Pouco havia a fazer pois a maioria dos cidadãos tinha já bem enfiada na cabeça uma imagem perfeita de quem ele era. Os que ainda não o olhavam de lado, com a desconfiança própria dos enojados da vida, era porque não o conheciam embora também entre esses houvesse muitos já tinham ouvido falar do Pataqueiro, manifestando desde logo disposição para verter veneno corrosivo sobre a sua imagem, por mais difusa que fosse lá por aquelas cavernas cranianas deficientemente iluminadas.
O homem falava demasiado? Podemos dizer que sim, que era muito falador, mas é crime dizer alto o que silenciosamente pensamos? O homem era vaidoso? Sem dúvida, vá-se lá saber porquê. Um bocado desleixado em termos higiénicos? Inegavelmente, a sujidade debaixo das suas unhas era motivo de espanto geral e a tendência para meia dúzia de copos a mais não ajudava a compor o ramalhete. Mas era também um tipo bonacheirão, capaz de ajudar quem precisasse de alguma coisa que ele tivesse para dar embora o que tivesse para dar fosse sempre muito pouco.
Na balança do deve e do haver das qualidades humanas não ficava a dever grande coisa fosse a quem fosse, antes pelo contrário.
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