sexta-feira, julho 01, 2011

Pequeno conto fantasma

Havia dias em que aquela sensação se instalava. Era um apertozinho no lugar onde deveria estar o coração. Era uma coisa tão leve, tão discreta que, não fora a doçura do mal-estar que provocava, poderia passar despercebida mesmo para aquele que, inadvertidamente, era o seu dono.

Quando aquela coisa dava sinal, ele lembrava-se que apenas a tinha esquecido. A coisinha decerto sempre lá estivera, escondida ou a preguiçar, isso pouco significado tinha neste caso. Como a sensação de desconforto não ultrapassava a discreta força de uma brisa interior ele nunca se inquietava, era coisa de pouca importância. Mas, naquela dia, naquela visita, havia qualquer coisa ligeiramente diferente. Uma diferença mínima que, como iremos compreender daqui a nada, acabaria por se revelar determinante.

Desta vez, aquela coisinha que noutras ocasiões até lhe trouxera aos lábios sorrisos enternecidos, pareceu-lhe manhosa, foi capaz de o desassossegar. Ainda assim não se sobressaltou de imediato. Não era possível, a coisinha, desta vez, parecia-lhe perigosa! De súbito suspeitou que, na verdade, ela sempre fora um perigo. Que era uma coisa dissimulada, que sempre disfarçara a sua verdadeira força, a sua origem demoníaca e que agora atirava para trás o manto de bonomia que lhe escondera as intenções destruidoras. Finalmente sentia-se capaz de cumprir a sua missão e punha-se assim, a descoberto.

Ele estremeceu amedrontado. Sucumbia à temível revelação. Albergara durante tanto tempo aquele terrível inimigo no aconchego do seu peito, acarinhara um mal maior do que era capaz de imaginar e agora era tarde para o enfrentar. Demasiado tarde.

Compreendeu que aquela ligeira sensação de desconforto se tornava dura e efectiva. Rodava-lhe no peito como uma serra eléctrica capaz de despedaçar o pouco que restava da sua habitual confiança na solidez inabalável do quotidiano. Compreendeu que tudo se iria desmoronar nos próximos instantes e ele nada poderia fazer para impedir a hecatombe. Compreendeu que aquilo que estava a acontecer iria transformar por completo o seu papel neste mundo e no outro. 

Foi nesse instante que se viu a si próprio sentado onde estava, estupefacto. Viu claramente que era dois corpos com uma só e a mesma alma e a inteligência do mundo dividida em duas. Sentiu uma vertigem. Planou. Por momentos sentiu-se a planar para logo regressar a um dos seus dois corpos, continuando dentro do outro, o que estava ali sentado com extrema dificuldade em abarcar a brutalidade do momento. 

O outro ele encostava-se calmamente ao parapeito de uma janela aberta no vazio entre os dois mundos simultâneos que, percebia agora, sempre habitara sem saber. Olhava-se, sentado naquela estúpida cadeira, como se sempre ali tivesse estado, esperando este momento decisivo. Aquela coisinha inquietante sempre habitara o aconchego do seu peito e agora, finalmente, nascia. Nascia no dia e no momento da sua própria morte.

2 comentários:

expressodalinha disse...

A clareza não escolhe oportunidades. Vem. Surge e mata. Sempre atentos. Nem que seja, para nada.

Silvares disse...

Por vezes o mal é tão suave que podemos até acarinhá-lo...