Aproximou-se coxeando de uma forma impossível. As pernas muito largas, enfaixadas nos tornozelos, moviam-se pesadamente, mal afastando do chão as solas dos sapatos. Não consigo explicar porquê, mas aquilo parecia resultado de laboriosa encenação. Ao mesmo tempo era absolutamente plausível que alguém com tal corpulência arrastasse os pés e coxeasse como aquela mulher fazia, ainda que um leve sorriso lhe surgisse e fugisse dos cantos da boca como se provocado por discretas descargas eléctricas.
Aproximou-se e parou à distância de uma curta conversa.
"Tenho pessoas pequeninas dentro da cabeça que, vai-não-volta, me contam anedotas que não sou capaz de compreender." Disse isto de um fôlego sem despegar de mim uns olhos arregalados que não pestanejaram nunca, como se me estudasse atenta e alucinadamente. Sustentei a coisa o melhor que pude o que lhe permitiu abertura suficiente para concluir: "não compreendo as anedotas mas acho-lhes graça." Fiquei a olhá-la, os dois ali especados no meio do passeio, no meio da calçada, o sol ainda dócil por vir longe o meio-dia.
Pensei em sair dali para fora, para longe do incómodo que aquela situação me provocava, pensei em afastar-me do que imaginei ser loucura absoluta. A mulher inclinava-se ligeiramente sobre o seu lado direito; talvez o manquejar não fosse mentiroso. Tenho uma imaginação capaz de me pregar certas partidas. Talvez ela compreendesse muito bem o que se passava dentro da minha cabeça. Talvez ela percebesse o que eu estava a pensar naquele preciso momento. Ou talvez não fosse nada disso o que a levou a declarar entre soluços: "choro lágrimas que vêm sujas de raiva."
Virei costas e fui à minha vida.
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