sábado, novembro 21, 2009

Em busca do tempo perdido



Pela primeira vez desde há décadas, o Vaticano experimenta uma reaproximação ao mundo das artes, tentando encontrar no diálogo com os seus protagonistas o tempo perdido num ou dois séculos de progressivo afastamento. Esse desencontro ter-se-á alargado com o tempo em que a sociedade se foi dessacralizando à medida que o discurso científico se foi afirmando num espaço democrático, em contraponto a um discurso religioso demasiado rígido e dogmático, incapaz de alargar as fronteiras do seu pensamento de modo a ajustá-las à liberdade de expressão individual.

A coisa começou a dar-se há muito, muito tempo, quando a Igreja católica deixou de ser a principal fonte de encomendas para o mundo das artes, coincidindo com o surgimento de uma sociedade de contornos cada vez mais nítidamente capitalistas. Nos dias que correm a produção artística é encarada mais como uma actividade económica do que como forma de expressão de narrativas globais e de síntese de um pensamento humanista que se pretenda que seja a matriz principal das sociedades ocidentais. A arte centrou-se em si própria, discursando sobre questões de índole estética e com contornos individualistas, cortando o cordão umbilical que a liga à sociedade que lhe dá a vida.

Até aqui, a igreja estava-se bem a borrifar para tudo isto, acreditando talvez que a fé dos homens poderia passar sem a muleta da imagem artística para a sustentar. Na verdade, num mundo mediático onde a imagem reina sobre todas as coisas, mesmo a fé não pode ignorar a força ciclópica da produção artística.

O Papa, que não é parvo nenhum (pode ser muitas coisas pouco recomendáveis mas parvo não é uma delas) procura agora recuperar uma aliança que em tempos (estou a lembrar-me da Contra Reforma) deu frutos mais do que apetitosos mesmo que alguns tenham nascido em árvores proibidas.

É um facto que o universo religioso é um dos campos mais férteis para a criação artística, pelo espaço maravilhoso e transcendente que propõe à reflexão dos seres humanos. É com agrado que registo este reaproximar entre dois universos que andavam alheados um do outro. Pessoalmente nunca deixei de acreditar na salvação da alma através da arte.

5 comentários:

Lina Faria disse...

É, "antes arte do que tarde". Alguém falou isso. Não me ocorre agora.
Porém, fico a pensar como seria o imaginário sacro, no"pós-tudo".

Lina Faria disse...

Voltei para comentar sobre o tríptico.
Você pinta e muito bem. Qual a dimensão da obra?

Silvares disse...

Lina, o imaginário sacro vai depender de quem o interpretar. A igreja, aqui, está a entrar em terrenos que lhe poderão escapar ao controlo.

Quanto ao tríptico, se clicar sobre a imagem ou nas hiperligações do título por baixo vai encontrar a informação.

Victor Afonso disse...

A pergunta que se devia fazer é: o que aprendeu o Papa com os artistas?

Silvares disse...

Não creio que tenha aprendido nada. Acho que ele não os convocou para aprender mas sim para tentar ensinar alguma...