É curiosa (mais) esta polémica com a igreja católica a propósito do mais recente livro de José Rodrigues dos Santos. No P2 deste sábado, no artigo assinado por Natália Faria, tenta-se enquadrar a polémica apresentando argumentos de vários dos polemistas. Chamou-me a atenção a passagem que diz que «ao padre Anselmo Borges não custa admitir que a Igreja “deve formar melhor os seus fiéis e promover um maior esclarecimento sobre a figura de Jesus Cristo”.»
Parece-me que o problema (se é que isto pode ser considerado um problema) é que a igreja católica encara os seus fiéis sob a figura, não tão metafórica quanto isso, de um rebanho. O padre é um pastor e todos sabemos que o pastor não explica às suas ovelhas as qualidades nutricionais das ervas que elas pastam pacientemente e em silêncio, com mais prazer do que volúpia. O problema (se é que isto pode ser considerado um problema) é que a educação católica ensina a não questionar as “verdades” porque questioná-las é um pecado e indicia ausência de Fé. A Fé dos católicos é sinónimo de crença total e entrega absoluta.
A Fé não se explica, ela é alimento para a alma dos católicos tal como a tenra erva é alimento para as dóceis ovelhinhas e é esta Fé que permite a existência pacífica de Deus. Sem Fé a existência de Deus pode transformar-se num problema de contornos monstruosos. Bastará olhar com um mínimo de atenção para o Homem, que se diz criado à Sua imagem e semelhança. Qualquer postura que questione a Fé põe em causa os fundamentos básicos da religião católica cujos pilares assentam na infalibilidade dos dogmas tão ferozmente defendidos ao longo dos séculos, nomeadamente desde a cisão protestante.
Coisas tão prosaicas quanto este livro de José Rodrigues dos Santos fazem vacilar os pilares dogmáticos do catolicismo, humanizam as ovelhas e os seres humanos contemporâneos não simpatizam muito com a ideia de que fazem parte de um rebanho, pelo menos em teoria. A igreja católica lida muito melhor com balidos de ovelhas que com vozearia humana. Parece-me que à igreja custa admitir que são os seus fiéis que a constroem e que não é ela a construir a identidade individual desses fiéis. A ignorância sempre foi o combustível principal da chama que anima a Fé católica. Substituí-la pelo conhecimento poderá equivaler a deitar água na fogueira.
Talvez por isso, de cada vez que há um livro, um filme ou uma figura pública que ponham em causa os seus dogmas, a igreja católica sai a terreiro com quatro pedras em cada mão, disfarçada de David perante pobres Golias que de gigantes têm muito pouco e desata a apedrejá-los até estes ficarem de joelhos, pedindo perdão por um crime que não cometeram. Sim, porque questionar dogmas tão estapafúrdios quanto a virgindade de Maria ou o carácter divino de um homem simples não pode ser considerado crime digno de lapidação pública como a que se está a tentar fazer a José Rodrigues dos Santos. Deixem lá o homem escrever o que muito bem entende. Se é mentira porque ficam tão excitados? Deus haverá de o castigar, não acham?
(carta enviada à directora do jornal Público)
Nota final: Não li este nem nenhum outro livro do autor citado e, muito sinceramente, não tenciono vir a fazê-lo.
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sábado, novembro 05, 2011
terça-feira, junho 14, 2011
???
Deus é omnipresente; vê tudo, sabe tudo, nada lhe escapa (a menos que durma).
Deus é omnipotente; pode tudo, tudo depende Dele (excepto quando dorme).
Resumindo; Deus é... um dorminhoco? Um burocrata? Não é nada? Deus é a crueldade absoluta? Um velho impotente? Uma coisa incompreensível? Uma folha de cálculo perfeita?
terça-feira, maio 03, 2011
1º de Maio de 2011
Estranho dia este em que se comemorou mais um aniversário do Dia do Trabalhador, o Dia da Mãe, a beatificação de João Paulo II e, a partir de agora, principalmente nos Estados Unidos da América ou em Nova Iorque, em particular, comemorar-se-á também a morte de Osama Bin Laden.
Para os que acreditam no martírio dos guerreiros do Islão, esta data marcará uma espécie de beatificação de Bin Laden.
Se Deus for um único qual dos santos estará neste momento a receber a luz divina na sua fronte impassível: João Paulo II ou Bin Laden? Qual deles será o verdadeiro santo? Algum deles será santo?
Vou pensar no assunto e depois esquecê-lo.
domingo, maio 01, 2011
Subitamente... santo!
Não tenho nada contra a mitificação de certas personagens, promovida por determinados grupos, com o objectivo de consolidar as fundações das suas crenças e da sua razão de existir. O Benfica tem o Eusébio, Portugal tem Dom Afonso Henriques, a igreja católica tem uma galeria infindável de santas e de santos que ajudam a manter a fé de multidões de crentes. Por mim está perfeito, cada macaco no seu galho, parece-me bem e de acordo com a lei divina.
A beatificação de João Paulo, aclamado "santo subito" pela populaça, é algo absolutamente legítimo. É uma das muitas situações que me ajudam a compreender com clareza porque razão é para mim impossível ser católico. Lá que declarem santo quem muito bem entendam, já o disse e repito, parece-me absolutamente legítimo, mas que o façam recorrendo à certificação de milagres comprovados com carimbo e assinatura divina, isso já ultrapassa as fronteiras do aceitável.
Eusébio foi um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, tem uma estátua à porta do estádio do Benfica e é, ainda, adorado por multidões de devotos da biqueirada na chincha. Os seus feitos extraordinários estão registados e podem ser comprovados com a maior das lisuras.
Dom Afonso Henriques fundou a nacionalidade desta coisa que temos por baixo dos pés e a que chamamos Portugal, a pátria muito amada e isso. Tem também uma estátua em Guimarães e, talvez, mais umas quantas por esse país fora, não sei se tem ou não, mas se tivesse não seria nada de mais. Foi guerreiro de méritos comprovados e espertalhão q.b., tudo isto é verdade verdadinha. Não é?
João Paulo II até pode ter sido um gajo porreiro, um daqueles bonzões adoráveis, capazes de fazer derreter os corações mais empedernidos. Mas, daí a ter realizado milagres... custa-me a engolir. Aliás, foi ele e mais uns milhares de santos da igreja, o que mostra como este mudo é um lugar de incontáveis acontecimentos muito para lá do maravilhoso e do fantástico.
Que seja santo. Ok. Mas que a santidade seja reconhecida pela correcção e pela bondade da personagem e nao por razões que a razão não pode reconhecer sem incorrer na mais negra das mentiras.
terça-feira, maio 11, 2010
O Papa é Pop

O ambiente ferve apesar de o dia estar a dar para o frescote. Há vento, um pouco de chuva e muita fé a pairar no ar. Vem aí o Papa, caraças, é dia de manifestação católica!
Comecei este post pela manhã, ainda antes de o Papa chegar, e estou a concluí-lo já depois dele ter chegado. Não vi nada na televisão (estive a trabalhar todo o dia e à noite vim jantar sossegadinho) nem estou para aí virado. Imagino o escarcéu!
Dei por mim a recordar a recente vinda a Lisboa dos Tokyo Hotel, a inefável banda pop juvenil que levou centenas de fãs a dormir à porta do Pavilhão Atlântico. Entrevistadas (sim, porque essas fãs eram maioritáriamente do sexo feminino e abaixo dos 16 anos de vida) declaravam amor incondicional pelo andrógino vocalista e uma fé sem limites nas qualidades redentoras da música por ele interpretada. Um fenómeno pop característico de um mundo enrolado nas teias dos mass media.
A vinda de Ratzinger produz um quadro com contornos semelhantes. A mesma fé cega, a mesma esperança na redenção alcançada pelo contacto visual com a vedeta de serviço. Hoje não são as teenagers, são os católicos. O fanatismo não conhece distinção. Dou por mim a pensar que o Papa é, também, um fenómeno pop. É uma figura que não se questiona, é uma personagem idealizada à qual se adere sem qualquer tipo de racionalidade. Óbvio!
Não tenho nada contra nem tenho nada a favor. Na verdade estou-me a cagar para a vinda do Papa e sinto um certo fastio pelo circo mediático montado em volta dele. Afinal de contas e bem vistas as coisas, o facto de Ratzinger ser Papa não faz dele mais do que um mero descendente de um macaco qualquer. Tal qual eu.
Simples. Curto. Duro.
quinta-feira, maio 06, 2010
Olá, tás fixe?

O Papa está por aí a rebentar, não tarda. Já se sente aquele frenesim do costume, com os crentes mais fanáticos a mostrarem a quem quiser ver como são devotos e pios e bons e tudo o mais. E que quem não fôr como eles não merece sequer um sorriso, por amarelo que seja.
A forma como a visita papal está a ser encarada pela sociedade portuguesa mostra que somos mesmo um país à parte. Fecham escolas, fecham hospitais e repartições públicas, fecha tudo menos as lojas que vendem santinhos e as roulottes de bifanas e couratos que a oportunidade de negócio é santa. Isto numa república laica, onde a igreja ocupa um lugar ambíguo que parece ser maior ou menor conforma há ou não há Papa na costa.
Quando chegar o bispo de Roma vai ser uma lufa-lufa de personagens públicas a fazerem ar de santinhas, a quererem mostrar como são mais papistas do que ele, para o labrego ver e o papalvo engolir.
Enfim, avizinham-se dias de grande histeria colectiva que em nada ajudam a compor o estado lastimável da nação portuguesa. A menos que o Papa faça um milagre que nos salve do caos económico. Isso é que era! Mais tarde, quando Ratzinger morresse, sempre teriam um bom motivo para a canonização do costume.
sexta-feira, março 26, 2010
A Natureza violada

Tenho-me estado a aguentar mas já não sou capaz de conter mais uma ou duas frases sobre o assunto.
Há quem pense que tenho maus fígados contra a igreja católica apostólica romana e que, levado por esse desprezo, essa inimizade, acabo, por vezes, sendo injusto e demasiado agressivo para com tão santa instituição.
E quem assim pensa pensa muito bem e com razão; a igreja católica causa-me náuseas convulsivas desde há muitos anos, desde que tive idade suficiente para pensar fora do ambiente místico em que fui criado. Ambiente esse que me levava a acreditar que havia um tipo barbudo (talvez mesmo barrigudo) pendurado no paraíso, a vigiar constantemente todos os meus passos, a anotar (com uma caneta de tinta permanente) todas as minhas faltas e ignorando com desdém os meus sucessos, uma vez que quando eu cometia uma boa acção não fazia mais do que a minha obrigação.
Os padres sempre me pareceram uma espécie com animais muito diferentes e variados. Como convivi com alguns de perto posso afirmar sem que me trema a voz que nem todos merecem o castigo que lhes é imposto quando abraçam a vocação.
A imposição da castidade é, talvez, a maior violência que se pode exercer contra um ser vivo. Aos gatos a gente sabe o que se lhes faz quando se quer impedi-los de fazerem o que não queremos que eles façam. Aos padres deixa-se-lhes ficar o instrumento do pecado, constantemente acicatado pelo desejo que arde como um fogo sagrado. Todos nós sabemos como arde quando pega fogo!
Desde sempre ouvi histórias de padres com filhos. Olhem o magistral O Crime do Padre Amaro, um retrato perfeito da tortura que é contrariar a natureza humana naquilo que ela tem de mais puro. À força de tanto torcer a natureza humana dos jovens candidatos ao sacerdócio, acaba-se por correr o risco de lhes retorcer o cérebro e infectar a alma. Muitos deles acabam doentes.
A pedofilia não pode ser encarada de ânimo leve e esta escandaleira que agora se descobre sobre as práticas sexuais doentias de um número demasiado significativo de padres católicos obriga-nos a questionar várias coisas.
Porque razão esta prática nojenta foi ocultada, ignorada e, tantas vezes, perdoada pela hierarquia da igreja católica com o actual Papa bem metido no assunto, enterradinho até às orelhas? Estes gajos não temem a Deus, duvido mesmo que acreditem na Sua existência.
Porque razão se insiste em fazer de homens coisas que não existem na natureza, impedindo-os de realizarem a plenitude do seu ser através da consumação do acto sexual?
Esta história macabra só vem confirmar a validade das reservas que muitos, como eu, mantêm contra esta puta babilónica disfarçada de paradoxo. Há coisas que não existem e outras, simplesmente, não podem existir de todo. Abram os olhos, façam dos padres seres humanos como os outros, deixem de violar constantemente a Natureza.
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sexta-feira, março 19, 2010
Traduções
O velho Errol, o Robin da minha infância (era a preto e branco, aqui está num belo cinemacolor)Um dos meus heróis favoritos era o Robin dos Bosques. O meu avô autorizava-me sempre a comer a perna de frango "à Robin dos Bosques"; ou seja, permitia-me comer com as mãos o que, na minha infância, era um gesto de extrema liberdade; poder fazer tal coisa na companhia de adultos... e era isso que Robin significava: liberdade. Ele personificava o eterno lutador, alguém que defende uma causa pondo em risco a própria vida. Os alegres companheiros do herói completevam-no em qualidades e defeitos. Havia o abade, gordo e beberrão ou João Pequeno, um gigante hercúleo capaz de extraordinárias proezas físicas. Para lá de tudo isto Robin era ainda um homem apaixonado o que sublinhava o romantismo da personagem e da sua história. Quantas vezes revi Robin e Lady Mariam de mãos dadas, apertadas de encontro ao peito, olhando-se como se estivessem a contemplar as profundezas de um oceano escarlate?
Robin dos Bosques, quanta saudade...
Recentemente apercebi-me de um pormenor que me havia escapado ao longo de todos estes anos. No original trata-se de Robin Hood. Hood? Soava-me mais como Wood. Que raio de coisa significa Hood? Consultado o dicionário dá-se a revelação: "hood" significa "capuz". Então... Robin dos Bosques é, na verdade, o Robin do Capuz!? Ai, que susto! Como foi possível engolir este erro durante tantos anos? Claro, como Robin e os companheiros vivem escondidos numa floresta, não é difícil aceitar o nome de Robin dos Bosques. O tempo, a distância e uma tradução retorcida, podem construir uma imagem aparentemente intocável que, na verdade, é uma quase-mentira.
Tudo isto me fez recordar aquela primeira cena do filme "Snatch", quando um grupo de assaltantes disfarçados de judeus comentam uma anedota que diz que o cristianismo é uma religião fundada num erro de tradução. Os falsos judeus riem dizendo que a palavra que esteve na origem da designação de Maria nos evangelhos actuais significava, no original, mulher jovem (ver aqui explicação clara e objectiva).
Este tipo de erros só podem ser ultrapassados quando atingimos a idade adulta e começamos a questionar certas situações que, enquanto andamos a brincar e a saltar pela vida fora, não sentimos necessidade de pôr em causa. Isto mostra bem como uma mentira repetida até à exaustão acaba por se confundir com a verdade. Mesmo que a mentira seja (aparentemente)involuntária e de contornos (eventualmente) inocentes, é preciso ter muito cuidado com ela pois nunca se sabe quando poderá vir a estar na base de todo um culto religioso.
sexta-feira, janeiro 29, 2010
Raispartam!!!

Desta é que eu não estava à espera. Que a Mona Lisa seja um retrato de Leonardo ou que tenha nascido um bezerro com mais patas que uma centopeia ainda vá que não vá, mas isto deixa-me mesmo desanimado. Então não é que o Papa João Paulo II se auto flagelava e dormia núzinho no chão (ler notícia aqui). Mais e mais estranho é que isto não só parece perfeitamente normal aos olhos dos católicos mais fundamentalistas como ainda são argumentos na justificação da santidade do polaco.
Enquanto o homem foi vivo nunca lhe achei grande piada mas, depois de morto, lá se deu aquela coisa habitual e comecei a pensar que o tipo até nem tinha sido assim tão esquisitóide. Mas agora isto! Não, isto assim não dá. Então um gajo daquela estatura moral precisa de se açoitar com um cinto para se sentir próximo de Jesus Cristo? Que gaita! Eu a pensar que a fé era uma coisa abstracta e, afinal, tem a ver com carne dilacerada e sofrimento atroz. Um Santo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana dorme nú no chão para sofrer e se aproximar de Cristo no sofrimento? Cristo dormia nú no chão? Em que Evangelho vem isso? A imagem de um velho a dormir enregelado num chão qualquer é perversa, chega mesmo a meter um bocadinho de nojo. Mas sempre dá para compreender um pouco melhor aqueles fanáticos alucinados que se fazem crucificar na Páscoa lá para as bandas das Filipinas. A julgar pelo exemplo de João Paulo II esses crucificados são autênticos exegetas.
Estas vias para a santidade mais parecem caminhos trilhados no inferno em direcção a um buraco aberto fundo numa alma destrambelhada. Se João Paulo II era assim não quero sequer imaginar do que é capaz este Bento XVI com a sua cara de tão poucos amigos.
Não quero alongar muito mais esta sucessão de imagens depravadas quero apenas deixar uma pergunta no ar: que raio de coisa é, afinal, a santidade?
quinta-feira, janeiro 14, 2010
Na sequência do post anterior

Nem de propósito! Após a leve reflexão aqui ontem colocada sobre o discurso ecológico dos mais altos represnetantes da igreja católica, um pouco por toda a parte, eis que surgiram ecos da reacção do Vaticano relativamente ao filme "Avatar":
Vaticano critica ‘Avatar’
O jornal L’Osservatore Romano e a Radio Vaticana, ambos ligados ao Vaticano, qualificaram o filme Avatar, de James Cameron, como simplista e criticaram-no por trazer doutrinas modernas que promovem o culto à natureza como substituto da religião.O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse que embora essas avaliações sejam apenas resenhas cinematográficas, sem peso teológico, elas refletem a visão do papa Bento XVI sobre os perigos de converter a natureza numa “nova divindade”. O pontífice tem falado frequentemente sobre a necessidade de proteger o meio ambiente, mas advertindo que não se pode equiparar o ser humano com outros seres vivos, para não cair num neo-paganismo.
O jornal L’Osservatore Romano e a Radio Vaticana, ambos ligados ao Vaticano, qualificaram o filme Avatar, de James Cameron, como simplista e criticaram-no por trazer doutrinas modernas que promovem o culto à natureza como substituto da religião.O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse que embora essas avaliações sejam apenas resenhas cinematográficas, sem peso teológico, elas refletem a visão do papa Bento XVI sobre os perigos de converter a natureza numa “nova divindade”. O pontífice tem falado frequentemente sobre a necessidade de proteger o meio ambiente, mas advertindo que não se pode equiparar o ser humano com outros seres vivos, para não cair num neo-paganismo.
Parece existir uma certa necessidade de marcar território por parte do Vaticano. Como de costume, a igreja vem com a conversa de que está tudo muito bem mas quem sabe e pode discursar sobre as coisas do mundo com autoridade é ela própria. É por estas e por outras que a igreja ora avança ora recua nas suas intenções de se afirmar como força de liderança nas grandes causas da humanidade deste lado do planeta religioso. Nos tempos que correm não há grande pachorra para aturar atitudes autoritárias mal disfarçadas como são, normalmente, as que o Vaticano nos vai oferecendo, mesmo quando não lhe pedimos nada. A crítica cinematográfica não é, de todo, o ponto mais forte dos "masters" do Vaticano.
quarta-feira, janeiro 13, 2010
Outra dúvida

Nos últimos tempos a igreja católica tem produzido um discurso cada vez mais atento a questões ambientais. Primeiro foi o Cardeal Patriarca de Lisboa, agora o próprio Papa. Como nem um nem outro são gajos para dar ponto sem nó isto é estratégia pura (e dura?).
Parece-me natural que a igreja se preocupe com questões sociais e ambientais. Afinal de contas está aí para proteger as nossas almas e como elas se escondem dentro de nós enquanto se passeiam neste mundo pretenderá que estejam em bom estado quando chegar a hora de se passarem para o Outro Lado. Vai daí, chegou a hora de lutar pela conservação do planeta. Limpinho!
No entanto dei por mim a pensar se a razão desta nova consciência ecológica não terá um alcance mais longo, se a verdadeira preocupação não será muito mais abstracta que a mera conservação das almas no banho-maria das nossas existências.
Sendo o Deus dos católicos uma emanação de nós próprios, simultanemante Criador e Criado, a Sua existência dependerá tanto da nossa como a nossa depende da existência Dele. Assim, caso a espécie humana entre em declínio até à extinção, Deus irá para o limbo connosco no dia em que o último crente for riscado da face da Terra. Será?
Bento XVI lá vai debitando discurso, exigindo medidas que garantam a inversão da tendência para a destruição do meio ambiente. Saúda-se a preocupação do Sumo Pontifíce, mas será ela dirigida a nós?
terça-feira, dezembro 08, 2009
Luta de Titãs


"Vêem-se um pouco por todo o país. São estandartes de pano. De um fundo grená emerge a imagem de um Menino Jesus barroco, de braços abertos. Para os cristãos, este é o verdadeiro símbolo do Natal e por isso pode ser lembrado e assinalado deste modo, nas janelas, varandas ou portas daqueles que acreditam. (ler tudo aqui)"
Cansados e até mesmo desgostosos por verem o Pai Natal a sorrir sem concorrência, os cristãos mais convictos decidiram contra atacar e criaram um novo símbolo ilustrativo da quadra natalícia. É o Menino Jesus a tentar ganhar protagonismo.
Se o verdadeiro espírito natalício e cristão se desvirtua todos os anos, acabando por se confundir com uma descabelada fúria consumista corporizada na figura do Pai Natal, só resta aos verdadeiros cristãos recuperar a solidariedade humanista de cariz místico que deveria reinar nos dias que correm.
Aqui há dois anos, mais coisa menos coisa, houve uma invasão de terríveis pais Natal que amarinhavam pelas fachadas de Portugal inteiro, numa exibição de mau gosto infantilóide sem precendentes. Agora, tímidamente, surge o Menino saído da manjedoura directamente para as janelas e varandas dos portugueses. Vá lá, convenhamos que, em termos estéticos, vai bem melhor que os tais pais Natal.
Não deixa de ser uma competição curiosa e uma chamada de atenção para a forma como vivemos o Natal. Qual é a nossa equipa; somos do Menino Jesus ou somos do Pai Natal? Eu não digo.
segunda-feira, novembro 23, 2009
Eterna sedução

O encontro entre Bento XVI e um grupo de artistas (muitíssimo maioritariamente italianos) numa tentativa de reaproximar a igreja católica do universo estético tem muito que se lhe diga. Por um lado mostra como a hierarquia da igreja parece ter, finalmente, acordado, dando consigo em pleno século XXI sem influência nos centros de poder, sem capacidade de recolher "impostos" devidos pelos serviços prestados tendo em conta a salvação das almas do pessoalzinho, enfim, a igreja católica começou a olhar-se no espelho. O reflexo mostra uma velha vaidosa mas incapaz de comprar todos os vestidos e de pagar todas as operações plásticas que lhe garantiriam mais um ou outro pretendente de última hora.
O que a igreja parece estar a esquecer é que os maiores artistas da actualidade determinam os seus próprios programas iconológicos (e iconográficos) por serem normalmente livres de corpo e de espírito. Dificilmente a igreja conseguirá encomendar obras em que imponha um rigoroso controlo sobre a produção artística. A menos que o artista seja de tal maneira devoto que aceite tornar-se o "pincel de deus" (esta expressão é demais!) como se afirmavam os artistas medievais, de tal modo crentes, humildes e dependentes da igreja que nem sequer assinavm as suas obras. Elas eram, na verdade, obra de deus e eles meros instrumentos dos insondáveis desígnios da divindade.
A igreja parece vir agora com um sorriso nos lábios e uma voz mansinha aliciar os artistas com a necessidade de criarem beleza e demonstrarem fé e tudo o mais, para glória de deus (?). Pessoalmente e cá no fundo, olhando para Bento XVI, tenho a sensação de que o homenzinho está com esta coisa toda a tentar recuperar o velho hábito dos papas-mecenas. Quantos papas não deixaram os seus nomes associados a grandes artistas e a incomparáveis obras de arte? A dúvida que se me coloca é se este desejo de deixar nome associado a obra não configurará o mortal pecado da vaidade? Náááá, não deve ser. O papa é santo!
sábado, novembro 21, 2009
Em busca do tempo perdido
Tríptico da Salvação, pintura da minha autoria concluída em Janeiro de 2005Pela primeira vez desde há décadas, o Vaticano experimenta uma reaproximação ao mundo das artes, tentando encontrar no diálogo com os seus protagonistas o tempo perdido num ou dois séculos de progressivo afastamento. Esse desencontro ter-se-á alargado com o tempo em que a sociedade se foi dessacralizando à medida que o discurso científico se foi afirmando num espaço democrático, em contraponto a um discurso religioso demasiado rígido e dogmático, incapaz de alargar as fronteiras do seu pensamento de modo a ajustá-las à liberdade de expressão individual.
A coisa começou a dar-se há muito, muito tempo, quando a Igreja católica deixou de ser a principal fonte de encomendas para o mundo das artes, coincidindo com o surgimento de uma sociedade de contornos cada vez mais nítidamente capitalistas. Nos dias que correm a produção artística é encarada mais como uma actividade económica do que como forma de expressão de narrativas globais e de síntese de um pensamento humanista que se pretenda que seja a matriz principal das sociedades ocidentais. A arte centrou-se em si própria, discursando sobre questões de índole estética e com contornos individualistas, cortando o cordão umbilical que a liga à sociedade que lhe dá a vida.
Até aqui, a igreja estava-se bem a borrifar para tudo isto, acreditando talvez que a fé dos homens poderia passar sem a muleta da imagem artística para a sustentar. Na verdade, num mundo mediático onde a imagem reina sobre todas as coisas, mesmo a fé não pode ignorar a força ciclópica da produção artística.
O Papa, que não é parvo nenhum (pode ser muitas coisas pouco recomendáveis mas parvo não é uma delas) procura agora recuperar uma aliança que em tempos (estou a lembrar-me da Contra Reforma) deu frutos mais do que apetitosos mesmo que alguns tenham nascido em árvores proibidas.
É um facto que o universo religioso é um dos campos mais férteis para a criação artística, pelo espaço maravilhoso e transcendente que propõe à reflexão dos seres humanos. É com agrado que registo este reaproximar entre dois universos que andavam alheados um do outro. Pessoalmente nunca deixei de acreditar na salvação da alma através da arte.
domingo, novembro 08, 2009
Divindades (ou nem por isso)

Nos regimes comunistas havia sempre(continua a haver) um Big Brother a zelar pelos cidadãos, noite e dia, sem descanso nem férias repartidas. O Estado, o Chefe, o Líder, o Grande Timoneiro, chame-se-lhe o que se quiser camar-lhe, lá está, no topo da pirâmide a olhar em volta, atento como uma gárgula pendurada nas alturas de Notre-Damme.
Nos regimes teocráticos Deus é a resposta absoluta e evidente. Nada existe para lá nem para cá da sombra por Ele projectada. Sombra que tudo cobre e tudo come. Os deuses têm um apetite tão insaciável quanto incompreensível para o comum dos mortais. Quando é Deus que governa são os seus representantes, mais de carne que de osso quem lhes executa as vontades, numa clara discrepância entre os divinos desígnios e a fraca capacidade dos humanos para os interpretarem e porem em prática (mesmo que iluminados). Sangue, muito suor e mares de lágrimas. Orfandade insuportável.
E nos regimes capitalistas? Quem governa o nosso quotidiano delirante? O dólar? O euro? Tem o dinheiro uma face que se possa pintar para escarrapachar no altar de veneraçao? Mmmmh, fizemos de Deus um velho barbudo envolto numa túnica clara e respeitável, à imagem dos filósofos gregos. Como poderemos criar uma imagem que simbolize a divindade capitalista? Talvez uma latinha de Manzoni...
Talvez a única e verdadeira Internacional seja, não a operária e camponesa imaginada pelos socialistas utópicos, obreiros do comunismo, mas a Internacional Capitalista: "Ladróes e vampiros de todo o mundo, uni-vos!". E eles unem-se até se reunirem em convenção onde se poderão devorar uns aos outros alegremente, dando a Darwin um pesadelo que o entretenha na sua Eternidade lá no Céu, onde decerto está, sentado à direita de Deus. O verdadeiro Deus dos macacos que nós somos.
segunda-feira, abril 20, 2009
Santo Alvarez

Não percebo nada de processos de canonização. Estão para mim ao mesmo nível que o uso do preservativo está para o Cardeal Patriarca de Lisboa, ouço falar, explicam-me como se faz mas, na verdade, fica entre o mistério e o desejo de conhecer.
Vem isto a propósito do processo em curso para a canonização de Nuno Álvares Pereira, o muito nosso Santo Condestável que conheci nos livros da escola primária, quando era ainda um catraio de calções curtos e joelhos esmurrados.
A coisa está para se dar um dia destes. Para atingir o estuto de santo é necessário haver milagre comprovado que tenha sido praticado pelo candidato. No caso de Nuno Álvares, os altos chefões da igreja católica que atestam e carimbam estas coisas, dão como provada uma cura milagrosa de uma senhora, cozinheira reformada, Guilhermina de Jesus, de sua graça. A história é, como de costume nestas situações, pouco clara e mantida num certo e conveniente secretismo.
Não quero parecer demasiado cínico mas, ouvi dizer, que a Nuno Álvares Pereira foram atribuídas onze (11) ressurreições e outras maravilhas no tempo em que ele ainda falava e pisava solo pátrio. Mas esses feitos mirabolantes não valeram nada, zerinho, para o processo que agora se conclui. Acabou por ser uma mera cura de um olho queimado por óleo a ferver o que valeu ao nosso Condestável um lugarzinho no panteão dos santos da igreja. Parece-me mal, parece-me injusto e, sobretudo, parece-me que a canonização de Nuno Álvares peca por tardia.
Ainda assim é motivo de regozijo para todos os portugueses que a santidade do homem que malhou forte e feio nos espanhóis na célebérrima batalha de Aljubarrota seja, finalmente, reconhecida.
Mas um processo rocambolesco como este tinha de ter alguma anedota associada ou não fosse este santo português. Os convites enviados pelo Vaticano para a cerimónia de canonização do nosso homem têm uma gralha e o nome aparece em versão espanhola! "Alvarez" em vez de "Álvares", como seria de bom tom. Não é por isso que Dom Nuno fica menos santo, mas que é uma ironia tramada, isso ninguém pode negar.
segunda-feira, março 23, 2009
Orações

Pronto, faça-se justiça. Afinal a conversa do Papa sobre o uso de preservativos em Áfirca não devia ser considerada uma vez que, a crer no que se diz por aí, o Sumo Pontífice terá sido levado a pronunciar aquelas enormidades incitado por um jornalista habilidoso que apenas pretendia criar um facto noticioso. O Papa disse muito mais coisas, coisas bem piedosas, mostrando o seu lado bom, de quem se preocupa sinceramente com os males do mundo. Bem me queria parecer que o homem, perdão, o Santo homem, não podia ser tão irresponsável que fizesse daquele tema assunto de conversa por sua livre iniciativa. Uma coisa é o que ele pensa, outra o que ele diz e, ainda outra coisa, é o que faz parte dos discursos oficiais. São tudo coisas diferentes.
O papa despediu-se pedindo ajuda para os mais necessitados, o que é bem mais importante do que pedir preservativos para os mais atesoados. Denunciou a miséria e a corrupção, o que, em Angola, é feito ao alcance de muito poucos. Só mesmo o Papa poderia falar desses temas sem ser imediatamente enviado para fronteira com um carimbo de "indesejado" bem marcado no meio da testa.
Enfim, depois do post em que tão duramente desanquei o Santo Padre senti úm impulso súbito de escrever este, quem sabe iluminado por Deus ou por outra razão qualquer que não sou capaz de explicar. O Papa é o Papa e não pode desejar o mal a ninguém. Pois não?
quarta-feira, março 18, 2009
Shame on you

Não é por nada mas parece-me pouco decente falar daquilo que não se conhece. Quero dizer, não me atreveria a dar opinião pessoal sobre a melhor forma de comunicar com Deus por não ter formação teológica. Tenho cá umas ideias, muito minhas, meio estranhas mas, benza-me Deus, nunca por nunca seria capaz de as impor a quem quer que fosse, não fosse eu estar errado e obrigar alguma alma mais simples a cair no Inferno por culpa da minha visão distorcida.
Nesta ordem de ideias penso que o Papa não devia mandar bitaites sobre questões relacionadas com sexo, muito menos sobre um problema com a gravidade da pandemia da SIDA. Um homem que nunca fez amor não pode imaginar o que isso seja, nem que tenha beneficiado de iluminação divina. Há coisas que o Deus dos católicos prefere ignorar. É um Deus que vira a cara quando não quer ver e permite que o Mal anda por aí a curtir na boa.
Não pretendo comparar-me com o Papa. Ele não o merece. Mas aquelas afirmações assassinas de que a questão da SIDA não se resolve com a distribuição de preservativos tira-me do sério. Ninguém diz que o uso do preservativo resolve o problema, mas ninguém, com um mínimo de honestidade intelectual, pode negar que o atenua. A meu ver, o Papa é uma espécie de preservativo contra o Pecado. Não acaba com ele mas, devidamente utilizado de acordo com a literatura inclusa, pode evitar a sua proliferação descontrolada.
Enfim, só papa a mensagem deste ex-cardeal quem estiver mesmo desesperado e com uma fome de cão. Talvez Ratzinger esteja convencido que passou para outra dimensão da realidade, tendo-se tornado supra-humano, na antecâmara do querubim. Seja lá o que for, não há paciência para tanta desumanidade.
Shame on you, Mister Pope, shame on you!
sábado, outubro 04, 2008
Crença
Não sou gajo de acreditar naquele Deus das barbas que os pintores inventaram para dar uma forma ao indizível. Para mim,se Deus existe, é uma coisa sem hipótese de ter nome nem ter forma, nem nada que se possa mostrar aos olhos que nos saem do cérebro e nos atiram os sentidos ao mundo. Se Deus existe acredito que faço parte Dele que sou um átomo (ou menos do que isso) do seu infinito corpo. E tu és outro átomo e por aí fora, que todos somados, brancos e pretos, os bons e os maus, os cães e as libelinhas, as minhocas e os bisontes, mais as pedras, as árvores, os rios, o mar e o céu por cima, tudo isso é Deus e Deus, sem o saber, é isso tudo.E mais o resto.Tenho alguma fé nesta crença. Será pouca mas é toda a que tenho.
sexta-feira, setembro 26, 2008
Fundamentalista perigosa

Ao ver este vídeo não consigo evitar um aperto no estômago. Que Sarah Palin é uma fundamentalista tresloucada. Isso já sabia. O meu problema, agora, é saber que ela joga com a magia para alcançar os seus objectivos. Isso já me custava a imaginar sequer. Anda meio mundo inquieto com o programa nuclear iraniano quando nos EUA, o arsenal atómico está nas mãos de personagens deste calibre vai para 8 anos. Anda meio mundo incomodado com o fundamentalismo islâmico quando os EUA, farol das democracias capitalistas, é governado por fundamentalistas de uma qualquer seita cristã mais obscura que o olho do cú de uma cegonha.Perante uma personagem tão horrenda como esta, até Bush parece um velhinho simpático.Inquietante.
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