segunda-feira, abril 15, 2013

Gritaria


O que fazer quando os nossos maiores esforços são olhados com a indiferença que costumamos dispensar às coisas que não são coisa nenhuma? Quando o produto do nosso trabalho parece não valer nada talvez seja aconselhável abrandar, abrandar, abrandar... estar quase, quase a desistir, quase a parar, a desligar, a ficar quieto. Apagar-se.

Se há coisa que me irrita é perceber que os meus trabalhos são coisas penduradas na parede ou apoiadas num suporte qualquer que podem ser olhados como se de posters publicitários se tratassem. A indiferença é filha da preguiça após acasalamento com uma besta qualquer.

As pessoas passam, conversando com o parceiro do lado, distraidamente. É o ambiente da vernissage, muito chill, muito leve, coisa de fim-de-tarde. Quem te manda a ti participar nestas cenas macacas? Já não sabes como é? As pessoas estão aqui pelo social, a arte é um pretexto acessório.

Os leigos passam pelas obras expostas como cão por vinha vindimada, os experts não se impressionam com nada; a arte, para eles, não tem o mais pequeno dos segredos. Os experts são todos curadores ou para lá caminham, esses artistas na arte de expor o trabalho dos outros.

É por isso que enfiar-lhes um murro nos cornos (um horror pelos olhos dentro) ou dar-lhes um grito por baixo das pernas que lhes desoriente os ouvidos (uma forma banal com um título imbecil) seja sempre o que me apetece fazer.

Um dia hei-de fazer uma exposição que seja uma gritaria.

3 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Ótimo texto, se não fosse a mais pura e desavergonhada verdade.

Silvares disse...

Infelizmente (ou felizmente?) assim me parece que as coisas, normalmente, acontecem.

the dear Zé disse...

Força! e eu vou lá estar para ver