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domingo, dezembro 18, 2016

Contradição

Olhando os polícias que esbracejam o trânsito num Cais do Sodré esventrado por obras eternas, percebo perfeitamente que o Caos pode ser ordenado mas não é por isso que deixa de ser o Caos.

(avanço na cidade)

Há dias assim, dias em que gosto sinceramente de estar vivo. São dias que me parecem iguais aos outros, na verdade não percebo porque gosto mais de estar vivo nestes que naqueles. Se calhar gosto de viver, mais nada!

(a cidade brilha sob o sol)

Ele há dias que mais parecem noites e noites que trazem agarrada a fundura negra de um poço com pêndulo. Nem mesmo a luz espanta os monstros dos recantos desses dias, nem a escuridão das negras sombras os conforta. É uma angústia, uma agitação, como se fosse uma morte.

domingo, novembro 06, 2016

Monstro

Ser mau é o resultado de um amontoado de circunstâncias que se equilibram umas sobre as outras como aqueles chinezinhos incríveis que penso lembrar-me de ter visto um dia, num palco qualquer, algures no mundo. As coisas todas, umas em cima das outras, aquele momento inacreditável, tudo assim, como se pode imaginar: e a maldade irrompe, inundando o momento que vivemos!

O Ser mau é um veículo inesperado de um conjunto de forças cósmicas maiores do que a sua capacidade de entendimento. O Ser mau assume a sua inevitável condição de fantoche dos deuses e ali está, disponível para horrorizar os outros, os comuns mortais, incapazes de entenderem que raio de força é aquela que faz de uma pessoa normal a monstruosidade abjecta que ali se ergue, sentada no sofá, encostada à ombreira da porta da cozinha, com o dedo a premir a ponta do nariz e os lábios rasgados num sorriso assustador? As interrogações tropeçam nas certezas; que monstro é aquele dentro de nossa casa, dentro do nosso peito, dentro da nossa cabeça!?

Aquele monstro sou eu, és tu, o inferno somos nós.

sábado, setembro 17, 2016

Um lugar

Todos os dias, desde o despertar ao momento de fechar os olhos, um gajo procura aquele lugar onde pode ser quem imagina que é. Ser humano, sem dores demasiado violentas nem angústias muito particulares. Não sei se toda a gente procura esse seu lugar. Eu procuro.

É um lugar aberto, todos podem encontrá-lo. Não tem portas nem janelas nem paredes nem nada que o defina, é assim mesmo, um lugar. Todos podem estar nele, só têm de aceitar a regra: ser humano. Sei que é pedir muito, para uns, quase nada, para outros.

Nem sempre sou capaz de encontrar o estado de espírito certo para lá estar embora saiba onde fica esse lugar. Por vezes consigo lá chegar e por ali ficar uns bons bocados.Mas não é sempre. Tem dias.

sábado, setembro 03, 2016

Trindade

Um gajo enfia-se dentro da sua cabeça e encontra uns quantos macacos a divertirem-se, enquanto vão fingindo que lhe limpam o pó às ideias e as arrumam mais ou menos em prateleiras húmidas e moles. Um gajo fica espantado por encontrar tantos macaquinhos no sótão. É uma surpresa.

Um gajo desce as escadas que levam ao seu próprio pedestal. Desce-as com panache, um pé após o outro, a pose é triunfal, os degraus escorregadios. Não há ninguém a olhar, ninguém aplaude, ninguém está extasiado com  o espectáculo daquela brilhantíssima descida. Ninguém, a não ser o próprio. É uma tristeza.

Um gajo tenta evitar uma incómoda sensação de abandono. A solidão não quer deixá-lo sonhar com a glória que julga merecer mais do que qualquer outro ser vivo. Um gajo sorri ao espelho mas a imagem reflectida não lhe devolve os dentes amarelos. É a vida.

Surpresa, tristeza, vida: santíssima trindade de uma existência fantasmática, quase humana.

sábado, maio 28, 2016

Os porcos triunfam sempre

Não parece ser possível fazer grande coisa. Os porcos triunfam sempre.

Os mentirosos, os poderosos (a mentira é uma forma de poder e o poder é uma forma de mentira), os belos, os bem nutridos, os bem parecidos, os fortes, os atléticos, os bem falantes, os altos e os loiros, os de olhos azuis, todos os perfeitos, os de sorriso alinhado, os de dentes brancos, os bem vestidos, todos estes, todos eles, triunfam sempre pois é a imagem o factor fundamental.

Muito antes desta era estupidamente mediática, já dizia o povo que "quem vê caras não vê corações". A sabedoria popular é feita pelos que estão por baixo, pelos defeituosos, pelos baixotes e gorduchos, de beiça gordurosa, malga de tinto vazia a pender na mão titubeante. Este ditado é profecia.

Vivemos num mundo dominado por dentições ofuscantes. Os que têm dentes podres e barbela nunca poderão confrontar os limpinhos, dificilmente poderão refutar uma afirmação exalada num suspiro enfadado de um Ken, muito menos poderão contestar a autoridade luminosa de uma Barbie. Vivemos num mundo dominado por princesas Disney.

Poucas vezes a "tradução" de um título do inglês teve tão grande sublimidade quanto a de "Animal farm" para "O triunfo dos porcos". Houvesse Orwell tido o lampejo genial desse título para a sua fábula intemporal e, talvez, o mundo fosse um pouco diferente. Os porcos triunfam sempre.

quinta-feira, maio 26, 2016

Bom feriado

Esta 5.ª feira mais parece ser um Sábado. É estranha a forma como os dias da semana ganham personalidades próprias quando vivemos uma vida de rotinas. Os dias entram-nos no corpo e o corpo adapta-se aos dias como eles vão sendo.

Hoje o meu corpo não percebeu de imediato que era 5.ª feira pois não teve de obedecer ao relógio. O meu corpo deambulou pela casa um tanto confuso. Quando saiu para rua percebeu um ritmo diferente e, talvez por isso, deslocou os quadradinhos do calendário e passou a comportar-se em desacordo com a realidade.

Levei algum tempo a ligar o cérebro em modo autónomo. A partir daí fui construindo o sentido deste dia.

Bom feriado.

quinta-feira, abril 28, 2016

Cansaço

Percorro o Facebook e leio mensagens que variam entre a lamechice mais enjoativa e a violência intelectual mais mesquinha. Sinto-me cansado. Precisava de algum conforto após um dia de trabalho cansativo mas não foi ali que o encontrei.

Pego num livro que estou quase a acabar de ler. Páro a duas páginas do fim. Sinto-me cansado, nem vontade tenho para chegar à última palavra daquelas quase duzentas páginas. O que se passa comigo?

Experimento o jornal... qual quê!

Tento imaginar algo para fazer e ponho-me a escrever estas linhas. Mas também a escrita me parece um peso insuportável.

...



segunda-feira, março 14, 2016

Ilusão demoníaca?

Ao que parece todos os nossos problemas, individuais ou colectivos, têm uma raiz comum, reduzem-se a uma só questão. Dormes mal à noite? Os refugiados são barrados nas fronteiras da Europa? A extrema-direita arrebita cabeça um pouco por todo o lado? O teu vizinho espanca a mulher e bate nos filhos? Pois bem, a raiz de todos estes problemas é económica.

A Economia investe forte e feio sobre o nosso quotidiano delirante, transformando coisas diferentes numa única e mesma merda. Ela justifica todos os desmandos e cauciona todas as malfeitorias. Não há moral, não há valores nem princípios que se sobreponham à questão fundamental: a riqueza material.

É este o caminho que trilhamos enquanto indivíduos e enquanto comunidade global. Temo que, quando chegarmos a algum lado, não encontremos o mundo do vinho e das rosas que nos querem fazer acreditar ser o lugar para onde nos dirigimos.

sábado, março 12, 2016

Ficções

As pessoas passam por mim. Altas, baixas, magras, gordas, umas com um sorriso, outras carrancudas, algumas com olheiras castanhas, outras luminosas e bem dispostas. Deslocam-se em todas as direcções.

Fico a pensar que cada um de nós vive a sua própria ficção e é a soma de todas estas ficções que constitui aquilo que imaginamos ser a realidade. Ou seja, a realidade é, apenas, a super-ficção que nos une a todos. E é também a realidade aquilo que nos divide e separa uns dos outros.

Não é lá muito bonito, mas parece ser o que se arranja.

domingo, fevereiro 14, 2016

Domingo

Os últimos dias têm sido complicados. A chuva cai furiosa acompanhada por ventos doidos como gatos com cio. Portugal está meio submerso; cheias, derrocadas, árvores que resolvem ir passear sem avisar ninguém, o mar que parece querer entrar terra dentro.

Hoje resolvi ir ao cinema ao centro comercial. Fui à sessão das 12h45m ver os "Oito Odiados" de Quentin Tarantino. Filme estiloso, duraço, com sangue q.b., diálogos cheios de humor e um argumento razoavelmente imaginativo. Enfim, um filme de Tarantino no registo seguro a que o cineasta nos tem habituado.

Quando o filme acabou (por volta da 16 horas) saí da sala com a intenção de passar pelo supermercado e comprar umas provisões que me fazem falta na despensa. Assustei-me! As filas para entrar nas salas de cinema tinham dimensões bíblicas, a quantidade de gente que serpenteava nos espaços de circulação deixou-me ansioso.

Desci a escada rolante decidido a sair dali para fora, as compras podiam esperar... tanta gente! Lá fora o sol surpreendia pelo vigor do seu brilho. Desloquei-me rapidamente me direcção ao meu carro e vim embora. Que susto.

A chuva regressou, com ela o vento dançante. O céu escureceu tremendamente. No centro comercial decerto continua tudo na mesma. As pessoas parecem ter ido todas para dentro daquele lugar, as ruas estão quase desertas e brilhantes de água que escorre pelas costas do mundo.

domingo, janeiro 31, 2016

Domingo, na paz do Senhor

Andamos a bater mal da cabeça. A Europa parece, cada vez mais, um bicho imundo. A esquerda confunde-se com a direita e vice-versa. A economia é uma coisa porca, a civilização é "civilização".

Não sei se por excesso de informação, a coisa má agiganta-se e mostra-se furiosa, fora de controlo. Diz o povo que "olhos que não vêem, coração que não sente" e a igreja abençoa os pobres de espírito, talvez a ignorância seja, afinal de contas, uma benesse para a alma.

O tempo cinzento e pouco luminoso acentua a sensação de desgraça permanente. Uns raiozinhos de sol talvez animassem esta merda.

domingo, janeiro 24, 2016

Uma manhã qualquer na ex-capital do império


Os livros são caríssimos! Puta que pariu.

O povo frequenta o Centro Comercial com um fervor apenas comparável ao que me recordo de presenciar na Igreja, quando era puto.

Gostava de comprar meia-dúzia de livros mas vou ficar-me, apenas, por um.

Este sol de Inverno é uma coisa magnifica. O ar está friozinho e o sol não chega a aquecer. Gosto disto.

O meu povo é um tanto macambúzio.

Dizem alguns que se prepara uma crise económica mundial capaz de fazer estragos definitivos neste mundo globalizado. Não vejo ninguém preocupado com isso.

O povo anda por aí, serenamente. Também gosto disso.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Coisas que batem

Hoje apetecia-me ter opinião sobre qualquer coisa assim, qualquer coisa que normalmente não me ocupe muito o espírito. Queria saber dizer coisas inteligentes sobre o pão alentejano ou reflectir com critério sobre as poças de água depois da chuva cair.

Gostava de poder limpar a porcaria que me vem à cabeça como uma enxurrada a empurrar, de forma imparável, incontrolável, a empurrar o meu cérebro para o mar; um mar terrível, mar morto e repleto de cadáveres de seres que devia albergar mas não consegue evitar matar.

Hoje não rejeitaria a possibilidade de discutir futebol com alguém que não seja capaz de pensar para lá da biqueira das botas. Se a oportunidade se me oferecer vou agradecer essa graça a Deus, Nosso Senhor. Beber uma cerveja fresca e falar de futebol com pessoas menos inteligentes do que eu, é uma aspiração, um projecto de vida como outro qualquer.

Gostava de poder evitar ser assaltado por imagens e ideias que me querem roubar o sossego e deixar-me mais pobre de felicidade. Hoje sinto-me avaro de felicidade. Não quero oferecê-la, não quero perdê-la, hoje quero guardá-la para mim. Quero sentir-me feliz mas... lá está a tal imagem, a tal ideia, o tal facto, a bater, a bater, a bater na porta do meu coração, a bater na porta do meu cérebro, a bater na minha vontade, a bater, a bater, a bater.

quinta-feira, agosto 20, 2015

Ruídos

Há uma actividade para entreter criancinhas pequenas no bar da FNAC. Estou  sentado, de costas para a sala, bebendo um café, lendo o jornal, tento abstrair-me um pouco, concentrar-me na leitura, mas...

Há qualquer coisa que incomoda, um ruído constante, é música! Música infantil a ser debitada incessantemente pelas (potentes) colunas de som suspensas do tecto. De vez em quando soa um alarme estridente que fica a ganir por um minuto ou dois. Depois cala-se. Mais adiante volta a gritar.

Olho por sobre o ombro. Os petizes lá estão, a pintar, a desenhar, concentrados nas suas actividades. Os pais vigiam. Alguns adultos conversam, outros, como eu, tentam abstrair-se mas, na verdade, o que esperamos nós de um lugar assim?

Levanto-me e abandono aquele infernozinho. Nos corredores do centro comercial há música ambiente misturada no burburinho provocado pelas centenas (serão milhares?) de pessoas que por ali andam. Vou ao WC e a música é outra e soa mais alto. Nas lojas há mais música, no parque de estacionamento subterrâneo: música. Música, música, música! Não sobra um momento que seja em que não haja som amplificado a perfurar os tímpanos dos que por ali se aventuram.

De que me queixo? Alguém me obrigou a ir ali? Claro que não. Fui porque quis ir. Mas que raio se passa para haver tanta música, tanto ruído ininterrupto? Fico com a sensação de que alguém pretende que me distraia de mim próprio. Talvez seja isso. Não sei.

sábado, junho 13, 2015

Último dia

Último dia de aulas. Sentado no recreio observo os alunos da minha escola a brincar. O sol confere um aspecto festivo a tudo aquilo, juntando-se à excitação do final do ano lectivo, a criançada faz um escarcéu magnífico.

Os mais pequenos correm, saltam, atiram água uns aos outros, gritam, berram, abrem os braços aos céus enquanto passam à minha frente em nítido excesso de velocidade.

Os mais ou menos grandes ensaiam pueris jogos de sedução. As raparigas parecem mais conscientes das regras do jogo do que os rapazes, que as seguem como que pairando um palmo acima do chão.

Os mais crescidos parecem apenas um pouco impacientes para que tudo termine e possam ir às suas vidas, finalmente fora do recinto escolar.

Ali sentado, observando em silêncio, sinto-me como se estivesse em casa a assistir na televisão a um programa da National Geographic sobre a vida selvagem.Sorrio, apercebo-me que estou feliz.

quarta-feira, maio 13, 2015

Goo goo muck

Enfiar os Cramps pelos ouvidos dentro ajuda bastante a fazer o percurso através dos túneis do Metro de Lisboa.

Sinto-me glóbulo vermelho, leucócito. Levado num fluxo, sou sanguíneo ou então serei água a fugir num esgoto. Sinto-me uma merda qualquer. Uma coisa que puxa e que é puxada, coisa que leva tudo à frente, a correr, a correr dentro de um tubo, a correr desvairada. Sinto-me goo goo muck.

Agora tenho um interior luxuoso: aveludadas tripas, alma acetinada e um olhar carmim a deitar sobre o mundo esta estranha luz que banha o túnel onde vou dançando os meus passos. Por momentos viajo no tempo, regresso à adolescência.

Entro no comboio e vou à boleia no ventre de um fantasma, avanço ao ritmo dos seus movimentos peristálticos. Chegado à última estação sou cagado na plataforma. Regresso ao mundo do costume.

Tiro os auscultadores. Já não me sinto tão goo goo muck mas há sempre qualquer coisinha que fica.



sábado, maio 09, 2015

Boa educação

A senhora fala de um modo peculiar, com os olhos apontados a algum lugar acima da minha cabeça. O tom de voz elevado (quase esganiçado), pequenas acumulações de saliva a brilharem aos cantos da boca que se contorce como se as palavras a incomodassem, a senhora esforça-se por parecer simpática mas, infelizmente, não é nada simpática.

Suporto a troca de palavras com bravura, faço de contas que sou criança pequena, que não reparo no desconforto da senhora por se obrigar a falar comigo. Tento fixar os olhos dela nos meus como se tentasse agarrar duas bolinhas de mercúrio com as pontas dos dedos, por momentos quase consigo, mas logo o olhar baço da senhora desliza para o topo da minha cabeça (estarei despenteado?) e tudo volta à estaca zero.

Quando o assunto se esgota e ela sorri um sorriso muito mais triste que o de uma mãe no funeral do seu filho, é com mútuo alívio que desabafamos "bom dia" em uníssono e, após polidamente pedir licença, fecho a porta e regresso ao sótão onde continuo a pintar.

quarta-feira, abril 15, 2015

Raios de sol

São, um pouco, como os caracóis. Com o sol a afirmar-se e o calor a chegar, doces vagas de turistas inundam a cidade. Alguns vêm meio vestidos, vêm meio despidos, outros apresentam-se estranhos, simplesmente estranhos.

Custa a crer que aquela mulher use todos os dias aquela flor espetada numa espécie de torre de cabelo que equilibra no cimo da cabeça com um gesto ligeiramente oblíquo, ou que aquele homem use os shorts tão apertados quando vai trabalhar e a camisa sem mangas a descobrir uns ombros ossudos e pálidos. Aquelas coisas só podem ser incómodas. Passam divertidos, conscientes das suas máscaras. Levam-me o olhar, deixam em mim um sorriso.

Os turistas provocam-me um inveja doce, uma nostalgiazinha de trazer por casa. Parecem tão livres de constrangimentos, tão capazes de ligeiras infracções, tão leves, tão bem dispostos...

segunda-feira, abril 13, 2015

No metro

"Uma ajudinha, por favor, uma ajudinha, por favor",

Coloquei duas moedas pequenas na caixa de esmolas da ceguinha (uma cega que não tem globos oculares, apenas uma face de carne lisa). O ângulo do meu braço era estranho em relação à ranhura e, instintivamente, segurei o fundo da caixa com a outra mão, de modo a compensar os balanços da carruagem de metro.

De imediato senti os dedos da cega a cravarem-se-me na mão. Larguei as moedas em menos que nada mas a mulher só afrouxou o gesto quando soltei a caixa e então ela avançou: "uma ajudinha, por favor, uma ajudinha, por favor", repetia a lenga-lenga com voz frágil, uma súplica nada condizente com a forma quase selvagem como protegera o seu pequeno cofre, contentor de duvidoso tesouro; "uma ajudinha, por favor, uma ajudinha, por favor", sussurrado lamento.

Compreendi como fora incauto o meu gesto reflexo de segurar a caixa, como despertei o instinto de defesa na mulher que, sendo cega, não podia avaliar a minha linguagem corporal. Compreendi que numa selva sem luz as sensações tácteis ou auditivas ou olfactivas ganham dimensões que eu nem sequer suspeito.

Aquela mulher vive num mundo bem mais selvagem do que aquele que eu habito. E ela está atenta, ela defende-se, o mundo todo será potencial ameaça. Ela defende-se como qualquer animal se defende dos animais que desconhece.

sexta-feira, abril 10, 2015

Idades

Não sei se acontece contigo, afectuoso leitor, talvez também te aconteça sentires-te estranho uma vez por outra. Talvez te aconteça sentir que és olhado com um misto de desdém e piedade por alguém que tu olhas com desdém e piedade. Seja como for, há ocasiões em que percebes que a imagem que estás a exportar não produz o efeito que desejarias ou, pelo menos, o efeito que esperavas produzir.

Da parte que me toca apercebo-me que à medida que aumenta em mim essa incómoda sensação desenvolvo também a capacidade de ignorar os sinais que os outros me enviam: "És maluco?"; "És estranho."; "És esquisito.", sinto-me como me sentia quando era um adolescente incompreendido pelo mundo. Oh, como é cruel o mundo!

Ah, paciente leitor, amigo leitor, agora já não fico desesperado com a crueldade alheia, com a crueldade do mundo, agora fico pior. Muito pior. Agora fico condescendente.

A insegurança da adolescência provocava em mim indignação; a segurança que me dá a idade adulta provoca em mim soberba condescendente. Sinceramente, leitor, não sei qual prefira.

Ser frágil ou ser forte? O que nos poderá valer, leitor adorado, é estarmos seguros de que há sempre outras opções embora nos queiram convencer que as coisas são a preto e branco. Ambos sabemos que isso é treta e que as opções não se limitam à sanidade ou à loucura.