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sábado, fevereiro 18, 2017

A Lei

Há dias assim, acordamos com uma cena enfiada na cabeça que não sai de lá nem à marretada.

Quando essa cena é uma musiqueta cantarolamo-la incessantemente ao ponto de, por vezes, nos irritarmos com nós próprios. Chiça, já não há pachorra para a coisa a dançar-nos na carola e a fazer-nos dançaricar com ela.

Hoje acordei com a Lei de Lavoisier, não sei porquê. Terá sido algum sonho, daqueles que esqueço sempre ter sonhado? Impossível perceber o porquê de tal visita matinal.

E pronto, tenho passado o dia a repetir para os meus botões que "na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Apercebo-me que sou um crente fervoroso desta Lei, que constitui a minha Fé; que vejo Deus desta forma, que vejo a Arte desta forma, que vejo a Vida desta forma. Que a Natureza é, para mim, o princípio e o fim da existência das coisas todas. Que nada existe para lá dela, que ela é a verdadeira Mãe (desculpa lá, ó Maria).

Obrigado, Antoine, pelo teu momento de máxima lucidez que tanto bem tem proporcionado a este mundo merdoso.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Notas sobre "O Laço Branco"

Os culpados são aqueles que estão ausentes.
Os que não fazem parte do grupo são cruelmente castigados.
O conhecimento procura a verdade que a fé teima em esconder ou, pelo menos, que teima em ignorar.
O padre recusa-se a ver (ver é pecar) e permite que o monstro diabólico cresça livremente.
Tudo acontece por detrás das portas e das paredes. Nós, enquanto espectadores, não temos acesso visual ao horror mas, no entanto, ele está presente e acontece.
A nova geração incuba o nazismo.
Moral da história: se fecharmos os olhos estamos feitos ao bife!

domingo, janeiro 29, 2017

Ponto, linha e plano

A narrativa reduz-se a uma linha, um segmento de recta. O fundo anónimo aconchega toda a imaginação que uma mancha é capaz de conter. O olhar, desolado, vê-se substituído por uma avalanche de palavras, uma enxurrada de ideias muito mais inteligentes do que a representação de um corpo humano deitado sobre uma cama de pregos. A arte, por vezes, tortura-me o espírito.

segunda-feira, outubro 03, 2016

Mundo de merda

Dizem por aí que este mundo é uma merda. Não sei o que pensar ao certo. Tem dias...

Qual seria o qualificativo a aplicar a um mundo que não fosse uma merda? O que diria? Que este mundo é um doce? Um mundo em que todos fôssemos obesos e com a dentição arruinada por excesso de açúcar seria melhor que um mundo que é uma merda, onde as coisas cheiram mal e estão sujas, mesmo quando são brilhantes e apetecíveis?

Qual é o antónimo de merda? Temo que a resposta seja muito complicada. Tão complicada que o mais certo é nem sequer existir. Antónimo de merda? Será mijo? Não, não me parece. Este mundo é um mijo! Não soa grande coisa.

Talvez por isso este mundo prossiga tal como vem sendo: uma merda. Talvez este mundo não tenha grande alternativa ou, então, teremos de inventar o contrário de merda e aplicá-lo ao nosso quotidiano na esperança de amanhã encontrarmos um lugar mais limpo. Ao menos isso.

sexta-feira, maio 06, 2016

Da vaidade

Folheio as páginas do suplemento cultural do "meu" jornal. Leio aqueles títulos em letras mais gordas que a vénus de Willendorf, frases magníficas, sugestões enigmáticas, descrições com elevado teor poético elogiam escritores, músicos e outros artistas, disparam-nos em direcção à categoria de pequenos deuses neste Olimpo de papel impresso. E sinto inveja, confesso que sinto inveja.

A inveja que arranha o interior do meu peito faz-me sentir que não sou digno daquele panteão da cultura. Um deus, mesmo um deus de papel impresso, decerto é superior a sentimento tão mesquinho, tão pequenino, tão provinciano, como esta inveja que aqui exponho. Inquieto-me, roo as unhas: não sou um artista? Sou um mero professorzeco, não sou um intelectual, sou um... nem sei o que sou.... um Joseph Merrick, na melhor das hipóteses.

Oh, como eu gostava de um dia ser página de suplemento cultural (página dupla levar-me-ia ao Paraíso!), como eu gostava de ver o meu nome elogiado por alguém com o dom da escrita e argúcia suficiente para ver nos meus trabalhos aquilo que nem eu serei capaz de perceber. Oh, como seria feliz se, por uma vez, pudesse despejar na gamela onde a minha vaidade chafurda e se alimenta substância suficiente que lhe saciasse a fomeca.

Foi em Narciso e Goldmund, de Herman Hesse, que li, há largos anos, uma frase que nunca esqueci (decerto a transformei, a memória é traiçoeira). Numa das conversas entre as personagens centrais deste romance, uma dizia à outra qualquer coisa como "a arte arrisca-se a ser apenas uma expressão de vaidade individual". Se não é isto, peço desculpas a Hesse, mas foi isto que me ficou gravado a ferro e fogo nos recessos do cérebro.

Hesse é bem capaz de ter ali fixado um ponto importante, digno de profunda reflexão.

segunda-feira, março 21, 2016

Dada-Punk-Romântico

Valha-nos Nossa Senhora! (Março de 2016)

Por vezes gosto de imaginar que, pelo menos dentro da minha cabeça, existe qualquer coisa que resulta do cruzamento do imaginário Punk Rock com a criatividade desvairada do movimento Dadaísta, tudo humedecido por uma singela chuva com gosto Romântico. Esta coisa a tomar forma nas folhas que cubro com papel colado com tintas por cima.

Na minha cabeça estas épocas e estes movimentos artísticos alinham-se de forma mais ou menos recta, mais ou menos sinuosa (na minha cabeça o Tempo não existe do mesmo modo que existe fora dela), o passado e o presente transmutam-se no futuro da imagem que vai surgindo e que, a cada micro-segundo, já é presente e já é passado na imagem que permanece.

A minha existência ganha sentido nestes objectos que vou criando.

sábado, março 12, 2016

Ficções

As pessoas passam por mim. Altas, baixas, magras, gordas, umas com um sorriso, outras carrancudas, algumas com olheiras castanhas, outras luminosas e bem dispostas. Deslocam-se em todas as direcções.

Fico a pensar que cada um de nós vive a sua própria ficção e é a soma de todas estas ficções que constitui aquilo que imaginamos ser a realidade. Ou seja, a realidade é, apenas, a super-ficção que nos une a todos. E é também a realidade aquilo que nos divide e separa uns dos outros.

Não é lá muito bonito, mas parece ser o que se arranja.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Dúvida essencial

Liberdade de expressão, liberdade de deslocação, liberdade de escolha, liberdade religiosa... assim, de repente, lembro-me de todas estas liberdades como sendo evidentes dentro das nossas fronteiras, características do nosso modo de vida.

Mas, ainda agora, vi um gajo a remexer num contentor de lixo. Ainda ontem, ao andar nas ruas da cidade, ouvi e vi pessoas com aspecto pouco próspero a arrastar os passos na calçada. Farrapos de conversas deprimentes chegaram-me aos ouvidos. Aquelas liberdades aplicam-se a quem não tem meios de subsistência dignos?

A riqueza é cada vez pior distribuída. Os ricos mais ricos, os pobres mais pobres, a história de Robin Hood ao contrário. E as liberdades...

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Cultura amestrada

Li uma pequena entrevista com Don Letts onde ele afirma uma coisa muito interessante que, apesar de óbvia, precisa de ser dita.

Diz ele: "Tens a cultura que mereces. Possivelmente as aspirações dos jovens de hoje são muito diferentes das dos jovens quando eu estava a crescer. Entrámos na música para ser contra o estabelecido. Agora, muita gente entra na música para ser parte do establishment. No século XXI, a cultura ocidental tornou-se muito conservadora. Parece que o punk nunca aconteceu. (...)" (ler aqui toda a entrevista)

Isto dá que pensar. Vivemos num mundo de artistas amestrados? Haverá ainda espaço para a revolta cultural, para o manifesto, para a afirmação de visões colectivas através da criação artística? Deixámos que a cultura se transformasse numa coisa anódina, lisinha e liofilizada?

quarta-feira, dezembro 02, 2015

O meu problema com a direita

O meu problema com a direita tem diversas fontes de alimentação. Por exemplo, causa-me problemas a postura dos defensores da troika Passos-Portas-Cavaco quando confrontados com o governo de Costa. Passada a lamentação patética da suposta ilegitimidade do novo governo, o discurso dos simpatizantes da PàF alerta-nos para uma putativa incapacidade da esquerda para governar o país. Num tom que oscila entre o alarmista e o jocoso, sugerem que, com Costa ao leme, a Nau Catrineta que é a nação portuguesa irá encalhar e naufragar, levada nas vagas alterosas do mar da TINA (ou o NHA- Não Há Alternativa, como designou João Miguel Tavares o mundo impiedoso em que vivemos). 

Para que este alerta pudesse ter alguma validade seria necessário que o governo da troika Passos-Portas-Cavaco fosse minimamente sério ou minimamente competente. 

À medida que os dias vão passando e a troika Passos-Portas-Cavaco vai perdendo o pulso sobre as notícias que chegam até nós, percebemos que o seu governo não era uma coisa nem outra. Percebemos como esse governo se assemelhava mais a coisa nenhuma, que foi uma treta; que não há IVA para devolver, que o desemprego afinal não definha, que a economia abranda… despida de propaganda a troika Passos-Portas-Cavaco revela-se escanzelada, feia e repulsiva, até para alguns dos direitistas mais encartados.

O meu problema com a direita é também alimentado pela constatação de que a troika Passos-Portas-Cavaco mais não foi (mais não é) que um instrumento para eternizar as desigualdades sociais, contribuindo mesmo para a sua agudização. Veja-se a forma como as desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres se vêm acentuando nestes tempos de crise, como se nacionalizaram os prejuízos e se privatizaram os lucros das empresas públicas. Eu sei que este processo vampírico tem tido a colaboração do Partido Socialista. É precisamente por isso que a solução governativa agora encontrada traz consigo a esperança de que as coisas sofram uma inversão acentuada. Com o Bloco e o PC à perna, o PS terá de se comportar como o partido de esquerda que afirma ser e não como o partido de direita que tem sido, limitando o apetite dos seus clientes quando se aproximam da gamela do poder e açaimando as feras mais gulosas.


O meu problema com a direita tem também a ver com a mania de que acreditar na Utopia é o mesmo que acreditar num conto de crianças. Erro. A Utopia é um conto para adultos, da autoria de Thomas More que, tal como o Capuchinho Vermelho alerta as meninas para os perigos da pedofilia, nos alerta, a nós “cidadões”, para os perigos da desigualdade na divisão da riqueza. 

Finalmente, o meu problema com a direita da troika Passos-Portas-Cavaco é ela ser tão sobranceira, rasteira e ignorante, que só é capaz de pensar em economia e, ainda por cima, erradamente.

quarta-feira, julho 08, 2015

Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Hybris - Desmesura. Sentimento que conduz os heróis da tragédia à violação da ordem estabelecida através de uma ação ou comportamento que se assume como um desafio aos poderes instituídos (leis dos deuses, leis da cidade, leis da família, leis da natureza). A hybris ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos. O herói trágico não tem consciência dos seus erros.

Pathos - Sofrimento progressivo, do(s) protagonista(s), imposto pelo Destino (Anankêcomo consequência da sua ação.

Ágon - Conflito (a alma da tragédia) que decorre da hybris desencadeada pelo(s) protagonista(s) e que se manifesta na luta contra os que zelam pela ordem estabelecida (a diké, a justiça). É, no fundo, a luta entre o bem e o mal.

Anankê - É o Destino, a inevitabilidade. Encontra-se acima dos próprios deuses que não podem desobedecer-lhe.

Peripécia Acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos que compõem a ação dramática; rumo contrário ao que o desenrolar da ação até então poderia fazer esperar.

Anagnórise (Reconhecimento) -  O reconhecimento pode ser a constatação (compreensão) de acontecimentos acidentais, trágicos, mas, quase sempre, se traduz na identificação de uma nova personagem.

Catástrofe - Desenlace trágico, que deve ser indiciado desde o início, uma vez que resulta do conflito entre a hybris (desmesura, ameaça de desordem) e a anankê (inevitabilidade), conflito que se desenvolve num crescendo de sofrimento (pathos) até ao clímax (ponto culminante).


Katharsis (Catarse) - Purificação das emoções e paixões (idênticas às das personagens), efeito que se pretende da tragédiaatravés do terror (phobose da piedade (eleosque deve provocar nos espectadores

sexta-feira, junho 19, 2015

Esquecimento absoluto

Não, eu também estou de acordo.
Sim, já não existe uma luta de classes. O que é isso!?

Quando se fala em "luta de classes" há sempre algum doutor pronto a explicar que isso é uma coisa do passado, que nas actuais democracias ocidentais essa designação não faz sentido.

Pois, não poderia estar mais de acordo, a luta é coisa do passado; actualmente vivemos é uma guerra! Uma guerra de classes.

É uma guerra fria, uma guerra não declarada entre inimigos impossíveis de conciliar. De um lado o exército do Capital. Do outro lado o exército dos Contestatários. O Capital tem armamento muito superior ao dos Contestatários que, no entanto, são um exército muitíssimo mais numeroso. É a guerra da força contra o número.

Não se vislumbra a mínima possibilidade de alguém ou alguma coisa conseguir debelar a intensidade deste confronto, embora muitos estejam convencidos de que um entendimento proveitoso para ambas as partes pudesse ser alcançado. O que falta em bom senso sobra em ambição.

Há quem afirme que esta guerra vai durar enquanto houver um mínimo de organização social. Os mais extremistas destas teorias pensam que, mesmo que a nossa espécie regresse a um estado civilizacional vegetativo, a um sistema de organização de nível pré-histórico, existirá um fosso a separar uma minoria que explora a maioria e que tende a acumular os bens produzidos ou recolectados.

Mesmo que voltemos a subir às árvores para dormir uma noite mais ou menos descansada a guerra de classes não deixará de minar as nossas relações sociais, não deixará de corroer o futuro. Assim, o futuro nunca se distinguirá significativamente do passado até que ambos colidam num estrondoso novo Big Bang, um fabuloso Big Bang filosófico e conceptual que irá atirar a memória do nosso tempo para um limbo que nenhuma outra espécie jamais será capaz de aperceber.

Será o esquecimento absoluto. 

terça-feira, junho 16, 2015

Pé atrás

As coisas não são como são. As coisas são como as vamos fazendo ou como permitimos que outros as façam defronte aos nossos orgulhosos narizes. Mas há muito quem argumente que "não poderia ser de outra forma", que "o que tem de ser tem muita força" e os mais fatalistas arrumam a questão com o clássico: "é a vida, o que é que se há-de fazer !?".

"Perante factos não há argumentos"... peço desculpa mas sou obrigado a colocar uma ou duas questões antes de acenar afirmativamente que sim, que sim senhora. A verdade é que os factos nem sempre são, de facto, factos. Quantas e quantas vezes não se veio a perceber que um dado adquirido era, afinal, um dado perdido? Que uma certeza não passava de um logro, que o futuro havia sido mal desenhado e que o adivinho da moda não passava de um charlatão apoiado numa mão cheia de suposições travestidas de factos?

Ok, ok, há factos indiscutíveis. terá sido a pensar nesses que alguém criou a frase que abre o 2º parágrafo. Mas anda por aí muito gabiru que, à boleia do dito, nos quer enfiar todo o tipo de patranhas goela abaixo e olhos dentro. Eles vêm armados de gráficos, frases floridas, fatiotas bonitas, perfume e falinhas mansas. É preciso estar alerta.

Resumindo: perante factos, à cautela, o melhor é argumentar. Quanto mais não seja chegamos à conclusão de que, perante aquele facto, não há argumentos.

terça-feira, maio 26, 2015

Ser ou não ser (burro)

Não tenho nada contra quem muda de opinião. Só os burros não mudam, como disse, um dia, Mário Soares ao esquivar-se a mais uma das suas lendárias incongruências políticas.

Uma pessoa percebe que aquilo que imaginava não corresponde a nada que se possa assemelhar a realidade e tenta encaixar as coisas de novo, para que façam sentido. Perfeitamente normal.

Já custa mais a engolir quando um profeta de determinada ideia (ou ideologia) se desconverte de súbito, alegando que viu a luz. Ok, tudo bem, mas porque levou tanto tempo a mudar de perspectiva? As montanhas de provas que lhe foram sendo apresentadas e que ele sempre refutou e reduziu a pensamentos sem sentido, quando não os classificou como maldosos ou subversivos, fizeram, de repente, sentido?

Desconfio dos profetas fervorosos. Uma pessoa que tem certezas tão absolutas ao ponto de professar uma Fé incontestável não merece a minha confiança. Sou de opinião que devemos deixar sempre um espaço à possibilidade de não sermos burros.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

A pirâmide




Reflectindo só um pouco, quase nada, reflectindo levemente, muito levemente sobre a condição humana e a organização social fico surpreendido por encontrar uma constante luta entre poderosos e oprimidos (para simplificar).

Nos tempos pré-históricos não sabemos muito bem o que se passava (o termo "pré-história" explica a ausência de dados mais ou menos fiáveis) mas basta avançar um nadinha e começamos a encontrar os ricos, os muito ricos, os riquíssimos, os riquérrimos e os deuses na Terra. Meia-dúzia de personagens a dominar multidões de milhões de escravos, trabalhadores manuais, gente miserável ofuscada pelo brilho de existências gloriosas ou intelectuais prontos a fazer o inventário dos bens do senhor ou a escrever poemas épicos sobre a sua grandeza incomparável.

O tempo vai rodando e as personagens mudam de aspecto, o cenário transforma-se ao sabor do que é moderno em cada época, mas as relações entre os poderosos e os seus servos parecem permanecer teimosamente inalteradas.

Por momentos sonho, tenho ilusões, sinto o peito inchar de esperança, uma vertigem faz-me acreditar na mudança. Quero acreditar e a mudança parece acontecer. Mas logo após, pouco tempo corrido, aí está a realidade para iludir a verdade.

O cenário cai, volto a ver a estrutura da coisa, o esqueleto do mundo e lá está: o faraó, o imperador, o rei absoluto, o senhor do mundo no topo da pirâmide e a multidão, cá em baixo, agita-se qual montanha de insectos impacientes.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

É a realidade autêntica?

Aqui há dias tinha lido a notícia sobre a descoberta de duas esculturas em bronze atribuídas a Miguel Ângelo Buonarroti, o celebérrimo escultor renascentista que foi imortalizado por ter pintado o tecto da Capela Sistina, em Roma.

Apesar dos indícios que apontam Miguel Ângelo como mentor da criação das referidas esculturas, a dúvida mantém-se.

Agora surge nova notícia, desta vez sobre a recuperação de uma pintura atribuída a Leonardo Da Vinci. Em ambos os casos o que me rói a curiosidade é imaginar o que rola dentro da cabeça dos sábios historiadores de arte que têm o poder de declarar, ou não, a autenticidade das peças.

Basta uma palavra destes senhores (ou senhoras) para que aquele pedaço de tela (ou de bronze) passe a valer uma fortuna incalculável. Que tipo de sensações andarão aos saltos no coração e dentro da cabeças destes homens (ou mulheres)?

Quantas obras se perderam (e continuam a perder), quantos artistas geniais foram (e são) ignorados? Quem escreve a História constrói a realidade.

A questão final: até que ponto é a realidade autêntica?

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Lavoisier revisitado

Afinal de contas o que é isso: dinheiro? Para que serve e a quem aproveita? Que formas toma ele, como se materializa o dinheiro, que muitos consideram já a verdadeira divindade? Perguntas, perguntas, perguntas, tantas perguntas, demasiadas respostas.

O Orçamento de Estado é um exemplo de como se transforma o dinheiro em coisas mais ou menos palpáveis. O dinheiro vai para a construção e manutenção do chamado Estado Social; transforma-se em estradas, escolas, hospitais, repartições públicas, Algum desse dinheiro transvia-se e transforma-se em comida, em bebida, em mulheres apetitosas ou coisas menos classificáveis. É dinheiro que se materializa com maior ou menor nitidez mas que se materializa de forma compreensível para o comum dos mortais.

Também o dinheiro obedece à extraordinária Lei de Lavoisier, nem mais nem menos: "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma..."

Depois há o dinheiro que se pede emprestado e se paga aos Mercados. De onde vem? Para onde vai? Em que se transformam este dinheiro? Quem beneficia da sua materialização (se é que alguma vez se chega a materializar, de facto)? O que era aquele dinheiro que foi emprestado ao nosso Estado antes de ser o ordenado que me entra no bolso e eu vou trocar por casa, comida, cigarros e outras coisas que não me apetece referir. Em que se vai transformar o dinheiro que devolvo sob a forma de imposto e é aplicado no pagamento dos célebres "juros da dívida"?

Por vezes temo que esse dinheiro se transforme em coisas que abomino, armas, para dar um exemplo. É que as armas tendem a transformar a vida em morte, a transformar a paz em guerra, não gostaria de saber que o dinheiro que resulta do meu trabalho fizesse de mim cúmplice no assassinato de inocentes em nome de uma qualquer divindade merdosa.

Não percebo nada de Economia (nunca poderei ser sacerdote desta igreja) e não consigo perceber as voltas que o dinheiro dá, as coisas em que se transforma. Assim sendo, nunca poderei compreender verdadeiramente este mundo, estarei sempre longe de apreender o sentido da minha existência e dos que me rodeiam.

Por vezes, em noites de pesadelo,sonho que somos como animais a pastar. Pastamos o nosso trabalho e a nossa miséria e assim engordamos o valor do dinheiro, através do nosso esforço em manter a vida. Depois, bem gordinho, o dinheiro (informe coisa) flui para longe de nós e vai cair direitinho no prato de umas personagens das quais consigo ver apenas a silhueta; imensa, rotunda, tenebrosa silhueta. Quando me aproximo da mesa onde as coisas que comem o dinheiro (e o cagam e o vomitam) estão sentadas começo a suar abundantemente.

É então que acordo, com a camisa colada ao peito e a testa a escorrer gotículas de aflição. Alguma vez serei capaz de me aproximar o suficiente para perceber o que são aquelas coisas que devoram o dinheiro? Temo bem que não, espero bem que não...

quarta-feira, janeiro 28, 2015

O futuro

As coisas são o que são e têm um tempo de gestação próprio. Não adianta muito querer correr mais depressa que o futuro.

O novo governo grego, as reuniões e negociações que hão-de vir com a troika, as consequências desta aventura para o futuro da União Europeia e da Zona Euro, ai Jesus, tanta dúvida a afundar-se na densidade do nevoeiro, não se vê bem, não se percebe nada!

Estranhamente a maioria dos políticos europeus e os seus donos, os habitualmente nervosos  Mercados, não têm mostrado grandes sinais da sua proverbial histeria sempre que a realidade se limita a acontecer conforme Deus quis que acontecesse. A vitória do Syriza não os tirou do sério... mmmmmh... não percebo muito bem o que está a acontecer. Que fazer?

Talvez possa matar uma galinha e espalhar as tripas da bicha em cima da mesa da cozinha tentando ler o futuro entre o sangue e os órgãos do galináceo. Deve haver muitas entradas para páginas que ensinam a ler tripa de galinha se procurar no Google como deve ser.

Talvez possa sentar-me uma tarde inteira a assistir a debates entre especialistas das mais variadas áreas do Saber e da Ignorância vertendo ciência certa e desvendando as imprecisões do futuro.

Ou talvez possa ir vivendo a minha vida e esperar que o futuro venha ter com o tempo presente como costuma fazer todos os dias. Vou estar atento, nunca se sabe quando nos cruzamos com o futuro e podemos dar-lhe uma palavrinha, meter uma cunha pelos nossos sonhos, vender-lhe um ou outro dos nossos anseios.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Liberdade

A liberdade de cada um depende da gaiola em que está metido.

A liberdade total é a lei da selva.

Felizes são as feras.

quarta-feira, janeiro 14, 2015

O Sentido da Vida

O Sentido da Vida? Caraças, não me digas que não és capaz de perceber o sentido da Vida! Até os animais mais estúpidos conseguem lá chegar.

O Sentido da Vida é a preservação da espécie.

É preciso ser mesmo muito burro para nunca ter pensado nisso, uma coisa tão simples. Repara como até as galinhas, estúpidas entre as mais estúpidas das espécies, parecem ter interiorizado esta lei, das mais óbvias que a Natureza tem para impor aos seus filhos. Lá andam elas a bicar, a bicar, a ser galadas, a pôr ovos no ninho, a aquecê-los até nascerem pintaínhos, and so on, and so on...

Enquanto seres humanos somos impelidos a preservar também a nossa Cultura. Daí que possamos considerar que o Sentido da Vida humana é ligeiramente diferente do das galinhas ou das minhocas. Acrescentamos ao comer-procriar-comer-procriar a necessidade de ensinar aos outros aquilo que nos parece ser essencial para a nossa sobrevivência e, caso os outros não se mostrem interessados em aprender, enfiamos-lhes a nossa crença pela cabeça abaixo.

Se encaramos a Vida sob esta perspectiva não me digas que a Vida não faz Sentido, porra!!! Ainda por cima é coisa de macho, impor vontades, andar à porrada.Isto sim é viver em plenitude a nossa superior humanidade. O mais forte subsiste, o mais forte é o mais bonito: o mais forte tem sempre razão!