quinta-feira, janeiro 22, 2026

O Apocalipse dos Passarinhos

     "A escuridão era total, apenas se viam as estrelas e se ouviam passarinhos. Julguei que era o Apocalipse." Foi deste modo que a minha aluna Geovanna descreveu, na aula, a sua experiência pessoal durante o Apagão que deixou a Península Ibérica às escuras aqui há uns meses (não consigo recordar quando foi exactamente).

    A ideia é engraçada, ficámos a pensar no Apocalipse dos Passarinhos. 

Sonhar que sonho

     A realidade parece capaz de abafar os sonhos que pretendo sonhar. Talvez os sonhos não sejam dóceis ao ponto de se deixarem sonhar quando assim o desejamos. Talvez a realidade seja, afinal, um sonho disfarçado de outra coisa. Talvez me sonhe a mim próprio. Posso ser uma anémona, um colibri ou outra merda qualquer e não ser capaz de perceber que sonhos posso ter por ser uma coisa dessas. Talvez eu não saiba o que sou, quanto mais saber quem sou!

    Um barquito de papel vai rua abaixo, levado no rio temporário que a tempestade gerou entre o asfalto e a berma do passeio. Não chegará ao fim do caminho que agora parece percorrer. Ou porque se desfaz antes de lá chegar ou porque se lhe acaba o rio. Este barquito tem um futuro curto.

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Domingo que vem

     No próximo Domingo iremos votar para a eleição do Presidente da República Portuguesa, o nosso muito querido e eventualmente muito amado PRP, sigla que no Processo Revolucionário Em Curso, o célebre PREC do pós-25 de Abril, significava Partido Revolucionário do Proletariado (a que se juntava um "BR" de Brigadas Revolucionárias).

    Desta vez há mais candidatos do que tem sido habitual e, ainda por cima, fazendo fé nas sondagens, há 5 deles com capacidade para alcançarem uma segunda volta que, tudo indica, é absolutamente inevitável. Uma espécie de extravagância que só aconteceu uma vez, em 1986, quando Mário Soares descobriu que era fixe.

    Portugal corre o risco de vir a ter um presidente de direita em convivência com um Parlamento por ela dominado em maioria. Se esse presidente direitista vier a sentar o "sim senhor" no cadeirão, é provável que a facharia sinta peito feito para propor e levar por diante uma revisão constitucional capaz de pôr os palonços que os elegeram a pensar que, se calhar, não terá sido lá muito boa ideia.

    Pessoalmente tenho vindo a tentar convencer-me de que o meu voto poderá ser importante. Eventualmente será importante mas convicto... dificilmente será convicto. 

terça-feira, janeiro 13, 2026

Aniversário

     Hoje completo 63 anos de vida. Umas vezes parece-me muito, outras pouco, não consigo decidir se estou a ficar velho ou antes pelo contrário. Noto que venho reparando cada vez mais na idade com que faleceram as personagens históricas. A minha filha ofereceu-me um livro com ilustrações de William Blake para A Divina Comédia. Ao ler o texto introdutório lá dei por mim a fazer contas de modo a calcular com que idade morreram um e outro, Dante e Blake. Logo após as contas feitas raciocino, tento comparar as épocas em que viveram com a actual, qual seria a esperança de vida razoável e concluo que, a haver reformas, estas teriam acontecido aos meus heróis muito mais cedo do que aquilo que me está prometido. Sei que nada disto tem a mínima utilidade ou validade, sei que isto não é nada mas faço o exercício apenas porque posso fazê-lo e ninguém me irá chamar a atenção para o vazio em que tento manter-me a pairar.

    Além dos familiares mais próximos, que vão sendo cada vez menos pois os falecimentos vão-se sucedendo a um ritmo mais ou menos constante, ninguém me dá os parabéns nem eu falo do assunto. Ainda hoje, absolutamente por acaso, veio à baila durante a aula a questão dos signos do Zodíaco. Concluímos que na turma não há ninguém que seja "peixes" e algum  miúdo me perguntou qual é o meu signo ao que respondi "isso é demasiado pessoal" e ri-me. Ri-me, sobretudo, por ser o dia do meu aniversário e por estarmos a falar de um assunto acerca do qual nunca falamos.

    Já as minhas caixas de email ficam razoavelmente cheias de mensagens fofinhas que me são enviadas  pela direcção da escola, pelas editoras de livros escolares, pelos Centros de Formação, pelas instituições bancárias, pelas companhias de seguros, todos os que, de uma forma ou de outra, têm conhecimento da data do meu aniversário e não se acanham na hora de chatear. São robots, não sabem o que fazem. Talvez isso lhes garanta uns quantos lugarzinhos no Céu.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Inteligências

     A Inteligência Artificial é algo assustadora. A frieza impessoal com que trata de nós e dos nossos assuntos contrasta violentamente com a sua boa educação no modo como nos aborda. Nisso é semelhante a muitos seres humanos: sorriso pronto, fórmulas de abordagem correctíssimas, mel na língua, muita sonsice e, feitas as contas, uma filha-da-putice absoluta, sociopatia ou, pelo menos, indiferença para com a sorte do próximo. 

    Fico a pensar se a Inteligência Humana (vi-me obrigado a utilizar maiúsculas) terá também esta característica, se a empatia e a solidariedade serão empecilhos a um raciocínio objectivo e eficaz. Fico a pensar se seremos melhor governados por máquinas que por seres humanos.

    Estou com fome, sinto um vazio no estômago. Resolvo interromper o raciocínio e comer qualquer coisa. Talvez a mastigação me ajude a chegar a alguma conclusão diferente daquela que começa a insinuar-se dentro da minha cabeça. 

domingo, janeiro 11, 2026

Robots

     Lidar com robots não é coisa fácil. Como eles não pensam, ou pensam que pensam mas não pensam, torna-se impossível o estabelecimento de uma conversa nos moldes em que estamos habituados a estabelecer uma conversa. Assim sendo, somos obrigados a descobrir uma outra forma de raciocínio, adaptável à ausência de sensibilidade humana com que deparamos no nosso interlocutor. Não é bem como falar com uma porta ou com uma parede mas não andará assim tão longe quanto isso.

    Não deixa de ser curioso que, uma das primeiras coisas que o robot nos pede quando iniciamos uma conversa seja que provemos que não somos um robot, tal qual ele é (ou imagina ser, não tenho a certeza que uma entidade virtual possa ser considerada como sendo existente). Isso sugere que o robot sabe que falar com um robot é uma coisa um bocado parva e, de forma razoavelmente inteligente, recusa-se a fazê-lo. Então mostra uma imagem dividida em quadrículas e pede coisas imbecis como "indique todos os quadrados que mostram um motociclo" ou outra parvoíce equivalente. O robot não terá consciência de que aquilo que nos pede é um tanto humilhante ou, se tem consciência disso, mostra uma grande capacidade para rebaixar o Ser Humano. O que é preocupante.

    Pessoalmente, não tenho grande paciência para robots. Quando alguma dessas maquinetas me atende o telefone desligo imediatamente. Aquela coisa de clicar numa tecla ou outra, tendo em conta o assunto que pretendemos abordar, leva-me demasiadas vezes ao desespero. Não tenho a certeza mas há qualquer coisa de mesquinho ou vingativo na forma como os robots lidam connosco.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

O assalto

     Tive recentemente uma experiência muito desagradável. Abri a minha página no Facebook e estava calmamente a ler e a responder a "coisas", banalidades que todos fazemos quando navegamos naquela rede social, quando algo de muito estranho aconteceu. De súbito começaram a surgir imagens e vídeos de pornografia infantil e/ou de tortura e violência extrema. Tentei apagar, bloquear, eu sei lá o que tentei fazer. Nada resultava. Quando parecia que tinha controlado a coisa, acontecia tudo outra vez. Até que recebi uma mensagem da Meta (acho eu) a informar-me que estava a publicar coisas estranhas que desrespeitavam as regras da plataforma e que a minha página iria ser suspensa para averiguações. Entretanto ofereciam-me simpaticamente ajuda psicológica pois uma pessoa que publica aquelas coisas decerto padece de alguma doença. Grave.

    Por um lado fiquei aliviado por aquilo parar mas, por outro lado, senti-me um pouco angustiado. Primeiro, vi coisas naqueles vídeos que nunca antes tinha visto e que me deixaram profundamente nauseado; segundo, alguém, algures estaria a pensar que eu era capaz de consumir aquele tipo de material abjecto? Mesmo que esse alguém não fizesse a mínima ideia sobre quem eu sou a situação deixava-me desconfortável. Muito desconfortável, mesmo.

    Recebi uma mensagem da Meta dizendo que a minha página decerto havia sido assaltada e iriam permitir que eu recuperasse a dita cuja. Achei bem e achei simpático. Ainda não tinha começado a tentar seguir os passos que me eram indicados e já recebia segunda mensagem de email informando que a minha conta havia sido encerrada definitivamente. Pensei que haveria ali algum erro e tentei cumprir as indicações da 1ª mensagem mas... nada a fazer. A minha conta foi à vida, definitivamente.

    Quando me aconteceu, imagino que isto deva ter acontecido a mais umas centenas ou mesmo milhares de páginas por esse mundo fora. Não sei, não faço ideia. Seja como for, o acontecimento indispôs-me um pouco e fiquei com uma estranha sensação de ter visto a minha intimidade ser violada com uma desfaçatez que não imaginava ser possível.

    Entretanto abri uma nova página. Após 15 ou 16 anos com a outra acumulara centenas de "amigos" que desapareceram  de um momento para o outro e estou a recuperar contactos. A verdade é que, ao fim de dois dias, ainda só tenho 37 amigos confirmados. Conheço-os a todos pessoalmente. Reparei noutro pormenor: todos os amigos que faleceram ao longo destes anos e que continuavam na minha lista desapareceram finalmente. Receber os avisos dos seus aniversários era algo que costumava deixar-me um tanto tristee angustiado.

sábado, janeiro 03, 2026

AGA (America Great Again)

     Se é isto a grandeza da América bem podem metê-la no cu. E ainda lhes sobra espaço.

Outra vez veneno

     

foto tirada numa rua de Atenas, próxima da praça de Omonia 

    Tinha várias ideias razoavelmente fofinhas para um ou outro post. Coisas pouco angulosas, visões fugazes, sombras esquecidas, sensações registadas em pleno vôo; cenas mais ou menos assim, em forma de quase nada. Mas eis senão quando, esta manhã, ao ligar o telemóvel para espreitar as "gordas" das notícias, dou de trombas com a invasão da Venezuela pelas tropas do costume.

    Desde essa hora há uma frase que não me sai da cabeça: seja qual for o ângulo sob o qual olho para esta merda, vejo sempre o mesmo cagalhão. Assim mesmo, com toda esta elegância que a situação não merece menos. 

sexta-feira, janeiro 02, 2026

O Deus do mar

     Começo 2026 a recordar algo que aconteceu muito recentemente, no ano passado. Eu e a Ana íamos iniciar uma viagem com Atenas por destino. Comprei um livro, "O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas, para ler no avião e lá pela Grécia. Mas pus-me a olhar para o volume de quatrocentas e tal páginas e pensei "isto é pesado, ocupa muito espaço, vou procurar um livrinho para levar". Assim fiz.

    Subi ao sótão, subi à escadinha que encosta às prateleiras e fiquei com o nariz ao nível de uma fileira de livros de Jorge Luís Borges. Esbeltos, pequeninos, livros perfeitos para ler em viagem tal como já havia feito anteriormente. Peguei em Atlas, um volumezinho que não me lembrava de ter lido. O livro tinha uma marca. Abri-o. No topo da página o título do texto: O templo de Poseidon. 

    Caraças! Mais uma daquelas coincidências que podem deixar um gajo confuso e a acreditar que alguma força, poderosa e extraterrestre, está a estabelecer contacto, a enviar sinais evidentes de que um gajo não está só no Universo. Fechei o livro e, como é evidente, foi o que levei comigo. Li-o (ou tê-lo-ei relido?) na viagem de regresso.

    Entre uma coisa e outra visitámos o referido templo. Estava um frio de rachar! 

    Bom Ano Novo.