terça-feira, outubro 11, 2011

Linguagem figurada

A democracia portuguesa parece estar doente. Pensando bem, a democracia portuguesa parece sofrer de alguma doença congénita, uma malformação que lhe tem impedido um desenvolvimento saudável. Para funcionar convenientemente, uma democracia carece não só de liberdade de escolha e de opinião, mas também de instrumentos que fiscalizem de forma objectiva e isenta as instituições democráticas. É nesta capacidade de fiscalização que a nossa democracia falha completamente desde a mais tenra idade.

O sistema democrático baseia-se grandemente na qualidade dos cidadãos e na confiança que estes estabelecem com as suas instituições. No caso do nosso pais toda a gente sabe que não se pode confiar no estado nem nos tribunais e, muitas vezes, nem sequer se pode confiar nas forças policiais, mesmo nas situações mais comezinhas do quotidiano. Os cidadãos vivem em permanente confronto com instituições cuja principal razão de existência seria a sua protecção e não a sua repressão, como frequentemente acontece.

Quando digo “cidadãos” excluo as minorias privilegiadas que erradamente designamos, com demasiada frequência, por “elites”, uma vez que o conceito de elite está relacionado com aquilo que de melhor existe numa sociedade e não com a capacidade de contornar as leis e as regras em proveito próprio. Vivemos num pais que se diz democrático e que, na prática, se comporta como se o não fosse. Tal como uma grande parte dos católicos se dizem “não praticantes”, assim somos nós, os portugueses, no que toca à democracia.

Temos uma sociedade civil fraca e que facilmente é “metida na ordem”. Basta agitar um qualquer papão mais ou menos assustador e aqueles que ontem se manifestavam e agitavam as ruas da cidade de imediato se perfilam, lavadinhos e brilhantes, perante o olhar benevolamente reprovador do chefe ao passar em revista as forças produtivas da nação. Somos assim, ladramos demasiado, mordemos muito pouco e acabamos quase sempre a lamber as botas que nos pontapeiam com desprezo.

E somos governados por personagens sem fulgor nem a mínima centelha do mais pequeno génio. Algumas dessas personagens são mesmo desonestas e nós aceitamo-las e oferecemos-lhes o poder de mão beijada. Somos governados com demasiada frequência por pessoas ignorantes e incultas, com uma visão do mundo própria de crianças acabadinhas de sair de uma aula de catequese na qual lhes explicaram o inferno e as fizeram nele piamente acreditar. E agora não são capazes de acreditar nem compreender mais nada. São pequeninos.

Uma democracia exige governantes humanistas e não simples tecnocratas de pacotilha para os quais “ser humano” é igual a “doismaisdoissãoquatro”. Após 37 anos de democracia alguns de nós ainda dizem que se trata de uma jovem democracia. Quando se tornará ela adulta a ponto de se emancipar dos fantasmas do salazarismo e do PREC? Somos como uma multidão de cegos guiada por um pequeno grupo de líderes cujas barrigas não lhes permitem ver onde poisam os sapatinhos.

6 comentários:

Eduardo P.L disse...

Muito boa análise! Claro que muitas outras "democracias" padecem do mesmo mal, não sendo portanto exclusividade portuguesa!

expressodalinha disse...

Cada povo sente à sua maneira... e quer mais e melhor.

rui sousa disse...

Se calhar estamos metidos dentro de uma roupa com a qual não nos identificamos. A democracia, a lei, a liberdade são conceitos abstractos que servem melhor aqueles que se conseguem abstrair e nós não temos essa faculdade, somos muito mais tribais (herança árabe?), somos mais terra a terra, mais pragmáticos e objectivos e reagimos mal à subjectividade e à discussão de ideias. Perdemo-nos nas dialécticas e nos sofismas, ou como dizia o outro: falamos, falamos e nunca fazemos nada. Mesmo em relação à liberdade, que é a grande bandeira da democracia, nunca lhe sentimos muito a falta ao longo da nossa história (tirando, talvez, o período do estado novo) porque sempre nos sentimos andarilhos, sempre fomos conjugados no verbo “ Ir “. Existe maior liberdade que essa, de poder ir por conta e risco, para onde bem nos apetecer e quando nos apetecer? Essa é verdadeiramente a nossa grandeza e aquilo que sabemos fazer melhor do que ninguém: perdermo-nos. Hoje estamos a ficar cada vez mais deprimidos porque decidimos vestir uma roupa que decididamente não é a nossa. Metemos na nossa cabeça (ou meteram-nos) que temos que ser iguais ao mundo em vez de sermos aquilo que queremos ser e o resultado é este: estamos perdidos mas infelizes, como o resto do mundo, em vez de perdidos mas felizes, como devíamos estar.

Silvares disse...

Eduardo, o mal é global... pelo menos por enquanto.

Jorge, alguns povos querem melhor mas recebem, apenas, pior.

Rui, dificilmente poderia imaginar comentário mais bonito e, simultaneamente, mais certeiro!
.-)

the dear Zé disse...

pois!...

Silvares disse...

... morreram as vacas e ficaram os bois (foi só para rimar :-)