quarta-feira, fevereiro 25, 2015

A leveza de não ser

A coisa não anda fácil para os poderosos deste mundo. Quero dizer, difícil também não anda mas dá a impressão que o povo anda de olhos demasiado abertos, o que é embaraçoso para os verdadeiros ricalhaços. Eles são como vampiros, discretos, movem-se noutros patamares de realidade, não pisam o mesmo chão que nós pisamos. Ouvi dizer que há quem só pise alcatifa desde o dia em que nasce até ao dia em que é levado.

Mas a coisa anda agitada, anda sim senhor. Todos os dias há um destes que mostra o rabito, um novo processo que é instaurado, dúvidas que se levantam, reputações que se deitam. Fala-se demasiado sobre formas de enriquecimento, sobre fugas ao fisco, dinheiros sujos, dinheiros lavados, contas em bancos de uma opacidade total (o que não é bom nem para os bancos nem para a opacidade).

O povo anda mais atento e capaz de perseguir estas sombras, estes gajos que se esgueiram entre brechas na realidade ou estão apenas a atirar-nos uns quantos sacrificados para que os devoremos em praça pública, aplacando assim a nossa necessidade de justiça?

O povo anda de dente aguçado. Alguém vai ter que se lixar. Tenho a impressão que serão uns meros badamecos, uns ricaços de terceira categoria, carne para comunicação social. Os verdadeiros bosses, a esses ninguém chega. Nem Deus. Só o Diabo quando, finalmente, batem as botas e regressam ao ponto de partida.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

A pirâmide




Reflectindo só um pouco, quase nada, reflectindo levemente, muito levemente sobre a condição humana e a organização social fico surpreendido por encontrar uma constante luta entre poderosos e oprimidos (para simplificar).

Nos tempos pré-históricos não sabemos muito bem o que se passava (o termo "pré-história" explica a ausência de dados mais ou menos fiáveis) mas basta avançar um nadinha e começamos a encontrar os ricos, os muito ricos, os riquíssimos, os riquérrimos e os deuses na Terra. Meia-dúzia de personagens a dominar multidões de milhões de escravos, trabalhadores manuais, gente miserável ofuscada pelo brilho de existências gloriosas ou intelectuais prontos a fazer o inventário dos bens do senhor ou a escrever poemas épicos sobre a sua grandeza incomparável.

O tempo vai rodando e as personagens mudam de aspecto, o cenário transforma-se ao sabor do que é moderno em cada época, mas as relações entre os poderosos e os seus servos parecem permanecer teimosamente inalteradas.

Por momentos sonho, tenho ilusões, sinto o peito inchar de esperança, uma vertigem faz-me acreditar na mudança. Quero acreditar e a mudança parece acontecer. Mas logo após, pouco tempo corrido, aí está a realidade para iludir a verdade.

O cenário cai, volto a ver a estrutura da coisa, o esqueleto do mundo e lá está: o faraó, o imperador, o rei absoluto, o senhor do mundo no topo da pirâmide e a multidão, cá em baixo, agita-se qual montanha de insectos impacientes.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Ser (alguma coisa)

O Poder existe para se auto perpetuar. Os poderosos estão-se bem a cagar na populaça, por eles podíamos todos morrer afogados em merda que nem lhes bulia o coração. Quando se é Poderoso tem-se o vício do Poder e nada mais interessa, nada mais tem o mínimo valor.

Se o dinheiro dá Poder então os Poderosos querem dinheiro. Quanto mais melhor. Por muito que se tenha, ter-se mais nunca é demais; e mais, mais e mais e mais, até à loucura, até à dissolução do Outro, até fundir toda a gente na paisagem.

Pessoas transformadas em tijolos, em paredes de betão, em alcatrão sobre o qual rola o Rolls Royce, pessoas transformadas em coisas e objectos. Pessoas como adereços, pessoas que só interessam quando deixam de o ser. Urgh!

Somos alimento do Poder. Somos como bichos cortados às postas, feitos bifes, desmembrados, desossados, expostos em vitrines frigoríficas, rosados, húmidos, apetitosos pedaços de carne pronta a fritar, assar, cozer, estufar. Temos tão pouca importância! Coisa de baixo valor, eis o que somos.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Do Amor

Foi no Dia dos Namorados. Na peixaria encontrei o coração que a imagem acima ilustra. Uma representação de um coração ou, talvez seja mais exacto, uma representação do Amor.

Quem idealizou aquela pequena instalação artística? Não faço ideia. Talvez uma peixeira, não sei. Quando os meus olhos embateram na coisa fiquei meio hipnotizado.

Grotesco.

Aterrador ou enternecedor? O meu coração balançou perigosamente à beira de um abismo estético.

Discretamente fotografei a coisa com o meu telemóvel. Enquanto esperava a minha vez para ser atendido (Um polvo, se faz favor.) reflecti sobre o impulso de quem concebeu aquele pequeno mas fascinante horror.

As pescadas formando um coração, o pormenor colorido dos morangos, como dois coraçõezinhos mais pequenos (ou dois pingos de sangue?). Decerto aquela imagem fora concebida e construída sob o signo da Beleza. Quem fez aquilo, decerto considerou o conjunto como uma expressão de Beleza. Disso não restarão grandes dúvidas.

Esta manifestação de sensibilidade artística merecia lugar em qualquer galeria de arte contemporânea.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Homenagem





A arte contemporânea não se cansa de tentar morder a própria cauda, reflectindo sobre si própria num jogo de espelhos infinito e tantas vezes monótono. Deslumbram-se alguns com a sua capacidade de síntese, outros com a complexidade intelectual do artista. 

Com frequência somos conduzidos para espaços imensos, sem referência espacial perceptível nem narrativa que nos permita fingir que olhar para aquilo faz algum sentido. É a velha (e estafada) história do boi e do palácio tantas vezes já contada e utilizada neste blogue.


Vem esta revisitação a propósito da genialidade revelada pela criação de algumas obras de arte de rua, . A síntese sugestiva de muitas delas é absolutamente extraordinária. A forma directa e eloquente como atingem os seus propósitos comunicacionais colocam estes objectos ao nível das maiores criações do génio humano.


Muitas considerações poderia aqui explanar (talvez em próximos posts) mas não pretendo alongar-me. Quero apenas prestar homenagem a tantos artistas geniais, muitos dos quais nem o nome conheço, que muito admiro e muito me fazem pensar.






quinta-feira, fevereiro 12, 2015

É a realidade autêntica?

Aqui há dias tinha lido a notícia sobre a descoberta de duas esculturas em bronze atribuídas a Miguel Ângelo Buonarroti, o celebérrimo escultor renascentista que foi imortalizado por ter pintado o tecto da Capela Sistina, em Roma.

Apesar dos indícios que apontam Miguel Ângelo como mentor da criação das referidas esculturas, a dúvida mantém-se.

Agora surge nova notícia, desta vez sobre a recuperação de uma pintura atribuída a Leonardo Da Vinci. Em ambos os casos o que me rói a curiosidade é imaginar o que rola dentro da cabeça dos sábios historiadores de arte que têm o poder de declarar, ou não, a autenticidade das peças.

Basta uma palavra destes senhores (ou senhoras) para que aquele pedaço de tela (ou de bronze) passe a valer uma fortuna incalculável. Que tipo de sensações andarão aos saltos no coração e dentro da cabeças destes homens (ou mulheres)?

Quantas obras se perderam (e continuam a perder), quantos artistas geniais foram (e são) ignorados? Quem escreve a História constrói a realidade.

A questão final: até que ponto é a realidade autêntica?

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Vai à vida monstro!

A sensação que fica é a de que o monstro cresceu tanto que já não há tratador que dê conta dele nem chicote que o atormente. O monstro cresceu tanto que não há alimento suficiente para o satisfazer, precisa de mais. Muito mais!

Das duas uma: ou o monstro vai cair para o lado, a espernear e a morrer de fome ou vai sair da toca, esfomeado e esbaforido, saindo a correr com violência para ir procurar alimento noutras paragens.

Aqui já não há nada para ele comer.
Somos pouca carne e muito osso.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Estranha oferta

Esta manhã caminhei bastante. Deambulei por caminhos que normalmente não trilho. Entrei no metro de superfície quando cruzei a linha, saí do metro numa paragem mais ou menos ao acaso. Segui por aquela rua porque sim, podia ter perfeitamente enfiado pela outra, mas não.

Foi então que, numa rua iluminada pelo sol que brilhava no frio cortante, vi o sacana. Era o gajo, cuspido e escarrado, um vigaristazeco a quem um dia vendi um carro em 3ª ou 4ª mão. Papéis assinados, apertos de mão, o carro estava tão desgraçado que nem me lembro quanto custou ao escroque, mas lembro-me que foi praticamente oferecido.

Bem que desconfiei, o tipo falava pelos cotovelos, pelos pulsos, pelos tornozelos, o tipo era uma máquina de palavras absolutamente imparável; o aspecto dele: fato a duas cores, gravata colorida, anéis de ouro um pouco por todo o lado (o cachucho no mindinho)... porra! Precisava eu de mais alarmes para perceber o vígaro que tinha à minha frente? A minha natureza é muitas vezes contrária ao senso comum e devo ter pensado: "que se lixe, o aspecto não conta." Enganei-me.

Andei anos a receber multas e intimações da polícia, selos do carro para pagar, tudo porque o gajo, ao invés do prometido a mãos juntas com juras sobre a saúde da mãe, nunca mudou o registo de propriedade e o carro esteve sempre em meu nome. O número de telefone dele deixara de funcionar havia muito tempo.

Portanto, cada merdice relacionada com o malfadado veículo era da minha responsabilidade. Acabei por resolver o assunto após perder bastante tempo, algum dinheiro , toneladas de paciência e, sobretudo, após ter perdido alguma da confiança que tinha nos meus semelhantes.

Hoje, sob o sol matinal, lá estava ele, não havia dúvidas, o cabrãozeco; em carne e osso! Era como se o mundo me estivesse a oferecer uma oportunidade de colocar algumas cenas em pratos limpos. Aproximei-me com o intuito de falar com ele mas, quando estava mais perto, reparei no aspecto do homem.

Estava muito diferente do gajo que me enganou. Sujo, despenteado, roupa amarrotada. Olhou-me mas não me reconheceu (gajos como eu deve ele ter enganado às pázadas, devemos parecer-lhe todos iguais, não sei...). O olhar turvado (álcool?), passo titubeante, um farrapo humano. Passei por ele sem sorrir nem sentir nada de especial. O frio da manhã envolvia-me o coração.

Agradeci ao mundo a oferta que me fazia mas, não, obrigadinho, mundo, podes ficar com este gajo para ti, não o quero para nada. Já passou à condição de fantasma. Mais uns dias e torna-se completamente invisível.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Se

E se, na verdade, os gajos que nos explicam o nosso mal, os gajos que nos indicam o caminho (caminho correcto, dizem eles), se na verdade esses gajos não sabem do que estão a falar ou, na melhor das hipóteses, estão enganados? Na pior das hipóteses não estão errados, sabem bem o que estão a fazer e querem apenas enganar-nos.

E se andamos este tempo todo a confiar em gajos que não têm a mínima noção do que andam para aqui a fazer?

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Personagem

Todos somos potenciais personagens literárias mas muitos não têm consciência desse facto. Ou porque não sabem ler, ou porque, sabendo ler, não lêem, ou porque lendo não sabem o que lêem, ou ainda porque, apesar de lerem e compreenderem o que lêem, não querem acreditar que a sua carne pode tornar-se papel, folhas de um livro, imaginação de um autor ou retrato, produto da argúcia de alguém que nos observa e podemos nem sequer conhecer.

Esta constatação poderá ser de extrema utilidade. Em caso de necessidade podemos poupar no psicanalista se analisarmos com calma e cuidado a evolução da nossa personagem ao longo da narrativa que é a vida que vivemos.

Em momentos de tédio podemos distrair-nos passando para o papel a descrição do momento que a nossa personagem viveu ou está a viver (descrever o próprio tédio). Podemos imaginar algo para lá do papel grosseiro com que a realidade embrulha a nossa existência, rasgar o embrulho, sair da escuridão para a luz, viver na imaginação, na nossa própria imaginação... mas... que digo eu? Que escrevo eu?

Será que existo? Ou este texto, este computador, esta mesa, a sala onde estou, o edifício que envolve este momento e este meu corpo, será tudo isto por mim inventado? Ou... ou... ou serei eu invenção de algum autor, algum escritor que perdeu o juízo e me deixou (mera personagem literária) tomar consciência da minha condição de ser imaginário, tomar consciência da minha carne de papel?

Alguns de nós são, na verdade, personagens literárias mas não têm consciência desse facto.

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Lavoisier revisitado

Afinal de contas o que é isso: dinheiro? Para que serve e a quem aproveita? Que formas toma ele, como se materializa o dinheiro, que muitos consideram já a verdadeira divindade? Perguntas, perguntas, perguntas, tantas perguntas, demasiadas respostas.

O Orçamento de Estado é um exemplo de como se transforma o dinheiro em coisas mais ou menos palpáveis. O dinheiro vai para a construção e manutenção do chamado Estado Social; transforma-se em estradas, escolas, hospitais, repartições públicas, Algum desse dinheiro transvia-se e transforma-se em comida, em bebida, em mulheres apetitosas ou coisas menos classificáveis. É dinheiro que se materializa com maior ou menor nitidez mas que se materializa de forma compreensível para o comum dos mortais.

Também o dinheiro obedece à extraordinária Lei de Lavoisier, nem mais nem menos: "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma..."

Depois há o dinheiro que se pede emprestado e se paga aos Mercados. De onde vem? Para onde vai? Em que se transformam este dinheiro? Quem beneficia da sua materialização (se é que alguma vez se chega a materializar, de facto)? O que era aquele dinheiro que foi emprestado ao nosso Estado antes de ser o ordenado que me entra no bolso e eu vou trocar por casa, comida, cigarros e outras coisas que não me apetece referir. Em que se vai transformar o dinheiro que devolvo sob a forma de imposto e é aplicado no pagamento dos célebres "juros da dívida"?

Por vezes temo que esse dinheiro se transforme em coisas que abomino, armas, para dar um exemplo. É que as armas tendem a transformar a vida em morte, a transformar a paz em guerra, não gostaria de saber que o dinheiro que resulta do meu trabalho fizesse de mim cúmplice no assassinato de inocentes em nome de uma qualquer divindade merdosa.

Não percebo nada de Economia (nunca poderei ser sacerdote desta igreja) e não consigo perceber as voltas que o dinheiro dá, as coisas em que se transforma. Assim sendo, nunca poderei compreender verdadeiramente este mundo, estarei sempre longe de apreender o sentido da minha existência e dos que me rodeiam.

Por vezes, em noites de pesadelo,sonho que somos como animais a pastar. Pastamos o nosso trabalho e a nossa miséria e assim engordamos o valor do dinheiro, através do nosso esforço em manter a vida. Depois, bem gordinho, o dinheiro (informe coisa) flui para longe de nós e vai cair direitinho no prato de umas personagens das quais consigo ver apenas a silhueta; imensa, rotunda, tenebrosa silhueta. Quando me aproximo da mesa onde as coisas que comem o dinheiro (e o cagam e o vomitam) estão sentadas começo a suar abundantemente.

É então que acordo, com a camisa colada ao peito e a testa a escorrer gotículas de aflição. Alguma vez serei capaz de me aproximar o suficiente para perceber o que são aquelas coisas que devoram o dinheiro? Temo bem que não, espero bem que não...

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Epifania

De súbito compreendeu: não foi o nosso corpo que Deus criou à Sua imagem e semelhança. Não! O que em nós é igual a Deus é o nosso espírito! Cada um de nós transporta Deus dentro do corpo.

Deus fechado num corpo humano anseia a morte, gera a morte com a simples finalidade de se libertar pois Deus não pode ser prisioneiro.

Após esta epifania tenebrosa cresceu dentro dele um profundo desprezo por Deus. O que O levara a cometer tão imprudente milagre? Inexperiência? Malícia pura? Não percebeu Ele que fundir espírito e carne era criar a negra morte?

"Ok, está tudo lixado!" pensou, abanando a cabeça; "o melhor é beber um copo".

Bebeu dois.