Não sei bem se possa considerar como problema o facto de nunca ter ambicionado nada muito mais além do que aquilo que vejo, nada muito maior do que aquilo que possuo, não tenho a certeza que a ausência de ambição possa ser classificada deficiência de carácter.
Há dias, como o dia de hoje, em que sinto um bicho cá dentro, encostado ao meu coração, a pressioná-lo, a aproximá-lo um pouco da garganta provocando uma leve falta de ar que me obriga a um suspiro. Profundo. Logo depois já me anda a esgravatar as circunvoluções da massa encefálica, procura alguma coisa que desconheço, é um bicho inconveniente, convocado vá-se lá saber por que forças abstrusas, animado por estranhos e secretos desígnios.
O bicho faz-me desejar algo maior, algo mais grandioso, algo mais longínquo, o bicho desassossega-me. Ou se vai embora ou ainda transforma um dia que se previa calmo e rotineiro numa coisa angustiante, algum desejo megalómano a desabar vindo lá do alto dos meus sonhos. A cair, a cair, o precipício dentro de mim é infinito.
Há dias, como o dia de hoje, em que gostaria de encontrar as bruxas que lixaram Macbeth. Ouvi-las, ansioso por saber se o escuro destino me reserva algo mais do que aquilo que sou capaz de imaginar.
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