segunda-feira, março 10, 2008

Carta

Problemas

Na noite de Sábado, após a manifestação dos professores, veio a ministra da educação defender a tese de que tentar resolver os problemas do sector com a sua demissão seria a forma mais fácil de lidar com a situação. Ao reafirmar a sua determinação em manter-se no cargo e prosseguir com a implementação das medidas que tanta tinta têm feito correr, Maria de Lurdes Rodrigues estaria a optar pela via mais complicada mas, a seu ver, a via correcta para tirar o sistema educativo do buraco escuro em que se encontra.
Fica a impressão de que, no entender da ministra, os problemas complicados exigem soluções complexas numa lógica de equiparação entre problema e solução que não é assim tão linear. Por vezes questões extremamente complicadas resolvem-se de forma surpreendentemente simples.
Basta olhar para o organigrama da avaliação do desempenho dos professores para perceber que aquilo que lhes é proposto padece de uma tremenda maleita. É uma confusão. As mentes (decerto brilhantes) que estão por detrás daquele amontoado de dados contraditórios e de naturezas tão diversas não terão imaginado que haverá respostas mais simples para a questão em análise?
Uma coisa que não é fácil de explicar aos jovens estudantes é que uma resposta extensa não é, obrigatoriamente, uma boa resposta. É uma luta constante tentar provar-lhes que a objectividade é um bem precioso e a capacidade de síntese uma arte difícil, precisamente por procurar formas simples de expor ideias complexas. Após um teste de avaliação é comum ouvir um aluno afirmar que lhe correu bem pois escreveu muito. Toda a gente percebe que escrever muito não garante à partida a qualidade do trabalho.
O ministério da 5 de Outubro deve estar convencido que, produzindo constantemente páginas imensas de uma legislação enigmática, está a contribuir para solucionar os problemas da educação. Quem trabalha nas escolas sabe que as ordens e contra-ordens com que têm sido bombardeadas nos últimos meses apenas têm servido para lhes complicar o trabalho. É tempo de explicar a todos os que circulam nos gabinetes ministeriais que na quantidade é possivelmente mais difícil encontrar alguma qualidade e que a aparente complexidade de um problema não obriga a uma resposta igualmente confusa. Talvez a via difícil não seja a mais apropriada para dar resposta aos nossos problemas.



Carta enviada hoje ao Director do jornal Público

4 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Silvares,

carta maravilhosa. Uma lição, sintética de um problema recorrente, não só em Potugal, nem só no ensino Lusitano. Parabéns!

Forte abraço

Só- Poesias e outros itens disse...

Um problema mundial, insóluvel.
E concordo com você: tornar mais simples as palavras, podem facilitar muito. A complicação são coisas de intelectuais, que não querez dizer, mas enrolar.

bjs.

Ju gioli

Silvares disse...

Parece-me essencial procurar limpeza no discurso se queremos ser capazes de comunicar em situações como esta. A subjectividade do discurso é uma coisa maravilhosa mas não se aplica em questões como a discussão das políticas educativas!

Jo-zéi F. disse...

claro e limpinho, mais nada.