quarta-feira, julho 08, 2009

Nova Iorque-Parte 2.2 (Pollock)

Ainda no MoMA, depois de deixar a família para trás (a minha filha e a minha mulher não têm paciência para me aturar quando estou num sítio assim, eu próprio sinto dificuldades em lidar com a minha pessoa perante tal enxurrada de informação) continuei a minha cavalgada heróica no meio daquela floresta encantada.

Cada nova sala produzia em mim um efeito de estupidificação ou, pelo contrário, de desapontamento. É absolutamente impossível dar notícia de todas as sensações, sentimentos, ideias, vontades e etecetera e tal que me arrepanharam o cérebro. Transcrevo apenas algumas das notas que registei no meu bloquinho.

Parece haver um Pollock tridimensional nos formatos menores. A técnica pictórica sugere, pelo empastelamento, um Van Gogh completamente passado (se tivesse viajado no tempo, acordando em plenos anos 50 do século XX, Van Gogh haveria de ter pintado mais ou menos daquele modo). Depois há um Pollock mais liquído nos formatos mais avantajados, onde o gesto se solta, se alarga e inventa numa liberdade cambalenate e gotejante. Nesses formatos grandes nota-se bem a zona dos pézinhos em volta do ambiente central, mais massacrado e saturado de sinais gráficos, a zona de deslocação do artista.


É como se as telas tivessem uma moldura feita de vazio. Nem gesto, nem tinta; nada. Sente-se ali a presença do fantasma de Pollock.

Há ainda um Pollock antes de Pollock, aquele que primeiro me fascinou nos livrinhos com fotos. O expressionista abstracto que não conseguia impor-se na cena artística, talvez por não ser suficientemente esquisito para os padrões da época.

Fico a pensar que se Pollock pudesse regressar do Além e ver as suas pinturas e as refizesse hoje, talvez fosse mais excessivo. Há qualquer coisa nas telas expostas no MoMA que me parece resultado de uma certa timidez, uma falta de capacidade para se superar a si próprio. Talvez a consciência de estar a inventar um planeta artístico completamente inovador possa ter condicionado o instinto criativo do velho Jackson. Talvez isso tenha acontecido com Pollock. Talvez isso tenha acontecido a Deus quando criou o Universo.

O Expressionismo Abstracto vive muito da dimensão da obra e do gesto que a superficíe proporciona ao artista. Numa escala reduzida corre o risco de se tornar algo mesquinho e, simplesmente, pretensioso. Olhem-se os casos de Rothko e Franz Kline.

3 comentários:

Eduardo P.L disse...

Muitas ideias para se pensar! Uma delícia ver essas obras pelos seus comentarios!

Victor Afonso disse...

O meu sonho é um dia poder fazer este percurso artístico!

Silvares disse...

Eduardo, perante os objectos há outras portas que se abrem, portas que as imagens nas páginas dos livros não conseguem mostrar.

Victor, continua a sonhar porque se o fizeres vais visitar estes espaços e muitos mais. Pessoalmente, comecei tarde a fazê-lo mas agora vou lançado...
:-)