segunda-feira, agosto 10, 2026

Fazer fé na incógnita

     Tenho a impressão de já ter escrito isto que vou agora escrever: a Humanidade vai vivendo em tom de final de festa. 

    A banda toca de forma mecânica, há ainda alguns pares que resistem, que vão dançando, se bem que em passo cambaleante. As senhoras da limpeza já começaram a meter os copos de plástico dentro de sacos, também eles de plástico. Há porcaria por todo o lado; garrafas viradas, restos de comida, o chão está peganhento. Não tarda alguém vai cortar a luz ou o sistema eléctrico irá colapsar e depois... depois nada. Depois o esquecimento. Nem Deus se safa.

    Ou então não.

    Depois de a festa acabada talvez cá fiquem uns quantos para semente. Talvez se consigam reerguer ou manter sistemas sociais complexos que permitam aqui e ali a sobrevivência da Humanidade. Talvez no futuro não haja grandes bailes mas pequenos bailaricos. Talvez Deus se aguente. Talvez regressem os manuscritos e os carpinteiros voltem a ser, a par dos pedreiros, as pessoas mais valiosas da comunidade. 

    Quem sabe? 

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