domingo, março 29, 2009

Real vulgaridade



Finalmente vi o filme A Turma (Entre les Murs). Vi em casa com a família. Versão DVD: sentado, recostado, deitado. Como sou professor, grande parte da narrativa é-me tão familiar que algumas situações potencialmente mais fortes ou polémicas não me surpreenderam.

O que me pareceu mais marcante em A turma foi, precisamente, o realismo, como se o realizador tivesse recuperado os princípios éticos e estéticos do realismo oitocentista. As personagens, as situações, os cenários, nada têm de transcendente de tão vulgares. Não há a grandeza dos momentos históricos nem o mistério dos contos surrealistas. Vulgaridade vulgar. É tudo.

A Turma é qualquer coisa entre a obra de ficção e o documentário e, pela forma como aborda a linguagem cinematográfica, abre um buraquinho especial para ali se aconchegar sem grandes acompanhantes (pelo menos, assim de repente, não me estou a recordar de outros filmes semelhantes).

O meu amigo Beto Canales do Blogue Cinema e Bobagens, estabelece aqui uma série de princípios segundo os quais deveremos classificar ou abordar críticamente um filme. São 7 itens a ter em conta na classificação da qualidade de um filme. Para ele, A Turma não preenche nem dois e ainda lhe aponta alguns pecadilhos censuráveis.

Talvez o Beto tenha razão. Mas talvez os 7 itens não se possam aplicar sempre, da mesma forma, talvez alguns objectos cinematográficos, pela sua natureza, peçam outro tipo de abordagem crítica. Acredito que assim seja e acredito que A Turma esteja algures num plano diferente. A minha dúvida prende-se com o facto de, como afirmei a abrir este post, a minha profissão me aproximar tanto da personagem do professor e me fazer olhar aqueles rapazes e raparigas com uns olhos muito semelhantes aos que utilizo quando olho os rapazes e raparigas nas minhas salas de aula. Esta situação poderá retirar-me distanciamento crítico, criando uma empatia específica com A Turma, empatia essa que nem sempre consigo estabelecer com os filmes que vejo.

Resumindo, A Turma parece-me um objecto muito interessante sob vários aspectos: o realismo das personagens e das situações, a revelação do ambiente que se vive "entre as paredes" de uma escola, serve para mostrar a quem julga saber o que ali se passa aquilo que, afinal, está muito longe de, sequer, imaginar. Terá defeitos, certamente que os tem. Mas esses o espectador que os descubra por si próprio.

A ver, por professores e não professores, sem compromisso de empatia garantida.

8 comentários:

Eduardo P.L disse...

Por acaso hoje estive com umas pessoas que assistiram. Não gostaram. Além de muito logo, disseram que não é tudo que se diz do filme. Nem em seus piores momentos!
Resumindo, esse não vou ver!

Silvares disse...

Numa coisa têm razão, o filme é longo. Compreendo a rejeição mas também me parece que o facto de ter críticas muito elogiosas pode funcionar ao contrário.

Eduardo P.L disse...

É verdade, quando se tem muita espectativa, às vezes frustra!

Silvares disse...

É isso mesmo, Eduardo. Este filme foi colocado na lua mas acho que fica mais num satélite artificial em órbita a média altura.
:-)

disse...

Vimos e gostamos... se demora para entrar no clima 'documentário' longo....mas se formos analisar os prós e contras,os primeiros ganham longe...altamente 'didático' e assustador para quem nunca esteve por trás de uma catedra.Saímos com toda uma outra visão sobre o assunto.Tarefa árdua para voces, há que ter muita vocação.Um filme a ser visto e discutido.Sua opinião aqui ganha mais força ainda...pois quem melhor para julgar,talvez não o filme mas a realidade que ele mostra.
:-)

Silvares disse...

Ví, é precisamente neste ponto que se poderá levantar alguma polémica quanto às tão badaladas qualidades extraodinárias do filme. Na verdade está longe de ser um objecto comercial mas também não é um documentário. Na minha óptica é um bom filme que merece reflexão e discussão, como você sublinha.

luísM disse...

Devias tê-lo visto no cinema. Com o tamanho das personagens estava-se mesmo no interior da escola, com os acontecimentos na ponta do nariz. Cheirava a lápis e a sovaco com desodorizante. O filme é um falso documentário assumido, em que a câmara procura o regime realista do que se passa em frente, como no documentário, mas sem o afastamento que permite o olhar de fora, porque afronta as personagens e toma posição, embora com abertura suficiente para deixar espaço para a interrogação. Mas as problemáticas afloradas pela ficção deixam entrever situações conflituais ramificadas e bem mais vastas que a acção centrada naquela turma. Não percebo bem as reticências ao filme. É uma ficção surgida da experiência de alguém, filmada com a urgência do desabafo. Pode ser entendido como algo retórico, e por isso demagógico pelas opções fílmicas, mas contido o suficiente para não defender explicitamente uma tese e, mais ainda, com conhecimento de causa suficiente para tocar em questões pertinentes, deixando o folclore escolar para trás.

Em suma, é uma peça que cai no momento certo e que deve ser utilizada. Quando envelhecer já deve estar espremida...

Lizete Vicari disse...

Silvares, é um prazer ler os
teus comentários!
Você descreve com tanta clareza
que nem preciso ver.
Até porque, morando no Ibiraquera
só podemos em vídeo!
Um beijo. lili