo, fevereiro 28, 2016

O tempo da Geringonça

Para quem se lembra do modo como vivia a maioria dos portugueses antes da Revolução: os elevadíssimos níveis de analfabetismo, a falta de saneamento básico, as taxas de mortalidade infantil, a baixa esperança de vida, a guerra colonial, a ausência de liberdades cívicas, mesmo na sua mais básica expressão… quem se lembra disto pode facilmente constatar que as “conquistas de Abril” não foram mera poesia esquerdista, foram uma inevitabilidade histórica. O salto civilizacional proporcionado pelo derrube do regime salazarista, então na sua versão primaveril, representado pelo Marcelo de serviço, foi gigantesco.

Passaram 40 anos e a coisa tem andado para a frente e para trás. A integração europeia trouxe mais democracia no início mas, nos tempos que correm, a democracia anda pelas ruas da amargura. O paradigma económico transforma-se em ditadura com o apoio político do Partido Popular Europeu.

Agora, em Portugal, temos um governo improvável, a já célebre Geringonça. É uma coisa esquisita que tenta, pela primeira vez em muitos anos, torcer a lógica do poder imposta pelo “arco da governação”. Com o apoio dos partidos de esquerda, a Geringonça tenta meter travões ao desvario direitista do “bom aluno” da Europa. O “bom aluno” que, numa lógica cavaquista, se destacava por obedecer em tudo à mestra, por não ter opinião nem o mínimo lampejo de rebeldia, por copiar tudo direitinho do quadro para a sebenta e, sempre que questionado, repetir palavra por palavra, sem se atrever a substituir uma vírgula que fosse, a lição mecanicamente decorada. Mudou o aluno mas a mestra mantém-se vigilante. Isto pede inteligência e engenho.

A Geringonça promete-nos uma outra Primavera. Num ambiente confuso e hostil, com Passos Coelho a prever todos os dias uma nova desgraça sempre que a desgraça anterior não se concretiza, Cavaco a desvanecer-se no nevoeiro de onde nunca saiu e Portas a fazer de conta que é um anjo da guarda a precisar de reforma, é tempo de repensar o que podemos fazer na recuperação do espírito democrático que animou a nossa sociedade nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Com a Geringonça no poder, parece reanimar-se o debate político.


É tempo de fazermos um debate sério sobre aquilo que estamos dispostos a prescindir enquanto indivíduos em favor daquilo que precisamos realmente de ganhar enquanto comunidade.

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

A Europa definha

A União Europeia vai-se esboroando aos olhos de todos. O alargamento a Leste trouxe para a União uma mão-cheia de países onde a tradição democrática é encarada na ponta de um cacete. Velhos aliados enganam-se mutuamente, interessados apenas em manter os privilégios das classes dominantes. A globalização "amerdalhou" tudo. A Europa perdeu empregos e perdeu trabalho. As fábricas e os capitalistas fogem do centro da União em direcção à periferia e à Ásia em busca de mão-de-obra barata, quando não escrava. Por aqui restam a especulação financeira e um desemprego galopante.

Não há ideal que aguente. Vendemos a alma a troco de patacos. Imagino que seja a marcha da História. A Europa definha, a China e a Índia parecem emergir do "merdalhal", apesar das incomensuráveis legiões de pobres e explorados que pululam nos respectivos territórios.

Até quando tudo isto irá continuar neste equilíbrio precário, antes de desabar com estrondo e poeirada? Haverá uma guerra no fim destes tempos?

sábado, fevereiro 20, 2016

"Os mercados"

De que são feitos "os mercados" que se assustam e enervam com algo tão inofensivo como o governo de António Costa num país insignificante como é Portugal e parecem impávidos e serenos com a cavalgada heróica de Donald Trump na corrida à candidatura do partido republicano para a presidência dos EUA?

Que aspecto terá essa coisa, "os mercados", qual o contorno do corpo que encerra a sua alma? Todos sabemos qual o aspecto de Deus, mostram-no inúmeras obras de arte, moldou-O a imaginação dos artistas. É um velhote enxuto, de longas barbas e cabelos brancos. Tem o aspecto devido ao que imaginamos que Ele é.

E "os mercados" que se sentem confortáveis com as guerras, com a miséria, com o enriquecimento selvagem dos vampiros, que não têm sentimentos, nem nada que se assemelhe a bondade? Quem lhes faz o retrato?

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Dúvida essencial

Liberdade de expressão, liberdade de deslocação, liberdade de escolha, liberdade religiosa... assim, de repente, lembro-me de todas estas liberdades como sendo evidentes dentro das nossas fronteiras, características do nosso modo de vida.

Mas, ainda agora, vi um gajo a remexer num contentor de lixo. Ainda ontem, ao andar nas ruas da cidade, ouvi e vi pessoas com aspecto pouco próspero a arrastar os passos na calçada. Farrapos de conversas deprimentes chegaram-me aos ouvidos. Aquelas liberdades aplicam-se a quem não tem meios de subsistência dignos?

A riqueza é cada vez pior distribuída. Os ricos mais ricos, os pobres mais pobres, a história de Robin Hood ao contrário. E as liberdades...

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Sonambulismo

Continuo a sentir uma emoção particular quando a questão é o meu povo. Refiro-me ao povo que conheci na minha infância, ao povo de que ainda faço parte. O povo da minha aldeia. Um povo medroso, petrificadamente religioso, um povo que por não compreender nada aceitava Deus como finalidade absoluta da sua existência.

Na minha meninice tinha pesadelos terríveis nos quais o Diabo me perseguia e eu corria, desenfreado, fugia sempre em frente com quanta força tinha, com a força que só somos capazes de encontrar nas profundezas do sonho, quando o sonho se transforma em pesadelo.

O mundo mudou, o meu povo transformou-se e o Diabo deixou-me em paz no dia em que deixei de acreditar nele. Agora vivemos todos num mundo melhor.

O Diabo deixou-nos em paz mas não morreu. O cabrão está bem vivo. Ele come tudo e não deixa nada.

Andamos adormecidos; a miséria deu lugar a alguma folga, já não andamos descalços no Inverno nem comemos batatas todos os dias acompanhadas por uma cabeça de sardinha meio apodrecida. Agora temos McDonald's e Coca-cola, temos centros comerciais e carros a prestações mas continuamos a ser os mesmos.

É urgente despertar.

domingo, fevereiro 14, 2016

Domingo

Os últimos dias têm sido complicados. A chuva cai furiosa acompanhada por ventos doidos como gatos com cio. Portugal está meio submerso; cheias, derrocadas, árvores que resolvem ir passear sem avisar ninguém, o mar que parece querer entrar terra dentro.

Hoje resolvi ir ao cinema ao centro comercial. Fui à sessão das 12h45m ver os "Oito Odiados" de Quentin Tarantino. Filme estiloso, duraço, com sangue q.b., diálogos cheios de humor e um argumento razoavelmente imaginativo. Enfim, um filme de Tarantino no registo seguro a que o cineasta nos tem habituado.

Quando o filme acabou (por volta da 16 horas) saí da sala com a intenção de passar pelo supermercado e comprar umas provisões que me fazem falta na despensa. Assustei-me! As filas para entrar nas salas de cinema tinham dimensões bíblicas, a quantidade de gente que serpenteava nos espaços de circulação deixou-me ansioso.

Desci a escada rolante decidido a sair dali para fora, as compras podiam esperar... tanta gente! Lá fora o sol surpreendia pelo vigor do seu brilho. Desloquei-me rapidamente me direcção ao meu carro e vim embora. Que susto.

A chuva regressou, com ela o vento dançante. O céu escureceu tremendamente. No centro comercial decerto continua tudo na mesma. As pessoas parecem ter ido todas para dentro daquele lugar, as ruas estão quase desertas e brilhantes de água que escorre pelas costas do mundo.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Momento (quase) bucólico

A paisagem tem tantos tons de verde! Verde-quase-esmeralda, verde-quase-preto, verde que é silhueta de árvore a recortar-se no céu, a recortar-se no cinzento majestoso de um céu carregado de nuvens que chovem devagarinho na paisagem.

A paisagem tão bonita, tão repleta de verde e do brilho de cores que não têm nome. A paisagem está tão triste e, no entanto, tão bonita.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Nuvem

É estranha a sensação de haver nuvens escuras a tapar-te o futuro. A sensação de que o frio morde a tua garganta infectada pela mentira. Baixas a cabeça mas ela teima em olhar para cima, a tua cabeça não te obedece. É estranha esta sensação de que o mundo é como um bicho e que o mundo está agachado, à espera. E, enquanto espera, caga.

É estranha a sensação de que as mulheres são o animal mais belo de toda a Criação e que Deus terá errado em muita coisa mas não quando enterrou as unhas no lombo de Adão para lhe sacar a tal costela.

Desvias o olhar mas os teus olhos rodam sobre as órbitas do Mundo e colam-se a ver o que preferias evitar saber que existe. Abanas a cabeça mas as imagens não sofrem nada, as imagens estão fixas; uma imagem vale mais que mil palavras mas mil palavras raramente valem mais que nada.

É estranha a sensação de haver nuvens tão escuras a sobrevoar-te o espírito. Quase tão estranho quanto essa extraordinária sensação de seres nuvem.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Valores europeus

Alarme, alarme!!! O investimento captado pelos "vistos gold" caiu a pique no último ano. A diminuição do investimento no nosso país por parte de estrangeiros podres de ricos que compram o direito a habitar-nos incomoda todos aqueles que fazem disso um negócio lucrativo.

Por outro lado, não há motivo para alarme, são poucos os refugiados que procuram o nosso país deliberadamente. Ninguém se preocupa com isso. Para miseráveis chegam bem os que por cá já temos.

Ou seja: quem tem dinheiro é bem-vindo, quem não tem pode bem ir pregar para outra freguesia. É esta a Europa de Valores que gostamos de sacar da cartola quando queremos ludibriar papalvos de outras culturas?

domingo, janeiro 31, 2016

Domingo, na paz do Senhor

Andamos a bater mal da cabeça. A Europa parece, cada vez mais, um bicho imundo. A esquerda confunde-se com a direita e vice-versa. A economia é uma coisa porca, a civilização é "civilização".

Não sei se por excesso de informação, a coisa má agiganta-se e mostra-se furiosa, fora de controlo. Diz o povo que "olhos que não vêem, coração que não sente" e a igreja abençoa os pobres de espírito, talvez a ignorância seja, afinal de contas, uma benesse para a alma.

O tempo cinzento e pouco luminoso acentua a sensação de desgraça permanente. Uns raiozinhos de sol talvez animassem esta merda.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Cultura amestrada

Li uma pequena entrevista com Don Letts onde ele afirma uma coisa muito interessante que, apesar de óbvia, precisa de ser dita.

Diz ele: "Tens a cultura que mereces. Possivelmente as aspirações dos jovens de hoje são muito diferentes das dos jovens quando eu estava a crescer. Entrámos na música para ser contra o estabelecido. Agora, muita gente entra na música para ser parte do establishment. No século XXI, a cultura ocidental tornou-se muito conservadora. Parece que o punk nunca aconteceu. (...)" (ler aqui toda a entrevista)

Isto dá que pensar. Vivemos num mundo de artistas amestrados? Haverá ainda espaço para a revolta cultural, para o manifesto, para a afirmação de visões colectivas através da criação artística? Deixámos que a cultura se transformasse numa coisa anódina, lisinha e liofilizada?

domingo, janeiro 24, 2016

Uma manhã qualquer na ex-capital do império


Os livros são caríssimos! Puta que pariu.

O povo frequenta o Centro Comercial com um fervor apenas comparável ao que me recordo de presenciar na Igreja, quando era puto.

Gostava de comprar meia-dúzia de livros mas vou ficar-me, apenas, por um.

Este sol de Inverno é uma coisa magnifica. O ar está friozinho e o sol não chega a aquecer. Gosto disto.

O meu povo é um tanto macambúzio.

Dizem alguns que se prepara uma crise económica mundial capaz de fazer estragos definitivos neste mundo globalizado. Não vejo ninguém preocupado com isso.

O povo anda por aí, serenamente. Também gosto disso.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Declaração

Quando digo que, aos gajos do estado islâmico, era meter-lhes uma bala no focinho a cada um (para poupar munições), digo-o por mim, digo-o por ti, mas também por Strummer, por Zeca, por Bowie, por Mozart, por Amália, por todos os outros que fizeram música maravilhosa; por Camões, por Shakespeare, por Tolstoi, por Tchekov, por Calvino, por Bolaño, por Cervantes, por todos os que inventaram o mundo das palavras; digo-o por ti, pelos teus, pelos meus e também por Bosch, por Goya, por Giotto, por Bacon, por Basquiat, digo-o por todos os que encontram a liberdade a cada momento.

Digo-o por Cristo, por Maomé, por Buda, por todos os profetas mais ou menos obscuros, por todas as personagens de fábula, de lenda, de mito, pela liberdade de expressão e pelo direito a calar boca.

Quando digo que, aos gajos do estado islâmico, era meter-lhes uma bala no focinho a cada um digo-o por ser incapaz de aceitar que esta cultura de que faço parte possa alguma vez desaparecer subjugada pela força da estupidez e da ignorância.

Isto não se aplica exclusivamente aos assassinos do estado islâmico e a bala pode ser metafórica. O focinho não.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Pensamento matinal

As pessoas não são todas iguais mas talvez pudessem ser um bocadinho mais diferentes umas das outras. Apesar de tudo, o senso comum não me parece assim tão repelente, bem pelo contrário.

Estarei a contradizer-me? Temo bem que sim mas não tenho a certeza. Há que considerar a liberdade individual... há que ponderar os limites da estupidez e da sageza... há que tomar um café e ir trabalhar.

domingo, janeiro 17, 2016

Educação


Quando o tema é o futebol, sabemos bem, surgem milhentos “treinadores de bancada”, entendidos, capazes de engendrar as estratégias mais imprevistas e criativas que teriam impedido a derrota, que teriam potenciado a vitória à quinta casa ou seriam capazes de engalanar o empate com credenciais de feito extraordinário, o empate como sucesso último de uma inquestionável visão de futuro. Somos um país de poetas e de treinadores de futebol.

Mas, pasmemos cidadãos, há outro tema capaz de espevitar em todos nós uma inteligência adormecida, uma inteligência que aguarda indolentemente a mais leve oportunidade para espreitar a luz ofuscante de um prometido dia solarengo; falo da educação.

Quando o tema é “educação”, os especialistas, os profetas, os entendidos, saem debaixo das pedras a um ritmo próximo da alucinação. Sejam professores, catedráticos (ou nem por isso), comentadores mediáticos anquilosados, chefes de redacção sem assunto, políticos entediados, presidentes de junta, gente de maiores ou menores vistas, cidadãos anónimos chateados com a nota do seu educando no último teste realizado em contexto escolar, meros repórteres a quem foi distribuída a tarefa, ficamos confusos perante a insana capacidade de emitir opinião demonstrada pela sociedade portuguesa em tão complexo tema. Talvez por isso, a política de educação em Portugal continua a fugir para a frente de si mesma, sempre em passo acelerado, capaz das cabriolas mais estonteantes, aos saltos para trás, aos saltos para a frente, qual cabrito-montês perdido numa imensa planície.

O novo ministro da coisa veio desembestado, em sintonia com o seu predecessor, na linha de Maria de Lurdes Rodrigues: desfazer o que foi feito, fazer o que já tinha sido experimentado, numa confusão de gestos e intenções que, verdade seja dita, não traz nada de novo, apenas sublinha a proverbial confusão em que mergulham as mentes mais iluminadas quando o tema é “educação”. Acredito nas boas intenções de Tiago Brandão Rodrigues, tal como acreditei, à partida, em Nuno Crato. Mas, tal como o anterior ministro, também este tropeça nas próprias intenções, uma e outra vez, vem cambaleante ameaçando estatelar-se ao comprido.


A Educação não é coisa que se resolva de um dia para o outro. Qualquer medida implementada precisa de tempo para ser testada. Será isto difícil de compreender? Poupem os professores a esta girândola maluca que é a produção de legislação educativa. Até se me torce a língua, mas apetece dizer: “deixem-nos trabalhar”! Não façam de nós os palhaços deste vosso triste circo.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Feliz aniversário

O dia de aniversário é como o dia de Carnaval: um gajo tem de estar bem-disposto, prontinho a entrar em estado de euforia, cantarolar, rir, dançar, dizer alarvidades inocentes. Dias assim deixam-me deprimido.

Se por acaso acordamos com propensão para a melancolia e não nos apetece celebrar há sempre alguém que vai ficar chateado, que mostrará decepção e tristeza. Por vezes há mesmo quem mostre irritação.

Tu estás triste quando deverias estar eufórico, derramas tristeza sobre a euforia, fazes com que as coisas amoleçam, derretam, se desfaçam.

Mas qual é o teu problema, caraças!? Feliz aniversário, mas é. Deixa-te de merdas.
Pois sim, já me tinhas dito.
Obrigado.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Bowie

Hoje de manhã entrei no meu carro e liguei o rádio. Eram 8 horas e o noticiário na TSF abriu com  Space Oditty de David Bowie. Estranhei: "que raio de coisa, o homem edita um novo álbum e abrem o noticiário com um tema tão antigo..."

Estacionei e ouvi até ao fim para tomar conhecimento que Bowie morrera durante a madrugada (acho eu). PORRA!!!

Há pessoas que não imaginamos mortas.
Há pessoas que, imagino eu, não morrem.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Fraqueza genuína

Às vezes apetecia-me ser capaz de odiar com a profundidade necessária à sensação de ódio. Tenho a impressão de não ter desenvolvido essa competência.

Sempre que me imagino a odiar alguém lá vem aquele bonequito do anjinho poisar-me no ombro a sussurrar-me no ouvido coisas que me impedem de sentir um genuíno ódio, tão necessário à higiene mental de qualquer cidadão ocidental contemporâneo. O diabito recolhe-se, amuado, e não diz mais nada.

Estarei tão amolecido que nunca ultrapassei a fase "bebé", no que diz respeito à capacidade barbuda de desejar enfiar um garfo no globo ocular de qualquer óbvio filho da puta? É triste.

Ensaio olhares matadores sobre o meu reflexo no espelho da casa de banho. Cerro os punhos, ranjo os dentes mas... nada. Na verdade sinto-me a derreter a frio, sinto uma inexplicável incapacidade para rachar o espelho de alto a baixo num gesto de fúria incontida, justificada e, acima de tudo, um gesto de fúria genuína. Sou fraco.

Eu gostava de ser capaz de matar, quereria ser capaz de estropiar, cegar, esventrar e cagar em cima dos cadáveres ainda fumegantes dos meus inimigos. Mas não, nada disto é real, nada disto obedece ao mínimo sentido lógico.

Sou um fraco.

Se não tenho cuidado ainda acabo a oferecer uma outra face a um gajo que me tenha espetado uma faca no fígado.

terça-feira, janeiro 05, 2016

Autoria

Vai por aí uma certa polémica relacionada com a suspeita de que algumas obras atribuídas a Hyeronimus Bosch não serão da sua autoria. É uma questão complicada que merece, pelo menos, um sorriso.

Os argumentos apresentados por quem rebate a mão do mestre nas ditas obras baseiam-se, tanto quanto pude compreender, na observação do estilo do desenho ou na técnica da pincelada. Que são diferentes nestas obras quando comparadas com outras, assinadas. Acredito piamente.

A minha dúvida (e o meu sorriso) desprende-se da constatação de que um artista muda e evolui. Ninguém é constante ao longo do trabalho de uma vida. Outro ponto interessante é que o material acaba e, por vezes, experimenta-se outro. Ainda para mais, na época em que Bosch trabalhou, era nos ateliers que os artistas produziam os materiais com que trabalhavam, não existiam marcas de produtos artísticos à venda em grandes superfícies comerciais.

Enfim, esta treta toda para reflectir um pouco sobre a importância da autoria numa sociedade de consumo descontrolado, como é a nossa.

As obras referidas (3 que estão no Museu do Prado, em Madrid) foram, até hoje, admiradas como fazendo parte do legado extraordinário que Bosch deixou à Humanidade. Além dessa qualidade, por serem atribuídas ao Mestre, valiam milhões, o seu preço era incalculável. Convenhamos que, nos dias que correm, este é um factor determinante para a qualidade do que quer que seja. Se não é de Bosch, o valor em euros cai a pique, logo a qualidade da coisa cai ao lado.

Assim sendo, a partir do momento em que perderem o nome de Bosch, estas obras passam a ser uma merda? Estou-me bem a lixar se o trabalho é deste ou daquele. A qualidade está lá, na superfície pintada, na energia que emana da pintura, na magia do objecto. O nome, a assinatura, não passam de pormenores.

domingo, janeiro 03, 2016

Bom ano de 2016

Ora então, cá estamos nós.
É com isto que se parece 2016? Noto-lhe bastantes semelhanças com 2015 e, eventualmente, algumas diferenças significativas. O tempo a passar é como fumo dentro de uma garrafa de vidro.

Sinceramente, não tenho desejos especiais para 2016 que não tenha tido já em anos anteriores. Afinal de contas os nossos anseios não se alteram assim tanto quando mudamos o calendário por outro, novo, com os quadradinhos dos dias todos por preencher. O tempo a passar é como uma linha mais ou menos recta.

Gostava de poder manter uma certa serenidade que tenho sentido dentro de mim. Será isso o bastante para provar a mim próprio que o mundo está melhor? A minha relação com o mundo pode alguma vez servir de bitola para medir a amplitude da sua saúde? É óbvio que não. A única saúde que essa serenidade poderá anunciar será a minha o que, do meu ponto de vista, até nem é coisa que me aborreça.

Que te sintas também sereno e de bem com as coisas que te rodeiam, é o que te desejo, amigo leitor.
Bom ano de 2016.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Fim de ano

2015 vai dando os últimos suspiros. Estes dias finais são estranhos. É como se  o calendário tivesse poderes mágicos, como se os dias obedecessem a números alinhados num papelito. Nada mais errado. São dias como os outros.

Morreram-me dois amigos nestes dias. Inesperadamente, foram-se como o vento. Desapareceram. 2015 acaba negro e frio. Para o António e para o Marcelino foi o fim da vida. O ano acaba negro e frio.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Carta de agradecimento

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica”; finalmente Cavaco conseguiu produzir uma ideia com alguma substância. Como é costume, vou tentar perceber o que quer ele dizer com isto.

Parece-me evidente que Cavaco Silva pretende dizer-nos que a realidade é constituída em partes iguais por economia e finança, sistema bancário e sistema monetário. Esta fórmula da realidade esmaga qualquer tentativa de fazer com que a ideologia, seja ela qual for, possa sair da sua Caixa de Pandora e venha desorientar as opções de vida das pessoas. Cavaco explica-nos algo que ele já interiorizou há muito, muito tempo: a realidade materializa-se em números e tabelas, fórmulas de cálculo e gráficos com setinhas. Tudo o mais são contos infantis, como disse um dia Pedro Passos Coelho.

Cavaco e Passos conhecem bem a realidade. Graças a eles a economia e a finança, o sistema bancário e o orçamento de estado têm sido, no nosso país, protegidos dos ataques descabelados da ideologia, mantendo-se ancorados na firmeza do mundo verdadeiro. Graças a eles a realidade é o que todos, agora, sabemos.

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica” pode muito bem constituir um precioso legado que Cavaco nos deixa antes de se retirar da vida política; ele que sempre desprezou os políticos e amou, apenas, os economistas, os empresários corajosos e os gestores bancários; acima destes apenas Deus, Nosso Senhor. Não esqueçamos este ensinamento luminoso vindo de um homem presciente que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, um homem que não se importa de ser o Sr. Silva, este estadista visionário, modesto e imbuído de um abnegado espírito de missão que o levou a oferecer os melhores anos da sua vida à causa pública.

Termino esta carta agradecendo a Cavaco tudo que ele fez por nós: a boa governação, a honestidade acima de tudo, a sua extraordinária capacidade para entender a realidade, que tantos dissabores poupou ao bom povo português, que, com um fervor quase religioso, repetidamente lhe pôs nas mãos a bússola e o leme da Nação.


Obrigado Cavaco. Bom Natal. Depois podes ir-te embora de vez. Não precisas de voltar.

domingo, dezembro 20, 2015

Salvação

Anda toda a gente em busca do caminho da salvação de alguma coisa.
Uns procuram a salvação da alma, outros a salvação das suas economias, outros ainda desejam ardentemente salvar o que resta do dia que estão a viver, e assim por diante.

A ânsia de salvar qualquer coisinha faz-nos desejar que Deus esteja connosco, que Deus nos ame e nos apoie, gostamos de pensar que somos justos e que os nossos anseios sejam puros dentro dos limites que o nosso imaginário impõe à realidade.

Quando digo Deus, estou a referir-me a algo em que acreditamos sinceramente (ou nem por isso), os tais limites éticos, estéticos ou de outra natureza, com que embrulhamos a vida que oferecemos ao nosso corpo e à nossa alma.

A Fé não necessita obrigatoriamente de uma figura barbuda montada numa nuvem branquíssima, apoiada por uma legião de anjos especializados em diferentes tarefas. Deus assume as formas mais variadas.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Uma estranha figura

Era um gajo com a pele muito em cima dos ossos, magro, com uma cor amarelada, parecia talhado em cêra. Tinha o cabelo encrespado, puxado para trás, como se um vento maligno lhe soprasse incessantemente na testa. Os olhos muito abertos, como os de um pássaro acabado de sair do ovo, saltavam de jornal em jornal, no escaparate da tabacaria, junto ao cais de embarque.
Que estranha figura, pendurada num esqueleto alto e recurvado. Balançava o corpo perigosamente, podia desabar a qualquer momento. Que estranha figura!

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Dia sem princípio (nem fim)

Há dias assim, dias em que estar acordado parece resultar no prolongamento do sono, na materialização do pesadelo (que até começara por ser um sonho com muitos tons de rosa), pesadelo que agora se interrompe. Olá, bom dia.

O café parece não ser mais que um vago sabor no confins do céu da boca, o jornal um dejà vu, os passos na escadaria em direcção à rua ecoam na memória, as frases que crescem na ponta dos dedos são pomposas e não aguentam uma questão que as ponha em causa. Mesmo que seja uma questão de merda, tipo: que merda é esta?

Há dias assim, dias que parecem nunca mais começar, dias em que as coisas são chatas porque não há volta a dar-lhes, dias que, caso cheguem ao fim, será lá mais para o fim-do-mundo.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Sonho de uma manhã de Inverno

Por vezes penso: "sonham as coisas mortas?"; se algumas das vivas sonham com a morte, será que as mortas sonham com a vida? Uma pedra que gostasse de ser corvo ou um um grão de areia que desejasse tanto vir a ser presidente da república que havia de se transformar em montanha.

Lembro-me bem de ficar a olhar muito, muito tempo, a fitar calhaus que pareciam outras coisas, coisas escondidas dentro da rigidez da pedra, mas que nunca se revelavam completamente. Se eram coisas mais verdadeiras que a minha imaginação, então eram mais espertas que os meus olhos e guardavam-se, quietas, lá no fundo daquilo que realmente eram. Nunca as cheguei a ver, só as imaginei.

Nos dias que correm encontro, de vez em quando, seres fantásticos, saídos nem sei bem de onde. Aparecem assim, vindos do nada; são visitas que não gostam de chá nem têm tempo para se sentarem à conversa. Serão estes seres desconcertantes aqueles que se escondiam no dorso e no fundo dos calhaus da minha infância? Seres que voavam nas alturas dos pinheiros com o sol a doirar-lhes as formas indistintas?

O que interessa isso? Que interesse pode ter quem eles são? Gosto de pensar que são os sonhos das coisa mortas que ganharam vida. E gosto de pensar que sou eu quem lhes dá essa vida que ganharam, eu, pequeno deus, feito homem na minha imaginação.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

O meu problema com a direita

O meu problema com a direita tem diversas fontes de alimentação. Por exemplo, causa-me problemas a postura dos defensores da troika Passos-Portas-Cavaco quando confrontados com o governo de Costa. Passada a lamentação patética da suposta ilegitimidade do novo governo, o discurso dos simpatizantes da PàF alerta-nos para uma putativa incapacidade da esquerda para governar o país. Num tom que oscila entre o alarmista e o jocoso, sugerem que, com Costa ao leme, a Nau Catrineta que é a nação portuguesa irá encalhar e naufragar, levada nas vagas alterosas do mar da TINA (ou o NHA- Não Há Alternativa, como designou João Miguel Tavares o mundo impiedoso em que vivemos). 

Para que este alerta pudesse ter alguma validade seria necessário que o governo da troika Passos-Portas-Cavaco fosse minimamente sério ou minimamente competente. 

À medida que os dias vão passando e a troika Passos-Portas-Cavaco vai perdendo o pulso sobre as notícias que chegam até nós, percebemos que o seu governo não era uma coisa nem outra. Percebemos como esse governo se assemelhava mais a coisa nenhuma, que foi uma treta; que não há IVA para devolver, que o desemprego afinal não definha, que a economia abranda… despida de propaganda a troika Passos-Portas-Cavaco revela-se escanzelada, feia e repulsiva, até para alguns dos direitistas mais encartados.

O meu problema com a direita é também alimentado pela constatação de que a troika Passos-Portas-Cavaco mais não foi (mais não é) que um instrumento para eternizar as desigualdades sociais, contribuindo mesmo para a sua agudização. Veja-se a forma como as desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres se vêm acentuando nestes tempos de crise, como se nacionalizaram os prejuízos e se privatizaram os lucros das empresas públicas. Eu sei que este processo vampírico tem tido a colaboração do Partido Socialista. É precisamente por isso que a solução governativa agora encontrada traz consigo a esperança de que as coisas sofram uma inversão acentuada. Com o Bloco e o PC à perna, o PS terá de se comportar como o partido de esquerda que afirma ser e não como o partido de direita que tem sido, limitando o apetite dos seus clientes quando se aproximam da gamela do poder e açaimando as feras mais gulosas.


O meu problema com a direita tem também a ver com a mania de que acreditar na Utopia é o mesmo que acreditar num conto de crianças. Erro. A Utopia é um conto para adultos, da autoria de Thomas More que, tal como o Capuchinho Vermelho alerta as meninas para os perigos da pedofilia, nos alerta, a nós “cidadões”, para os perigos da desigualdade na divisão da riqueza. 

Finalmente, o meu problema com a direita da troika Passos-Portas-Cavaco é ela ser tão sobranceira, rasteira e ignorante, que só é capaz de pensar em economia e, ainda por cima, erradamente.