quinta-feira, abril 26, 2012

O meu reino por uma prateleira (ou por um simples bagaço)


Andamos a tentar arrumar umas quantas questões na prateleira das respostas e a coisa não é nada fácil.

Nos últimos tempos, tempos tão recentes que o passado e o presente se enrolam naquilo que imaginamos possa vir a ser futuro, vimos assistindo a exibições de força bruta por parte das "forças da ordem" que nos deixam os queixos a modos que um pouco descaídos, alguns de nós a babar-se de espanto (é o meu caso).

Por um lado as forças policiais parecem mais nervosas que os mercados e desancam por aí no pessoal a torto e a direito. Não se percebe porque batem com tanta força em pessoas nítidamente fraquinhas e sem potencial destrutivo que justifique tamanhas cachaporradas.

Por outro são os tribunais a condenar quem rouba um chocolate e a fazer vista grossa a quem rouba uns milhares. Quando se roubam milhões os tribunais ficam mesmo cegos. Ceguinhos de todo, completamente às escuras.

Ora, a questão que quero arrumar e à qual não encontro lugar em prateleira alguma é a seguinte: o que é a Democracia?

Eu a julgar que bastava procurar no google... não basta, apesar de aparecer a Wikipédia em 1º lugar nos resultados e a explicação ser bastante concisa e regular, como é timbre desta democrática enciclopédia.

Talvez porque o conceito de Democracia varia quase tanto como uma nuvem de fumo levada por um furacão, as dúvidas roem o juízo a qualquer um que habite em Portugal, este rectângulo de uma coisa maior e sem forma geométrica definida que é a União Europeia.

Prometo a mim próprio não desistir de tentar perceber. Anseio o dia em que possa colocar o rótulo que me permita guardar a coisa no lugar a que tem direito. 26 de Abril é um dia que me provoca sempre este efeito de desfocagem espiritual, política e, mesmo, filosófica. Uma espécie de ressaca após uma bebedeira de sonhos.

É em dias como este que sinto saudades das velhas tascas escuras, com mesas de pernas em madeira e tampo de mármore, rodeadas de velhos alcoólicos. Cabeças enterradas nos chapéus pretos e cartas de jogar a sueca à espera de ser atiradas para o centro da tempestade. Aí bebia-se um penalty (tinto) ou um bagaço (caraças!) e as dúvidas deixavam de o ser. Transformavam-se imediatamente em menos que nada!

Foi assim que aguentámos 40 anos de salazarismo. Assim haveríamos de aguentar mais 40 anos de outra merda qualquer. Mas agora não há tascas, nem tinto, nem bagaço. As pessoas já nem sequer bebem água. É tudo beberagens estrangeiras, cheias de açúcar e metidas em embalagens coloridas e descartáveis.

É o futuro. O futuro não tem prateleiras, guarda-se tudo em ficheiros de computador.

14 comentários:

Eduardo P.L disse...

Rui, e por que o culpado por TUDO isso é a desgraçada e malfadada Democracia? Não seria o caso de se perguntar onde Portugal errou num passado recente? Onde os portugueses erraram nas últimas 20 eleições ? Por que Portugal, espanha e Itália, para não se falar de Grécia estão de pires na mão? A culpa será dos Alemães? Franceses? ou ainda da Democracia ? Essas perguntas são sinceras, e nelas pode haver muita ignorância, mas nenhuma ironia!

rui sousa disse...

Eduardo, não existe uma verdade, existem muitas, e cada um tem a sua. E no espaço de uma vida assistimos ao nascimento e à morte de muitas outras verdades que dávamos ( ou negávamos ) como garantidas. A verdade é sempre imposta por quem vence, mas na vida não se vence sempre. O mundo está cheio de impérios enterrados e ruínas esquecidas. Agora mandam os alemães e por isso não se cansam de exibir alto e bom som a sua verdade, até ao dia em que a verdade deles deixar de ser verdade.

A democracia está directamente ligada ao liberalismo. Não digo que tivessem nascido ao mesmo tempo, mas é possível que tenham renascido ao mesmo tempo. Adam Smith quando deitou cá para fora essa coisa do liberalismo disse que, com este sistema, estava verdadeiramente convencido que o individualismo não iria destruir a sociedade porque precisava dela para se estabelecer e desenvolver.

Eduardo P.L disse...

Estou plenamente de acôrdo, com você e com Adam Smith. O indivíduo é o motor do desenvolvimento, e precisa da sociedade para seu crescimento e sobrevivência! Mas a pergunta é o que isso tem a ver com a Democracia, acusada no post, de todos os males!

the dear Zé disse...

eu cá vou pelo bagaço...

Silvares disse...

Eduardo, não culpo a Democracia, coitadinha, mas sim os que se usam dela para enganar os restantes. Quando se fala dos portugueses, dos italianos, dos gregos, etc., seria interessante verificar QUAIS portugueses, quais gregos, quais italianos, vivem acima das suas possibilidades. Se for ver irá notar que são os tais adeptos do individualismo que se aproveitam da ilusão de que existe uma Democracia de facto quando, na verdade, existe uma Democracia meramente formal. "Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão". A vida está difícil mas não é para todos. É só para a maioria.
:-(

Zé, já marchava.

Silvares disse...

Para terminar o comentário ao comentário do comentário: nos últimos tempos a polícia tem abusado da força em situações que não o justificavam. Isso é algo a que não estamos muito habituados em Portugal e o povo começa a torcer o nariz. Quanto à justiça dos tribunais só com muito boa vontade podemos chamá-la de justiça (a isso estamos, infelizmente, mais habituados). O post refere isso, a falta de equilíbrio no exercício do poder e da justiça.

rui sousa disse...

Eduardo, eu não disse que concordava com o Adam Smith, e até tenho as minhas dúvidas que a esta distância ele próprio se mantivesse religiosamente fiel à sua doutrina. Seria? Marx também dizia que o capitalismo se iria devorar a si próprio, Será?

Silvares disse...

Rui, profetas.

expressodalinha disse...

Vários comentários:
1-O Rui não culpa a democracia. Só se interroga o que é.
2-Cada português deve (hoje), muito democraticamente, 16 mil euros. Qd foi para encher os bolsos as contas seriam democraticamente as mesmas?
3-Portugal está muito bem (dentro da crise). O problema é que ela vai chegar a França, essa sim uma verdadeira devedora.
4-A Alemanha andou a "chular" toda a gente e quer continuar. Não vão poder, porque destroiem o próprio mercado interno que somos nós (os outros europeus). E aí, sim, é grave.
5-Hoje sabemos que Portugal não devia ter entrado para o Euro, mas agora se sair é muito pior.
6-Não há democracia (qq que seja o sentido) sem liberdade económica.
7-A UE não é democrática e nem sequer disfarça.

Beto Canales disse...

que comentários interessantes

Silvares disse...

Jorge, acabámos por cair numa armadilha que ajudámos a montar. Os indivíduos são muito inocentes quando misturados (e desfeitos) na multidão.

Beto, por vezes o interesse está mais nos comentários que nos posts.
:-)

Eduardo P.L disse...

RuiS, (para ambos), e para o Jorge também, Democracia é um regime político, enquanto capitalismo e liberalismo são modelos econômicos! Estamos aqui no post, e em parte de alguns, "interessantes", comentários, misturando e trocando as bolas! A culpa, se é que podemos apontar culpados, nesta altura, são dos políticos, eleitos pelo voto popular, democraticamente, é verdade, mas dentro de regimes capitalistas ou neo liberais. Logo não é a Democracia culpada de nada! A culpa recai na escolha de políticos e políticas econômicas equivocadas! Vamos trocar de partidos, políticos, e conservar o regime democrático, com a menor intervenção do estado possível, contrariamente ao que pregava o velho Marx. Esse, por ter sido citado, e elogiado, devo dizer errou de cabo a rabo! O Adam Smith também poderia hoje estar revendo suas teorias, porque nada é permanente. Uma coisa é certa, liberdade, democracia e capitalismo podem não ser santos, mas o diabo é que não descobrimos nada melhor!

expressodalinha disse...

Não estamos a trocar nada. Certo que é como o Eduardo diz, embora haja inúmeros modelos democráticos. A questão que está subjacente a este bate bolas, é que a prática de exercício desse modelo (seja qual for)é que vai marcar. Isso e a interferência do poder económico. Consoante o modelo for um ou outro, A questão é se consideramos o programa eleitoral que ganhe democraticamente eleito pode conter regras ou desenvolver práticas que exorbitam para além do programado. Podendo distorcer de tal forma as coisas que se pode chegar a atacar os fundamentos do regime, com medidas ostensivamente contrárias ao programado e que ponham em causa os limites da democracia. Condicionar e amedrontar as pessoas, assustá-las dia sim, dia não,isso não é democracia de é terrorismo de Estado.

Eduardo P.L disse...

A propósito do tema, li e transcrevo:
“Uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém; ninguém for tão pobre que tenha de se vender a alguém”.

Muito romântico, Jean-Jacques Rousseau dizia coisas assim, mais de dois séculos atrás (1712-1778). Tinha a capacidade de ver as coisas como são e de não aceitar muitas coisas da maneira como se tornaram.