segunda-feira, abril 11, 2011

Caminhos de salvação


O tema não é novo e já o devo ter abordado antes por estas bandas. Trata-se da salvação da alma. Melhor dizendo, trata-se de reflectir sobre as vias que conduzem o ser humano no caminho da salvação da alma.

O monopólio religioso parece estar definitivamente afastado. Com a sedimentação das sociedades laicas no mundo ocidental a arte veio reclamar um papel importante nesta luta pela descoberta do caminho que orienta o ser em direcção à Luz. Muitos são os que encontram conforto na beleza pura que são capazes de vislumbrar num objecto artístico, de forma (talvez) semelhante aos que se sentem puros em meditação dentro de uma igreja.

Seja a igreja católica, protestante, um templo budista ou uma mesquita, a sensação de plenitude e comunhão com o todo representado pela divindade, esvazia a alma humana de angústias e medos que a devoram se não estiver protegida. Também a arte, nas suas múltiplas formas e manifestações, conforta e protege, tanto os hereges quanto os crentes.

A novidade é a crescente vontade de participação dos crentes e dos amadores de arte, uns na vida das respectivas igrejas, outros na construção de objectos artísticos com maior ou menor intensidade estética. A palavra de ordem é: PARTICIPAR.

A fotografia digital, os milhentos cursos particulares de teatro, pintura, guitarra, workshops das mais variadas linguagens e meios de comunicação, vão espalhando alegria e realização pessoal entre um número cada vez maior de cidadãos. Podemos estar desapontados com a democracia enquanto sistema político mas não temos esse direito quando a democracia se revela na multiplicação das possibilidades de acesso à cultura ou ao conhecimento artístico (e outros tipos de conhecimento).

No meio de toda esta confusão em que se vai transformando a nossa organização política e social, um bem maior emerge, luminoso e enorme: a liberdade de expressão! Quando tudo o mais fenece ou perde vigor, a liberdade de expressão impõe-se como via de ascensão da alma aos prados verdejantes do paraíso intelectual. É esse caminho que vos proponho, meus irmãos leitores e visitantes ocasionais, libertai-vos, purificai-vos, a arte é o caminho da salvação!

16 comentários:

afonso disse...

Amén, irmão Rui! :)

Olaio disse...

Deixai-se tar filhos, deixai-vos tar, com a vossa "liberdade de expressão" e com a vossa "criação artistica", que o FMI trata-vos do canhestro, assim como os amérikas tratam do canhestro aos afgãos, os da nato (Nós!?!?) tratamos do canhestro aos libios e os franceses prendem mulheres de véu... e o nobre quer ser presidente da AR e... o barco vai ao fundo, mas irei agarrado à minha obra de arte, qual crucefixo... feliz enfim, por encontrar deus

Silvares disse...

Afonso, amen!

Olaio, não te agarres à liberdade de expressão e vais acabar a boiar num mar de merda agarrado aos tomates.
:-)

Olaio disse...

Meu caro, muito mal estarei eu ou tu, quando só tivermos a dita "liberdade de expressão" a que nos agarrar, nessa altura acreditar que ela não ficou lá para trás há muito tempo, deve ser um exercício de ilusão tão grande como acreditar que a firme fé em deus conduz à "salvação" da alma.
E depois há uma coisa que não consigo compreender, como é possível haver liberdade seja de expressão ou diabo-a-quatro, sem democracia na sua plenitude, seja ela política, económica, social, cultural?
Parafraseando-te direi, “No meio de toda esta confusão em que se vai transformando a nossa organização política e social, um bem maior” está cada vez mais difuso e ameaçado: a liberdade de expressão!
E quanto a isso, não há processos de alienação que nos safem da barbárie para que caminhamos.
:o))

the dear Zé disse...

ia dizer ámen, mas depois de ler aqui umas coisas, bom apetece.me dizer, por exemplo, que as mulheres que reclamam o véu em França, são uma ofensa para as mulheres dos países árabes que lutam e têm lutado pelo direito a não o usarem, são vergonha para todas as outras, inúmeras, mais ou menos anónimas, corajosas mulheres que têm sido humilhadas, agredidas e mortas na luta pelo direito terem um rosto e uma identidade.
é que, meus amigos, por vezes um certo anti racismo de esquerda bem intencionado, cai muito facilmente numa condescendência paternalista, que se calhar ainda é pior porque disfarçada...
(e isto para não falar da defesa da "revolução" Líbia desse santo iluminado Kadafi... enfim)

abraço compadre Silvares e desculpa algum abuso

rui sousa disse...

É normal na natureza humana, só querer alimentar a alma quando se tem a barriga cheia e é muito difícil convencer as pessoas a alimentarem a mesma alma quando a barriga está vazia. Por isso é que estes momentos, como o que nós agora vivemos, é muito propenso para o aparecimento dos Estalines, dos Hitlers e dos Salazares do mundo. As pessoas estão desesperadas e vendem a alma ( porque o corpo já nós o vendemos há muito tempo )na primeira oportunidade que tivermos. Depois, como dizia a grande Natália Correia, ficamos subalimentados do sonho, e portanto mais embrutecidos e animais, mas isso é outra história.

Olaio disse...

the dear Zé, como te compreendo.

Que melhor exemplo se pode dar em defesa das populações líbias do que serem os “nossos” aviões a mata-los, são balas santas, são balas carregadas de liberdade de expressão misturadas com urânio, que serenam os mercados… e sem cheiro a pitróil…tão bonito!

E que belo e melhor exemplo, nós poderíamos dar na defesa dos direitos das mulheres árabes, nos seus países, do que prende-las na Europa por usarem véu … como são estranhos os caminhos de deus e como é grande a fé em sarkozy… aquele grande defensor da liberdade, que recebeu dinheiro de gadafi para as campanhas eleitorais do seu partido.

E venha o fmi que o baile continua…

Silvares disse...

Olaio, não há dúvida, acabas agarrado aos tomates a boiar no tal oceano.
:-D
Achas que não usufruis de liberdade de expressão? O FMI é um velho conhecido nosso, «uma comandita de filhos da puta com cabeças de porco "large white"», como diz o outro...

Dear Zé, neste post quis apenas afirmar a minha fé na salvação da alma (social) através da prática artística. O Olaio anda sempre mal disposto mas cá pra mim é um crente fervoroso. Quanto à questão da burqa merece uma análise específica.

Rui, pois, eu sei que esta questão se coloca apenas quando atingimos um grau de satisfação mínima das nossas necessidades mais básicas. Havendo retrocesso nesse aspecto correremos riscos de outra ordem...

Olaio disse...

Honestamente Rui, achas que posso considerar que tenho liberdade de expressão quando a meu lado há milhares, milhões de concidadãos meus que a não têm?
Achas que nos locais de trabalho, deste nosso Portugal tão mal tratado, as pessoas são livres de se exprimir? Achas que toda esta geração de trabalhadores precários é livre de se exprimir nos seus locais de trabalho, ou sequer de se sindicalizar?
Mesmo no tempo do fascismo (mas isso existiu?) se tinha liberdade de expressão, bastava não chatear o poder..., mas isso chega-te?
... e por aqui me fico que a conversa já vai longo e por aqui não vai ficar :o)

luisM disse...

Perdoem a intromissão tardia, mas o que se esteve aqui a fazer não foi um exercício de liberdade de expressão? Os pontos de vista diferem e parece-me que quem os defende não está a encriptar o discurso para evitar que lhe apareçam uns senhores de fato a bater à porta de madrugada. A liberdade de expressão não é a poção milagrosa, nem tem poderes mágicos para conjugar as forças cósmicas e mudar o mundo, digo eu.
Dependendo da ideia de justeza da sua prática, do modo como é feita, dos conteúdos e da (digamos) profundidade, pertinência e rigor, pode ser o despoletar de práticas atuantes, tal como pode ser um agente adormecedor, retórico e propagandístico dos poderes vigentes. E até pode matar, ou deixar morrer, se for tão acutilante que deixe o poder momentaneamente sem defesas. Independentemente de tudo o que se possa argumentar na exemplificação dos seus limites éticos, políticos e sociais, é uma prática fundamental na mudança e na resolução de problemas. Mas não "vive" sozinha, necessita de ser complementada com outros modos de agir. Tal como a ideia de democracia, deve ser exercitada quotidianamente. A democracia plena não existe agora, nem sei se alguma vez aconteceu um tal estado de graça com a durabilidade suficiente para fundamentar uma prática qualquer de regime. Sem ir mais longe na história, o que temos vivido tem sido a fórmula de democracia representativa. Com um grande défice de participação, de tal modo que a "elite" dirigente se enquistou nos lugares cimeiros de onde tem dominado sem um controle efetivo e consequente responsabilização das suas decisões e atos.

Quanto à salvação da alma, fica para outro dia, isto se tivermos alma e se estivermos na condição de sermos salvos. Havia um rapaz por aí que dizia (perdi-lhe o rasto no interior dum livro) que a técnica mudava o modo de vida e as práticas quotidianas, mas a arte é que levava à mudança das mentalidades e a novos modos de encarar a vida. Até que é bem visto...

Perdoem o peso das letras, mas às vezes vocências puxam-me pela língua...

expressodalinha disse...

SEM DÚVIDA, ÁMEN.

Silvares disse...

Olaio, a liberdade de expressão ou se exerce ou não. O importante é que haja o direito de a exercer. Há muito boa gente que opta pela posição da ovelha, uns por imposição, outros por conveniência ou interesse. O ponto mais importante parece-me ser a sua existência de facto.

Luis, podes fazer pesar as letras como bem entenderes. O rapaz a quem perdeste o rasto no interior de um livro (esses labirintos repletos de espelhos :-) dizia muito bem...

Jorge, que a arte nos faça ser quem somos!

luisM disse...

Parece-me que a liberdade de expressão não é só a possibilidade de falar, é também o direito de falar com propriedade ( com o conhecimento de causa possível) e de contrapor sem constrangimentos. O processo visa não só a informação mas a reflexão, a descoberta das causas dos fenómenos e a apresentação de modelos de pensamento, de pontos de vista sobre a realidade, de valores. O erro da prática democrática é limitar o conceito ao abrir a boca, ao "falazar". Claro que assim não passamos da conversa em torno do óbvio (para não dizer do fútil, visto aqui como a mera descrição dos fenómenos), do epidérmico, ou, em situações mais emotivas e dramáticas, na descarga de tensões acumuladas. Isto todos os sistemas de poder perceberam. De vez em quando há que soltar "a besta" para se acalmar. Neste aspeto aproximo-me das considerações do Olaio, que situa a sua perspetiva nos mecanismos de controle da liberdade de informação nas sociedades democráticas. Mas é uma análise limitativa, porque se pode ir mais além, como nesta conversa a vários temos exemplificado. Deste modo estamos trabalhando na direção da democracia participativa, porque ocupamos o nosso tempo encarando os factos e tentando clarificar os seus sentidos e significados. Estamos a reduzir (um bocadinho, mas agora não é um problema de quantidade) o tão referido "défice democrático", cómodo para os nossos mandantes. Não esquecer que, para o verdadeiro poder atual, o capital financeiro, a democracia é o regime mais propício ao negócio. Mas a solução não é acabar com ela.

Este é o problema do iluminismo e das revoluções republicanas, parlamentaristas, do séc XVIII. A sua utopia nunca se cumpriu. Agora, quem se sente bem, acha que deve ficar inacabada. Quem acha que não é suficiente, refila, contesta e tenta ir mais além. Qualquer liberdade de expressão está incluída neste processo.

Saudações a todos.

Silvares, tens que trazer umas imperiais para estas conversas, fico com securas! A minha pode ser preta?

Silvares disse...

Sai uma preta prá mesa da janela!

Olaio disse...

Sobre a liberdade de expressão neste nosso tão mal tratado país: "Sofia Branco, jornalista da LUSA (e ex-jornalista do "Público") recusou-se a escrever uma notícia que atribuía a José Sócrates uma frase que ele só diria no dia seguinte. Achava, veja-se lá, que os jornalistas escrevem notícias, não fazem comunicados do gabinete do primeiro-ministro. E que um jornalista só atribui a pessoas frases que elas disseram, não frases que elas talvez venham a dizer" http://arrastao.org/2233654.html

Silvares disse...

É a tal cena da posição da ovelha...