domingo, fevereiro 17, 2013

Grunhidos

Cada vez mais nos fazemos entender por grunhidos. O nível de linguagem utilizado na comunicação vai descendo, descendo, descendo, até se perceber que não há fundo onde possa bater, apenas um poço que parece não ter fundo, uma queda infinita, asas que vão perdendo as penas, uma morte que nunca chega a morrer-se.

"Like", "iá", "tipo", "coiso", "giro", as palavras perdem densidade, perdem conteúdo, o significado reduz-se a quase nada (ou mesmo a nada, absolutamente). A comunicação é cada vez menos verbal, a imagem substitui o verbo, mas, ainda assim, é uma imagem fugaz, um lampejo, uma luz cintilante que se perde imediatamente nas trevas do grunhido animalesco. Não vemos, olhamos apenas para saber se "like" (quase sempre) ou se "don't like" (uma raridade).

Os grunhidos visuais ocupam o horizonte estético e fazem perigar o entendimento do ético. A arte visual balança na ignorância dos olhares destituídos de um verdadeiro e consciente espírito crítico. Vivemos a barbárie.

Quando grunhirmos, apenas, os porcos terão triunfado!


11 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Maravilha de crônica!

rui sousa disse...

Eu colocaria a pergunta de outra forma: será que a arte antigamente tinha uma plateia maior e mais educada para lhe dedicar o tal "consciente espirito critico" ? Ou será o eterno problema das nossas expectativas?

Eduardo P.L. disse...

Rui Souza,

eu não tenho dúvida de que ouve, com o passar do tempo, perda significativa de qualidade da educação das plateias. Não podemos, nem devemos, ter as mesmas expectativas.

Silvares disse...

Eduardo, grato pelo elogio (até corei :-)

Rui, a questão não está relacionada com a plateia que se acomoda para admirar a criação artística; a questão coloca-se com todos os que nem sequer entram para assistir ao espectáculo e se limitam a andar por aí, na rua, em casa, nos locais de trabalho. Cada vez são mais os que reduzem a sua capacidade de expressão individual e, quando abrem a boca, nem sequer se surpreendem com o ruído que produzem...

rui sousa disse...

Rui, eu quando falei em plateia também estava a incluir os que nem sequer entram. Posso estar enganado mas eu acho que ao longo dos anos a arte, a criação e a reflexão foram sempre “usadas” por uma minoria e parece-me que continuará a ser assim no futuro. A maioria das pessoas não está para aí virada e não sei se há volta a dar à coisa ( ou sequer se teremos que dar volta à coisa ). Desde a revolução industrial que criámos todos a expectativa que a modernidade significaria evolução na espécie humana, mas a verdade é que o tempo passa e as percentagens de boçalidade não devem ser muito diferentes, hoje, do que foram no passado ( e provavelmente do que serão também no futuro ). Depois há outra questão que é ainda mais controversa que é saber se é bom ou mau para as sociedades haver mais ou menos boçalidade/ brejeirice. Eu tenho uma resposta para mim. Eu prefiro viver num meio mais sofisticado ( desculpem a sinceridade ) do que no meio da brejeirice, mas ainda não percebi se isso faz de mim uma pessoa melhor ou pior. Conheço muitas pessoas básicas com um grande coração e pelo contrário tb conheço pessoas com grandes capacidades ( a todos os níveis ) e são umas verdadeiras bestas quadradas.
Em relação ao que o Eduardo diz, eu tenho dúvidas de que houve realmente perda da qualidade das nossas plateias. Mas é apenas a minha percepção. Também concordo que não devemos ter as mesmas expectativas, mas não tanto para chegarmos a algum lado mas mais para passar melhor o tempo durante a caminha que cada um escolheu fazer.

Silvares disse...

Rui, o nível e grau de educação ou escolaridade não fazem de nós melhores nem piores, contribuem para sermos exactamente aquilo que somos. Ser boçal ou refinado não melhora obrigatoriamente a qualidade dos nossos sentimentos. O que eu queria salientar com este post tem a ver com a qualidade da comunicação contribuir para podermos expressar aquilo que nos vai na alma. A redução evidente dessa capacidade contribui, parece-me, para dificultar a comunicação empobrecendo o modo como nos relacionamos uns com os outros, sejamos nós doutores, artistas plásticos ou coveiros, amantes da ópera ou de hip-hop, altos, baixos, magros ou gordos. Parece-me haver, a este nível, uma evidente regressão nos tempos que correm. Mas posso estar enganado.

rui sousa disse...

Sim, de facto é tudo uma questão da forma como cada um percepciona o mundo. O que eu acho é que hoje qualquer pessoas pode comunicar por escrito através destas tecnologias e antigamente só escrevia quem sabia escrever, e esses eram mesmo uma minoria e normalmente escreviam bem.

the dear Zé disse...

LOL

Silvares disse...

Rui, como podes constatar lendo este último comentário, alguns jovens de hoje têm a eloquência de um armário de cozinha, tal como os de ontem tiveram a eloquência de um ramo de ortigas.
:-)
Zé, my dear friend, LOLada...

rui sousa disse...

:-)

Claire disse...

Clapclapclap
Onomatopeia para aplaudir!