Se é isto a grandeza da América bem podem metê-la no cu. E ainda lhes sobra espaço.
sábado, janeiro 03, 2026
Outra vez veneno
foto tirada numa rua de Atenas, próxima da praça de Omonia
Tinha várias ideias razoavelmente fofinhas para um ou outro post. Coisas pouco angulosas, visões fugazes, sombras esquecidas, sensações registadas em pleno vôo; cenas mais ou menos assim, em forma de quase nada. Mas eis senão quando, esta manhã, ao ligar o telemóvel para espreitar as "gordas" das notícias, dou de trombas com a invasão da Venezuela pelas tropas do costume.
Desde essa hora há uma frase que não me sai da cabeça: seja qual for o ângulo sob o qual olho para esta merda, vejo sempre o mesmo cagalhão. Assim mesmo, com toda esta elegância que a situação não merece menos.
sexta-feira, janeiro 02, 2026
O Deus do mar
Começo 2026 a recordar algo que aconteceu muito recentemente, no ano passado. Eu e a Ana íamos iniciar uma viagem com Atenas por destino. Comprei um livro, "O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas, para ler no avião e lá pela Grécia. Mas pus-me a olhar para o volume de quatrocentas e tal páginas e pensei "isto é pesado, ocupa muito espaço, vou procurar um livrinho para levar". Assim fiz.
Subi ao sótão, subi à escadinha que encosta às prateleiras e fiquei com o nariz ao nível de uma fileira de livros de Jorge Luís Borges. Esbeltos, pequeninos, livros perfeitos para ler em viagem tal como já havia feito anteriormente. Peguei em Atlas, um volumezinho que não me lembrava de ter lido. O livro tinha uma marca. Abri-o. No topo da página o título do texto: O templo de Poseidon.
Caraças! Mais uma daquelas coincidências que podem deixar um gajo confuso e a acreditar que alguma força, poderosa e extraterrestre, está a estabelecer contacto, a enviar sinais evidentes de que um gajo não está só no Universo. Fechei o livro e, como é evidente, foi o que levei comigo. Li-o (ou tê-lo-ei relido?) na viagem de regresso.
Entre uma coisa e outra visitámos o referido templo. Estava um frio de rachar!
Bom Ano Novo.
quarta-feira, dezembro 31, 2025
Amanhã
O ano de 2025 tropeça e cambaleia em direcção ao seu fim. Envelhecido. desiludido, enganado por tudo e por todos, vê incumpridas todas as promessas que fez e lhe foram feitas. O logro do costume. Mais logo haverá um Novo Ano e a euforia irá invadir corações e empolgar espíritos; novas promessas serão juradas, abraços, beijos e foguetório. O Futuro resume-se a um ritual vazio de conteúdo.
Amanhã será tudo aparentemente novo. Por um ou dois dias ainda iremos acreditar que uma data no calendário transporta consigo poderes mágicos e capacidades transformadoras mas, dentro de uma semana, mais um ou dois meses, já teremos esquecido tudo, de tal modo voltámos a mergulhar na espuma dos dias.
Poderias perguntar-me: mas isso é bom ou é mau? A minha resposta não seria satisfatória pois nada disto faz sentido por aí além. Talvez tudo seja apenas um sonho. Talvez acordes antes de bater a meia-noite.
quarta-feira, dezembro 24, 2025
É Natal
São como enxames de mosquitos numa zona pútrida: são aquelas mensagens de Natal e Boas Festas que te enviam lojas, comerciantes e várias instituições que, por vezes, desconheces em absoluto. Querem continuar contigo porque se preocupam, querem oferecer-te alguma coisa excepcional e irrecusável porque te amam, enchem-te as caixas de correspondência com frases feitas e imagens repugnantes que escorrem falsidade por todos os lados.
Apagas sem ler, afastas aquelas coisas incómodas com enfado mas, algum tempo depois, lá estão outra vez. Podem ser de outras lojas, de outros amigos fictícios, mas são sempre a mesma ranhosice. Não queres aquilo, não conheces aquelas coisas mas elas não te deixam em paz; são mensagens após mensagens após mensagens, demasiado personalizadas, abusivas, como se houvesse algum grau de intimidade, algum segredo entre ti e o fantasma digital que te envia aquela merda.
É Natal. Todos os que imaginam poder vir a tirar algum tipo de proveito de uma relação que não existe te declaram amor e interesse, te prometem mundos e fundos e ficam à espera não sabes bem de quê. Não fosse a tua família e isto poderia ser o início de uma grande desgraça.
domingo, dezembro 21, 2025
Perguntas
Tenho a impressão que já anteriormente escrevi o que vou agora escrever: os textos deste blogue são como mensagens deitadas ao mar em garrafas à espera que as encontres e tenhas curiosidade de ler o que vai lá dentro. Ok, mas qual o interesse que poderás ter em semelhante leitura e qual o meu objectivo em pretender esperançadamente que o faças? Há perguntas que mais vale não colocar.
Com os meus desenhos e pinturas passa-se mais ou menos a mesma coisa ou, pelo menos, algo muito semelhante. Vou produzindo obras a um ritmo elevado se bem que não a um ritmo constante. Serão dezenas por anos (chegarei à centena, ultrapasso esse número?). Em 99% dos casos trabalho sobre papel pois não tenho atelier ou armazém que suporte tanta produção noutro tipo de superfície. Pinto, desenho e... vai para o monte, para a pasta, é tudo devidamente organizado e arrumado ficando ali, em suspensão, à espera, como animal selvagem escondido na selva. Para quê? Porquê? Há perguntas que são escusadas.
Uma página no Facebook e outro blogue acabam por servir de repositórios para grande parte das coisas que vou produzindo. Escrevo, desenho, pinto, vou deixando os resultados por aí como o Polegarzinho deixou um rasto de migalhas no chão da floresta para não perder a noção do caminho para casa. Haverá pássaros que devorem os meus sinais e me façam, um dia, perder por completo? Há perguntas simplesmente estúpidas.
Enfim... acho que vou começar uma nova pintura e não vou colocar qualquer questão sobre este impulso.
quarta-feira, dezembro 17, 2025
Gostar ou não gostar
Gostava muito de ser capaz de organizar ideias suficientes que me permitissem trabalhar o mesmo texto ao longo de dias, semanas, meses, anos, quem sabe? Gostava muito de ser um escritor capaz de ir além de meia-dúzia de linhas emaranhadas em ideias confusas. Quem sabe?
Por vezes uma ideia aparece-me de repente, assim como imagino que o anjo tenha aparecido à Virgem, puf! Materializa-se uma coisa que no milésimo de segundo anterior era como se não existisse. Ainda eu não pude percebê-la, ainda o pó provocado pela materialização não assentou, e já a ideia referida se escapule por entre as pernas das mesas e das cadeiras, deslocando-se rente ao chão com uma velocidade que, embora me deixe seguir a forma não me permite vislumbrar muito mais do que um vulto. O coelho da Alice? O Beep-beep? O Alien bebé do 8º passageiro?
Gostava muito de conseguir focar a minha atenção por mais de 5 minutos e 5 linhas quando tento explanar algo ou alguma coisa através da escrita. Gostava de não me comportar como uma criança numa loja de brinquedos imaginários... não gostava nada.
domingo, dezembro 14, 2025
Os merceeiros do Apocalipse
Empolgados no segredo dos seus sonhos pelo mito do Paraíso descrito nos livros sagrados, alguns dos nossos antepassados recentes, sobreviventes dos horrores da Segunda Guerra, quiseram construir o Jardim aqui na Terra. Foi assim que começou a construção daquilo a que hoje chamamos União Europeia.
A sensação de justiça e segurança social atrai para este sonho gentes de todas as latitudes. Eles vêm de países ricos, de países pobres, de países assim-assim, seduzidos pelo sonho cristão quase tornado realidade. Milhões de não-cristãos, convertidos ao ideal das Escrituras sem disso se darem conta. Apesar de continuarem a frequentar as suas mesquitas e sinagogas, os cativados imigrantes vão-se transformando numa outra coisa. De tal modo que os filhos dos seus netos não terão memória de quem foram.
Eis que o terrível mito do anti-Cristo vai ganhando corpo mas, inesperadamente, não é um ser terrível, não são 4 cavaleiros, são merceeiros do Apocalipse, comandados por um tonto imbecil. Um velho gordo e narcisista, com um penteado impossível para disfarçar a careca, como se a estupidez e a ganância pudessem esconder-se numa caverna sustentada a laca.
Compreendemos agora como as narrativas épicas do passado e a grandeza dos heróis que erigiram este mundo pode ter sido exagerada e orientada pelos próprios. Na verdade, sempre tivemos o destino traçado apesar de isso ser uma impossibilidade cósmica.
