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quinta-feira, março 15, 2007

Lutar para quê?

Continuando a reflectir um pouco sobre a questão: A luta de classes existe? fico um pouco embaraçado por não ser capaz de pensar a direito, muito menos pensar com clareza. Não é vergonha que dure muito ou faça corar, antes uma espécie de embaraço.
Verdade, verdadinha, tenho alguma dificuldade em identificar o operariado ou deslindar por onde andam os camponeses de hoje em dia. A impressão que fica é que se trata de espécies em extinção no nosso país, mais ameaçadas que o bacalhau da Noruega!
Terá sido isso que fez imaginar o pessoalzinho que a luta de classes acabou? Quero dizer, a diluição das classes trabalhadoras numa mistela sem forma nem conteúdo, uma espécie de massa aspirante à felicidade que só o dinheiro pode dar? Os capitalistas (ena pá, há quanto tempo não escrevia esta palavra!) descobriram o ovo de Colombo: "Se não os podes vencer, transforma-os em ti próprio!" Nada pior para as classes trabalhadoras poderem sonhar com virem a passar-se para a classe patronal. O sonho comanda a vida, dizia a cançoneta. Então não comanda! Quem percebeu isso melhor foram as classes dominantes que facilmente manipularam os sonhos de quem pouco ou nada tem envenenando-lhes os sonhos com os seus próprios pesadelos, até transformar o inimigo em falso amigo e vice-versa. Confuso? Também acho.
Lá no fundo, bem fundinho, uma questão vai ganhando forma e conteúdo. Se eu (trabalhador) aspiro a ser patrão ou, pelo menos, ter um modo de vida semelhante ao do meu patrão, porque hei-de lutar contra aquilo que sonho vir a ser? Não faz qualquer sentido. O Capital descobriu a forma ideal de domar as massas trabalhadoras. Permitindo-lhes o acesso a pequenas maravilhas que a tecnologia transforma em produtos baratos vai mantendo a ilusão de que todos poderão garantir um lugarzinho no paraíso do capital. Assim se vão entretendo os tolos, já não com papas e bolos mas com telemóveis e écrãs planos, calças Levis e camisas de marca. Coisas facilmente comercializadas ao preço da uva mijona, para gáudio da populaça.
Domina-se o monstro transformando-o em cordeiro, mesmo que o pêlo seja sempre de fraca qualidade e o seu balido soe eternamente como uma corneta de plástico.
A luta de classes não acabou. Apenas estamos confusos ao ponto de não percebermos a que classe pertencemos. Andamos anestesiados.

Há luta?

Vem hoje no Público (página 11) uma noticiazinha assinada por Isabel Leiria com o sugestivo título: Estudos e ocupação dos pais determinam acesso ao superior.
Ao longo de duas singelas colunas a jornalista cita um estudo de duas investigadoras que se deram ao trabalho de evidenciar uma evidente evidência: o acesso da juventude portuguesa ao ensino superior continua relacionado com as habilitações académicas, o rendimento e a ocupação (profissional ou outra) dos pais.
Só mesmo quem tenha passado uma temporada valente a viajar pelo espaço exterior em busca de vida inteligente para lá da Colunas de Hércules poderia imaginar que a democratização, encetada após a revolução de Abril de 1974, havia esbatido em definitivo o fosso que separa o castelo dos mais ricos da rua mal calcetada dos mais pobres. Nem em sonhos.
Não só temos vindo a assistir a um alargamento daquele fosso como parece estar cada vez mais profundo. A pobreza manifesta-se das mais variadas formas e a de espírito também entra nestas contas. Note-se que a simples condição económica não se traduz em elevada capacidade académica. É necessário juntar-lhe uma capacidade cultural ligeiramente superior à média (pelo menos) que entre nós nem sequer é particularmente elevada.
Sendo assim, as classes dominantes continuam a dominar e as dominadas debatem-se com a ferocidade possível para sairem do buraco onde tendem a afundar-se. Podem sempre tentar a via mediática através de um Big Brother qualquer e aparecer nas capas das revistas chunga, mas isso é tão efémero como um peido de cão.
Não querendo alongar-me demasiado na análise de tal evidência gostaria de finalizar com uma perguntinha meio inocente, meio maldosa: a luta de classes deixou de existir?
Talvez tente uma resposta noutro post, tenho cá umas ideias acerca do assunto.
Para já fico-me por aqui, com um sorrisinho cínico a dançar-me na testa.

domingo, janeiro 14, 2007

1.44 gramas

O episódio da condenação de Luisão a 40 dias de trabalho comunitário por ter sido apanhado a conduzir embriagado (1.44 grams de álcool por litro de sangue é obra de trabalho aturado a verter copos na garganta!) é elucidativo.

Talvez estivessem apenas benfiquistas na sala de audiências onde foi decidida tal enormidade, quem sabe? A sentença não passa ainda de uma proposta que terá de ser confirmada noutra instância judicial. Aguardemos para ver o resultado desta infâmia.

No mesmo dia foram "catados" mais uma série de cidadãos em condições semelhantes. Uns mais embriagados, outros menos, outros ainda, acredito, nem por isso. O caso mais mediático foi o de um actor da nossa praça (não me lembro agora do nome mas estou mesmo a ver quem ele é) a quem foi, de imediato, apreendida a carta de condução. Será escusado tentar saber o que aconteceu aos outros. A maioria (talvez mesmo todos) ficaram a andar a pé e de transportes públicos durante uma temporada.

O que tem Luisão de especial? O facto de ser jogador do Benfica será atenuante num caso desta natureza? Se a carta de condução não for apreendida a este cidadão estaremos perante nova prova da merda de justiça que temos. E, mesmo que isso venha a acontecer, já ninguém limpa mais esta mancha malcheirosa ao seu manto esburacado nem convence o pessoal que a venda dela não é transparente.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Uma visão com futuro

Clicar na imagem
Uma sociedade de robots daria muito menos problemas!
Devidamente programados, os robots nunca faltariam ao trabalho nem se esquivariam aos seus deveres fiscais pagando a tempo e horas os impostos (sem a necessidade das habituais filas intermináveis no último dia do prazo).
Robots bem educados não haviam de conduzir como labregos nem estacionariam o veículo no meio da rua para irem tomar uma bica e comer um pastel de nata deixando outros robots à beira de um ataque de nervos.
Um robot seria incapaz de abandonar os animais de estimação quando rumasse à praia no Verão com a família. Outra coisa que um robot nunca faria: escarrar na rua!
A lista das vantagens que uma sociedade de robots teria sobre a nossa actual sociedade de seres de muita carne e pouco osso é interminável. Essas vantagens são tão evidentes que há quem, no silêncio e na penumbra, já venha trabalhando nesse sentido.
A formatação social globalizada é um objectivo meritório e tem chancela divina.
Agora que começamos a assistir aos primeiros sinais evidentes da falência da Democracia tal como a imaginávamos estamos precisadinhos de uma alternativa fiável. É aqui que entra a robotização dos indivíduos enquanto caminho a seguir.
Tenho cá a impressão que já metemos os pés à estrada.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Tomar partido

O referendo sobre o aborto está decidido. Agora não há que ficar à espera, há que tomar partido. O referendo anterior foi uma autêntica vergonha pelo número inacreditável de eleitores que enfiaram a cabeça num balde de merda e preferiram fingir que o dia da votação não era mais que um carnaval de avestruzes. Desta vez será o dia da grande decisão. Todos os votos contam, não podemos voltar a ficar reféns de uma minoria transformada em maioria pela abstenção.
Os fingidos que militam nos movimentos "pró-vida" sabem bem que as suas mulheres não têm problemas e dispensam a despenalização já que, quem tem dinheiro, vai a uma clínica espanhola e pronto. Eles que continuem com a cabeça enfiada na merda. Nós temos necessidade de respirar outra vez ou então é como se estivessemos a forrar o interior do balde.
Que nenhum voto se perca!

http://www.kameraphoto.com/ um salto a este lugar para ver uma reportagem fotográfica a propósito de João Carvalho Pina em "Últimas" e, já agora, ver outros trabalhos de fotografia. Destaco as de Céu Guarda por uma questão de amizade longínqua.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Tempos difíceis


A ocupação do Rivoli e a análise da fatiazinha do Orçamento de Estado para 2007 destinada ao Ministério da Cultura mostram como o problema já não se reduz à proverbial saloiice dos dirigentes do PSD no que diz respeito à política cultural. A coisa propaga-se como nódoa de azeite em camisinha de veludo.

O ex-vereador da cultura da CM do Porto disse, após se ter afastado do cargo, que Rui Rio confunde cultura com lazer. Se fosse só ele estaríamos nós menos mal mas o problema vai mais fundo, até às entranhas da geração que actualmente desempenha os cargos de poder no nosso país.
Educados na penumbra fedorenta do salazarismo, os nossos governantes continuam a emprenhar pelos olhos com uma facilidade apenas comparável à alegria que os inunda sempre que inauguram um novo centro comercial, maior que o anterior e normalmente o maior da Europa. Aos fins de semana as famílias vão passear-se nesses edifícios grandiosos admirando as montras e os bens de consumo, como se estivessem num museu, numa qualquer catedral de cultura, enriquecendo deste modo o seu espírito, moldando assim a sua visão do mundo circundante.
Muito se tem falado nos últimos tempos do endividamento das famílias portuguesas. Com os seus hábitos "culturais" não é de admirar que isso aconteça. Tantos fins de semana a cobiçar as obras de arte expostas nas montras da Zara e da Singer enquanto ruminam um Big Mac e respectiva Coca-Cola só pode dar exactamente naquilo que dá.
Outro problema é que, além da atávica falta de hábitos culturais, somos um povo falido. Quem não tem dinheiro não tem vícios, não há papel, não há palhaços e por aí fora. Se a maioria dos portuugeses mal tem dinheiro para comer como haverá de comprar livros, assitir a espectáculos de teatro, concertos, etc. Como irá pagar a entrada nos museus (sim, porque museus à borla só aos Domingos e até às 2 da tarde que depois do cozido já não há mais pão pra malucos!) ou, muito simplesmente, comprar um jornal diário?
Sobra a TV e pouco mais. O êxito das novelas é tal que, penso, revela bem a avidez cultural de um povo semi analfabeto. O povo gosta de rir e de grandes estrondos que lhe façam saltar a tampa de espanto. Gosta de festa e de excesso não está cá para se perder em discussões bizantinas sobre a questão da luz na pintura impressionista ou a representação do poder na arquitectura do Estado Novo.
A arte é e sempre foi elitista porque os pobres não têm nem tempo nem dinheiro para investir nela. São os ricos quem investe nas formas artísticas logo é natural que elas representem preferencialmente um universo de elites. Sejam essas elites culturais ou financeiras, a história da arte revela-nos a realidade com uma nitidez impressionante. Entramos num ciclo vicioso ao qual não se adivinha porta de saída.
Os ocupantes do Rivoli são uma face emotiva da sensação de que as coisas estão a piorar no campo da cultura. São a expressão de um sintoma que se acentua com um governo socialista ao contrário do que foi prometido e do que seria de esperar. Mas a Economia é a nova expressão artística dominante e o seu discurso não se compadece com sensibilidade estética e, muito menos, com ética.

sexta-feira, setembro 29, 2006

2º round

Reaproxima-se o debate português sobre a legalização do aborto (ou Interrupção Voluntária da Gravidez em linguagem politicamente correcta). Já andam por aí questões novas levantadas por palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa. Será esta uma questão religiosa?

Os defensores da "coisa-tal-como-está" vêm ao debate com novas estratégias. Refinaram o discurso e usam falas mais mansas e menos contundentes. Parece que durante o tempo que decorreu desde o Referendo anterior e os dias de hoje ganharam outra consciência do problema e já estão mais compreensivos se bem que igualmente irredutíveis nas suas crenças e na fé que as anima.

Os defensores da "coisa-tem-que-mudar" continuam mais ou menos na mesma e não cedem um milímetro nas suas convicções e nos princípios que os animam. O debate não promete grande coisa, em boa verdade. Esperam-se mais acusações, demonstrações e o agitar de milhentos papões.

Por mim vejo a coisa como uma questão de saúde pública onde, como tal, deverá imperar o bom senso e alguma frieza de análise. Neste debate há sempre uma grande dose de emotividade misturada com ódios figadais que ressurgem de rompante para confundir os indecisos.

No anterior referendo a participação dos portugas foi o que se viu e nada se alterou. Espero que desta vez haja, pelo menos, uma maior afluência de cidadãos dispostos a deixar a sua opinião em forma de voto dentro das urnas.
Para que não tenhamos de nos envergonhar quando olhamos o espelho e somos nós o que o reflexo nos devolve.

domingo, maio 14, 2006

Uma visão mística


O Dinheiro é o nosso Deus e a Economia a religião que dá consistência à doutrina e sustenta o Templo.
Os grandes sacerdotes vivem na sombra de inimagináveis palácios. Nós, os simples, podemos apenas ver a carne (o osso está escondido bem fundo em camadas sucessivas das mais variadas gorduras) de pequenos fantoches que dão a face e escondem os mestres. Economistas de trazer por casa, banqueiros de opereta e demais personagens, enforcados em gravatas de sêda, não passam de esbirros e serviçais que engordam em banquetes de migalhas que os verdadeiros (grandes) sacerdotes sacodem da altura das suas mesas, quando são atacados de flatulência e fastio. Estes pequenotes mal conhecem a superfície dos Mistérios da Economia Real.

Nós, os basbaques que com suor e trabalho, contribuimos para o sustento do Templo, somos forçados a acreditar na bondade das intenções dos que ditam o futuro e nos aterrorizam com o apocalipse do Défice e da bancarrota. Os Grandes Sacerdotes profetizam, baseando as suas visões em gráficos complexos e orçamentos equilibrados na leitura de números implacáveis.

Somos levados a crer que vivemos no melhor dos mundos possíveis, tal como Cândido cada um de nós tem o seu Pangloss e não consegue vislumbrar outro modo de existir que não seja aquele que nos é imposto. Afinal de contas não somos capazes de mudar o Mundo! Ou somos?

sábado, maio 06, 2006

Trabalho infantil

É uma coisa que me faz alguma confusão. Como decidem os legisladores sobre os limites do trabalho infantil?

Se um puto anda a acartar baldes de massa nas obras ou a cozer sapatilhas numa fábrica clandestina é caso de polícia. Se anda a decorar páginas de diálogos imbecis e a filmar 12 horas por dia a lei deixa passar e o juíz ainda assiste à novela das sete enquanto descansa os pézinhos.

Nas passerelles e nos plâteaus as crianças não trabalham? Se calhar estão ali por divertimento. Qual será o critério? Quer-me parecer que é uma questão de classe. Classe social, é bom de ver. Os filhos das classes médias não se dedicam a criar calos nas mãos, criam-nos mais facilmente no cérebro. Já os filhos das classes mais baixas dão o corpo ao manifesto de outra maneira e isso não pode ser. A lei condena e a boa consciência social aplaude.

O problema é bicudo e não me quero meter nele mais do que um bocadinho. Olhando para o marmanjito na foto podemos reparar que tem um sorriso bem construído e se estivesse a cozer bolas de futebol para o campeonato do mundo dificilmente ostentaria uma alegria como a que parece transpirar nesta imagem.

Outro aspecto que distingue os trabalhadores infantis é o dinheiro que ganham com o trabalho que realizam. Mas isso não se passa, também, com os adultos? Se um tipo trabalho muito e ganha pouco é um quase-escravo. Se trabalha muito e ganha muito é um quase-patrão.

Depois há a questão da exposição pública. Um puto que esfole a mioleira a telenovelar tem, ainda, o "benefício" de ser reconhecido na rua e pode (glória das glórias) dar uns autógrafos a fãs de guardanapo de papel em punho. Um pobre operáriozinho, na melhor das hipóteses, poderá sentir uma pontinha de felicidade por contribuir com uns cêntimos para mitigar a penúria lá na barraca.

A objectividade e a imparcialidade na análise destas situações não são o nosso forte. Pois não?

quarta-feira, maio 03, 2006

Coisa ruim!

Cinderela ao Contrário? Que raio de coisa quererá isto dizer? Que a senhora lavava o chão de algum palácio com a cabeleira, de pés para o ar, quando ainda era tenra e jovem? Que em vez de ter uma abóbora por veículo andou de ratazana naquela noite em que perdeu um sapatinho de látex? A imaginação humana não conhece limites e não paramos de ter provas disso.
A nova obra literária promete revelações arrepiantes como, por exemplo, o 1º beijo desta Cinderela de trazer por casa ou ainda a fase difícil que atravessou após o divórcio. Sim, divórcio! Pois se até a rainha de Inglaterra arranjou um gajo que casasse com ela porque raio não haveria esta princesinha de conseguir o mesmo feito extraordinário?

Humor de pacotilha à parte, a coisa promete! Se provas faltassem sobre a dimensão do bom gosto desta senhora e dos amigos, bastaria olhar a imagem acima com olhos inocentes, sem maldade nem nada. Que coisa ruim! Que esgar arrepiante nos é oferecido sob aqueles olhos demoníacos, numa malévola imitação de um sorriso.
Meu Deus.

P.S. Oferece-se o convite que serviu de modelo à imagem deste post a quem provar ter estômago para se deslocar ao Centro Cultural de Cascais no próximo dia 11 pelas 18 horas.
Como é diferente a cultura para os lados de Cascais, caraças!

terça-feira, abril 25, 2006

Revolucionado

O Último Crente, acrílico sobre papel, 2002, RSXXI
Ritual cumprido, Revolução recordada. Cá por dentro sinto-me revolucionado. Na normalidade previsível, a surpresa foi grande. No palco, bombos batidos a preceito por um bando de bimbos bem portugueses em cadência que deu para meter cabeçudos ao barulho e tudo, mais uma série de pretos com batuques, numa reunião feliz em ritmo confuso mas eufórico. A apoteose antes dos discursos da ordem. Entre o público pretos, brancos e nem por isso, sentem-se irmanados pelo som da percussão, o mais puro de entre todos. Sinto uma emoção especial, uma coisa morna que nos aconchega como um cobertor. Um cobertor que mostra como somos iguais, irmãos no espaço urbano. Pretos, brancos e nem por isso. Um arrepiozinho de felicidade ensaia um passeio pela minha coluna vertbral. Faz-me empertigar e sentir orgulho de estar ali, fazendo parte daquela massa indistinta. Somos humanos, caraças!!! É tão bom.
Depois lá vêm os bonecos do costume. Os discursos, a emoção da Grândola cantada. Esta noite cantei baixinho e não chorei nem nada. É a idade adulta a permitir uma outra comoção. A idade adulta da Revolução. Sempre são 32 anos, apesar das borbulhas e dos quistos sebáceos que teimam em resistir no focinho da nossa "jovem" democracia.
Reencontro tantos amigos que até parece mentira. Sinto-me satisfeito por rarear as saídas. Assim sabe melhor, dá para saborear o prazer dos reencontros. Pelas ruas vou vendo putos, alguns são alunos meus. Bêbados como autocarros, estendidos pelo chão, dando largas à vontade de explodir. Que saudade daquela paixão pelo que se adivinha da vida! Na próxima aula vou fazer de contas que não vi nada, não vi ninguém. Será melhor para todos. Há histórias que não devem ser cruzadas por não fazerem parte do mesmo universo. Não devemos confundir Verdade com Realidade. Nunca na Vida!
No fim da festa, aqui assim, a teclar calmamente no meu dulcíssimo teclado, não consigo evitar uma certa amargura. Se é isto a Democracia, esta festa que se esgota ao fim da noite como uma Gata Borralheira com sapatos de metal, então fui enganado. Esta merda não me serve, está longe de me satisfazer. Quero mais. Muito mais! Quero um palco repleto de bimbos. Uns brancos, outros pretos, outros nem por isso, todos a martelarem tambores de formas e feitios diferentes mas todos igualmente felizes, como eu, por estarem ali, seja a bater, seja a assistir. Quero isso todos os santos dias!
25 de Abril? Sempre! Fascismo... o que é isso?

segunda-feira, abril 24, 2006

Felicidade

Hoje é 24 de Abril, dia de tolerância de ponto na Região Autónoma da Madeira e véspera do Dia da Liberdade, nos Açores e em Portugal continental.
Neste dia costumo subir a rua e assistir à celebração na Praça de São João Baptista, lá em cima, em Almada. Há concerto e fogo de artifício, montes de gente com aspecto descontraído e discursos de punho no ar. Aparece a Presidente da Câmara no palco, juntamente com uma mão-cheia de personagens impossíveis entre Presidentes da Junta e Presidentes de Sociedades Filarmónicas. A Presidente da Câmara discursa, empolgada, uns grupos de claque bem distribuídos ajudam à festa e grita-se a plenos pulmões "Viva o 25 de Abril" ou "25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!". Depois aparecem uns bacanos carregados de baldes a deitar cravos vermelhos por fora e o pessoal, lá de cima, do palco, atira as flores cá para baixo. É uma chuva de cravos. Literalmente.
Mas, o meu momento preferido, é quando todos os presentes entoam, a plenos pulmões a Grândola, Vila Morena. Aí não aguento mais e as lágrimas banham-me os olhos tornando tudo mais bonito. E sinto-me feliz de uma maneira especial como só me sinto neste dia.
Que lamechice!!!
É, não é?

quarta-feira, abril 05, 2006

Comer pode matar!

Pelos vistos o consumo de certos alimentos é prejudicial à saúde. Como se não soubessemos! As grandes empresas de fast food (ou junk food) começam a ser alvo de análises pouco abonatórias por parte de certos organismos preocupados com a qualidade de vida das populações. Desprotegidos perante a força da publicidade e o tremendo poder da gula, andamos a papar demasiada porcaria e os resultados estão à vista.
Sim, bem à vista já que a obesidade é difícil de ignorar. A quantidade de putos gordos como Buda começa a alarmar as autoridades sanitárias e constituem já um problema de saúde pública.

Da mesma forma que os maços de tabaco têm de trazer anti-publicidade em forma de mensagem aterradora (Fumar Pode Matar é das mais levezinhas) também certa empresas deveriam ser obrigadas por lei a avisar que os suculentos nacos de prazer que oferecem ao pessoal são bombas de colesterol ou atentados perigosos à sanidade do fígado consumidor. O que seria das cidades americanas onde é proibido fumar até na via pública se lhes fechassem os restaurantes de fast-food? E os locais onde os espaços de não-fumadores são encarados como santuários de saúde pública para que os clientes possam empaturrar-se alarvemente em batatas fritas, carne pré-mastigada e coca-cola?

Quando teremos as caixinhas de "happy meal" na McDonald's com o terrível letreiro "COMER PODE MATAR!!!"? Mal os consumidores desse produto aprendam a ler vão começar a pensar em processar os próprios pais por terem permitido que se envenenassem lentamente numa época das suas vidas em que deveriam tê-los protegido? Talvez se torne uma especialidade entre os advogados americanos.

Na verdade, o problema é que, entre nós, tudo o que constitua negócio rentável acaba por prevalecer. Analise-se o caso das drogas duras e teremos uma história de sucesso para servir de exemplo. Mas há quem decida por nós o que é lícito e o que não é, pois não nos é reconhecida a capacidade de pensar pelas nossas próprias cabeças. Deve ser isso.

Em última análise o verdadeiro problema é que para morrermos precisamos apenas de estar vivos. Razão tem Lili Caneças quando afirma com toda a convicção que "estar vivo é o contrário de estar morto". Pois é.