sábado, setembro 01, 2007

SE7EN

Rever filmes que nos deixaram a sensação de serem objectos cinematográficos relevantes é um desporto altamente recomendado. Rever Se7en, de David Fincher, é uma atitude algo temerária. Trata-se de um filme excelente sob todos os aspectos. Um filme terrível!
Revi-o ontem à noite em DVD que recolhi na Biblioteca Municipal, uma edição da Série Y que saiu com o jornal Público. É uma edição de fraca qualidade que não respeita na íntegra o formato da imagem mas, enfim, um gajo sempre pode fazer olhos de consumidor e fingir que não repara.
Embora tenha visto o filme apenas na altura em que passou aí pelas salas de cinema, recordava muitas cenas com um rigor fotográfico que me surpreendeu. Isso mostra até que ponto Se7en se me cravou fundo no cérebro e passou a fazer parte da minha memória individual.
Mais do que a violência explícita de algumas imagens, Se7en impressiona pela violência implícita, aquilo que não vemos muito bem mas podemos intuir pelas expressões dos actores ou pelas suas reacções em determinadas cenas.
O momento mais brutal em todo o filme, aquele momento marcante que me deixou a pensar na vidinha, é quando os detectives transportam o assassino no banco traseiro de um carro, separados por uma rede, como quem transporta um animal selvagem e o mais jovem o acusa de matar inocentes. Então o animalesco John Doe (Kevin Spacey) debita um discurso verdadeiramente atroz e cruel. Animado por uma lógica inumana e implacável mostra como todos nós somos tudo menos inocentes e, como tal, na sua perspectiva enviesada do mundo e das pessoas, todos somos merecedores dos mais atrozes destinos, como o foram as suas vítimas.
Depois as cenas finais, em que o argumento fecha num grande final delirante de maldade e violência interior de forma sublime e simplesmente brilhante.
Uma obra prima. A rever.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Para toda a família

Escolher um filme para ver com a minha filha quando ela já assistiu a todos os que eu quereria ver levou-nos a este The Last Mimzy, para maiores de 6 anos(http://www.newline.com/properties_the_last_mimzy.html) .
A sala tinha poucos espectadores, algumas crianças e muitos baldinhos de pipocas. Espectadores que se levantavam e saíam para logo voltarem a entrar, enfim, ambiente de sala de estar em sessão de Sábado à tarde, na TV lá de casa.
À parte este ambiente descontraído e muito pouco cinéfilo, o filme revelou-se uma fábula com sabor de ficção científica, apimentado com uns pózinhos ecológico-moralistas. Tudo muito misturadinho e com apresentação cuidada ao ponto de saber bastante bem sem nunca correr o risco de enjoar.
Fez-me lembrar qualquer coisa entre o ET e os Encontros Imediatos do 3º Grau, muito spielbergueano, portanto, o que é mais um elogio do que um reparo. Um filme agradável para ver acompanhado por menores de 18 anos.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Never Ending Story

A guerra no Iraque continua sem que se lhe vislumbre qualquer desfecho.
Os grupos rivais batem-se de forma encarniçada. As tropas americanas andam lá no meio sem saberem para que lado se hão-de virar, levando e dando porrada a torto e a direito, elevando diariamente o número de vítimas mortais e os estragos provocados obrigarão a investimentos de recuperação com valores astronómicos mas não tão astronómicos quanto os gastos de manutenção da carnificina. Uma verdadeira confusão.
Estamos perante um dos maiores erros de avaliação da história recente. Quando se lançou na aventura iraquiana, Bush, seguramente um dos homens mais estúpidos ao cimo da Terra, estava convicto da supremacia americana a todos os níveis: militar, político e moral.
Estava de tal modo confiante que não hesitou em inventar desculpas esfarrapadas para justificar a invasão. A vitória esmagadora com que contava serviria para camuflar essas mentiras uma vez que, isso é ciência certa, são os vencedores quem escreve a História. Só que Bush, neste caso, está longe de ser um vencedor, bem antes pelo contrário.
Vai sendo tempo de retirar todo e qualquer apoio a este doido varrido. Aqueles que apoiaram a guerra no seu início, convencidos da justeza da agressão, enganados pelas mentiras de Bush (lembram-se daquele número patético de Colin Powell na ONU, exibindo provas inequívocas da existência de armas de destruição maciça?) deveriam reconhecer o logro em que caíram e voltar atrás nas suas posições belicistas. Antes que a guerra no Iraque se transforme em mais uma Never Ending Story (ler os textos de Rui Tavares em http://ruitavares.weblog.com.pt/).
Em toda esta história de terror há um pormenor que me incomoda e inquieta. Falo da aparente facilidade com que se tomam decisões tão graves, como declarar uma guerra de consequências imprevisíveis, baseadas em informações distorcidas ou erradas fornecidas pelos serviços secretos norte-americanos. A CIA é, supostamente, uma máquina de recolha e tratamento de informação, uma máquina altamente eficaz e bem oleada. O que podemos agora constatar é que se trata, afinal, de um grupo de tótós, capaz de cometer e ampliar erros de avaliação tão grosseiros como aquele que levou a guerra do Afeganistão para o Iraque lançando o Império Americano naquele que será o seu derradeiro estretor.
Quando esta história conhecer o seu epílogo o que restará dos EUA? Qual a credibilidade das futuras administrações americanas em termos de política internacional?
Bem pode o eixo China-Índia começar a preparar os seus planos de dominação à escala planetária. É ali que vão nascer os Senhores que se seguem.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Transmutação



The Eurythmics - Sweet Dreams (Are Made of This)



SWEET DREAMS - Marilyn Manson

Comparar estas duas versões do mesmo tema musical poderá dizer-nos algo sobre uma certa transmutação de imaginários no mundo ocidental entre os anos 80 e a actualidade.
A uma certa luminosidade e algum humor sucede agora uma espécie de sujidade glamourosa e estilosa, carregada de nuvens negras. Eu sei que Manson abusa e adora exibir-se em poses mais ou menos fantasmagóricas, que os meios técnicos e de produção actuais estão a anos-luz dos que tiveram à sua disposição Annie Lenox e parceiro mas não deixa de ser curiosa a forma como sonhos cor-de-rosa podem gerar objectos mediáticos tão distintos.
Sinais dos tempos?

terça-feira, agosto 28, 2007

O milagre

Olhando para os preços dos manuais escolares e as quantias que é necessário investir neste início de ano lectivo fica-se de boca aberta. Segundo notícia do Público o custo total dos manuais para um aluno do 7º ano de escolaridade obrigatória pode chegar aos 192 euros.
Teoricamente o ensino obrigatório é gratuito mas perante valores deste calibre bem vemos que não passa mesmo de teoria. Além dos manuais há toda a restante parafrenália de materiaizinhos para o menino e para a menina e aí vão mais umas notas valentes pelo cano abaixo. Isto é muito caro. Quase pornográfico de tão agressivamente horroroso!!!
Se pensarmos nas médias de ordenados que os pais das criançolas auferem e nos lembrarmos que ainda há rendas de casa, contas de bens essenciais, alimentação, etc., facilmente percebemos que o regresso de férias é um pesadelo a todos os níveis. Como conseguem as famílias portuguesas equilibrar os seus orçamentos?
Mas há mais. Com os juros dos empréstimos bancários que não param quietos e teimam em subir, com os ordenados que não sobem, como é possível sobreviver nesta selva consumista? Pagamos a gasolina caríssima, os preços das telecomunicações começaram finalmente a descer mas foram, durante os anos de monopólio da PT, dos mais caros da Europa. Os bens de consumo essenciais não parecem estar ao alcance da maioria da população.
Neste panorama não é de admirar que os teatros estejam às moscas e os bens culturais, de um modo geral, sejam coisa para as elites que por eles se interessem. Tudo fica cada dia mais caro e os ordenados estagnam em valores quase ridículos!
Pensando nisto não é fácil perceber como conseguem as famílias portuguesas viver com a dignidade que pensamos que merecem. A menos que haja por aí algum milagre.

sábado, agosto 25, 2007

EPC

Após ter postado o texto anterior, saltei até à página do Público online e deparei com esta inesperada notícia:Faleceu Eduardo Prado Coelho, intelectual público (ler em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1303165).
Agora vai ser tempo de elogios fúnebres. Toda a gente irá descrever a grandeza intelectual de Prado Coelho e louvar a excelência dos seus textos bem como a argúcia dos respectivos argumentos. O costume.
Quero apenas referir que sempre li com razoável atenção as suas crónicas. Algumas vezes pareceram-me excelentes, outras uma desgraça completa. Escrever diáriamente num jornal com a aura de excelência como o Público não é tarefa para qualquer um mas Prado Coelho fê-lo com qualidade e atrevimento. O seu Fio do Horizonte funcionava como uma espécie de Blogue. Acaba amanhã.

Fazendo a digestão

In Bed (2005) by Australian-born sculptor Ron Mueck

Há momentos em que a fronteira que separa o mundo visível daquilo que o rodeia parece abandonada à nossa sorte. Por vezes acontecem coisas incompreensíveis ou inacreditáveis, coisas tão fantásticas que abalam as nossas crenças mais enraízadas, pondo em causa a certeza de que existe uma realidade comum a partilhar entre todos, regida pelas leis da Física, da Química, da Matemática e de outras ciências que de exactas guardam o nome e, talvez, pouco mais do que isso.
Quando a alfândega da tal fronteira fica vazia, nem que seja por um momento apenas, fantasmas, sonhos e outras bizarrias aproveitam para se esgueirar discretamente fazendo-nos visitas de todo inesperadas e que nos levam a estremecer num arrepio de frio que logo se transmuta em calor e incómoda transpiração. O que aconteceu? Nada de especial, se bem que extraordinário. Apenas as fronteiras do mundo foram violadas e o nosso cérebro, habituado a encarar a realidade como sendo algo mensurável e razoavelmente explicável, fica confuso na busca instintiva de uma explicação para algo que, segundo as regras deste lado da fronteira, pura e simplesmente não tem qualquer tipo de explicação.
Nestes momentos de angústia em que nem o padre nem o cientista têm respostas que nos satisfaçam e apontem um caminho redentor, entra em cena o poeta que, sem explicar nada, nos coloca perante uma possibilidade nova, uma imagem improvável e perturbadora que, quanto mais não seja, tem o condão de nos sossegar.
Há quem diga que a salvação da alma não está na religião nem na ciência mas sim na arte. Como poderemos saber? Há também quem ponha em causa a existência dessa alma. E de Deus. E da ciência.
Fico por aqui. O guarda da alfândega regressou ao seu lugar. Acabou a sua hora de almoço. É tempo de fazer a digestão.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Mais sangue que outra coisa qualquer

Finalmente vi este filme. Em casa, DVD pirata, bem instalado e melhor acompanhado.
Pareceu-me um filme bem intencionado. Um filme a pretender denunciar a falta de humanidade e regras básicas que aflige demasiados dos nossos no continente africano. Quando digo "nossos" estou a referir-me aos seres humanos que habitam aquela parte do continente esquecida por Deus mas bem referenciada pelas multinacionais do lucro fácil, dirigidas por vampiros de longe mais sedentos que Vlad, o Empalador.
O filme acaba por ser um produto industrial mais ou menos bem embalado. A figura de Leonardo Di Caprio acaba por enrolar a personagem que interpreta levando-a a transformar-se demasiado rapidamente, de demónio sedento de diamantes a anjo preocupado com o crescimento e a educação do pequeno Dia. Enfim, muitas fragilidades narrativas e pouca coragem na produção. Acabamos todos do mesmo lado. Os maus são castigados e os bons recompensados. Apenas a personagem de Di Caprio fica ali, a meio caminho da redenção. O mau que acaba por se tornar bom ou o bom que, na verdade, nunca foi realmente mau? Seja como for tem uma bela e santa morte.
Se não viste podes não ver. Se já viste, talvez possas acrescentar qualquer coisa a este post pouco entusiasta. Seja o que for.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Gato escondido com o rabo à mostra

Já tinhas ouvido falar de um Blog intitulado Luís Filipe Menezes? Não? Ouviste falar recentemente? Pois, também eu. Nunca tinha ouvido falar desse obscuro lugar da Net até aqui há dois dias atrás, quando saiu uma notícia no Público que falava de apropriação descarada de textos alheios pelo suposto responsável do Blog http://luisfilipemenezes.blogspot.com/.

"O blogue de Luís Filipe Menezes é feito por um dos seus assessores, afirmou ontem António da Cunha Vaz - da agência de comunicação que foi contratada para fazer a campanha do autarca de Gaia para a liderança do PSD. Em causa está a notícia do PÚBLICO de ontem, que revelava que o presidente da câmara assinara artigos copiados, nomeadamente da Wikipédia, sobre Michelangelo Antonioni, Bergman, Hiroxima e Miguel Torga.Admitindo os erros de não-citação das fontes dos textos nele contidos, António da Cunha Vaz afiançou que se trata de um "blogue pessoal" e não de um blogue do candidato à presidência do Partido Social Democrata, que Menezes já tem há muito tempo. Não foi explicada a aparente contradição de Luís Filipe Menezes ter um blogue "pessoal" que é gerido pelo seu assessor. Nem o facto de os artigos sobre Miguel Torga, Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman e Hiroxima terem sido copiados de outras fontes, sem que a sua origem apareça referida. O blogue em causa era apresentado no Google como o "Weblog do candidato à Presidência da Comissão Política Nacional do PSD".
Público de 23.08.2007, Ricardo Dias Felner

Não sei se a notícia tinha como finalidade informar apenas ou se o seu autor caiu na esparrela e, inadevertidamente, acabou a prestar um servicinho ao Dr. Menezes, dando visibilidade ao seu (péssimo) Blog. Algo que, afinal de contas, eu também estou a fazer se bem que na escala mínima a que corresponde o 100 Cabeças.
Passar os olhos por aquela coisa serve para termos consciência da falta de qualidade dos candidatos a candidato que pretendem vir a sonhar com a governação de Portugal. Não é só o facto de se utilizarem excertos de textos alheios assinados pelo suposto autor do Blog que está em causa. Não é apenas o plágio grosseiro e descarado que causa repulsa. É também o pretensiosismo bacôco e a falta de perspectiva a roçar a infantilidade que enforma o pensamento de Menezes e de alguns dos seus supostos apoiantes que vão deixando mensagens no Blog, como ovelhas deixam caganitas no caminho que vão trilhando do pasto para o redil e vice-versa.
Este homem até poderá ser um bom médico, eventualmente terá inteligência suficiente para liderar o PSD mas parece evidente que, como político, não passa de um populista descarado que adora fazer-se de vítima para poder arrotar à vontade enormes e mal-cheirosas postas de pescada. O homem não presta.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Friedrich

Uma visita à Alte Nationalgalerie em Berlim levou-me até ao último piso de um palácio deslumbrante. Entre mármores de toque subtil e estuques de formas fantásticas fui subindo, subindo, até que, entrando despreocupado numa sala, senti aquela coisa especial que se sente de vez em quando, aquela espécie de esquisitice forrada a veludo que de repente nos entra no estômago e assenta levemente, preenchendo e completando o nosso corpo. (Eu sei, esta frase também me soa pomposa e algo pretensiosa, mas é o que se arranja e, acreditem, adequa-se bem ao que pretendo descrever.)
Tinha ido "desaguar" à sala de Caspar David Friedrich, (http://www.artcyclopedia.com/artists/friedrich_caspar_david.html pode ver-se aqui ou procurar outros lugares na NET, há bués!) o célebre pintor das pessoas de costas. Deslumbramento, será a expressão adequada. O brilho dos óleos de Friedrich, a perfeição quase doentia das formas e dos contornos, a luz espectacular que define os espaços por ele representados, fazem das suas pinturas pequenas maravilhas. Uma sala repleta de obras deste artista romântico alemão é um lugar mágico que provoca no espectador um sobressalto.
Entre todas aquelas salas e salas, cobertas, barradas de pinturas, como torradas com demasiada manteiga, encontrar Friedrich foi verdadeira revelação.
Ainda guardo a memória de uma lágrimazita que não chegou a cair.
Soberbo.

domingo, agosto 19, 2007

Drogas

MAI exclui tranquilizantes dos testes de droga feitos na estrada
(Público online) 18.08.2007, Andrea Cunha Freitas
Autoridade Nacional deverá comunicar normas "claras e precisas" às forças de segurança
Já não há margem para dúvidas. O Ministério da Administração Interna emitiu ontem um esclarecimento onde definitivamente refere que as "benzodiazepinas não são incluídas no elenco das substâncias proibidas" previstas na portaria publicada a 13 de Agosto. Tendo em conta que os testes de despistagem de droga que entraram em vigor esta semana detectam a presença destas substâncias, o MAI sublinha que um resultado positivo neste caso não pode nem deve ser considerado pelas forças de segurança.

Esta decisão parece-me um pouco estranha. Então um gajo pode encharcar-se em benzodiazepinas e pegar no automóvel à vontade que não haverá qualquer tipo de penalização caso seja apanhado. Já se fumar uns charros o melhor é ir a pé ou pedir ao amigo drunfalhôco para ser ele a conduzir a carroça. Parece-me haver aqui uma espécie de injustiça, não sei bem, o que se pretende afinal com esta nova regra? Reduzir os riscos de acidentes na estrada prevenindo a possibilidade de haver condutores com reflexos diminuídos pelo consumo de certas substâncias ou moralizar o consumo de drogas através de uma nova ameaça de controlo sobre o seu consumo?
Para esclarecer um pouco as minhas dúvidas fui procurar "benzodiazepinas" no São Google e encontrei isto:


Efeitos (do consumo de benzodiazepinas)
Os seus efeitos ansiolíticos, provocam no indivíduo um estado de relaxamento muscular, sonolência, alívio da tensão e ansiedade, cansaço e letargia que podem ser acompanhados por desinibição, loquacidade, excitação, agressividade, linguagem afectada, sentimentos de isolamento ou depressão.
Doses elevadas poderão provocar náuseas, aturdimento, confusão, diminuição da coordenação psicomotora, sono, sedação excessiva, perdas de memória, lentificação do pensamento ou instabilidade emocional.

Bom, estes efeitos não me parecem muito aconselháveis para a condução de veículos motorizados. Se comparados com os efeitos provocados pelo consumo de erva, por exemplo, parecem-me até um pouco mais assustadores. O que levará o Ministério da Administração Interna a decidir que em caso de um condutor acusar este tipo de substância isso deva ser ignorado pelas forças policiais?
Todos sabemos que o consumo desta droga é, em Portugal, um verdadeiro problema de saúde pública. Há milhares de cidadãos "agarrados" a estas porcarias e caso passassem a ser penalizados na condução de veículos motorizados em breve teríamos as estradas meio vazias, o que até seria benéfico para o ambiente.
Como se trata de drogas legais e com dealers que são faramacêuticos autorizados não há problema. Mas os acidentes provocados por condutores drogados com receita médica não serão menos mortíferos que os outros.
Isto mostra até que ponto podemos ser cínicos nas medidas preventivas que tomamos para proteger a população de si mesma e dos seus desejos de evasão para qualquer paraíso artificial.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Parvónia


Portugal em Agosto vê agravar-se a confirmação de ser uma autêntica parvónia.

Toda a gente está de férias. O Parlamento não funciona, os tribunais estão fechados e acumulam processos, os ministros andam por parte incerta (onde estás tu, mulherzinha da Cultura?), os políticos de um modo geral arrastam as bundas atrás das respectivas carcaças, os jogadores de futebol parecem estar a digerir refeições impossíveis e jogam a 10 à hora. Até os incêndios deixaram de fazer notícia (haverá menos ou, simplesmente, os jornalistas evitam dar-lhes aquela dimensão épica a que nos habituaram nos últimos anos?). O marasmo habitual acentua-se e a proverbial falta de capacidade de intervenção da população na coisa pública é tão absoluta que merece estátua de granito.

Talvez seja assim que as coisas funcionam. Em Setembro regressa tudo cheio de ganas e vigor, a prometer mundos e fundos, a afirmar que "Agora é que vai ser!" que as férias serviram para "Recarregar as baterias." etc. e tal. Em Setembro promete-se um mundo reformulado a curto prazo, o paraíso e a bondade vão parecer reais nas palavras do costume.

No fundo todos sabemos que as coisas vão continuar a boiar num mar de merda e que, na verdade, apenas queremos saber o que é preciso mudar para que tudo continue na mesma. Como de costume. E não é por aí que vem mal nenhum ao mundo que já tem mal de sobra.

Enfim, a parvónia vai manter as suas características principais e imutáveis até ao final do ano. Em Janeiro "ano novo, vida nova"... até Agosto. Depois virá Setembro outra vez.

Haja fé.

terça-feira, agosto 14, 2007

Bem-estar animal

Uma notícia de última hora dá a conhecer o estranho caso de dois suinicultores detidos por desobedecerem à Inspecção do Ambiente (ver notícia em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1302227). Como de costume a coisa é bastante confusa uma vez que se trata de cumprir regras estabelecidas por leis. Ora as ditas regras teriam uma situação de excepção prometida pelo Governo durante um certo período de tempo e, imagino, fiados na tal situação extraordinária os ditos suinicultores ter-se-ão esticado um bocadinho na merdice que descarregam para o rio. Foram avisados, continuaram a encher o rio de merda e agora vão dentro que se lixam.
Mas a coisa não fica assim e está prometida uma manifestação "Vamos fazer uma concentração de suinicultores para manifestar a nossa preocupação", já que este tipo de fiscalizações pode conduzir ao "fim da suinicultura em Portugal". A concentração será junto ao Governo Civil de Leiria. As fiscalizações podem conduzir ao fim da suinicultura em Portugal!? Quer isto dizer que ou deixam os criadores de porcos fazer as coisas como muito bem entendem ou deixamos de ter costeletas e chouriças no mercado? Deus nos valha! A ameaça é grave e aterradora. Por um lado há a questão ambiental. Por outro a satisfação de uma necessidade básica da população que é a bela carnucha de porco. O meu coração balança.
No meio desta inquietante notícia há uma passagem que me deixa intrigado "Há um problema de licenciamento das suiniculturas em Portugal", mas aquelas "explorações têm declarações de bem-estar animal" que permitem aquele número de porcos, disse David Neves. que é o Presidente da Associação de Suinicultores lá do sítio. Declarações de bem-estar animal!!! O que quer isso dizer? Que os bichos vivem em condições óptimas até ao dia em que lhes cortam a gorja e os esquartejam em bifanas e presunto? Caramba, somos mais cínicos do que pensava.
Nunca mais vou comer escalopes descansado. Merda a boiar nas águas do rio e porcos de óculos escuros a gozarem um belo banho de lama num paraíso a prazo. Tal e qual como nós.

Partição

O conceito de partição aplica-se quando uma potência imperial decide abandonar um território habitado por diversas etnias ou mesmo antigas nações que, antes da ocupação imperialista, se organizavam segundo culturas ou credos religiosos diferentes. Os interesses imperialistas sempre provocaram "casamentos" indesejáveis ou improváveis entre antigos inimigos ou povos que nada tinham de comum antes da chegada das potências ocupantes.
A História mostra como a África ou a Ásia foram divididas, repartidas, reorganizadas, enfim, descaracterizadas, em nome dos interesses económicos das potências imperialistas. Durante séculos a "coisa" foi resultando com maiores ou menores problemas de convivência étnica normalmente amansados pelas forças militares e policiais ocupantes.
Ao longo do século XX assistiu-se ao sistemático surgimento de novas nações, resultantes da falência dos grandes impérios. Os processos de descolonização da maioria dos novos países tiveram como resultado imediato guerras civis sangrentas, processos de limpeza étnica arrepiantes, banhos de sangue intermináveis, alguns dos quais ainda perduram.
Vem isto a propósito do 60º aniversário do Paquistão, país saído de um dos processos de partição mais irresponsáveis de que há memória resultado da divisão da Índia entre hindus e muçulmanos após a retirada da Inglaterra em 1947, potência imperial mais interessada em lamber as feridas causadas pela 2ª guerra mundial do que manter um exército tão longe de casa.
Mas, pelos vistos, as lições da História custam a entrar nas cabeças duras dos grandes gulosos que governam as grandes potências mundiais. A actual guerra civil no Iraque aponta para um novo processo de partição. Após a invasão dos "aliados" ocidentais liderados pelos EUA e pela Inglaterra a degradação das condições de vida e de segurança nas principais cidades irquianas parecem não deixar alternativa que não seja dividir o país em 3 pedaços: uma zona de influência xiita, outra sunita e, finalmente, o temido Curdistão parece uma forte possibilidade para angústia da Turquia.
Mas há um pormenor curioso na maioria destes processos de partição. Normalmente resultam na separação das populações segundo credos religiosos. Católicos e protestantes na Irlanda, hindus e muçulmanos na Índia, xiitas e sunitas no Iraque e outras divisões ditadas por influências divinas menos reconhecíveis.
Para quem, como eu, pensava que os panteões divinos estariam a perder poder e influência nas orientações de vida das populações em detrimento da toda-poderosa Deusa Economia esta questão dá que pensar. Ou será que Economia, Alá, Jeová, Buda e outras divindades maiores fazem todas parte do mesmo estrato de uma realidade possível?

quarta-feira, agosto 08, 2007

Blue Man Group

Berlim oferece muitos motivos de interesse ao visitante ocasional. O "Blue Man Group" é um deles. Tive oportunidade de assistir a um dos seus espectáculos no Bluemax Theater na Potsdamer Platz. Um acontecimento difícil de classificar, algures entre o espectáculo de rock e a performance com muito humor à mistura. O único problema com que nos deparámos foi o de estarmos em Berlim e a língua alemã parecer mais ou menos inventada à medida que vai sendo falada.
De qualquer das formas foi uma noite bem passada e, no final, toda a gente saiu num estado de semi-euforia bem visível.
O clip que ilustra este post é de um espectáculo nos states que fez parte daquele a que assisti em Berlim. Em alemão, claro.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Férias (Silly season)

Visitantes deslumbrados com o painel "As Tentações de Santo Antão", de Bosch, a pérola mais valiosa do espólio do MNAA, na opinião da minha centésima cabeça (os mais atentos não deixarão de observar a parte de trás dos volantes com magníficas cenas pintadas em grisalha, um luxo absoluto!)


O 100 Cabeças prepara-se para partir em viagem. Berlim é o destino. Durante 5 dias percorrerei, acompanhado da família mais chegada, a capital alemã, numa viagem que promete muitas imagens e um ambiente urbano diferente daquele que temos por estas bandas da Velha Europa.

Entretanto uma notícia deixa o 100 Cabeças de cabeça confusa, a confirmar em pleno o clima típico da silly season. O afastamento da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, Dalila Rodrigues, é uma surpresa incómoda e que confirma o ambiente tacanho em que vivem as instituições públicas no Portugal actual. (ler mais em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1301166).
O facto de ter feito subir o número de visitantes de uma média de 75 mil para 192 mil (em 2006) bem como ter captado mecenato para actividades e obras de remodelação bem visíveis e que muito contribuiram para a melhoria evidente da qualidade do espaço de exposição bem como das exposições temporárias apresentadas, parece ter pesado negativamente na avaliação do desempenho de Dalila Rodrigues.
A razão do afastamento da ainda directora do Museu prende-se com o desacordo público e notório que esta sempre manifestou relativamente ao modelo de gestão dos museus nacionais. Estamos perante mais uma decisão arbitrária e sem qualquer tipo de fundamento, levada a cabo por uma administração incompetente e mesquinha, de um provincianismo que faz corar os pastores da Serra da Estrela. Com uma ministra da cultura como Isabel Pires de Lima tudo pode acontecer. Mesmo aquilo que, à partida, possa parecer impossível. Uma ministra muito "silly" e completamente fora de qualquer "season".

quarta-feira, agosto 01, 2007

Nostalgia súbita!

Ia hoje de manhã no meu carro quando me lembrei de ligar o leitor de cassetes (sim, leitor de cassetes!!! Não tenho DVD no meu carro). A música de súbito irrompeu com uma energia que já me tinha esquecido que a música podia ter. Era Rock Lobster dos B52's. E lá fiquei meio aos pinotes meio nem por isso já que ia a conduzir e não dava para bater o pé sobre o pedal do acelerador. Fiquei-me pelo abanar a cabeça e esticar o pescoço ao ritmo alucinante deste tema. Aqui fica um dos vários vídeos que estão à disposição nessa espécie de montra divina que é o You Tube.

segunda-feira, julho 30, 2007

Que viva o Iraque!!!

A vitória da selecção de futebol do Iraque na final da Taça da Ásia por 1-0 sobre a da Arábia Saudita constitui um feito histórico. O jogo decorreu em Jacarta, capital da Indonésia, perante 50 mil espectadores que, segundo rezam as crónicas, torceram na sua maioria pela equipa iraquiana.

A selecção do Iraque não faz jogos oficiais no seu país vai para 17 anos por imposição da FIFA, uma medida que se compreende já que, por exemplo, na sequência da vitória na meia-final desta Taça da Ásia sobre a Coreia do Sul, quando a população de Bagdad festejava nas ruas, houve 50 mortos em atentados bombistas. O nojo do costume. Os terroristas são verdadeiros animais irracionais no comportamento mas friamente racionais na preparação dos seus crimes.

Younis Mahmoud, o autor do golo, provocou uma explosão de alegria colectiva no seu país. Naquele momento a vida terá parecido quase "normal" em todo o Iraque. As fotos mostram pessoas eufóricas como acontece mundo fora quando se vive a alegria de um golo.

Esta vitória é considerada muito importante pelos actuais dirigentes iraquianos já que a equipa é constituída por sunitas, xiitas e curdos, numa raríssima união nacional em torno de objectivos comuns. Descortinam aqui uma oportunidade propagandística que poderá trazer alguns momentos de orgulho nacionalista. Mas é como pôr um penso rápido numa perna decepada. O próprio Younis Mahmoud afirmou que não quer voltar ao Iraque por temer retaliações por ter sido o autor do golo da vitória; "Não quero que os iraquianos se zanguem comigo, mas se regressar com a equipa, alguém pode matar-me ou tentar ferir-me".

Terá o golo de Younis Mahmoud o dom mágico de unir os iraquianos? Será possível que se venha a cumprir uma espécie de conto de fadas num país onde a realidade se assemelha mais a um conto de terror? Estou em crer que não. Tudo isto será rapidamente esquecido e afogado no mar de sangue que por ali cresce a cada dia. Mas acredito que muitos milhares de iraquianos sonharam com isso: um país onde o tétrico rebentamento das bombas desse lugar a explosões de alegria provocadas pelos golos de todos os Younis Mahmoud que nos dias que correm não podem brilhar nos estádios e se escondem com medo dos assassinos.
Que viva o Iraque!

sábado, julho 28, 2007

Tragédia de Congonhas


Este post é copiado de http://cimitan.blogspot.com/ e tem o objectivo de fazer com que esta tragédia fique bem vincada no mundo real.


Tragédia de Congonhas Jornal espanhol faz a melhor reconstituição animadaVeja aqui a reconstituição animada da tragédia de Congonhas feita pelo jornal espanhol El Pais. Preste atenção que ela permite ver como foi o desastre de vários ângulos. Para isso, basta continuar clicando em um botão que tem lá.

Eu posso não existir

Um elemento básico da mecânica quântica é que o homem cria a realidade ao observá-la. Antes dessa observação, o que verdadeiramente existe são todas as situações possíveis. Só um olhar atento concretiza a possibilidade, revelando-a ao observador que, assim, acaba tomando partido por uma hipótese entre muitas. As restantes ficam "lá", permanecem, aguardam nova observação, outra hipótese de virem a fazer parte do universo real, aquele que somos capazes de perceber ou tivemos a sorte de conseguir materializar.
A ser assim, o mundo é muito mais vasto e surpreendente do que aquilo que jamais seremos capazes de entrever com os nossos cérebros obstinados e tímidos.

A parte do texto a bold é uma transcrição adaptada de uma passagem de O Pintor de Batalhas de Arturo Pérez-Reverte, livro que me foi emprestado pela Margarida Lucena e que ando a ler com longuíssima paciência, como é meu hábito (coisa que à Margarida faz alguma confusão). Meia-dúzia de páginas por dia, ao deitar ou ao levantar, bem saboreadas e melhor digeridas que este livro tem um sabor forte e condimentado mas é absolutamente delicioso. Do melhor que tenho lido nos últimos tempos (e bem gostei de O Vendedor de Passados da autoria de José Eduardo Agualusa ou de A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón) . Ainda vou a meio do livro e já me interrogo sobre a possibilidade de ler outras obras deste espanhol inspirado.
Ver mais sobre o autor em http://www.capitanalatriste.com/

Voltando ao texto de entrada, lembrei-me de o ter lido quando confrontado com a sucessão de calamidades expostas nas páginas do meu jornal diário (o Público). Incêndios infernais na Grécia e cheias assustadoras em Inglaterra, no Sudão, Indonésia, Nepal, China e Índia. Combates mortíferos no Afeganistão, atentado bombista arrasador no Paquistão, falcatruas e vigarices em França e nos EUA, uma revista satírica apreendida em Espanha por ofender um casal de príncipes lá do sítio. Uma sucessão de notícias (possibilidades) à espera de contacto. Ao lê-las construo uma arquitectura particular do mundo em que vivo. As notícias que "passo" e os acontecimentos que não fazem parte do jornal não deixam de existir só porque não as contacto. E, no entanto, para mim é como se não existissem.

O mundo está uma desgraça, o caos reina em grande estilo, penso eu.
Mas... não terá sido sempre assim? A diferença reside no acesso que temos à informação. Em 1500, por exemplo, quantos incêndios devastadores e inundações horrorosas terá havido no planeta Terra? Bom, para os nossos antepassados, este mesmo planeta era algo muito diferente daquilo que é, hoje, para nós. Pronto, está bem, falemos, por exemplo, de... 1900! Quantas guerras genocidas foram ignoradas? Quantos crimes contra a humanidade foram perpetrados em nome da Ciência e do Conhecimento pelos exploradores europeus nos 4 cantos do mundo? Quem se ralou com isso?
Como propõe a mecânica quântica, o homem cria a realidade ao observá-la e isso prova, com toda a evidência, que a realidade não existe enquanto sistema absoluto. Não passa de uma hipótese abstracta que teve a sorte de ser nomeada, registada e exposta. Coisa pouca.

sexta-feira, julho 27, 2007

Haja paciência

Que Hergé nunca se distinguiu por ser um autor políticamente correcto não é de admirar pois a sua obra foi maioritáriamente produzida e editada numa época em que esse conceito não existia nem faria qualquer sentido.
Tintin nasceu numa época em que havia pretos e brancos, comunistas e fascistas e outras classificações cruas e cruéis. O colonialismo ainda não era encarado como um crime e o saque dos países africanos era feito com maior descaramento do que actualmente. Os europeus estavam convencidos da sua superioridade absoluta e dominadora. Muitas das aventuras de Tintin reflectem o estado do mundo na época em que foram criadas. Veja-se Tintin no país dos Sovietes, Tintin no Tibete ou mesmo Tintin na América, para citar apenas alguns exemplos reveladores da visão maniqueísta que sempre caracterizou a obra de Hergé.
A actual polémica relacionada com Tintin no Congo mostra como a hipocrisia vai ganhando terreno no mundo ocidental. Em Inglaterra e nos Estados Unidos esta aventura de Tintin vai ser colocada na secção de adultos de algumas cadeias de livrarias (será em todas?) por "poder ser considerado ofensivo por alguns clientes". Pobres crianças que se poderão chocar com algumas passagens "indecentes" desta BD. Estas mesmas crianças são potenciais espectadoras de séries televisivas como os geniais Simpsons ou o abrutalhado Family Guy (http://pt.wikipedia.org/wiki/Family_Guy), brincam possivelmente com jogos como Grand Theft Auto (http://pt.wikipedia.org/wiki/Grand_Theft_Auto) e não perdem um programa de Wrestling na TV sem que ninguém trema por um momento que seja. Como pode Tintin no Congo ser considerado ofensivo num mundo como este? Posso concordar que se trata de uma BD de fraca qualidade e bastante desinteressante. O problema é que, pelo facto de haver boas histórias de Tintin, a crítica tende a meter tudo no mesmo saco e pode pensar-se que todas as obras de Hergé são primas. Mas não, há por ali muita obra menor. A hipocrisia não tem limites.
Para manter o nível atrevo-me a sugerir que, sempre que surjam nos noticiários personagens como Bush ou Blair, as crianças sejam retiradas da sala ou se lhes tapem os olhos e os ouvidos por uma questão de sanidade geral.
Haja paciência.

quinta-feira, julho 26, 2007

Vida

Banksy

Um computador, um belo sofá. Ar condicionado e frango assado. Lá fora carros e mais carros, como um rio. Água na torneira, chuveiro e flores na varanda. Prédios inteiros e altivos. Aviões comerciais piscam ao longe. Cerveja fresca para matar a sede. Aqui só se mata a sede e a fome e as baratas com um spray implacável. Luzes acesas apenas para espantar a escuridão. Roupas confortáveis. Barriga proeminente e lâminas de barbear. Um dentista impecável, ausência de dor e, ainda assim, o receio de sentir. Jornais, livros, filmes na TV a horas certas. Férias. Viagens, hotéis, praias repletas de banhistas. Mulheres bonitas, bem vestidas. Homens simpáticos com sorriso afivelado e penteados. Gravatas cor-de-rosa. Vento e sol. Clima ameno. Tudo isto e muito mais. Mesmo assim andamos insatisfeitos. Isto ainda não chega. 10 minutos de publicidade na TV mostram até que ponto estamos incompletos, revelam tudo aquilo que precisamos ter e consumir e ainda não sabíamos que precisamos ter e consumir. Tenhamos e consumamos. Um computador, um belo sofá e um puto assado. Lá fora carros e mais carros de combate. Água estagnada e bactérias malvadas. Um jacto passa a rasar os telhados ausentes dos prédios semi-destruídos. Ódio puro para matar a sede de vingança. Aqui mata-se tudo o que mexe. A tiro, à bomba, à facada, à paulada, à pedrada e até ao estalo. Não há luz nesta escuridão. Apenas dor. Na praia uma cama de ferro enferrujada espera melhores dias. Como um cão deitado junto à campa do dono. Há quem esteja satisfeito pela simples razão de continuar vivo.

quarta-feira, julho 25, 2007

Puxar o Charrua

O que se segue pode parecer patetice mas se calhar até nem é.
O professor Charrua foi acusado, suspenso e posto a andar da Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) por ter, supostamente, insultado José Sócrates, actual 1º ministro da nação portuguesa.
O professor foi "bufado" por um colega que, segundo ouvi dizer ao próprio Charrua em entrevista que passou no Telejornal da RTP1, acabou nomeado assessor directo da senhora que manda na DREN. Como classificar esta ascensão profissional de um bufo que vê premiado o facto lamentável de ser um refinado sacana? Dizem que o crime não compensa... depende daquilo que entendamos ser crime. A senhora que manda na DREN promove o seu cãozito-de-fila após expulsar o mauzão do Charrua. O caso deu brado e pôs toda a gente de bem a berrar na praça pública: que isto não pode ser, etc. e tal. Ao que parece a berraria até que deu resultado. Pelo menos começam a verificar-se resultados mais ou menos animadores.
Veio ontem a senhora ministra da educação dizer que não pode haver condenações por delito de opinião e que, assim sendo e num gesto de estupidificante magnanimidade, o processo disciplinar que a senhora que manda na DREN tinha instaurado ao professor Charrua será arquivado. Palmas, palmas, muito bem senhora ministra, até que enfim há razões para aplaudir uma medida tomada por Vossa Excelência. Mas, desculpe lá, estava aqui a pensar, então o que acontece à senhora que manda na DREN? Não acontece nada? E ao seu mais recente assessor (se Charrua falou verdade há um novo assessor da senhora que manda na DREN), esse animal de pêlo curto? Afinal de contas a senhora que manda na DREN abusou nitidamente do poder de que está investida pelo ministério que representa. Abusou, não abusou? Com as suas atitudes de saloia mal formada que se vê no papel de governanta do palácio, a senhora que manda na DREN merecia, no mínimo, ser demitida do cargo. Ou não? Se calhar estou a ser demasiado severo na minha apreciação.
Por outro lado quer-me parecer que a senhora ministra foi, desta vez, demasiado lenta a tomar uma atitude. Se tivermos em consideração o seu habitual modus operandi, ficamos com a sensação de que está a fazer de conta que não há problema nenhum com a senhora que manda na DREN, que até lhe aprecia as "qualidades" que revela em todo este processo digno da mais mesquinha tradição do Santo Ofício.
No actual ponto de rebuçado de toda esta salsada temos o Charrua a clamar justiça, com os dentes filados na senhora que manda na DREN e no seu mocito de recados e a senhora ministra a assobiar para o lado, a fazer de contas que, pronto, agora está tudo bem e podemos voltar a fingir que vivemos num sistema verdadeiramente democrático. Mas não me parece que isto possa ficar por aqui.
Para terminar este texto que já vai longo deixo apenas uma nota final sublinhada: a licenciatura de José Sócrates continua muito mal explicadinha e ainda vai fazer rolar muitas cabeças. Falta saber quais.

terça-feira, julho 24, 2007

Disputando a amizade de Deus


Ontem passou um documentário muito interessante na RTP2. Com o título "Friends of God" (ver mais em http://www.hbo.com/docs/programs/friends_of_god/) esse documentário revela-nos em toda a sua extensão o fenómeno do fundamentalismo cristão em plena expansão nas terras do Tio Sam.
Numa época em que, no mundo ocidental, somos constantemente bombardeados com notícias alarmantes relacionadas com o fundamentalismo islâmico e todo o fanatismo a ele associado que relacionamos com o terrorismo internacional, temos aqui uma oportunidade de vislumbrar um pouco da realidade norte americana que estará na base das atitudes agressivas e messiânicas da administração Bush.
A "National Association of Evangelicals" (http://www.nae.net/) é uma organização tentacular que, como podemos ver e ouvir no citado documentário, se gaba de estar largamente representada nos actuais centros de poder e decisão norte americanos.
Assim sendo estamos perante um confronto internacional de fanáticos religiosos que eternizam, agora à escala planetária, velhas inimizades irracionais herdadas do Mediterrâneo medieval e que, na Europa, julgávamos completamente ultrapassadas. Daí uma certa dificuldade em compreendermos a agressividade animalesca com que Bush se atirou ao Iraque. Mas, se olharmos a invasão do Iraque à luz destes fanatismos religiosos, a coisa ganha outra dimensão.
Agora Irão e EUA disputam a amizade de Deus, pondo em perigo todo o planeta e a sanidade mental de milhões de cidadãos por esse mundo fora.
Para quem interpreta a Bíblia de forma literal ao ponto de defender com unhas e dentes o designado Criacionismo será difícil compreender e aceitar que existam outras religiões com igual direito para defender o seu fanatismo. O Corão contra a Bíblia com armas nucleares não abona em favor da saúde de todos nós.
Há um vírus perigoso a alastrar entre os comedores de hamburgueres da McDonalds do Norte da América, que acreditam estar investidos da missão divina de catequizar o resto do planeta. Em nome da sua amizade particular... com Deus!
Onde é que eu já ouvi isto?
(corrigi este post pois falava da invasão do Irão quando devia refrir o Iraque. A essência do texto mantém-se.)

segunda-feira, julho 23, 2007

Estranhas sensações - parte 2


Esta manhã fui a um daqueles super mercados a que alguns, com uma ligeira tendência para a mania das grandezas, insistem em chamar hiper.
Na minha qualidade de homem tecnológico alimento-me do que encontro nas prateleiras dessas tremendas superfícies comerciais. Tal como os meus antepassados se deslocavam na floresta, à espreita de alimento, também eu me encho de coragem e lá vou. Suporto a luz branca e intensa, controlo os impulsos consumistas o melhor que posso, tento ignorar o barulho ensurdecedor e concentro-me ao máximo no trabalho recolector.
Cestinho de plático vermelho com rodas e pega extensível (o design de equipamento é maravilhoso!) atrás de mim e lá fui.
Uma das coisas que mais me costumam impressionar nos supermercados é a secção de frutas e legumes. Desde que me apercebi de uma estranha sensação nunca mais pude evitá-la.
Refiro-me à estranha sensação causada pela proximidade de centenas de pêssegos (talvez mesmo milhares) sem lhes sentir o odor. Um dia reparei nisso. Como podia nunca ter reparado! Uma coisa que me seduz nesse fruto, além do toque suave da pele, é o intenso e "saboroso" odor que exala. Pegar num pêssego e encostá-lo suavemente ao nariz é um momento de grande felicidade animal. Mas, naquele dia fatídico, reparei que não havia um cheiro particular. Nem dos pêssegos, nem das maçãs, nem de nehuma outra qualidade de frutos ali expostos em quantidades industriais. Horror dos horrores! Apesar do bom aspecto em tamanho e côr, os frutos não tinham cheiro!!!
Desde esse dia que me comporto como um cão, farejando tudo com pouca esperança de encontrar algo que me apeteça levar para o remanso do lar e aí devorar com volúpia.
Mas hoje de manhã tudo mudou. Perante embalagens de 6 pêssegos todos semelhantes como peças industriais, cobertos com película aderente transparente senti a indiferença habitual. Maquinalmente peguei numa embalagem, encostei-a ao nariz e... oh, alegria imensa, estranha sensação, um forte odor chegou até mim, mesmo através do plástico.
As regras comunitárias que tudo tendem a normalizar, liofilizar e empacotar com aparência saudável estão a tornar a nossa existência ainda mais indiferente e anódina. O pêssego que acabei de comer devolveu-me alguma esperança na possibilidade de virmos ainda a recuperar certos prazeres meio selvagens que vamos perdendo na paranóia quotidiana de olharmos pela nossa saúde em todos os pormenores possíveis e imaginários.
Fumar mata, comer faz mal, o álcool destrói e a droga enlouquece. Tudo nos atemoriza e nós evitamos, como se pudessemos contrariar a natureza humana. Afinal de contas desde o momento em que nascemos começamos a morrer! A vida é uma caminhada para a morte que pode ser mais rápida ou mais lenta, mas o desfecho é inevitável. Não temos que nos sentir deprimidos por isso... que conversa mais mórbida!
Vou comer outro pêssego daqueles. É preciso aproveitar as coisas boas que a vida nos oferece!
Pensamento positivo.

sábado, julho 21, 2007

Estranhas sensações

A exposição "O Corpo Humano como nunca o viu" (http://www.ocorpohumano.net/) é um espaço onde nascem estranhas sensações. Visitei-a hoje com a minha filha depois de termos passado pela extraordinária Igreja de São Roque. A Igreja está absolutamente espectacular. A "aridez" da fachada sobre o Largo da Trindade constitui uma discreta cortina, não deixando adivinhar, nem de longe nem de perto, a riqueza esfusiante do interior. Absolutamente deslumbrante!
Com "O Corpo Humano como..." passa-se algo vagamente semelhante. Também ali se descerra uma cortina para entrarmos num mundo estranho e perturbante.
Esfolados em posições dinâmicas ou de repouso, plastificados e recortados, expõem aos nossos olhos segredos que normalmente apenas suspeitamos. Numa sequência didáctica, com momentos de grande impacto visual ou interesse científico, a exposição oferece perspectivas verdadeiramente curiosas do que guardamos cá dentro, mostrando cruamente o aspecto de alguns dos nossos tesouros mais preciosos. Admirar um coração ou um cérebro é, certamente, uma actividade perturbante. Nós somos aquilo. Melhor, nós parecemos aquilo, porque o que somos não se pode plastificar, cortar às postas e expor ao público. Ainda não conseguimos materializar a alma ou o espírito, ou lá como se chama a coisa que põe todos aqueles ossos e músculos a funcionar com determinado objectivo.
O único senão poderá ser o preço dos bilhetes (consultar o link acima) mas, no meu caso, tive a sorte de a Célia nos oferecer 2. Foi por isso que a Ana ficou numa esplanada no jardim do Príncipe Real a conversar com a Célia, enquanto eu e a minha filha visitavamos a exposição. Lá no fundo, lá bem no fundo, talvez a vontade de ver corpos humanos retalhados e plastificados não produza o mesmo tipo de curiosidade em todos nós!

quarta-feira, julho 18, 2007

O milhão

A unidade de medida para aquilatar o sucesso de um filme, de um livro ou de uma obra de arte vendida em leilão é o milhão. O milhão de euros, o milhão de dólares, o milhão de discos vendidos, o milhão de espectadores, o milhão de vezes que o nome de alguém e repetido com uma caixa registadora de permeio.
Esta forma de "medir" o mundo que nos rodeia não deixa de ser curiosa e injusta, reveladora de uma certa esquizofrenia paranóica (que quererá isto dizer?) característica da sociedade de consumo cada vez mais desenfreado em que nos movemos como moscas volteando numa imensa e apetitosa lixeira.
O sucesso assim medido deixa-nos a quase todos na prateleira dos tansos incapazes de gerar milhões (do que quer que seja) e incentiva-nos a escarafunchar as nossas existências na busca de uma oportunidade para amealharmos o nosso tão ambicionado milhão (qualquer coisinha serve). Um problema complicado!
Há o Guiness Book of Records, há as listas dos mais ricos, os rankings de popularidade ocupados por legiões de semi-deuses, cada qual com o seu milhão particular do que quer que seja. Nos states os nossos primos americanos dividem com frequência os cidadãos em loosers e winners, sempre com os tais milhões a servirem de bitola.
Talvez vá sendo tempo de baixar um pouco a fasquia para os mortais comuns. Eu proponho a dezena (ainda pensei na centena mas...).
Assim todos teríamos maiores probabilidades de vermos realizados os nossos sonhos. "Ganhei vinte euros a jogar à lerpa! Estou tão feliz!" ou "Já fiz hoje mais de dez desenhos, acho que mereço uma boa cervejola fresca!".
É isso, vou fazer uns desenhitos para merecer a bujeca ao fim da tarde!

terça-feira, julho 17, 2007

Parece bruxedo!


Harry Potter gera receitas de 77,4 milhões no fim-de-semana de estreia
O filme "Harry Potter e a Ordem da Fénix" gerou 77,4 milhões de dólares em receita de bilheteira no último fim-de-semana, nas salas de cinema dos EUA e do Canadá, proporcionando à Time Warner a melhor sequência de cinco dias para um filme que estreou numa quarta-feira, desde "Homem-Aranha 2", em 2004.

Série Harry Potter dá origem a mundo paralelo na Internet
Por Mike Collett-White
LONDRES (Reuters) - A série de livros Harry Potter deu origem a todo um universo paralelo na Internet, e sites atraem milhões de fãs todos os dias, influenciando bastante o sucesso dos romances e das adaptações para o cinema da trama.
As histórias criadas por J.K. Rowling são tão famosas, assim como as páginas na Internet criadas em torno delas, que alguns fãs online acabaram virando astros.


Etc., etc., etc., Harry Potter é um fenómeno de popularidade. É um ídolo Pop na verdadeira acepção do termo e do conceito. Nunca li nenhum livro da série mas vi quase todos os filmes, incluindo o recente "A Ordem da Fénix" (a minha filha já viu duas vezes e prepara-se para ver, amanhã, a terceira). São filmes com efeitos especiais estonteantes e uma linha visual sóbria e muito bem conseguida. O universo sombrio de Harry Potter possui todos os ingredientes para apaixonar multidões de jovens que têm crescido com os actores protagonistas e vão sendo agradvelmente surpreendidos por cada novo filme.
Nem o facto de haver algumas falhas evidentes na passagem dos livros para o écran, mesmo para quem, como eu, nunca leu nenhum, impede o sucesso extraordinário da série cinematográfica. Basta olhar para os calhamaços escritos pela Senhora Rowlings para perceber que traduzir toda aquela literatura em cinema não daria filmes com menos de 5 horas (contas por baixo) o que não iria incomodar os fãs mais fervorosos.
Seja como for, ir ao cinema assistir a mais este episódio de Harry Potter, é um exercício agradável e refrescante que aconselho a quem tem filhos e a quem não tem. A quem gosta de cinema e a quem não se importa de ouvir mastigar pipocas nervosamente.
Uma espécie de pequena festa!

segunda-feira, julho 16, 2007

Ler e escrever


O alarme soou: os resultados nos exames de Matemática no 9º ano terão sido prejudicados pelas fracas competências dos estudantes no que respeita a leitura e interpretação das questões colocadas.
Se repararmos nos (aparentemente) excelentes resultados dos mesmos alunos na prova de Língua Portuguesa podemos ficar confusos. A análise das causas para a fraca prestação em Matemática não coincidem com a leitura "directa" dos resultados em Português. Em que é que ficamos?
Das duas uma; ou os graus de exigência das provas não foram semelhantes (o exame de Português do 9º ano foi nitidamente muito... acessível e o de Matemática nem tanto) ou então os alunos não se sentiram motivados de igual forma na maneira como encararam as provas realizadas.
Lá no fundo quer-me parecer que anda por aqui muita "engenharia" educativa. Tapa-se o peito destapam-se os pés, tapam-se os pés fica o peito a apanhar frio.
Resumindo e concluindo: os resultados dos exames não servem para grande coisa quando são analisados sem contextualizar os processos de ensino/aprendizagem. O que está errado talvez seja o currículo global do Ensino Básico com as suas 14 disciplinas apinhadas em horários semanais dignos de um operário do século XIX. Mas ir por aí dá demasiado trabalho. É mais fácil continuar a acusar os professores de incompetência e as escolas de má organização.
Lá no Ministério a rainha má não deve ter espelhos que lhe façam a justiça desejada. O costume.

domingo, julho 15, 2007

Lisboa ainda lá está!

Uma das coisas boas de viver em Almada é poder admirar Lisboa sem necessidade de lá entrar. Principalmente à noite é uma vista bonita. Da janela da minha sala vejo o Cristo Rei e os aviões que se fazem à pista do aeroporto da Portela a passarem-lhe sobre a cabeça, uns após outros, ininterruptamente. Sinto a capital a pulsar do outro lado do rio. Quando lá vou tenho sempre uma qualquer razão objectiva. Raramente me desloco a Lisboa apenas para passear mas isso também acontece.
Hoje foi o culminar do processo das eleições intercalares para a presidência do município alfacinha. A campanha foi o que se viu e ouviu. Teve de tudo. 12 candidatos fizeram discursos variados e para todos os desgostos. No fundo, no fundo disseram basicamente a mesma coisa conforme se inclinassem para a esquerda ou para a direita, sem correrem grandes riscos. Todos jogaram pelo seguro e os resultados finais confirmaram as previsões dos últimos dias.
O PS dramatizou a coisa e lá agitou com o fantasma da ingovernabilidade caso não tivesse maioria absoluta. Carmona conseguiu passar a imagem de rapazinho bem comportado e melhor intencionado. Negrão confirmou ser um bimbo emproado, incapaz de cativar o eleitorado lisboeta. Ruben de Carvalho, Helena Roseta e Sá Fernandes formam um trio de esquerdistas convictos. Tão convictos que tiveram de concorrer separados como é costumeiro entre os partidos de esquerda. Cada um mais puro que o outro nas formas e intenções que representa lá elegeram os respectivos vereadores. Fica a gora a curiosidade de ver quem irá apoiar António Costa nas diversas ocasiões.
Os partiditos mais pequenitos lá dividiram migalhas e não é com desagrado que vejo Garcia Pereira, o eterno candidato a todos os cargos que nunca será eleito para nenhum, ficar à frente daquele gajo sinistro do PNR, com o dobro da percentagem de votos que o homenzinho do cartaz conseguiu alcançar. O nazi-fascista pretendia ser o maior dos mais pequenos (o gajo tem mesmo necessidade de afirmação!) e ultrapassar a inimaginável barreira de 1%. Deus é grande e nem uma coisa nem outra. Espero que se esconda por um largo período de tempo e continue a dar entrevistas para blogs secretos e a iluminar a existência dos seus apagados partidários com cortes de cabelo à Adolf que o acompanharam pelas ruas de alguma Lisboa que este gajo não pode entrar em bairros onde vivam muitos pretos. Por razões óbvias tem de se ficar por zonas de brancos, de preferência transparentes e barbeadinhos.
Tanto barulho por nada! A abstenção chegou a 62%. A praia e as férias prejudicaram a Democracia afastando os eleitores do seu dever cívico. Fica a amarga sensação que a Democracia é coisa menor e deveras desinteressante aos olhos daqueles palonços que vêm fazer bichas infinitas nos caminhos da Costa, como se disso dependesse a sua felicidade e existência.
Tanta agitação mediática, tanto discurso e cartaz, para as colinas de Lisboa parirem afinal um rato miserando que proporcionou a Sócrates um discurso inflamado, com um brilhozinho nos olhos, a reclamar uma grande vitória para o Partido Socialista. Foi uma vitória, sem dúvida, mas não me parece que tenha sido tão grande como o 1º ministro nos quis fazer acreditar.
Fui à beira do rio olhar para o outro lado. Lisboa ainda lá está, igualzinha sem tirar nem pôr. Tenho cá a impressão de que assim vai ficar.

sábado, julho 14, 2007

Amor de cão


Uma coisa que me faz alguma confusão é ter animais fechados em casa. Um peixinho palhaço ou um canário ainda vá que não vá, mas um doberman ou um grand danois, meu Deus, qual é a ideia? Fechados todo o dia num apartamento, à espera que o dono os leve à rua para um chichi libertador ou um cócó reconfortante, que merda de vida têm esses bichos? Depois há o probleminha da caca no passeio. Vai um gajo a sair de manhãzinha para um belo dia de trabalho e, plof, pisa uma poia do tamanho de um pão alentejano. Caramba, há poucas formas piores de iniciar o dia. Digo eu.
Há aquela regra de civilidade que manda os passeadores de cachorros levarem um saquinho de plástico para apanharem os presentes dos bichinhos para depois depositar no caixote do lixo. Quantos cidadãos se dão a esse trabalho? Poucos. Muito poucos. Regra geral disfarçam. Olham as montras, assobiam para o lado, fazem de conta que não estão a ver o bicho a cagar no passeio.
Tudo bem. Até posso compreender que não seja a actividade mais edificante, apanhar a merda dos cães com a mão. O que me espanta mesmo é terem os animais fechados no apartamento. Que mal fizeram os bichos a Deus para merecerem tão entediante cativeiro?Aquilo só pode enlouquecê-los, deixá-los à beira de um ataque de nervos. A eles e aos cidadãos que patinam na merda e ficam a dizer mal da vida e a cheirar a caca.
Quem gosta de animais em casa deveria ficar-se pelo cágado ou pelo bicho-da-seda. Ou satisfazer-se consigo próprio, não sei. Não me parece que fechar os bichos em casa seja prova de grande amor. Muito menos de admiração ou respeito.

sexta-feira, julho 13, 2007

Quem é ele?

Familia: Bufonidae.
Género: Bufo
Especie: bufo
Nome comum: Sapo comum.


Gostava de saber quem foi o denunciante de Charrua. Tenho interesse em saber o que o levou a tomar a atitude de bufar o colega. Terá sido um assolapado amor à Pátria ou uma devoção quase religiosa pela figura do 1º ministro? Um impulso incompreensível mas grandioso ou mera mesquinhez e inveja? O que foi? O que pode levar um ser humano a descer ao nível animal de uma ratazana de esgoto? Como é o seu aspecto? Terá corcunda e sobrancelha única como Igor, o célebre coadjuvante do Doutor Frankenstein? Ou nada o distingue do mais inocente dos mortais?
O clima não anda particularmente ameno. Fala-se “deles”, aqueles tais que não sabemos quem são mas sabemos que andam por aí, a espiolhar e a falar baixinho, a apontar nomes no caderninho. Mas eles têm rosto e têm nome e nós, cidadãos honestos com gosto pela liberdade de expressão, temos o direito de saber quem são. A fotografia do denunciante de Charrua devia ser capa de jornal. N’O Crime, no 24 Horas, no Público, devia abrir os telejornais em horário nobre: “Esta é a face de Fulano Tal, bufo em actividade. Caso o veja por perto enxote-o ou tenha cuidado com aquilo que diz.” Isto seguido de entrevista tentando esclarecer as tais razões que levam um ser humano a descer ao nível animal de uma ratazana de esgoto.
A total impunidade de um bufo é uma afronta à Democracia.

Carta enviada ao director do Público em 13 de Julho de 2007

Aborrecimento


O mundo deve ser tenebroso aos olhos um analfabeto que desça as encostas da serra para tentar a sua sorte entre os muros da cidade.

Procurar um lugar ou um trajecto entre todas as tabuletas, sinais, avisos e outras formas gráficas de comunicação características da agitação visual da urbe deixará o nosso querido analfabeto com náuseas e a cabeça a andar à roda. Assaltado pela nostalgia do espaço familiar nas agrestes mas acolhedoras encostas repletas de calhaus e urze, o nosso amigo é levado a recordar reconfortantes conversas com as ovelhas, essas excelentes companheiras, e a singela limpidez da paisagem visual que deixou para trás.

De igual modo, um estudante sentado na sala de exame perante um teste que não é capaz de descodificar por não compreender a linguagem em que este se lhe apresenta, se sente algo perdido. Uma ligeira vertigem basta para o levar dali, a pairar num pensamento ligeiro e recordar reconfortantes conversas com amigos virtuais numa linguagem singela e límpida como um céu sem nuvens. O mundo que faz sentido e se completa em sinais descodificáveis, não o mundo escuro e frio daquele teste.

Pastor e estudante, perdidos em intrincados labirintos de sinais crípticos e significados extraterrestres, irmanados pelo mesmo doce paladar da iliteracia funcional, recordam com uma pontinha de angústia mundos onde são reis e tudo podem. Mundos que fazem sentido, onde o infinito é outra coisa que ali e agora não existem. Mas que permanecem.

quarta-feira, julho 11, 2007

Filantropia



Quantas pessoas se podem gabar de andar pelos museus deste mundo oferecendo obras às paredes de forma absolutamente graciosa, animadas apenas pelo mais puro dos amores ao seu semelhante?
Banksy. Apenas Banksy. Banksy e mais ninguém!

terça-feira, julho 10, 2007

Rei do Hamburger

Encontrei esta imagem num livro sobre a obra de Banksy. Perturbador, no mínimo, inspirador, no máximo. É estranho como as imagens de miséria têm esse poder imenso de actuar como pranchas de navio pirata nas quais avançamos devagarinho, mãos atadas atrás das costas, passinhos miudinhos, a fazerem crescer a prancha. Espicaçados nas costas pela espada implacável e insolente de um manhoso Capitão Gancho lá vamos andando, sabendo certo o mergulho no meio dos tubarões que sorriem dentro de água, debaixo da prancha.
Estamos fritos mas sabemos que tudo isto não passa de imaginação nossa, trabalho de um insuspeito Peter Pan que está ligado a nós como uma sombra eterna e poderosa. É essa sombra que nos permite o sonho, a percepção do bem e do mal que nos ajuda a sofrer com o infortúnio alheio e, no entanto, é também ela que nos ajuda a manter a calma, a perceber como está longe de nós essa miséria. Confundimos muitas vezes indignação com indiferença, talvez porque estas imagens nos chegam quase sempre através da TV. Não têm cheiro, nem som ambiente nem o olhar directo destes monarcas condenados à fome eterna. Sentimo-nos muito melhor por sermos capazes de nos imaginarmos solidários com os Reis do Hamburger por esse mundo fora.
No tal livro de Banksy, "Wall and Piece", este Burger King vem acompanhado pela frase "Por vezes sinto-me tão revoltado com o estado do mundo que nem sequer consigo acabar a segunda tarte de maçã." (tradução livre).
É, eu também...

domingo, julho 08, 2007

A cabeça à roda

O interesse redobrado nos combustíveis "verdes" tem enchido as manchetes dos jornais. Assim, à primeira vista, fica-se com a sensação de que, afinal, ainda poderá haver uma nesga de esperança para a sobrevivência do planeta Terra à nossa capacidade de destruição. A substituição dos combustíveis derivados do petróleo pelos designados biocombustíveis (propõe-se agora a designação de "agrocombustíveis" por uma questão de rigor) reduzirá a emissão de gases nocivos em percentagens estonteantes (terei lido menos 72% de CO2 ou sonhei com isso?). A camada de ozono teria a possibilidade de se refazer um pouco sem que o nosso modo de vida se alterasse substancialmente. Os agro-biocombustíveis permitiriam a manutenção dos hábitos de consumo e dos níveis de bem-estar das sociedades capitalistas (ou em vias de se tornarem nisso) sem que daí viesse grande mal ao mundo. Antes pelo contrário. Ler as tais manchetes sossega os mais cépticos e devolve um sorriso aos lábios mais maledicentes dos cérebros mais pessimistas. O paraíso na Terra é afinal uma possibilidade sem termos que deixar um planeta cadáver a pairar no universo. Ufa!
Mas, se lermos o resto das notícias, a sensação de alívio aperta-se-nos na garganta. Os preços das matérias-primas para produção dos combustíveis "verdes" tendem a aumentar tornando a vida (ainda) mais difícil para as populações dos países mais pobres. Isto numa perspectiva mais imediata. Numa perspectiva mais complexa será importante perceber de que modo o actual "equilíbrio" mundial será afectado. Como irão reagir os mercados internacionais apoiados na produção e comercialização de petróleo? Que transformações profundas e radicais se irão operar no mundo tal como o conhecemos actualmente?
A complexidade das questões expostas ultrapassa largamente a minha capacidade análise. Fico com a sensação de que a aposta nos biocombustíveis e nas energias renováveis só por si não bastarão para colocar um travão eficaz na destruição do planeta. Essas apostas só terão o efeito esperado caso sejam acompanhadas por alterações profundas nos nossos hábitos e modos de vida. Não podemos continuar a consumir recursos nos volumes actuais e pretender melhorar em simultâneo a saúde do planeta.
Assistimos aos primeiros passos numa nova direcção mas, ou modificamos radicalmente aquilo que somos ou nada disto terá valido a pena. Não precisamos só de novas fontes de energia, precisamos ainda mais de novos paradigmas civilizacionais.
Estou com a cabeça a andar à roda!

quinta-feira, julho 05, 2007

Celebração

Já passou um dia inteiro sobre o concerto dos Arcade Fire e ainda sinto uma espécie de prazer indescritível quando o recordo. Sem desprimor das outras bandas que actuaram na noite de anteontem no Superbrock, o grupo dos canadianos arrasou por completo. Arrasaram eles e arrasou o público, juntos numa celebração memorável de energia positiva e explosiva como já não me lembrava de alguma vez na vida ter participado. Foi um "daqueles" concertos que não se repetem, uma daquelas festas espontâneas que ultrapassam as mais loucas expectativas, não há palavras porque coisas assim experimentam-se ao vivo. Vivem-se apenas.
Um acontecimento como o concerto que aqui refiro é espelho perfeito de uma certa maneira de ser aquilo que normalmente designamos como "Mundo Ocidental". Uma multidão absolutamente pacífica, jovem, na maioria, bem de vida (para pagar os bilhetes é preciso alguma disponibilidade financeira) e disponível para a festa. Depois, bom, depois o milagre da transfiguração ali mesmo, perante os nossos olhos.
Ouvir os álbuns em CD, por muito bom que seja o aparelho, não se aproxima de forma nenhuma daquilo que os Arcade Fire ofereceram às 20 mil pessoas que ali estavam. Fui com a Ana para o mais perto possível do palco, muito perto mesmo. E deixámo-nos ir. A energia sonora, a grandiosidade do grupo, a simplicidade do aparato visual... não me alongo mais por não valer a pena, não há palavras.

terça-feira, julho 03, 2007

Festival

Daqui por um bocado vou arrancar com a família e mais uns amigos em direcção ao 13º Festival Super Bock Super Rock. http://www.superbock.pt/SuperMusic/SBSR/
A última vez que me lembro de ter ido a um festival de rock foi em 1982, quando fui em bando até Vilar de Mouros. É claro que, depois disso, assisti a inúmeros espectáculos de bandas mais ou menos rockeiras ou por aí perto. Mas festivais... que me lembre foi o único. Na verdade vou apenas hoje ao Super Brock, não vou "ao" festival propriamente dito.
Das 6 bandas que vão actuar "conheço" apenas duas. Os The Gift que vi aqui há uns anos no Coliseu dos Recreios em Lisboa e os Arcade Fire (na imagem) que conheço de ouvir os seus dois álbuns: Funeral e The Neon Bible. As restantes 4 serão absolutas surpresas embora duvide muito da minha capacidade para lhes prestar atenção a todas.
Enfim, 25 anos mudam muita coisa e o espírito com que me dirijo hoje ao recinto do festival é um pouco diferente daquele que me conduziu a Vilar de Mouros. Nessa ocasião os cabeças de cartaz eram os Stranglers e os Echo & the Bunnymen que actuaram logo no primeiro dia, mas o grande concerto veio lá mais para o meio do festival com uns tais de U2, à época uns quase desconhecidos para o grande público.
Pelo que vejo a coisa cresceu desmesuradamente e nos dias que correm um festival deste género representa um enorme volume de negócios. Aliás, os festivais de Verão multiplicam-se, todos eles com cartazes apetecíveis e organizações que se autoproclamam impecáveis. Os olhos dos actuais teenagers decerto brilham de emoção ao imaginarem as férias passadas a saltar de festival em festival, celebrando a grande festa do Rock com todo o entusiasmo. Deve ser bem empolgante.
Da parte que me toca tenho curiosidade por quase tudo o que imagino ir encontrar no Parque Tejo. Desde o ambiente ao espaço, passando pelas bandas e pela fauna espalhada pelo recinto, penso que será uma ocasião festiva. Tem tudo para isso.
Bom, está na hora de ir calçar os ténis e pentear a careca ao diabo(http://carrapaustaline.blogspot.com/2007/06/querida-senhora-rego.html).

7maravilhas7


Numa época em que multiplicamos diferentes ordens de maravilhas por 7, aqui ficam 7 maravilhas da blogosfera em português escritas.













Parece-me uma boa lista. É experimentar os diferentes links e confirmar (ou não) a excelência dos ditos cujos (blogs).

segunda-feira, julho 02, 2007

Implantes




19 horas (quase, quase) e escrevo este post na sala de espera do consultório do dentista. Hoje vim apenas mostrar ao doutor as minhas belas gengivas que cicatrizam de forma espectacular. Um assombro de cicatrização, uma maravilha da capacidade de regeneração do tecido animal, prova vivente da perfeição da máquina (desde que não haja avarias de maior). Assim sendo ficam agora as minhas gengivazinhas de pousio até estarem preparadas para receberem implantes e coroas e mais não-sei-quê, estando a minha boca eleita à categoria de rainha, tal o volume de investimento que se adivinha ser necessário para lhe restituir a dignidade perdida por anos e anos de descuido e incúria estomatológica que levaram uma mão-cheia de dentes à decadência total. Dentes que as fadas já não pagam por estarem fora do prazo. Estes dentes, antes pelo contrário, pagamo-los nós que é para aprendermos a não sermos palonços ao ponto de deixá-los estragarem-se tanto que já nem memória deles guardamos.

É assim que terei os meus primeiros parafusos na caveira. Isto é uma intervenção ao nível da cirurgia plástica? Talvez, sei lá, o que é que isso interessa? Como diz o slogan da clínica "Criamos sorrisos"... talvez fosse mais exacto afirmarem "Devolvemos sorrisos" ou talvez não. Eu podia querer um sorriso tipo Pernalonga. O médico só tinha mesmo de cumprir o meu desejo.

Automático

Pela manhã desloca-se um autómato. Vai descobrindo tarefas que executa sucessivamente sem uma ordem definida. O autómato não exterioriza hesitação nem entusiasmo perante os diferentes pequenos trabalhos que o amanhecer lhe vai oferecendo. Executa-os, apenas, porque não há outra razão que o anime. Os gestos parecem acontecer longe do corpo mas tudo se encaixa na maior das perfeições. As coisas vão-se completando em cada gesto, ganhando sentido após a conclusão de cada tarefa. Os contornos do universo desenham-se com maior nitidez, está quase tudo no devido lugar.
O autómato dirige-se para o duche. Quando a água jorrar dar-se-à o momento mágico em que se transformará outra vez naquele ser de carne e osso que vai viver o dia no seu lugar. O autómato sorriria, se compreendesse "sorriso", quando pensa em Pinóquio e na sua obsessão em ser um menino de verdade. Até adormecer o autómato vai parecer um homem normal. Com os sonhos mais profundos regressará. Até ao duche da manhã seguinte.