sexta-feira, abril 22, 2011

Leituras



Tenho andado às voltas com Roberto Bolaño. Concluí a leitura de mais um livro da sua autoria "Os Dissabores do Verdadeiro Polícia", uma estranha obra que o malogrado escritor não chegou a concluir mas que acabou por ser compilada e organizada para edição, seguindo um conjunto de pistas e sinais mais ou menos decifráveis. É um livro estranho pois surgem diversas personagens de outros livros, principalmente de "2666", que mudam completamente de aspecto, nuns casos, ou são aqui completadas, através da narração de cenas que não foram descritas no livro anterior.


Mais uma vez é o puro prazer da literatura que impele o leitor a deambular por estas páginas sem conclusão, nem moral da história,  nem horizonte para alcançar. Tal qual a vida! Sem tirar nem pôr.

Entretanto, entre um Bolaño e outro, fui lendo "As Aventuras de Robinson Crusoe", leitura que não fiz na minha adolescência, mais dedicada a Júlio Verne ou Mark Twain, só para dar dois exemplos e que hoje concluí.

Dificilmente poderia encontrar tão notável contraste. A obra de um escritor do século XVIII e a de um contemporâneo, lidas em paralelo, mostram bem a evidência de como o tempo e o lugar determinam o aspecto do objecto artístico.

Crusoe é uma narrativa em disparo de escopeta, sem paragens nem descrições minuciosas.As personagens distinguem-se pela ausência de grandes (ou pequenas) subtilezas psicológicas. É a aventura que conta, o puro fascínio pela capacidade de sobrevivência, a descoberta da força que nos mantém vivos nas mais adversas circunstâncias. Uma história em linha muito recta, uma narrativa com princípio meio e um fim a prometer novas façanhas. Um clássico, como me parece que serão os clássicos desta natureza.

Já Bolaño é um verdadeiro artista sem estilo definido, capaz de tocar uma série de instrumentos em simultâneo, criando uma narrativa repleta de texturas diferentes, deixando o leitor cair nuns buracos atrás de outros, armadilhando cada palavra, provocando explosões ineperadas e magníficas a cada passo.

Enfim, leituras! O prazer de ler é quase tão grande como o prazer de correr e saltar ou gritar a plenos pulmões. O que lerei agora? Estou a olhar ali para as duas edições que tenho do Dom Quixote de que nunca concluí a leitura.

8 comentários:

Chapa disse...

Podias tentar a biografia do Passos Coelho ou do Sócrates, não te esqueças que a Páscoa é um período de sacrifícios.

Silvares disse...

Chiça penico!
:-)

luisM disse...

Experimenta, como ainda tens tempo antes de nova jornada, espreitar "O Cego de Sevilha" de Robert Wilson. Custa 7e e 50 na Fnac e tens um fresco sobre várias coisas, nomeadamente a guerra espanhola embrulhada na frente leste da 2ª guerra e o novo riquismo que sai sempre desses conflitos, talhado em vidas mafiosas. Tudo como deve ser. Se descontarmos a época, que não é assim tão longínqua, até parece que estamos na atualidade.
Ou dito de outro modo, é uma atualidade das crises, desde que, por volta de 1830, as utopias republicanas e democráticas deixaram as preocupações de liberdade e igualdade universalistas, assentando no tipo de poder que ainda temos, dedicando-se ao negócio... Universal.

E que tal, "A Volta ao Dia em 80 Mundos"? Também deve ser uma boa viagem, mas nesta ainda não entrei.

Luma Rosa disse...

Se a obra confusa não foi concluída pelo autor, não me arriscaria e diante de tanta descrições, imagino ser monótona, perto da dinâmica de Robison Crusoe.
Talvez uma obra como "Os aniversariantes" de Beryl Bainbridge - ganhadora por 5 vezes do Man Booker Prize. Seria interessante ler por aqui um parecer sobre a obra.
Feliz Páscoa!! Beijus,

expressodalinha disse...

Ganhou-se em densidade psicológica, o que se pedreu em narrativa. Será isto?

Eduardo P.L disse...

Já que o assunto é comparações, acabei de ler mais um Roberto Bolaño e comecei outro do Amós Oz, "UMA CERTA PAZ", que ainda não havia lido. Não há como deixar de se fazer comparações! Ambos prolixos, introspectivos, modernos e inventivos, mas muito diferentes em suas semelhanças! Ambos escritores para se ler, pensar e aprender muito sobre como se escreve um texto delicioso!Concordam?

Jornal da Anselmo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Silvares disse...

Amigos meus, agradeço do fundo do meu cérebro as sugestões de leitura que ficam registadas.

Eduardo, não conheço suficientemente Amos Oz para poder responder-lhe. Talvez algum dos restantes signatários destes comentários possa dizer algo de concreto.