quinta-feira, novembro 07, 2019

Um búzio

Os dedos dos pés na areia húmida traziam-lhe recordações de infância a cada passo que dava. Um búzio de dimensão generosa parecia aguardá-lo mais adiante; estático, como se se banhasse, ora visível ora escondido na espuma que o mar ia babando sobre a praia. O búzio parecia chamá-lo.

Respondendo ao apelo avançou, baixou-se, a perna esquerda esticada, em equilíbrio sobre a flexão da perna direita, apanhou o búzio. Tomou-lhe o peso, sentiu-lhe a textura e encostou-o ao ouvido para ouvir a voz do mar (coisa estúpida de se fazer ali, com os pés dentro de água e o mar todo a falar-lhe tão perto).

Mas o que ouviu foi estranho, foi como um grito, não foi aquele murmúrio surdo que esperava, a voz habitual dos búzios, nada disso, foi uma coisa aguda, um som que lhe alfinetou a alma, que o inquietou, que lhe causou um arrepio tremendo. Olhou espantado a abertura do búzio que lhe havia largado dentro do ouvido aquele som horripilante.

Atirou o búzio para longe, restituindo ao mar aquele segredo estridente. Ele que ficasse com aquilo, que raio! Voltando as costas às ondas continuou a caminhar. Os dedos dos pés na areia húmida traziam-lhe recordações de infância a cada passo que dava.

quarta-feira, novembro 06, 2019

Discurso directo

Nunca te aconteceu, amável leitor, sentires que aquilo que tens para dizer é urgente e verdadeiro mas que, quando o disseres, nem todos os que te ouvirem vão ficar agradados? É claro que sim, que já te aconteceu, faz parte da vida de todos nós. É a opção entre falar ou ficar calado.

Agora imagina um dado adicional; aqueles que te vão ouvir de nariz torcido têm poder sobre ti. Aqueles que vão sentir as tuas palavras como alfinetes espetados debaixo das unhas podem decidir sobre assuntos que te interessam e podem impedir-te de vires a ser um pouco mais feliz (ou menos infeliz, é como naquela cena do copo meio cheio ou meio vazio).

Vão dizer-te que não se morde a mão que te dá de comer. Pessoalmente respondo: depende.

domingo, novembro 03, 2019

Contra o chumbo, marchar, marchar!


Assistimos à enésima arremetida ministerial contra as retenções no ensino básico. A redução espectacular dos chumbos que se verificou desde que Brandão Rodrigues é ministro não basta, queremos mais, queremos melhor! Enquanto houver uma retenção que seja, descanso e auto-satisfação não serão opções.

Novos estudos fornecem velhas conclusões: a retenção é selectiva, é precoce e cumulativa, levando na enxurrada do insucesso os filhos de famílias mais pobres, menos estruturadas e com menor capacidade de acesso a bens culturais. Haja esperança, até ao final desta legislatura o salário mínimo aumentará para 750 euros.

Velhas conclusões sugerem velhas soluções: acompanhamento individualizado, sistematização de programas e currículos, envolvimento activo dos diferentes actores educativos mas, sobretudo, apostar no empenho de professores e directores escolares reforçando a sua autonomia. Desta vez é que é!

Nas salas de aula continuarão a reunir-se turmas demasiado numerosas, os programas e currículos serão, como sempre, extensíssimos e desajustados, a carga burocrática do trabalho dos professores continuará kafkiana e com tendência a contribuir para o enlouquecimento de uma classe profissional envelhecida e, dizem, desmotivada.

Não obstante, no final da legislatura os resultados serão animadores, verificar-se-á que as taxas de retenção diminuíram, que o abandono escolar recuou e o ministro poderá sorrir, confiante de ter realizado um bom trabalho.

No universo dos números e das percentagens tudo está bem quando acaba bem. Verificar se a luta contra a ignorância e a estupidez teve sucesso será algo mais difícil de avaliar e não interessa a (quase) ninguém.


Carta enviada ao Director do jornal Público a 3 de Novembro de 2019

Escrito na rua

 Grito, Novembro de 2019



Quando sinto a esperança a fugir de dentro de mim faço um desenho.

Alguns dos meus desenhos são como abraços com os quais tento retardar a fuga da esperança. Outros são rasteiras, são murmúrios, são gritos.

Os meus desenhos são feitos de esperança que, como sabemos, é a última coisa a morrer. Mas a esperança, como todas as coisas, no fim morre também.

segunda-feira, outubro 28, 2019

Batalha final

É um rumor, um som distante, uma batida, tum-tum-tum, uma batida que se aproxima, tum-tum-tum, cada vez mais próxima, marcial, uma batida que marca o presente, obstinada na marcação do futuro, tum-tum-tum...

Impossível ignorar esta marcha implacável. Os marchantes não se vislumbram ainda mas é com angústia (e talvez algum terror) que se adivinham. Já vejo a poeira que levantam erguendo-se acima da linha do horizonte, eles estão aí. Tum-tum-tum, são tambores guerreiros anunciadores dos exércitos que se aproximam.

Do lado contrário chega-me aos ouvidos um outro rumor, ban-ban-ban, outra batida, não menos marcial, se vai afirmando e se aproxima. Inexoravelmente. Ban-ban-ban, de um lado, tum-tum-tum do outro. Dois exércitos em marcha sincopada movimentam-se na direcção exacta do local onde me encontro.

Olho o pulso. O relógio está parado. É hora.

quinta-feira, outubro 24, 2019

Trípticos

Nascer, crescer, morrer. Este é o ciclo de vida para tudo o que existe. Sejam animais, estrelas ou nações; tudo nasce, tudo cresce, tudo acaba por morrer. Talvez mesmo o Universo esteja sujeito a este tríptico existencial.

Veio esta reflexão a reboque de estar eu a relembrar o ciclo dos "estilos artísticos" tendo por modelo o estudo da arte grega que é habitualmente dividido em três períodos: arcaico, clássico e helenístico.

Sendo o período arcaico o do nascimento e aprendizagem, a busca de uma linguagem própria (com forte influência egípcia); o período clássico o do estabelecimento dos cânones que representa o apogeu da arte grega, a afirmação das características distintivas e grandiosas que irão perdurar na memória histórica; finalmente o período helenístico, marcado pela degradação dos cânones, pela ultrapassagem dos dogmas, pela inventividade individual em oposição às regras uniformizadoras estabelecidas no período clássico.

É interessante comparar este ciclo dos estilos à vida e desenvolvimento de um ser humano: a infância e a adolescência como períodos de aprendizagem mais intensa; a idade adulta como período de afirmação e convencimento de se ter chegado a algum lado, de sermos capazes de encontrar conclusões convincentes para a definição daquilo que somos; finalmente a 3ª idade.

Aqui, a comparação da recta final da nossa vida com o período helenístico talvez não seja a coisa mais óbvia mas não deixa de ser uma proposta aliciante: fazermos dos nossos últimos tempos tempos de rebeldia e transgressão relativamente àquilo que imaginámos ser anteriormente. 

terça-feira, outubro 22, 2019

O Canibalismo Cósmico

Reagindo à hipocrisia dos cultivadores da bondade industrial enlatada que a vendem à semelhança das antigas bulas papais, suportados em esmagadoras campanhas publicitárias, surge uma nova vontade sinuosa que emana lentamente do lixo gorduroso das cidades, do lixo tecnológico indestrutível, que se eleva serpenteante dos ambientes anormais dos micro-climas poluídos e das mutações genéticas aberrantes por eles provocadas. É uma vontade quente que envolve os objectos em auras luminosas semelhantes a auréolas divinas, retirando-lhes frieza, enquanto renova o seu sentido mágico valorizando mensagens simbólicas que lhes são inerentes.

No aspecto criativo essa vontade manifesta-se numa iconologia caótica que decorre naturalmente do súbito crescimento desmesurado dos dados disponíveis e captáveis, produzidos freneticamente pelo mundo tecnológico moderno. Trata-se da procura constante da reconstrução de processos simbólicos e narrativos. Reinventam-se métodos e objectivos.

Os criadores do actual fim-de-século que habitam  a sociedade tecno-industrial não aguardam o futuro, vivem-no tão intensamente no dia-a-dia que este se embrenha no passado, formando um tempo único e compacto. Assim é perfeitamente possível hibridizar na arte contemporânea sinais temporalmente tão distantes como as obras de Jheronimus Bosch e Jackson Pollock ou Mozart e Frank Zappa. É um método criativo que mistura e adapta todos os tipos de técnicas e informações extraordinariamente variadas.

Gera-se uma arte subversora do Belo que se metamorfoseia até ao infinito na busca do objectivo primordial: a Universalidade Mágica.

O Canibalismo Cósmico é um ritual criativo baseado na libertação dos dogmas e na crença de que a hibridização anárquica é a suprema forma organizativa.

Rui Silvares
Novembro 1989

sexta-feira, outubro 18, 2019

Uma coisa na ponta dos dedos

Olhar para um écran de televisão e ver o que se vai passando na Catalunha deixa-me uma estranha sensação alojada no peito. Ontem dei por mim a pensar baixinho que, se estivesse em Barcelona, decerto seria um dos muitos milhares que povoavam as ruas. Mesmo não sendo catalão, decerto estaria ali.

A questão não é legal, a questão é política. É uma questão de Liberdade para decidir. Escrevo estas palavras e percebo que tenho o coração na ponta dos dedos, que, se calhar, as coisas são muito mais complicadas, que não percebo nada do que se passa, que haverá explicações racionais capazes de desarmar os meus sentimentos com a facilidade de quem rouba um chupa-chupa a uma criança. Mas não há nada a fazer. Coração é coração.

Em miúdo, li o Spartacus, de Howard Fast. O livro marcou-me para a vida. Mais do que A Ilha do Tesouro ou As aventuras de Huckleberry Finn, outras das obras que me aconchegaram a adolescência. A luta dos escravos pelo direito de serem livres impressionou-me, mas o que mais me deixou a pensar foi a sua derrota e o castigo absoluto que sofreram.

Na minha mente juvenil formou-se uma coisa que nunca mais me abandonou. Não sei explicar bem o que é mas sei que é essa coisa que me leva o coração para a ponta dos dedos quando escrevo que a questão catalã é uma questão de Liberdade.

quinta-feira, outubro 17, 2019

Comunistas? Fascistas?

Podemos nós olhar para Kim Jong-un, o príncipe coreano,  montado no seu cavalo branco, rodeado por neves místicas e ver nele um comunista? 

Podemos nós olhar para a China de Xi Jinping e ver um país comunista?

Porque ficam tão indignados os militantes do Partido Comunista Português sempre que alguém põe em dúvida a bondade de Vladimir Putin, esse ser que resulta do cruzamento entre um czar e um ogre? 

E Maduro, lá na sua gaiola dourada venezuelana, a esbracejar desesperado, governando ao sabor de paixões pessoais, a sobreviver muito mais do que a deixar viver? É ele o rosto da utopia comunista?

São todos personagens tão diferentes, com orientações políticas tão personalizadas e patrióticas que, a meu ver, nada os une. Vejo-os tão semelhantes uns aos outros como vejo Trump e Bolsonaro semelhantes a Órban e a Kaczinsky. Vejo homenzinhos perdidos nos seus labirintos individuais. 

Não vejo comunistas, nem fascistas, vejo apenas gente que não compreende os outros, gente que não ama, muito menos é amada, gente que imagina a sua loucura como sendo a expressão máxima do Ser Humano. 

Vejo neles escumalha, ausência de expressão do Ser Humano.

terça-feira, outubro 15, 2019

Memória de passarinho

Afiar as navalhas pareceu-lhe uma boa ideia. Abriu a gaveta e percebeu que já lá não estavam. Lembrou-se que tinha mudado as navalhas de lugar mas não conseguiu recordar o novo poiso. Caramba, e agora? Olhou pela janela. As nuvens cinzentas iam avançando lentamente na direcção do horizonte. Onde estavam as navalhas!? Um cão ladrou lá fora (ou teria sido uma gaivota?) e ele, sem as suas queridas navalhas por perto, sentiu-se triste, um pouco desamparado. As nuvens estavam cada vez mais longe, pareciam puxar lentamente o cobertor da noite que vinha para cobrir a cidade. Os candeeiros da rua ligaram-se. Pensando bem as navalhas não lhe faziam falta. Pelo menos por enquanto.

domingo, outubro 13, 2019

Dúvida

Pode um cristão ser cristão sem acreditar em Deus?
É complicado mas vale a pena tentar.

segunda-feira, outubro 07, 2019

Sonho de uma manhã de Outono

Será possível a um país sobreviver no mundo globalizado sem obedecer de forma canina às (pouco) subtis orientações economicistas que orientam  a generalidade das opções políticas e sociais tomadas pelos vários governos? Será possível organizar as nossas vidas tendo como foco central o ser-se humano? Talvez...

Não será fácil pensar nas pessoas e no meio ambiente antes de pensarmos no consumo ou pensarmos no consumo em função das pessoas e do meio ambiente. A relação directa entre consumismo e riqueza monetária é o cancro que corrói as nossas vidas e faz um inferno do espaço que habitamos. Temos uma tendência doentia para valorizarmos o enriquecimento sem olharmos às consequências por ele potenciadas.

Segundo o senso comum instalado é melhor possuir do que ser, impingem-nos essa perspectiva a toda a hora e nós acreditamos porque, quando funcionamos em manada, somos estúpidos. Se cada um de nós parar para pensar um pouco sobre aquilo que está a fazer, se cada um de nós compreender a compulsão que o impele a ser um destruidor e não um construtor, decerto ficará apreensivo com as conclusões a que chegou. Agarremos essa apreensão e façamos com ela uma ideia nova.

Uma ideia nova é algo completamente diferente.


sexta-feira, outubro 04, 2019

A sombra

"Já nem sequer me assusto" disse ele para o botão das calças, o único que lhe restava capaz de ter uma conversa, "sinto-o aqui atrás, parece-me estar mesmo sobre o meu ombro, mas já nem sequer me assusto". Continuou concentrado no jornal sem registar com grande rigor a informação que ia ingerindo juntamente com o ar que respirava misturado num café amargo como a vida.

domingo, setembro 29, 2019

Dada

Disse um Dada: todos os dias acumulo cá dentro uma coisa selvagem que transformo em sossego, uma pulsão de morte que transmuto em sentido de vida. Por estranho que possa parecer acredito ser amor, essa coisa que surge do que fica dentro de mim.

Respondeu-lhe um Outro: se encontras um sentido para aquilo que constróis é porque viver consiste, quase sempre, na necessidade que tens de distrair a morte. Digo "quase sempre" porque no fim será a morte que encontras.

Concluiu o primeiro Dada: vou beber um café sem açúcar.

sexta-feira, setembro 27, 2019

O coração da Coisa

Começam a ouvir-se algumas vozes que admitem termos ultrapassado o ponto de não-retorno. Pessoas que falam alto nos media, que afirmam que não há volta a dar-lhe, que, apesar de estarmos a empurrar o nosso sistema de sociedade global em direcção ao abismo esse mesmo sistema permitiu reduzir (e muito) a pobreza. Apesar de aumentar as desigualdades, as diferenças entre ricos e pobres, apesar disso reduzimos muito a pobreza. Estamos de parabéns?

Estas pessoas compreendem a angústia, a fúria e o desvario dos que se revoltam contra a crescente poluição ambiental mas, dizem, e dizem-no alto, nos mass media, é impensável mudar o que quer que seja assim de um momento para o outro, sem provocar uma convulsão social e política de tal magnitude que o mundo, tal como o habitamos, acabasse por se devorar a si próprio. Não é bonito de ser visto mas tem de ser assim. Tem muita força.

Compreendo. Compreendo que os jovens se revoltem, compreendo que os tipos de meia-idade se acomodem e compreendo os velhos agarrados à saudade que têm da juventude perdida, parece-me que sou capaz de compreender esta malta toda. Ok, podem ficar tranquilos, todos têm razões suficientemente fortes, razões suficientemente válidas que justifiquem essas ideias que lhes estão a passar pela cabeça. Todos os seus actos são aceitáveis apesar de contraditórios. Vivemos numa sociedade livre... vivemos, não vivemos?

A reflexão fica por aqui, salto directo para a conclusão: estamos a trabalhar arduamente para a extinção, não da espécie humana mas do sistema capitalista enquanto paradigma sócio-económico. Enquanto a coisa foi mais ou menos localizada, mais ou menos parcial (a Coisa é a exploração capitalista, exploração dos seres vivos e dos recursos naturais com o fim absoluto do enriquecimento de uma casta de cabrões enxertados numa outra, de filhos da puta) o mundo apenas vacilou. A partir do momento em que a Coisa se globalizou, já fomos! Não há retrocesso nem , como dizem as tais vozes que referi lá mais atrás, volta a dar a isto sem que tudo acabe a ruir à nossa volta.

Assim, o melhor, é deixarmos andar, ir aproveitando enquanto pudermos viver como vivemos, os que vierem depois de nós é que se fodem.

terça-feira, setembro 24, 2019

Melancolia (esboço)

Por vezes não sei se sinto raiva se compaixão. É uma pressão que se me instala entre o peito e o estômago e ali fica, a pressionar-me os sentimentos ou lá o que é. Após uns momentos de pressão a coisa começa a transformar-se em angústia. Inspiro, sustenho a respiração, tento expelir aquela sensação através dos poros, pelas narinas, pelos ouvidos, nem sei que faço!

Quando nos sentimos encurralados reagimos por instinto, as nossas acções fazem um certo sentido que, naquele momento, nos escapa. Debatemo-nos.

Se porventura consigo expulsar de dentro de mim aquele feto de demónio (surgiu-me agora mesmo essa imagem, aquela pressão ser provocada por um ser maligno que começa a crescer cá dentro, tipo o Alien do filme de Ridley Scott), se consigo expulsá-lo (até hoje sempre consegui) fico melancólico.

A melancolia provém do facto de perceber que os demónios existem e vivem dentro de nós. Embora vá conseguindo vencê-los percebo facilmente que muitos de nós sucumbem à angústia e aceitam que a bestiola se instale, alimentam-na e deixam-na crescer. Nestes casos é frequente que o demónio acabe por substituir a pessoa e lhe substitua a alma por um espírito maligno.

Quando o demónio é muito poderoso e ambicioso transforma-se numa pessoa poderosa e ambiciosa, um gestor de empresas, um explorador de seres humanos. Quando ascendem a lugares de chefia tornam-se capazes de semear a angústia nos corações de centenas, de milhares, de milhões de pessoas, proporcionando um ambiente favorável ao surgimento de centenas, de milhares, de milhões de demónios.

Ao contrário do que muita gente acredita os demónios nem sempre são agressivos como os pintam. Cada demónio tem a sua personalidade própria. Quando o demónio é fracote e cobardolas transforma a pessoa numa verdadeira filha da puta. Este é o demónio mais comum.

segunda-feira, setembro 23, 2019

Se Midas cagasse...

... transformava todas as sanitas do mundo em objectos de ouro, tal qual a sanita engendrada pelo Maurizio Catellan que foi roubada aqui há uns dias de um palácio inglês onde havia sido montada para exposição. Midas não podia tocar em nada que não endurecesse e ficasse brilhante e consistente como é apanágio do ouro. Não consta que o toque de Midas fosse exclusivo da ponta dos seus dedos, daí que quase tivesse morrido à fome (nem quero pensar no que seria cagar ou mijar para este  imbecil absoluto).

Mas isso é outra história, a sanita de Catellan, cuja instalação toma o nome de América, possui o fascínio que sempre acompanha todo o objecto que luz e é de oiro fino. Objectos brilhantes atraem os corvos, objectos de ouro atraem gente a dar para o abutre ou para a hiena, pobres animais incompreendidos porque necrófagos. Estes objectos correm o risco de serem roubados.

América tem algumas vantagens em relação a A Fonte, de Duchamp, desde logo porque uma sanita é, em potência, mais polivalente do que um urinol. Outra razão de peso é a da matéria prima: de um lado ouro, do outro loiça industrial. O valor material dos objectos é nitidamente desequilibrado. Já quanto a um suposto valor artístico a coisa pia mais fino.

Chegamos aqui ao pormenor curioso, diria mesmo, pitoresco: então não é que um pedaço de loiça pode ser mais valioso que um pedaço de oiro bem mais volumoso e pesado? Depende da perspectiva que orienta a avaliação. Imagino que a Teoria da Relatividade ande mais ou menos por estes caminhos mas é quando me meto nestas andanças que percebo aquela pintura do Brueghel, do cego a guiar outros cegos.




quinta-feira, setembro 12, 2019

Felicidade

Descontos, vales de oferta, negócios mirabolantes: oportunidades, oportunidades, oportunidades! Há ali fora um mundo de oportunidades que se te oferece, queridíssimo leitor, um mundo que se rege por uma única regra: fazer-te feliz! Em nome da tua felicidade o carapau vende-se ao preço da uva mijona, a varinha mágica é praticamente oferecida e o corte de cabelo!? Valha-te Deus, que mundo este, que loucura!

Comes o carapau acompanhado por um batido desfeito com a nova varinha enquanto miras de soslaio o teu novo corte de cabelo no espelho da cozinha. Continuas pouco feliz. O problema deve ser teu. Decerto não aproveitaste todas as oportunidades que tão gentilmente te ofereceram. Tens de regressar ao Templo e desejar a felicidade com mais fervor, de carteira mais aberta.

O problema só pode ser teu!

quarta-feira, setembro 11, 2019

Da inutilidade

Parecemos cansados. Mais: parecemos enfastiados. Alguma daquela informação poderia ser passada em mandarim, soaria exactamente ao mesmo. Após assinadas e carimbadas e validadas, as actas poderiam ser enviadas para a República Popular da China, os resultados seriam, decerto, muito semelhantes.

Olho em volta discretamente. Somos apenas um grupo formado por gente moderadamente só a fazer de conta que o Caos pode organizar-se um bocadinho. Sinto-me inútil.

terça-feira, setembro 10, 2019

Ir indo

Acabo de compreender que para se ter uma grande história não é preciso nada de especial. Uma grande história é sempre uma viagem. Só precisamos ir.