domingo, maio 01, 2011

Subitamente... santo!


Não tenho nada contra a mitificação de certas personagens, promovida por determinados grupos, com o objectivo de consolidar as fundações das suas crenças e da sua razão de existir. O Benfica tem o Eusébio, Portugal tem Dom Afonso Henriques, a igreja católica tem uma galeria infindável de santas e de santos que ajudam a manter a fé de multidões de crentes. Por mim está perfeito, cada macaco no seu galho, parece-me bem e de acordo com a lei divina.

A beatificação de João Paulo, aclamado "santo subito" pela populaça, é algo absolutamente legítimo. É uma das muitas situações que me ajudam a compreender com clareza porque razão é para mim impossível ser católico. Lá que declarem santo quem muito bem entendam, já o disse e repito, parece-me absolutamente legítimo, mas que o façam recorrendo à certificação de milagres comprovados com carimbo e assinatura divina, isso já ultrapassa as fronteiras do aceitável.

Eusébio foi um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, tem uma estátua à porta do estádio do Benfica e é, ainda, adorado por multidões de devotos da biqueirada na chincha. Os seus feitos extraordinários estão registados e podem ser comprovados com a maior das lisuras.

Dom Afonso Henriques fundou a nacionalidade desta coisa que temos por baixo dos pés e a que chamamos Portugal, a pátria muito amada e isso. Tem também uma estátua em Guimarães e, talvez, mais umas quantas por esse país fora, não sei se tem ou não, mas se tivesse não seria nada de mais. Foi guerreiro de méritos comprovados e espertalhão q.b., tudo isto é verdade verdadinha. Não é?

João Paulo II até pode ter sido um gajo porreiro, um daqueles bonzões adoráveis, capazes de fazer derreter os corações mais empedernidos. Mas, daí a ter realizado milagres... custa-me a engolir. Aliás, foi ele e mais uns milhares de santos da igreja, o que mostra como este mudo é um lugar de incontáveis acontecimentos muito para lá do maravilhoso e do fantástico.

Que seja santo. Ok. Mas que a santidade seja reconhecida pela correcção e pela bondade da personagem e nao por razões que a razão não pode reconhecer sem incorrer na mais negra das mentiras.

12 comentários:

Eduardo P.L disse...

Concordo em gênero, número e grau! Aliás era exatamente esse o texto que tinha vontade de ter escrito quando soube dessa notícia! No meu texto teria Pelé no lugar do Eusébio, e Cabral no lugar de Dom Afonso, mas de resto...

Silvares disse...

A cada povo os seus heróis (que no caso dos nossos dois povos até os há em comum!)

Pandora disse...

Sinceramente, me custa acreditar em santos em qualquer tempo, quanto mais nos dias de hoje... Humanos são falhos demais para serem santos e fazedores de milagres... Mas, reza a lenda que todo papa depois de morto vira santo, talvez nós erdeiros do século XX, habitantes do XXI estejamos apenas desacostumados a isso, talvez o erro de compreensão esteja em nós e não neles, vai saber!

expressodalinha disse...

Mas também, convenhamos, santo ou não santo, qual é a diferença?

Silvares disse...

Pandora, tem razão, esta coisa de milagres parece mais própria do tempo em que os animais falavam!
:-)

Jorge, a diferença está entre ser ou nao ser, como diz o outro!
:-D

luisM disse...

Neste assunto pouco posso avançar. É tudo uma questão de crença. Podemos é discutir os dogmas à luz do que o homem hoje sabe. A beatificação é a prova interna da existência de deus.

O que é curioso é existirem uns "malucos" (sem preconceito, porque até lhe vejo alguma utilidade) que procuram descobrir razões científicas para os milagres. Refiro-me aos que buscam os restos da arca de Noé, para perceberem como surgiu o dilúvio, que procuram justificações para as 7 pragas do Egito, para a estrela dos reis magos e coisas assim. Uma questão muito simples, a ciência não explica tudo, o homem tem milhões de anos, mas agora é que iniciou a sua própria descoberta. Existem mistérios em frente dos nossos olhos que nos deixam estupefactos. Para isso ser aceitável construímos mitos que nos aproximem dessas realidades e as integrem na complexidade da vida, ainda hoje. Se chegamos à compreensão racional desses fatos é uma coisa que não se sabe. Aqui o que não percebo é o problema das forças e capacidades humanas serem insuficientes para a explicação total do que experienciamos, desde que se procure.

É a questão do absoluto, que se coloca, profundamente enraizada em nós. Ainda não sabemos lidar com o relativo. Também tem só cem anos de existência, o que é isso na história da humanidade!

Quanto ao papa...É uma forma de cultura...

the dear Zé disse...

não sejas herege, santo que é santo, só com certificado cientifico, aliás é como aqueles dentífrico e iogurtes com bifidus e trifidus que, está cientificamente comprovado que fazem um bem do caraças. aliás é como para trabalhar no estado, só com atestado de sanidade mental e de robustez física, para não falar do cadastro...

e ó pró sr. Luís armado em intelectual, isto é, em satanás a segregar o veneno da dúvida...

ficai bem, e que deus e o novo santo beato vos perdoe

luísM disse...

Zé, já me confessei, em privado é claro, porque não acredito que o pároco me perdoasse, principalmente porque, se calhar, não entendia muito bem o que lhe dizia.

Silvares disse...

Luís, resumindo, se um santo é um homem ( e uma santa é uma mulher) não bastaria o seu exemplo de humanismo extraordinário (quando existe) para satisfazer os gajos lá da paróquia que decidem da justiça da coisa? Procurar provas que ratifiquem o milagre é coisa... do outro mundo!

Dear Zé, será que a coincidência da data de beatificação com a da captura e abate do Bin Laden estão relacionadas? Será essa a prova definitiva da santidade do Papa polaco? Afinal Bin Laden era uma espécie de personificação do Mal, aos olhos do mundo Ocidental...

expressodalinha disse...

Mas este já era antes de o ser... Coisas da igreja.

luisM disse...

Silvares, pois também acho que era suficiente, no meu modesto ponto de vista. O que é curioso é a procura de provas para uma coisa que tem a ver com dogmas e com a crença. Quer dizer, provas que expliquem o que não pode ser explicado. Não será paradoxo? E, por aqui, a conversa poderia ir para tantos lados...

Silvares disse...

Jorge, é o "santo pescada"!

Luís, não tarda andam para aí gajos empenhados em criar uma máquina que dê para gravar provas da existência do próprio deus!