sábado, março 29, 2025

O fantasma

     Já ali não havia dia nem havia noite. Apenas um estado de paroxismo permanente; um espanto, uma estupidificação, uma ausência de sentido no fluir do tempo. A cidade; ruído infinito, movimento perpétuo.

    Ali estava ele. Cambaleante.

    As palavras salivavam-lhe nos lábios e ele a cuspi-las. As palavras saíam-lhe da boca acompanhadas de grunhidos, roncos animalescos, sons que só naquela cabeça faziam algum sentido. Aquele ser vivo não iria morrer tão depressa apesar de a vida não lhe fazer grande falta. 

    Transmigrava suavemente para a condição de fantasma.

terça-feira, março 25, 2025

Árvore Imunalógica

    

Árvore Imunalógica (inacabada)
acrílico sobre papel de aguarela em folhas de tamanho A3
7X42cm de altura

    A lua, uma aranha, hipopótamo, um nome, uma ideia, homem, mulher, espírito, o sol, luz, montanha, nuvem, jaguar, o livro, floresta, rio, pássaro, fantasma, nota de banco, elefante, demónio, fogo, coisas pequenas, infinito, tudo, nada, algo impossível e o seu contrário, eis algumas das formas de Deus. Desenhar a árvore genealógica de Deus, entidade híbrida por excelência, é tarefa deveras ingrata. Ao reflectir sobre o assunto encontrei uma árvore, sim, mas imune a qualquer tipo de lógica, encontrei uma “árvore imunalógica”.

segunda-feira, março 24, 2025

Deus(es)

     Montanha, nuvem, jaguar, livro, floresta, rio, pássaro, fantasma, nota de banco, elefante, fogo, coisas pequenas ou imensuráveis, tudo, nada, algo impossível e o seu contrário, eis algumas formas de Deus.

    Deus! Umas vezes único, outras vezes múltiplo mas sempre poderoso e capaz dos feitos mais extraordinários. Deus ora te ouve e te vigia, ora te abandona à tua sorte. Vai-te lixar. Ou te castiga ou te premeia ou se mostra indiferente ao que quer que possas fazer. Deus é desconcertante, os deuses nem tanto. Traz-me um chá.

    Cogumelo, serpente emplumada, automóvel de grande cilindrada, sol, escuridão, tudo, nada, algo impossível e o seu contrário, eis algumas formas de Deus.

    Talvez pudesse continuar por muito tempo, talvez pudesse escrever muitas linhas, muitas páginas, porque Deus é tantas coisas, são tantos os deuses, mas já estou um bocadinho chateado. Fico por aqui.

sábado, março 22, 2025

Trampa

     Trump está apostado em transformar-se num vilão de Banda Desenhada. Um vilão meio apatetado, sem noção de quem é. Está convencido de que é grande mas é apenas gordo, imagina ter um penteado icónico mas é apenas careca, vê-se como um rei mas, a ser rei, não é mais que o rei dos merceeiros. Trump é uma figura de opereta.

     Trump é mau, é má pessoa, está todo podre, tem a alma apodrecida. É um bicho fedorento ferido no seu amor próprio e todos sabemos que uma besta ferida se torna triplamente perigosa. Trump está a fazer tantas coisas estúpidas, tantas coisas incompreensíveis, tem tanto poder e tão pouca inteligência (nenhuma sensibilidade) que é um perigo até mesmo para a cambada que acredita nas mentiras dele, que continua à espera que aquela boçalidade seja uma coisa fôfa, que a maldade tenha, afinal, inspiração divina (algo que não me surpreenderia).

    Trump é um cancro que, caso não venha a ser debelado, irá transformar o mundo todo em trampa. Como ele.

terça-feira, março 18, 2025

Uma árvore imune à lógica

     Se tentarmos estabelecer uma árvore genealógica de Deus deparamos com a imensidão do Nada. 

     Deus não tem uma árvore genealógica. Deus tem uma árvore imunalógica.

quarta-feira, março 12, 2025

A Máquina

     A Inteligência Artificial (IA) oferece a quem a ela recorre um padrão de pensamento, um denominador comum a toda a informação colectada em relação ao assunto que o utilizador pretende abordar. A sua capacidade para estabelecer uma rede de conexões entre tantos pontos relacionados com o tema quantos o disco rígido contém (os que lhe foram fornecidos mais os que a IA criou por osmose) e a rapidez com que executa tal tarefa conferem-lhe uma aparência de totalidade esmagadora. A máquina é como se fosse Deus e vice-versa e oferece-nos a resposta, a síntese da sua sabedoria, como quem atira um osso a um cão.

    Mas, não será isto (mais) uma ilusão? A máquina resume num sopro aquilo que sabe, e sabe imenso, mas não sabe tudo, a máquina não tem como saber tudo. Então, aquilo que dela recebemos é sempre conhecimento parcelar e circunstancial por mais vasto que seja.

    Fico com a impressão de que a única certeza que recebo da IA é a certeza de que ainda não fomos capazes de imaginar nada que chegue aos calcanhares do que imaginamos ser Deus.

quarta-feira, março 05, 2025

Imprecação matinal

     Havia de chegar um comboio caído do céu que atropelasse aquela cambada de filhos-de-uma-grande-puta que os pariu! Havia de existir um deus verdadeiro, um deus justo que existisse mesmo e lhes atirasse para cima uma doença, uma sarna peganhenta que lhes pusesse o corpo todo numa chaga e os obrigasse a andar pelos cantos a coçarem-se como cães sujos, Titanics de pulgas e carraças, o corpo todo aberto num sanguinolento sofrimento, que é o que eles merecem, grandes cabrões, vigaristas das dúzias! Havia de rebelar-se a Natureza e provocar-lhes mutações que mostrassem ao mundo o verdadeiro aspecto daqueles animais esbaforidos, daquelas bestas hediondas que trazem escondidas dentro: os focinhos, as dentuças, a baba malcheirosa a escorrer-lhes desde as beiças até transformar o chão que pisam em lama e pasto de minhocas.

    Mas não, nada. Continuam vestidinhos nos seus fatinhos caros e gravatinhas de uma cor, penteadinhos (imagino que também perfumadinhos), como se nada de especial se passasse, como se estivessem apenas a cumprir a vontade de deus, do deus deles, um deus mesquinho e pastoso, uma coisa amorfa, pesadona e incómoda que ou se venera ou se é por ele devorado.

domingo, março 02, 2025

Coro dos Cidadãos

 

Curvo a espinha

que a culpa é minha,

limpo do chão

a merda do cão.

 

Subo a avenida

no autocarro

e pago-te a conta

com um escarro.

 

Já não há um comunista

a zelar em cada esquina,

ele é mais muito turista

subindo a pé rua acima.

 

Oh, operário, foste esquecido,

ressoa a sirene no teu ouvido.

 

Oh, operário, foste esquecido,

ressoa a sirene no teu ouvido.

 

Oh, operário, foste esquecido,

ressoa a sirene no teu ouvido.

 (decrescendo de volume até ao silêncio)

sábado, março 01, 2025

O Tempo das Bestas

 
Besta Doméstica

Os Bichos, desenho nº5, Janeiro 2024

    Não se fala de outra coisa: Trump, Vance e Rubio a rodearem Zelensky na Casa Branca e a darem-lhe um enxerto de porrada verbal. O pequenote ucraniano a esbracejar, respondão, mas os rufias, muito maiores e bem mais gordos, mais desbocados, sem pingo de empatia ou de boa educação, não se apiedaram e a coisa foi penosa de assistir.
 
    É a nova Ordem Mundial, a ordem dos labregos maldosos e ressabiados. É o Tempo das  Bestas. E não temos quem nos defenda, estamos entregues aos bichos.