sábado, outubro 31, 2015

Rastejantes

Há uma paz podre que alimenta larvas e insectos rastejantes. Esta bicharada, acostumada a encher a boca com os detritos do costume, agita-se, patinhas nervosas, antenas a espadanar, barrigas a raspar o soalho em rápidos movimentos curvilíneos, sempre que tem a sensação de que virá alguém limpar a porcaria de que se alimentam.

O problema, argumentam estes seres rastejantes, é que ninguém poderá garantir que o corpo decrépito e apodrecido que lhes garante sustento, venha a ser substituído por outra coisa que os mantenha vivos e em ascenção permanente. O mundo húmido e penumbroso no qual progridem está posto em causa. Não admitem luz que os venha a repelir.

Assim se passam os dias.

sexta-feira, outubro 30, 2015

Esperança

Há quem deposite todas as suas esperanças em coisas que não valem nada. Os desesperados, os miseráveis, os ingénuos, os frágeis e os mais frágeis entre os mais frágeis, aqueles a quem a sorte e os poderosos não reconhecem capacidades para serem considerados seres humanos, precisam de algo ou de alguém que lhes possa dar um pouco de esperança.


domingo, setembro 06, 2015

Peito feito

É na próxima 6ª feira, 11 de Setembro, data de má memória para este mundo que tento meter dentro das coisas que faço. É na próxima 6ª feira que tenho marcada a inauguração de uma exposição com trabalhos da minha autoria. Pinturas, fotomontagens em photoshop, desenhos, colagens, objectos que criei ao longo de anos. As datas não interessam para nada.

O local é o foyer do Teatro Estúdio António Assunção, em Almada. Não é um espaço particularmente nobre. Mas eu também não sou nenhum princípe das artes. Quero que se foda. Só quero apresentar algo que seja digno de ser apresentado, que me faça justiça, que mostre como sou um gajo empenhado nesta merda.

Mas porquê? Porque faço a exposição? Porque sou um gajo empenhado nesta merda? As perguntas são fáceis, as respostas nem por isso. Será tudo isto fruto de uma mera e intensa vaidade?  Se me ponho a matutar demasiado nestas questões traiçoeiras acabo agarrado à cabeça, cotovelos apoiados na mesa e olhos fechados para não ver nada que esteja fora da minha mona.  O equivalente ao mito da avestruz com a cabeça enterrada na areia.

Vou espalhando objectos pelo atelier. Ora sinto uma forte convicção, ora sou amolecido por uma sensação merdosa de que tudo isto não serve para nada. Mas as coisas são o que são e os compromissos, para mim, são tudo. Comprometi-me a montar esta exposição. Portanto está tudo dito.

Não há tempo para dúvidas nem para questões retóricas nem para filosofias covardes. Agora trata-se de seleccionar e montar os objectos. É isto que eu vou fazer. O resto... o resto logo se vê.

terça-feira, setembro 01, 2015

O Arco da Governação

Em Portugal existe uma coisa terrível chamada “arco da governação” que é um artefacto transformador de políticos. O “arco da governação” funciona como uma espécie de portal entre o mundo das boas intenções e o universo da política pura e dura. Ao atravessar este arco, pessoas honestas são, quase sempre, transformadas em aleijões morais. Outros (Miguel Relvas ou José Sócrates, por exemplo) não sofrem a mínima alteração.

Quando um político atravessa o “arco da governação” e dá por si naquele instável universo, onde Não Há Alternativas (NHA), faz coisas extraordinárias tal como Kal- El debaixo de um sol amarelo se transforma no Super-Homem. Lembremos quando “Telmo Correia assinou cerca de três centenas de despachos como ministro do Turismo na madrugada do dia em que o novo executivo, liderado por José Sócrates, foi empossado (…) (Público,3/2/2008). Já refeito deste assomo de actividade frenética, Telmo é hoje um homem ponderado e recuperado para a boa governação. Podemos vê-lo com frequência a perorar sobre os mais variados assuntos num canal de TV noticioso. 

Tal como Bagão Félix que teve um momento de vertigem que levou “(…) Souto Moura [a encarregar o procurador-geral adjunto Azevedo Maia] de esclarecer os contornos do negócio (a adjudicação do Siresp) que os ex-ministros da Administração Interna e das Finanças, Daniel Sanches e Bagão Félix, respectivamente, assinaram três dias após as eleições legislativas de 2005. (Público, 14 /11/2006). 

Quem vê, nos dias que passam, Bagão Félix a emitir as suas pias opiniões no tal canal de TV ou aqui no Público, tem dificuldade em compreender que raio de coisa lhe terá passado pela cabeça naquela época conturbada para ter adjudicado o negócio, em Fevereiro de 2005, por 538 milhões de euros. É certo que por lá andavam metidos Dias Loureiro e Oliveira e Costa, à época “pessoas de bem”, conforme nos assegurava Cavaco e Silva, mas… valeu-nos o então novel ministro da Administração Interna, António Costa, que, recorrendo aos poderes adquiridos ao transpor o “arco da governação”, acabou por adjudicar o “Siresp ao único consórcio candidato, retirando algumas funcionalidades ao sistema, que desta vez custou 485,5 milhões de euros (Público, 14 /11/2006); ah, valente! Ainda assim, o Estado português acabou com um ruinoso negócio em mãos Investindo “(…) cinco vezes mais do que poderia ter gasto se tivesse optado por outro modelo técnico e financeiro.” (Público,2/6/2008) negócio que ainda hoje andamos a pagar com língua de palmo.

Há tantos outros casos que poderíamos recordar (oh, o clássico das 61 mil fotocópias, o aeroporto no deserto “jamais”, a Lusoponte…) mas penso que fica provado que o “arco da governação” é uma armadilha mortal para a honestidade dos animais políticos. 

sexta-feira, agosto 28, 2015

Zelo

Raras vezes a expressão “greve de zelo” foi aplicada com tão grande propriedade como na greve que os sindicatos da PSP puseram recentemente em prática, protestando contra a lentidão do governo em lidar com as suas reivindicações de classe. 

Os sindicalistas explicaram que as forças policiais iriam, durante a greve, adoptar uma atitude pedagógica em contraste com a habitual atitude repressiva, esperando, desta forma, pressionar o governo no sentido de satisfazer as suas pretensões. Ou seja, por um curto período de tempo, as forças policiais irão zelar, de facto, pelo cumprimento das leis, suspendendo a sua implacável prática da caça à multa e cassetete no toutiço, com que normalmente reprimem os cidadãos no quotidiano.

Mário Andrade, presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia afirmou (conforme a capa de “O Polícia”, boletim informativo do sindicato, de Dezembro de 2014) “Os direitos dos polícias estão acima de tudo!”. Isto é muito grave e contraria nitidamente a afirmação de que a “PSP tem por missão assegurar a legalidade democrática, garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos, nos termos da Constituição e da lei” conforme podemos ler no site da instituição. Qual é, afinal, o papel da PSP?

Bem sei que estamos longe dos polícias analfabetos, fardados de cinzento, com os botões de latão a saltar-lhes na pança e os bonés encarrapitados no alto de cabecinhas malévolas, como era de lei nos tempos da “outra senhora”. Hoje, a formação da maioria dos agentes, fardados de azul e com elegantes bonés tipo baseball, é mais do que suficiente para que tenham uma atitude cívica condizente com o que se espera de uma força de segurança numa sociedade democrática. No entanto, este episódio aparentemente inócuo, mostra bem que, entre o que se diz e o que se pratica, há um enorme gato escondido com muito mais do que o rabo de fora.

É por estas e por outras que, apesar de me considerar um cidadão respeitador da lei e de não ter razões para recear contactos com as forças policiais, ainda hoje, quando vejo um polícia fardado, não consigo evitar que a primeira coisa que me vem à cabeça seja a palavra “bófia”.


A polícia deveria marcar uma eterna greve de zelo.

quinta-feira, agosto 20, 2015

Ruídos

Há uma actividade para entreter criancinhas pequenas no bar da FNAC. Estou  sentado, de costas para a sala, bebendo um café, lendo o jornal, tento abstrair-me um pouco, concentrar-me na leitura, mas...

Há qualquer coisa que incomoda, um ruído constante, é música! Música infantil a ser debitada incessantemente pelas (potentes) colunas de som suspensas do tecto. De vez em quando soa um alarme estridente que fica a ganir por um minuto ou dois. Depois cala-se. Mais adiante volta a gritar.

Olho por sobre o ombro. Os petizes lá estão, a pintar, a desenhar, concentrados nas suas actividades. Os pais vigiam. Alguns adultos conversam, outros, como eu, tentam abstrair-se mas, na verdade, o que esperamos nós de um lugar assim?

Levanto-me e abandono aquele infernozinho. Nos corredores do centro comercial há música ambiente misturada no burburinho provocado pelas centenas (serão milhares?) de pessoas que por ali andam. Vou ao WC e a música é outra e soa mais alto. Nas lojas há mais música, no parque de estacionamento subterrâneo: música. Música, música, música! Não sobra um momento que seja em que não haja som amplificado a perfurar os tímpanos dos que por ali se aventuram.

De que me queixo? Alguém me obrigou a ir ali? Claro que não. Fui porque quis ir. Mas que raio se passa para haver tanta música, tanto ruído ininterrupto? Fico com a sensação de que alguém pretende que me distraia de mim próprio. Talvez seja isso. Não sei.

sábado, agosto 15, 2015

Genuinidade democrática


Qualquer cidadão de qualquer nacionalidade é elegível para obter o “golden visa”, basta-lhe ter dinheiro suficiente para pôr a salivar certos agentes económicos e as portas da Europa ser-lhe-ão abertas de par em par. Entretanto, no Mar Mediterrâneo, continuam a naufragar outros aspirantes a habitar este espaço genuinamente democrático que é a comunidade europeia. É tudo uma questão de capacidade de investimento. 

Os que morrem no Nosso Mar investiram tudo o que tinham para comprar o seu lugar miserável num bote mortífero, às mãos de traficantes sem escrúpulos. Os que compram moradias de luxo negoceiam com outro género de traficantes, nem por isso mais escrupulosos do que os outros mas os riscos que correm são praticamente nulos. 

É tudo uma questão de quantidade. Se forem podres de ricos, os aspirantes a um lugar deste lado do mar não encontram obstáculos. Se forem pobres têm assegurada uma aventura inesquecível: ondas, enjoo, muros, arames farpados, centros de detenção, anilhas e pulseiras, fome medo e, caso sobrevivam, talvez consigam um buraquito qualquer onde aconchegar o que restar das suas pessoas e dos seus entes queridos.

Esta diferença na atribuição de autorizações para habitar o espaço europeu é o retrato perfeito daquilo que somos, enquanto projecto social e político comum. O dinheiro impera, o dinheiro é deus, o dinheiro justifica tudo, limpa tudo, limpa-se a si próprio e limpa os crimes cometidos por aqueles que o acumulam. 

Nem quero pensar que algum do capital aplicado a comprar casas de luxo em Portugal seja proveniente do tráfico de emigrantes no Mediterrâneo ou do comércio de armamento nas guerras que os obrigam a navegar para a morte.

Se é isto que temos para oferecer aos países não democráticos ou a democracias pouco genuínas, não admira que nos odeiem e nos combatam com quanta força têm.


quinta-feira, agosto 13, 2015

Saudade

Não sinto grande saudade do passado. Pressinto uma saudade bem maior por coisas que ainda vão acontecer.

quinta-feira, agosto 06, 2015

Trampa

Imaginemos que Donald Trump chega a Presidente dos Estados Unidos da América. Estamos a imaginar...? Vá lá, só mais um bocadinho, um pequeno esforço de imaginação... pois é, a coisa não gera imagens particularmente agradáveis, pois não?

Que sociedade é capaz de gerar um candidato ao mais alto lugar da sua organização política com as características do descabelado Trump? Que doença, que droga, que alucinação colectiva pode fazer com que este homem seja levado a sério por uma parte significativa dos seus concidadãos?

Muito falamos dos líderes perigosos que governam partes deste mundo. Kim Jong-un, Maduro, Obiang, Eduardo dos Santos, ditadores mais ou menos populares nos seus países, a loucura e a ausência de direitos civis, caricaturas de democracias, tudo isto nos faz tremer um pouco. E se Trump vier a chefiar os EUA? Uma trampa!


domingo, agosto 02, 2015

Férias


É o calor, é a praia, são as férias. Tudo abranda sob a luz do sol mas a vida rola à mesmíssima velocidade que rodava quando do céu caía água, como se fosse o Dilúvio a chegar outra vez, a chegar fora de época.

Tendemos a relaxar, tendemos a relativizar, a reconhecer a excelência do que a Natureza nos ofereceu e nós oferecemos em segunda mão aos milhares de turistas que nos visitam. Em Agosto Portugal abre parêntesis na realidade e fica semelhante a um sonho de folheto turístico.

Ao longo deste mês Portugal faz de conta que não existe, faz de conta que não é isto e é aquilo.

Quando o sol fechar as contas, as esplanadas forem recolhidas e trocarmos os calções e as sandálias pelas roupas do costume... como estará este país?


quinta-feira, julho 30, 2015

Filosofia de tasca



Se João Miguel Tavares pudesse vir um bocadinho para dentro da minha cabeça, depressa compreenderia, com total nitidez de contorno, que a sua conversa sobre a realidade ser de direita (ler aqui) é uma refinada tolice. Claro que se fosse eu a viajar para dentro do cérebro de João Miguel Tavares decerto veria o mundo ao contrário daquilo que vejo, cá deste lugar que sou eu.

Poderia argumentar, por exemplo, que optar por estabelecer os opostos numa nova dicotomia, ricos vs. classe média, afirmando que “os verdadeiramente pobres são os que morrem silenciosamente no Mediterrâneo”, é um insulto a milhões de portugueses que não sonham o que seja isso de “classe média” porque são tão pobres como muitos dos que se afogam no Nosso Mar. Sei que o João Miguel Tavares não quer insultar ninguém mas, visto de dentro da minha cabeça, aquela sua dicotomia modernaça é uma coisa sem sentido. Para mim, que vivi a infância em pleno salazarismo, há pobres, ricos e remediados; uma espécie de tradução para a vida quotidiana da distinção entre paraíso, inferno e purgatório que me ensinaram nas sessões de catequese. Depois da revolução entraram novas classificações sociais: os camponeses e os operários ganharam forma, comecei a ouvir falar de luta de classes e a coisa fazia todo o sentido. Fazia sentido naquele tempo e continua a fazer sentido nos dias que agora correm, apesar das toneladas de maquilhagem que lhe atiram para cima da tromba, na tentativa de fazer com que ela (a luta de classes) deixe de ser verdadeira e se assemelhe a uma prostituta barata em fim de carreira.

E depois temos a TINA que, vista daqui, é uma espécie de canga como a que se arriava no cachaço das bestas que haviam de puxar o arado. Agora há tractores e jovens agricultores, já não há carros de bois e alcoólicos analfabetos, mas a vontade de lutar por uma vida melhor não deixa de ser parte da realidade. Agora há pulseiras electrónicas e prisões domiciliárias mas a sede de justiça nem por isso é saciada. Quando me lembro da miséria absoluta que era o meu país há 40 anos percebo como agora vivemos incomparavelmente melhor. Também percebo que, para se ter operado tamanha transformação, foi necessário gritar muito, fazer muita greve, atirar muitas calhoadas à TINA e levar umas quantas bastonadas no toutiço. Nada do que temos hoje nos foi oferecido de mão beijada nem vai durar para sempre. É por essas e por outras que recuso a ideia de que a realidade seja de direita; a direita precisa de ser ajudada a exercer a justiça. É um favor que a esquerda lhe costuma fazer e vice-versa.

Na minha juventude aprendi muitas coisas encostado a balcões de tasca, ouvindo bêbados e todo o género de filósofos analfabetos. Foi na tasca que aprendi que a realidade é o que nós fizermos dela. Nas aulas de Filosofia a coisa ficava muito confusa.


sábado, julho 25, 2015

Percepção

Por vezes penso como terão sido os últimos anos do Império Romano. Qual terá sido a percepção dos seus habitantes relativamente ao desmoronar do mundo em que viviam? Quando se terá instalado a angústia do fim do seu tempo?

A União Europeia, herdeira directa do sonho de uma Europa magnífica sonhada por uns quantos idealistas em meados do século passado, está a transformar-se em merda perante os nossos olhos e, no entanto, a vida decorre pacífica como até aqui. Enquanto a coisa não se desfizer completamente, enquanto o edifício não ruir com estrondo, iremos viver a nossa vida quotidiana como se nada se passasse.

Amanhã comprarei o jornal, o pão, farei o café, viverei o novo dia como se fosse ontem, imaginando que a coisa se manterá, mais ou menos semelhante, ao longo da próxima semana. E depois? Depois... logo se verá. Nada é eterno.

domingo, julho 19, 2015

Arte sem artistas

A sequência de acontecimentos rocambolescos desencadeada pela inauguração das novas instalações no Museu do Chiado dá que pensar. Fica a sensação de que falta bom senso e sobra rigidez de espírito. Tantos doutores, curadores, suas excelências, pessoas tão cultas, tão informadas, a fina flor dos que pensam e organizam o pensamento alheio nos assuntos das artes plásticas, ofereceram, a quem lhes quis prestar atenção, um espectáculo de ópera bufa com argumento muito pobrezinho.

Parece impossível que gente tão embrenhada no trabalho, conhecedora dos mecanismos mais complexos em termos de museologia e exposição de beleza, seja incapaz de encontrar o ponto de equilíbrio necessário à ultrapassagem de conflitos que, assim à primeira vista, parecem ser fruto de coisitas menores, mesquinhas sementes de conflito. Encabeçados por um secretário de estado aparentemente despojado de poder de decisão, hesitante e subserviente, personagem menor num elenco executivo de baixa qualidade, os senhores das artes portuguesas andaram à cotovelada e à canelada à vista de toda a gente.

Da mesma forma que passámos de uma sociedade rural, com 30% de analfabetos em 1970, para uma sociedade ao estilo europeu, com os actuais 5% de analfabetos, saltando da miséria total para um consumismo acéfalo, deslocando os basbaques dos bancos das igrejas para os corredores dos centros comerciais, também no nosso pequeno universo artístico saltámos de um estado de indigência fascistóide para um admirável mundo de novos intelectuais que aprenderam tudo sobre arte mas parecem não saber nada sobre relações humanas ou interesse público. Terão faltado à aula onde foi explicada a relação entre Ética e Estética?

Presidentes disto, directores daquilo, extensas filas de variados doutores, agarrados ao croquete e ao copinho de vinho doce, olham a populaça lá do alto das janelas do palácio onde a beleza é encerrada e curtem a glamourosa vernissage. Muita finesse, muita beautiful people que, no fim do dia, olhou as obras expostas com a mesma elegância com que o boi olha o palácio enquanto rumina a erva do almoço. Muita arte sem artistas.


quarta-feira, julho 08, 2015

Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Hybris - Desmesura. Sentimento que conduz os heróis da tragédia à violação da ordem estabelecida através de uma ação ou comportamento que se assume como um desafio aos poderes instituídos (leis dos deuses, leis da cidade, leis da família, leis da natureza). A hybris ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos. O herói trágico não tem consciência dos seus erros.

Pathos - Sofrimento progressivo, do(s) protagonista(s), imposto pelo Destino (Anankêcomo consequência da sua ação.

Ágon - Conflito (a alma da tragédia) que decorre da hybris desencadeada pelo(s) protagonista(s) e que se manifesta na luta contra os que zelam pela ordem estabelecida (a diké, a justiça). É, no fundo, a luta entre o bem e o mal.

Anankê - É o Destino, a inevitabilidade. Encontra-se acima dos próprios deuses que não podem desobedecer-lhe.

Peripécia Acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos que compõem a ação dramática; rumo contrário ao que o desenrolar da ação até então poderia fazer esperar.

Anagnórise (Reconhecimento) -  O reconhecimento pode ser a constatação (compreensão) de acontecimentos acidentais, trágicos, mas, quase sempre, se traduz na identificação de uma nova personagem.

Catástrofe - Desenlace trágico, que deve ser indiciado desde o início, uma vez que resulta do conflito entre a hybris (desmesura, ameaça de desordem) e a anankê (inevitabilidade), conflito que se desenvolve num crescendo de sofrimento (pathos) até ao clímax (ponto culminante).


Katharsis (Catarse) - Purificação das emoções e paixões (idênticas às das personagens), efeito que se pretende da tragédiaatravés do terror (phobose da piedade (eleosque deve provocar nos espectadores

terça-feira, julho 07, 2015

Uns pós de Democracia

Jean-Claude Juncker veio lembrar que a Zona Euro é composta pela democracia grega e outras 18 democracias. Uma espécie de 18+1=19 que permitiu ao presidente da Comissão Europeia fazer pedagogia sobre os problemas económicos que afligem tanta gente por essa Europa fora. Afirmou ainda que acredita na possibilidade de se encontrar uma solução na casa da democracia europeia, em Estrasburgo.

Decerto que, quando estabeleceu acordos secretos com 40 multinacionais, oferecendo-lhes acordos fiscais extraordinários, lixando bem lixados os restantes parceiros europeus, este nosso guardião não reuniu na casa da democracia. Quanto dinheiro das dívidas soberanas andará por aí espalhado em negociatas deste calibre ou arrecadado em off-shores manhosos? O que lucraram os povos de Portugal, da Grécia ou da Irlanda com o endividamento brutal das suas economias?

Olho para aquelas reuniões de ministros na casa da democracia, acompanhados dos seus assessores, conduzidos pelos seus motoristas, alojados em belos hotéis, a manjar em restaurantes de luxo … como podem ser estes gajos a reflectir sobre a melhor forma de acudir aos que têm fome? Temo que estejam mais preocupados em alimentar aquela corte faustosa do que em pensar como se resolvem os problemas dos pobrezinhos.

Dizem-nos que andámos a viver acima das nossas possibilidades e, por isso, contraímos uma dívida que levaremos décadas a pagar. As operações financeiras são tão complexas, tão difíceis de compreender, que a maioria das pessoas não percebe nada. Pagamos mais impostos, trabalhamos mais e temos piores hospitais, piores escolas, piores serviços e os desequilíbrios sociais acentuam-se a olhos vistos. Uma parte considerável do produto do nosso trabalho esvai-se no pagamento da dívida e reverte a favor de quê? A favor de quem? Em que é aplicado o dinheirinho que andamos a pagar tão religiosamente?

Aqui há uns anos atrás falou-se de pós-democracia, um sistema político em que a democracia representativa fica cativa de elites não sujeitas a sufrágio que se representam exclusivamente a si próprias. Depois, a discussão sobre esse admirável mundo novo que andaria a ser construído à nossa volta, esmoreceu e caiu no esquecimento. Olha-se para a paisagem actual da União Europeia e… se não é exactamente isto que se está a passar, não sei o que seja, caraças!


Jean-Claude Juncker deveria ter a hombridade de admitir que Estrasburgo é a casa da pós-democracia europeia. Podemos ser pelintras mas não somos burros!

segunda-feira, julho 06, 2015

Quem é esta coisa?

Estou confuso e desorientado. Os últimos dias têm sido uma vertigem europeia. O continente não consegue entender-se nem consigo nem com os os que tentam chegar-se, vindos do resto do mundo.

A designada "questão grega" vai tornando cada vez mais nítidos os limites do "projecto europeu". Quem vive estes dias na Europa e tenta prestar atenção aos acontecimentos fica com os miolos virados do avesso.

Terão os gregos protagonizado o primeiro e decisivo passo no sentido de colocar todo um continente a mirar-se ao espelho, ao ponto de o fazer repensar a estranha construção sócio-política que vem tentando de há umas décadas a esta parte? Irá a "Europa" fazer-se de cega e ignorar o que se passa à sua volta, permitindo que o periclitante edifício que habita desabe como um castelito de cartas?

Por outro lado, continuam a chegar às costas mediterrânicas milhares de pessoas que fogem à guerra, à fome e à miséria, iludidas por histórias que não sabemos bem quais são mas que as atraem em direcção a esta coisa informe.

A Europa parece não ter respostas à altura das circunstâncias. Nem para uns nem para outros.

domingo, junho 21, 2015

As vozes

Sinto-me azedo. Devo estar estragado. As vozes dentro da minha cabeça querem comer-me os olhos. As vozes dentro da minha cabeça querem fazer-me cego. Mas eu quero continuar a ver e faço de contas que não as ouço.

As vozes dentro da minha cabeça não podem ter a certeza de que se fazem ouvir. Vou conseguindo manter o poder da visão. As vozes na minha cabeça estão agitadas. Falam umas por cima das outras. Já não sussurram. Agora todas falam alto, algumas gritam. Mas eu aguento a confusão e continuo a olhar para o mundo.

As vozes dentro da minha cabeça querem comer-me os olhos mas, estou em crer, as vozes não têm dentes. Na verdade querem assustar-me, fazer-me acreditar que não vejo. Mas ainda agora vi um bebé a sorrir e reparei que as nuvens eram tão brancas que o céu ganhou uma maravilhosa tonalidade de azul . 

sexta-feira, junho 19, 2015

Esquecimento absoluto

Não, eu também estou de acordo.
Sim, já não existe uma luta de classes. O que é isso!?

Quando se fala em "luta de classes" há sempre algum doutor pronto a explicar que isso é uma coisa do passado, que nas actuais democracias ocidentais essa designação não faz sentido.

Pois, não poderia estar mais de acordo, a luta é coisa do passado; actualmente vivemos é uma guerra! Uma guerra de classes.

É uma guerra fria, uma guerra não declarada entre inimigos impossíveis de conciliar. De um lado o exército do Capital. Do outro lado o exército dos Contestatários. O Capital tem armamento muito superior ao dos Contestatários que, no entanto, são um exército muitíssimo mais numeroso. É a guerra da força contra o número.

Não se vislumbra a mínima possibilidade de alguém ou alguma coisa conseguir debelar a intensidade deste confronto, embora muitos estejam convencidos de que um entendimento proveitoso para ambas as partes pudesse ser alcançado. O que falta em bom senso sobra em ambição.

Há quem afirme que esta guerra vai durar enquanto houver um mínimo de organização social. Os mais extremistas destas teorias pensam que, mesmo que a nossa espécie regresse a um estado civilizacional vegetativo, a um sistema de organização de nível pré-histórico, existirá um fosso a separar uma minoria que explora a maioria e que tende a acumular os bens produzidos ou recolectados.

Mesmo que voltemos a subir às árvores para dormir uma noite mais ou menos descansada a guerra de classes não deixará de minar as nossas relações sociais, não deixará de corroer o futuro. Assim, o futuro nunca se distinguirá significativamente do passado até que ambos colidam num estrondoso novo Big Bang, um fabuloso Big Bang filosófico e conceptual que irá atirar a memória do nosso tempo para um limbo que nenhuma outra espécie jamais será capaz de aperceber.

Será o esquecimento absoluto. 

terça-feira, junho 16, 2015

Pé atrás

As coisas não são como são. As coisas são como as vamos fazendo ou como permitimos que outros as façam defronte aos nossos orgulhosos narizes. Mas há muito quem argumente que "não poderia ser de outra forma", que "o que tem de ser tem muita força" e os mais fatalistas arrumam a questão com o clássico: "é a vida, o que é que se há-de fazer !?".

"Perante factos não há argumentos"... peço desculpa mas sou obrigado a colocar uma ou duas questões antes de acenar afirmativamente que sim, que sim senhora. A verdade é que os factos nem sempre são, de facto, factos. Quantas e quantas vezes não se veio a perceber que um dado adquirido era, afinal, um dado perdido? Que uma certeza não passava de um logro, que o futuro havia sido mal desenhado e que o adivinho da moda não passava de um charlatão apoiado numa mão cheia de suposições travestidas de factos?

Ok, ok, há factos indiscutíveis. terá sido a pensar nesses que alguém criou a frase que abre o 2º parágrafo. Mas anda por aí muito gabiru que, à boleia do dito, nos quer enfiar todo o tipo de patranhas goela abaixo e olhos dentro. Eles vêm armados de gráficos, frases floridas, fatiotas bonitas, perfume e falinhas mansas. É preciso estar alerta.

Resumindo: perante factos, à cautela, o melhor é argumentar. Quanto mais não seja chegamos à conclusão de que, perante aquele facto, não há argumentos.

segunda-feira, junho 15, 2015

Ira

Por vezes é complicado engolir certos desaforos sem responder com a violência desejada. Uma educação cristã ajuda a cagar no assunto e a deixar andar o barco. Não é uma questão de oferecer a outra face, não vale a pena exagerar, é apenas ser capaz de perceber que a covardia e a pequenez de espírito também se explicam.

Mas a coisa fica a roer cá dentro, caraças. A vontade de rebentar... deve ser isto o tal pecado da Ira.

Apesar de não acreditar no Inferno nem em sítios desse género, o melhor é ignorar certas coisas que são ditas por quem ainda tem muito que viver e, certamente, muito também para aprender. Tal como eu.