terça-feira, julho 07, 2009

Nova Iorque - Parte 2.1


Já estou em casa. Cansado como um canguru que tivesse andado perdido no Alaska, devido à diferença horária. Não durmo já não sei há quantas horas. Mas não há-de ser nada.


8 dias em Nova Iorque mais dois para ir e voltar já bastavam para desorganizar a cabeça que me resta. Este dia, que parece ter outro escondido dentro do relógio, é fogo! Tenho a cabeça a cozer em fogo lento.


Muitas coisas aconteceram. Há histórias mais ou menos interessantes para contar, como a do gajo que deitava salsichas para o lago no Central Park no dia 4 de Julho ou o estranho grupo que se reuniu uma noite no Higline Ballroom para assitir a um concerto do quarteto de Jazz de Charles Lloyd, mas, para o 100 Cabeças, parece-me adequado dar conta de algumas coisas que vi penduradas nas paredes dos museus de Nova Iorque.


Quando visitei o MoMA tive um vislumbre da dimensão da coisa. Se calhar não percebi nada mas fartei-me de tirar apontamentos.


Uma coisa que salta à vista é que os mestres da Arte Moderna aboliram o erro abrindo uma verdadeira Caixa de Pandora. Confirmei a impressão de que algumas pinturas de Picasso ou de Matisse (para citar apenas dois monstros sagrados) são simplesmente abomináveis. Coisas feias, desgraciosas, desiquilibradas, mal pintadas, sem chama nem o mínimo interesse. Mas isso não parece ser relevante. Estão nos livros de História da Arte e nos postaizinhos de "recuerdo" portanto... claro que estes artistas produziram obras-primas mas também deitaram ao mundo muito lixo, muita poluição visual.


De Chirico, por exemplo, aldraba alegremente nas sombras projectadas e nem sempre satura a superficíe com a tinta necessária para cobrir a tela ou organizar algumas pinceladas malucas que destoam nítidamente do espírito da obra. Mas isto só pode constatar-se "in loco". As reproduções nos livrinhos de arte são muito lisongeiras.


As esculturas de Brancusi (expostas num conjunto de 5) parecem uma metáfora da sobrepopulação da cidade. Atravancadas num pequeno espaço anulam-se umas às outras. Decerto que separadas teriam outra dignidade mas, caramba, há que mostrá-las, há que exibi-las a todas.


Muitas pinturas estão velhas, ganharam uma sujidade pouco saudável e têm o aspecto de um trapo de limpar o pó. Nas telas de Mondrian o amarelo está quebradiço e estalado. As outras cores não apresentam este sintoma de doença, apenas o branco está mais triste que o espantalho do Feiticeiro de Oz por não ter um cérebro que o alumie.


Isto não acontece na pinturinha de Dali (A Persistência da Memória) na sua sumptuosa técnica de óleo de linhaça. Brilhante e mais perfeita que a perfeição de um sonho impossível de ser sonhado. Ao lado o espectacular "Rouxinol Ameaçando Duas crianças" de Max Ernst mostra aquilo que cada vez mais prezo num artista: a sua versatilidade e capacidade de não ter um "estilo" definido. A capacidade de o indivíduo se inventar e reinventar constantemente a si próprio através da criação artística.


Bom, o post já vai longo e há muito mais para dizer. Por exemplo, o guarda da sala anterior estava a comer um chupa-chupa, com o pauzinho fora dos lábios, produzindo um ruído guloso, enquanto duas senhoras com ar de senhoras tiravam fotos com um flash radioso como o sol. O guarda (aquele guarda) não esboçou outro gesto que não fosse mais uma chupadela ruidosa. Parecia não estar ali, parecia uma daquelas personagens patuscas de uma tela de Miró.


Continuei a minha caminhada por aquela floresta artística.

6 comentários:

Beto Canales disse...

bom retorno

Eduardo P.L disse...

Oba, queremos mais! Sabor duplo, saber das obras e suas observações tecnicas/humor/críticas! Muito bom!

expressodalinha disse...

É por essas e por outras que não vou a NY. Bom regresso.

peri s.c. disse...

Talvez o guarda fosse uma obra de arte robótica-cinética. E sonora.

Lina Faria disse...

Por esse e outros flashes que as obras andam perdendo a cor.
Deveriam ter mais rigor com os chupa-chupas. hehehe...
Delicia de texto, Silvares.

Silvares disse...

Beto, já estou melhor, obrigado.

Eduardo, grato pela observação, vou continuar a postar sobre o assunto durante os próximos dias.

Jorge, aquela cidade é estranha. Parece não existir e, no entanto, é a mais real que até hoje visitei.

Peri, é bem observado. Não pensei nessa possibilidade. Devia ter tentado tirar-lhe o chupa da boca!

Lina, realmente os flashes não devem contribuir nada para a boa saúde das obras.