A derrocada de um edifício de oito andares onde funcionavam cinco fábricas de confecções nos arredores da cidade de Daca dá que pensar. Marcas como a Benetton e El Corte Inglés, entre outras com sede em países europeus, recebem muitas das suas peças vindas daquelas bandas. Vêm limpas, não trazem sangue.
Ali os operários ganham perto de 40 dólares por mês. 40 dólares!? Esse deverá ser o preço médio da maior parte das peças que produzem em condições laborais abaixo de cão.
Comparados com os operários europeus, os do Bangladesh não têm quaisquer direitos. São pouco mais do que escravos mas, como diz o ditado, "longe da vista, longe do coração". As grandes marcas europeias enriquecem à conta da miséria alheia. Será isto colonialismo?
Não. Isto não é colonialismo, isto é globalização. Países como Portugal perderam centenas de unidades de produção têxtil. Os nossos operários eram demasiado caros, apesar dos baixos salários que auferiam segundo os nossos padrões. Ainda por cima tinham direitos laborais! Que descaramento.
O desemprego sobe em flecha na Europa. Países como o Bangladesh vão fazendo pela vida. Isto não é concorrência, é exploração pura e dura.
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quinta-feira, maio 02, 2013
segunda-feira, março 11, 2013
Um cadáver em tribunal
A notícia surpreende pela situação extraordinária que descreve: "Sergei Magnitski é o primeiro morto a ser julgado na Rússia" (ler aqui). Não sei se há muitos mortos a serem julgados em tribunal por esse mundo fora mas, a fazer fé na notícia, na Rússia é estreia absoluta.
O caso é rocambolesco. Magnistski foi contratado para provar que o seu ex-patrão era um vigarista que lesara o erário público russo em vários milhões mas, ao investigar o caso, o agora réu-defunto concluiu que havia vigarice, sim, mas os bandidos eram outros. Para seu azar o líder da bandidagem era um polícia.
Magnitski, advogado de profissão, acabou preso e após uns meses de cativeiro sem acusação formal (nunca foi mais do que suspeito) apareceu morto na penitenciária onde o haviam engavetado. O caso complica-se com acusações de que o advogado trabalharia para o MI6 britânico, a aprovação de uma lei pelo congresso norte-americano que impõe sanções de vária ordem a todos os implicados, tendo Putin retaliado com a suspensão de um acordo que permitia a adopção de crianças russas por cidadãos dos EUA.
Pergunto-me qual será o desfecho deste processo. Que tipo de condenação poderá ser aplicada a um cadáver? O que está aqui a ser julgado? Qual poderá ser o objectivo disto? Tudo indica que Putin e os seus "muchachos" querem apenas limpar alguma porcaria atirando responsabilidades sobre a memória de alguém que não poderá defender-se.
De uma coisa está livre o defunto; não poderão condená-lo à morte. Quando muito poderão desenterrá-lo do cemitério e voltar a sepultá-lo num recinto prisional para sempre.
O caso é rocambolesco. Magnistski foi contratado para provar que o seu ex-patrão era um vigarista que lesara o erário público russo em vários milhões mas, ao investigar o caso, o agora réu-defunto concluiu que havia vigarice, sim, mas os bandidos eram outros. Para seu azar o líder da bandidagem era um polícia.
Magnitski, advogado de profissão, acabou preso e após uns meses de cativeiro sem acusação formal (nunca foi mais do que suspeito) apareceu morto na penitenciária onde o haviam engavetado. O caso complica-se com acusações de que o advogado trabalharia para o MI6 britânico, a aprovação de uma lei pelo congresso norte-americano que impõe sanções de vária ordem a todos os implicados, tendo Putin retaliado com a suspensão de um acordo que permitia a adopção de crianças russas por cidadãos dos EUA.
Pergunto-me qual será o desfecho deste processo. Que tipo de condenação poderá ser aplicada a um cadáver? O que está aqui a ser julgado? Qual poderá ser o objectivo disto? Tudo indica que Putin e os seus "muchachos" querem apenas limpar alguma porcaria atirando responsabilidades sobre a memória de alguém que não poderá defender-se.
De uma coisa está livre o defunto; não poderão condená-lo à morte. Quando muito poderão desenterrá-lo do cemitério e voltar a sepultá-lo num recinto prisional para sempre.
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sábado, dezembro 15, 2012
Massacres
Os massacres de inocentes sucedem-se a um ritmo estranho nos EUA (ver aqui lista). Os assassinos, nitidamente loucos varridos, dedicam a sua fúria desconcertante para os mais variados grupos.
Em Agosto um gajo abateu seis cidadãos e feriu outros três, cuja particularidade, inquietante para a sua mente perturbada, era o uso de turbante sikh. Pouco tempo antes, em Julho, um outro maluco assassinara a tiro de metralhadora 12 espectadores de um cinema no Colorado (e feriu mais 59) que se preparavam para assistir à estreia do mais recente filme do Batman.
Os assassinos suicidam-se, são abatidos ou apanhados e condenados, isso não interessa muito para o caso. A questão é: porque acontece isto tão regularmente em território norte americano? A resposta parece ser óbvia: porque um gajo pode ir, por exemplo, ao barbeiro e, entre um corte de cabelo e uma manicure, comprar uma arma automática com munições sem ter que explicar a ninguém o desejo de possuir tão macabro brinquedo.
É conhecido o poder dos fabricantes de armas nos EUA (se fosse só nos EUA...) e a sua inacreditável capacidade para perpetuar a venda livre de pistolas, metralhadoras e bazucas lá na terra deles. O argumento económico pesa, e de que maneira, para manter esta situação selvagem.
Tudo isto configura uma metáfora poderosa do estado civilizacional a que chegámos. A morte é fácil mas o dinheiro flui... já a vida parece demasiado cara para ser preservada. A morte é, de longe, mais barata e lucrativa do que a vida.
Em Agosto um gajo abateu seis cidadãos e feriu outros três, cuja particularidade, inquietante para a sua mente perturbada, era o uso de turbante sikh. Pouco tempo antes, em Julho, um outro maluco assassinara a tiro de metralhadora 12 espectadores de um cinema no Colorado (e feriu mais 59) que se preparavam para assistir à estreia do mais recente filme do Batman.
Os assassinos suicidam-se, são abatidos ou apanhados e condenados, isso não interessa muito para o caso. A questão é: porque acontece isto tão regularmente em território norte americano? A resposta parece ser óbvia: porque um gajo pode ir, por exemplo, ao barbeiro e, entre um corte de cabelo e uma manicure, comprar uma arma automática com munições sem ter que explicar a ninguém o desejo de possuir tão macabro brinquedo.
É conhecido o poder dos fabricantes de armas nos EUA (se fosse só nos EUA...) e a sua inacreditável capacidade para perpetuar a venda livre de pistolas, metralhadoras e bazucas lá na terra deles. O argumento económico pesa, e de que maneira, para manter esta situação selvagem.
Tudo isto configura uma metáfora poderosa do estado civilizacional a que chegámos. A morte é fácil mas o dinheiro flui... já a vida parece demasiado cara para ser preservada. A morte é, de longe, mais barata e lucrativa do que a vida.
sábado, novembro 10, 2012
China
Tenho seguido com interesse e avidez as reportagens de Paulo Moura que vêm sendo publicadas no jornal Público ao longo dos últimos dias com reflexos no blogue Repórter à Solta. (também aqui)
É um relato de viagem com contornos épicos. A escrita de Moura tem uma limpidez rara e a forma como organiza descrições de acontecimentos e informação recolhida junto das pessoas que foi contactando, fazem destas reportagens peças muito interessantes para tentarmos um rabisco que nos permita vislumbrar uma migalha da imensidão que é a China.
No jornal de hoje a peça de Moura termina de forma elucidativa.
Tao Feiya, professor de História Cultural na Universidade de Xangai, quando questionado sobre o que considera que a China tem para oferecer ao mundo, remata uma série de considerações afirmando que "Os chineses sempre foram pobres ao longo de milénios. Essa é uma das suas características mais marcantes. Por isso desenvolveram valores de trabalho, de honradez. Nenhuma família gosta de ter um filho ou um marido preguiçoso. É uma vergonha. Esses valores, de simplicidade e trabalho, talvez sejam o que a China tem para ensinar ao mundo".
Olá China.
É um relato de viagem com contornos épicos. A escrita de Moura tem uma limpidez rara e a forma como organiza descrições de acontecimentos e informação recolhida junto das pessoas que foi contactando, fazem destas reportagens peças muito interessantes para tentarmos um rabisco que nos permita vislumbrar uma migalha da imensidão que é a China.
No jornal de hoje a peça de Moura termina de forma elucidativa.
Tao Feiya, professor de História Cultural na Universidade de Xangai, quando questionado sobre o que considera que a China tem para oferecer ao mundo, remata uma série de considerações afirmando que "Os chineses sempre foram pobres ao longo de milénios. Essa é uma das suas características mais marcantes. Por isso desenvolveram valores de trabalho, de honradez. Nenhuma família gosta de ter um filho ou um marido preguiçoso. É uma vergonha. Esses valores, de simplicidade e trabalho, talvez sejam o que a China tem para ensinar ao mundo".
Olá China.
sábado, julho 28, 2012
Texto emprestado
Somos estúpidos
Comemoração da queda da bastilha. Qual o principal evento na bela Paris? Desfile militar. Aniversário da independência de qualquer nação que seja. Desfile militar. Aniversário de ditador. Desfile. Qualquer data comemorativa. Desfile. Essa prática ocorre aqui, na Europa, África, Ásia, enfim, no mundo todo. E me chateia. Mais que isso, preocupa. Aqueles tanques todos, monstrengos de aço, servem para uma única coisa: matar. Os soldados que marcham cadenciadamente como robôs sem vida, são treinados a exaustão para um só objetivo. Matar, também. Aqueles aviões fantásticos e rápidos, que sobrevoam barulhentos arrancando exclamações de admiração das crianças. Verdadeiras máquinas de matar. E todo o resto, cada veterano, cada homem ou mulher, que desfilam como salvadores, que passam orgulhosos com seus apetrechos assassinos, olhando fixo para frente, estão simplesmente mostrando a capacidade para tirar vidas. Quanto mais, melhor. Isso é normal?
Devo ser marciano. Não seria mais sensato que um país, em uma data comemorativa, mostrasse seus cientistas? Ou pessoas abnegadas em fazer o bem, em buscar a cura, em ensinar? Que tal se em troca de canhões e metralhadoras, desfilassem professores, médicos, operários? Pessoas que constroem uma nação. Talvez alguns voluntários em serviços sociais, destes que dedicam a vida para o bem estar dos mais necessitados? Imaginem a seguinte cena. No meu aniversário, em troca de convidar os amigos e vizinhos para uns petiscos e bebidas, vou para frente de casa de revólver em punho, meu filho com um facão, e ficamos mostrando nosso poderio destrutivo a todos. Certamente eu seria internado e chamado de maluco. Pois não é isso que fazem? Claro que, infelizmente, os países têm que ter exércitos. Os motivos para isso são inúmeros, entre eles, nossa famosa insensatez. Mas entre ser obrigado a ter capacidade bélica e mostrar isso frente as crianças como fosse algo extraordinário, tem uma distância enorme. E lugar de milico é no quartel. Nem um metro longe dele. Nem um centímetro. Aí está um problema que não terá solução. Nós continuaremos fazendo paradas com máquinas assassinas e milicos desfilando como herois, frente a criançada. Resta lamentar ou ir embora para Marte. Acredito que fazer uma viagem interplanetária, seja mais fácil do que encontrar um pouco de juízo e bom senso em nossos governantes. Eu, marciano, no setembro que vem aí...
Beto Canales do blogue Cinema e Bobagens
Texto publicado com conhecimento e acordo do autor :-) apenas mudei a imagem pois encontrei esta foto com um desfile de camelos.
Comemoração da queda da bastilha. Qual o principal evento na bela Paris? Desfile militar. Aniversário da independência de qualquer nação que seja. Desfile militar. Aniversário de ditador. Desfile. Qualquer data comemorativa. Desfile. Essa prática ocorre aqui, na Europa, África, Ásia, enfim, no mundo todo. E me chateia. Mais que isso, preocupa. Aqueles tanques todos, monstrengos de aço, servem para uma única coisa: matar. Os soldados que marcham cadenciadamente como robôs sem vida, são treinados a exaustão para um só objetivo. Matar, também. Aqueles aviões fantásticos e rápidos, que sobrevoam barulhentos arrancando exclamações de admiração das crianças. Verdadeiras máquinas de matar. E todo o resto, cada veterano, cada homem ou mulher, que desfilam como salvadores, que passam orgulhosos com seus apetrechos assassinos, olhando fixo para frente, estão simplesmente mostrando a capacidade para tirar vidas. Quanto mais, melhor. Isso é normal?
Devo ser marciano. Não seria mais sensato que um país, em uma data comemorativa, mostrasse seus cientistas? Ou pessoas abnegadas em fazer o bem, em buscar a cura, em ensinar? Que tal se em troca de canhões e metralhadoras, desfilassem professores, médicos, operários? Pessoas que constroem uma nação. Talvez alguns voluntários em serviços sociais, destes que dedicam a vida para o bem estar dos mais necessitados? Imaginem a seguinte cena. No meu aniversário, em troca de convidar os amigos e vizinhos para uns petiscos e bebidas, vou para frente de casa de revólver em punho, meu filho com um facão, e ficamos mostrando nosso poderio destrutivo a todos. Certamente eu seria internado e chamado de maluco. Pois não é isso que fazem? Claro que, infelizmente, os países têm que ter exércitos. Os motivos para isso são inúmeros, entre eles, nossa famosa insensatez. Mas entre ser obrigado a ter capacidade bélica e mostrar isso frente as crianças como fosse algo extraordinário, tem uma distância enorme. E lugar de milico é no quartel. Nem um metro longe dele. Nem um centímetro. Aí está um problema que não terá solução. Nós continuaremos fazendo paradas com máquinas assassinas e milicos desfilando como herois, frente a criançada. Resta lamentar ou ir embora para Marte. Acredito que fazer uma viagem interplanetária, seja mais fácil do que encontrar um pouco de juízo e bom senso em nossos governantes. Eu, marciano, no setembro que vem aí...
Beto Canales do blogue Cinema e Bobagens
Texto publicado com conhecimento e acordo do autor :-) apenas mudei a imagem pois encontrei esta foto com um desfile de camelos.
domingo, janeiro 22, 2012
SOPA não, obrigado
É sabido que uma percentagem absurdamente elevada de crianças detesta comer a sopa. De nada valem os esforços dos adultos que as tentam convencer a abrir a boca e engolir o que lhes pretendem enfiar boca abaixo.
Quando a teimosia se mantém, é vulgar ameaçar os petizes com a polícia, o papão, ou outras figuras que possam representar um poder repressivo suficientemente poderoso que as faça reconsiderar e abrir a boca para receber a colherada maldita.
O que se passou com a SOPA (Stop Online Piracy Act) que os EUA tentaram convencer o pessoal a comer não foi muito diferente. Como de costume, os legisladores norte-americanos pretendem saber o que convém ao resto do mundo, desta feita por forma a regrar o espaço virtual planetário que habitamos em conjunto.
A coisa metia um bocado de medo e ampliaria o papel de xerife mundial que os EUA gostam de ver em si próprios quando se olham ao espelho. Se a SOPA tivesse sido aceite havia de ser o bom o bonito, com os juízes americanos a pedirem que lhes enviassem na volta do correio todas as pessoas que se tivessem recusado a enfiar a zurrapa goela abaixo, portando-se mal e merecendo castigo severo.
Por uma vez imperou o bom senso e, para já, não temos de comer o que não queremos comer.
Quando a teimosia se mantém, é vulgar ameaçar os petizes com a polícia, o papão, ou outras figuras que possam representar um poder repressivo suficientemente poderoso que as faça reconsiderar e abrir a boca para receber a colherada maldita.
O que se passou com a SOPA (Stop Online Piracy Act) que os EUA tentaram convencer o pessoal a comer não foi muito diferente. Como de costume, os legisladores norte-americanos pretendem saber o que convém ao resto do mundo, desta feita por forma a regrar o espaço virtual planetário que habitamos em conjunto.
A coisa metia um bocado de medo e ampliaria o papel de xerife mundial que os EUA gostam de ver em si próprios quando se olham ao espelho. Se a SOPA tivesse sido aceite havia de ser o bom o bonito, com os juízes americanos a pedirem que lhes enviassem na volta do correio todas as pessoas que se tivessem recusado a enfiar a zurrapa goela abaixo, portando-se mal e merecendo castigo severo.
Por uma vez imperou o bom senso e, para já, não temos de comer o que não queremos comer.
sexta-feira, dezembro 30, 2011
Falência democrática
A notícia era discreta, ocupando apenas um cantinho da
página 9 da edição do jornal Público no dia 22 de Dezembro: Portugal tem uma “democracia com falhas”, dizia o título.
Lendo a
noticiazinha ficamos a saber que, em
2011, o declínio da democracia se concentrou na Europa (Finlândia, Irlanda,
Alemanha, Portugal, Itália e Grécia). Todos os países da lista perderam
pontos principalmente devido à erosão da
soberania associada aos efeitos da crise, a União Europeia a encontrar no
declínio da democracia um ponto forte das suas políticas.
De há uns tempos a
esta parte que se fala por aí, à boca pequena, do conceito de Pós-democracia,
um conceito que seria interessante debater de forma mais alargada mas que,
estranhamente, tem sido muito pouco (ou mesmo nada) divulgado nos meios de
comunicação social.
Podemos caracterizar a Pós-democracia como um regime em que
somos governados por grupos económicos que não se sujeitam ao escrutínio
popular e se representam exclusivamente a si próprios fazendo prevalecer os
seus interesses particulares em detrimento dos interesses colectivos.
Bastaria
olhar para a forma como os actuais primeiros-ministros da Itália e da Grécia
chegaram aos cadeirões que agora aquecem e, mais curioso ainda, observar os
respectivos currículos em instituições financeiras com muitas culpas no
cartório do afundamento geral das economias europeias.
Estes homens não foram eleitos, o que nos leva a um patamar superior da Pós-democracia: os responsáveis políticos são cooptados entre ex-dirigentes de grupos económicos, não se sujeitando ao escrutínio popular e representando exclusivamente os interesses particulares desses grupos em detrimento dos interesses colectivos.
Estes homens não foram eleitos, o que nos leva a um patamar superior da Pós-democracia: os responsáveis políticos são cooptados entre ex-dirigentes de grupos económicos, não se sujeitando ao escrutínio popular e representando exclusivamente os interesses particulares desses grupos em detrimento dos interesses colectivos.
É complicado viver a História antes de ela ser escrita e
vertida devidamente em manuais escolares nas páginas correspondentes, para que
possa ser estudada com a distância que se impõe à formação de ideias claras e
conclusões avisadas. Talvez, dentro de algumas décadas, os tempos que agora vivemos
venham a ser considerados como a época da falência da democracia, a génese de
uma nova ordem mundial, saída daquilo que designamos por “globalização”.
Talvez
os tempos que agora vivemos venham a ser considerados como a época em que o
“sonho americano” foi substituído pelo “pesadelo chinês”, os tempos em que os
cidadãos das ex-democracias foram confrontados com um novo paradigma social:
trabalhar cada vez mais, receber cada vez menos e ir perdendo todos os direitos
que caracterizavam os “estados sociais” que evoluíram ao longo de décadas após
a 2ª Guerra Mundial. Talvez as coisas venham a ser assim ou, quem sabe, talvez
nada disto venha a acontecer.
Olho para o nosso primeiro-ministro, para a forma como o
actual governo português tenta governar a crise e não me sinto particularmente
optimista. Sinto-me até muito pessimista. Apetece-me virar as páginas do jornal
rapidamente até chegar à secção de desporto ou, então, ler o jornal de trás
para a frente. É preferível observar as tabelas classificativas dos vários
campeonatos de futebol por essa Europa fora a concentrar a atenção nas
oscilações da Bolsa.
Este texto foi enviado para a Directora do Público.
quarta-feira, dezembro 21, 2011
Kim III
Eu sei que não sei grande coisa sobre o que se passa na Coreia do Norte. Eu sei que, para um gajo que vive neste lado do planeta, é complicado compreender o que vai nas cabeças dos norte-coreanos quando choram assim, como madalenas arrependidas, baba e ranho, perante as imagens dos seus queridos líderes feitos múmias ou, mais simplesmente, transformados em memórias. Eu sei.
Além do que acima fica escrito também me faz confusão que os comunistas que conheço fiquem todos eriçados quando se fala mal da Coreia do Norte. Agora que o mundo contemporâneo se torceu todo de fora para dentro e de dentro para fora, resta-lhes este cadáver político e social como âncora ideológica, o que não deixa de ser paradigmático da fome doutrinária que passam.
Como pode ser comunista um país onde o poder é hereditário, passando de pai tirano para filho? Qual a sustentação ideológica para esta situação aberrante? Como designar o regime norte-coreano? Monarquia?
Deixem-me finalizar este post meio macaco dizendo que a morte de Kim II me tocou tanto como a do Kim que o antecedeu na cadeira de rei da Coreia do Norte. Dois gordos que governaram com pata de ferro um país de pobres escanzelados e que agora têm em Kim III um herdeiro gordo e seboso como eles.
Além do que acima fica escrito também me faz confusão que os comunistas que conheço fiquem todos eriçados quando se fala mal da Coreia do Norte. Agora que o mundo contemporâneo se torceu todo de fora para dentro e de dentro para fora, resta-lhes este cadáver político e social como âncora ideológica, o que não deixa de ser paradigmático da fome doutrinária que passam.
Como pode ser comunista um país onde o poder é hereditário, passando de pai tirano para filho? Qual a sustentação ideológica para esta situação aberrante? Como designar o regime norte-coreano? Monarquia?
Deixem-me finalizar este post meio macaco dizendo que a morte de Kim II me tocou tanto como a do Kim que o antecedeu na cadeira de rei da Coreia do Norte. Dois gordos que governaram com pata de ferro um país de pobres escanzelados e que agora têm em Kim III um herdeiro gordo e seboso como eles.
quarta-feira, dezembro 07, 2011
Estranha beleza
Nesta vida tudo se paga, nada nos é oferecido. Os americanos dizem que "não há almoços grátis", os portugueses afirmam que "quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga", cada povo reza as suas sentenças o que mostra muito da forma como vê o mundo que o rodeia.
A notícia de que Pequim está encerrada numa colossal nuvem de poluição não deverá surpreender ninguém (ver aqui). A degradação das condições de vida é o preço a pagar pelo extraordinário crescimento económico. A China não pode tornar-se a maior economia do mundo sem pagar bem paga tal façanha. É este o modelo civilizacional a que aspiram as grandes nações do nosso mundo?
Vejamos a coisa pelo lado das oportunidades; um empresário com visão de futuro e olho para o negócio poderá investir na criação, produção e comercialização de uma linha de máscaras de oxigénio. É um produto com muito futuro nos mercados asiáticos hoje e, amanhã, no resto do mundo! A economia é uma ciência autónoma e tem a sua estranha beleza.
A notícia de que Pequim está encerrada numa colossal nuvem de poluição não deverá surpreender ninguém (ver aqui). A degradação das condições de vida é o preço a pagar pelo extraordinário crescimento económico. A China não pode tornar-se a maior economia do mundo sem pagar bem paga tal façanha. É este o modelo civilizacional a que aspiram as grandes nações do nosso mundo?
Vejamos a coisa pelo lado das oportunidades; um empresário com visão de futuro e olho para o negócio poderá investir na criação, produção e comercialização de uma linha de máscaras de oxigénio. É um produto com muito futuro nos mercados asiáticos hoje e, amanhã, no resto do mundo! A economia é uma ciência autónoma e tem a sua estranha beleza.
sábado, novembro 12, 2011
A importância de ter um inimigo
De facto, um inimigo declarado e claramente identificado ajuda-nos a apontar as nossas armas numa direcção determinada, ajuda-nos a ter um objectivo. A ausência de um inimigo pode deixar-nos desamparados de ódio, o que não é coisa boa para a nossa saúde.
Necessitamos de ter ódio que nos equilibre a destilação de amor. Uma coisa ampara a outra, é o Yin e o Yang, o equilibrio universal a repousar na mesinha de cabeceira como se fosse um bibelot.
Após o pequeno-almoço e uma olhadela ao jornal dei por mim a pensar que a derrota do comunismo foi o que nos lixou. Quando o Muro de Berlim caíu estávamos longe de imaginar a merda toda que estava para nos entrar porta dentro.
Sem a Cortina de Ferro ficámos à mercê dos nossos próprios demónios. Enterrada a utopia comunista sob toneladas de realidades abjectas, agora confirmadas (a vida do lado de lá era ainda pior e mais desumana do que nós imaginavamos), pensámos que a Social Democracia havia triunfado!
Ao som de trombetas triunfais sonhámos com uma Europa democrática e justa. Abafado o papão comunista teríamos apenas de esperar o tempo necessário para a estabilização social e política do nosso amado Velho Continente. O Paraíso anunciava-se pintado em tons rosa e azul bebé.
Hoje, ao acordar, percebi que sem comunistas estamos entregues ao monstro capitalista sem ninguém que nos proteja. A miséria dos povos subjugados sob as desprezíeveis bandeiras vermelhas estancava a voracidade do mostrengo que agora nos devora a todos, ex-comunistas incluídos, com uma gula insaciável. A bocarra aberta do capitalismo é a porta do inferno na Terra.
Sem inimigos que nos valham estamos entregues à bicharada. É triste. Pior que triste, é um logro miserável.
domingo, outubro 16, 2011
Semente
Ontem foi dia de manifestação em Lisboa. Seria banal (quantas manifestações já se fizeram em Lisboa, meu Deus?) se não tivesse sido dia de manifestação em mais umas quantas centenas de cidades por esse mundo fora. Talvez me engane mas penso poder afirmar que assistimos à primeira manifestação global na sociedade da informação. E do consumo.
O que levou tantos milhares de pessoas (todas juntas terão atingido os milhões?) a sairem para a rua gritando palavras de ordem tão diferentes umas das outras, numa verdadeira Torre de Babel de sentimentos e reivindicações? Na Ásia, na América, na Europa, um pouco por todo o universo democrático, os cidadãos revoltam-se contra a gula insaciável do capitalismo selvagem.
Penso que o que está a despertar no íntimo de cada um de nós é a percepção de um paradoxo destruidor de boas vontades: dizem-nos que somos livres e tratam-nos como escravos.
O que irá sair daqui? Não sabemos. Quem pode prever o futuro? Ninguém. O que podemos perceber com algum grau de segurança é que está lançada a semente de alguma coisa nova que irá crescer e tomar o seu lugar no horizonte dentro de algum tempo.
É uma semente de revolta (chamam-lhe "indignação") que questiona o sistema pós-democrático com frontalidade. Já todos percebemos que não somos governados por aqueles que elegemos por sufrágio universal e directo, mas sim por personagens que desconhecemos em absoluto que decidem as políticas macro-económicas em nome do enriquecimento faraónico de nem sabemos quem!
Alguma coisa está a mudar.
O que levou tantos milhares de pessoas (todas juntas terão atingido os milhões?) a sairem para a rua gritando palavras de ordem tão diferentes umas das outras, numa verdadeira Torre de Babel de sentimentos e reivindicações? Na Ásia, na América, na Europa, um pouco por todo o universo democrático, os cidadãos revoltam-se contra a gula insaciável do capitalismo selvagem.
Penso que o que está a despertar no íntimo de cada um de nós é a percepção de um paradoxo destruidor de boas vontades: dizem-nos que somos livres e tratam-nos como escravos.
O que irá sair daqui? Não sabemos. Quem pode prever o futuro? Ninguém. O que podemos perceber com algum grau de segurança é que está lançada a semente de alguma coisa nova que irá crescer e tomar o seu lugar no horizonte dentro de algum tempo.
É uma semente de revolta (chamam-lhe "indignação") que questiona o sistema pós-democrático com frontalidade. Já todos percebemos que não somos governados por aqueles que elegemos por sufrágio universal e directo, mas sim por personagens que desconhecemos em absoluto que decidem as políticas macro-económicas em nome do enriquecimento faraónico de nem sabemos quem!
Alguma coisa está a mudar.
sexta-feira, setembro 30, 2011
Uma coisa nova
Já tinhamos o Capitalismo Selvagem, coisa mais ou menos usada e meio escondida que vimos a conhecer melhor nos últimos tempos. Agora começamos a perceber que, na China, há mesmo uma coisa nova, uma coisa que poderíamos chamar de Capitalismo Comunista.
Se os sinais enviados desde Pequim nos anos mais recentes não fossem o suficiente para podermos acreditar que, de facto, por lá se anda a construir essa espécie de Frankenstein político-social, a notícia recente de que um tal de Liang Wengen (ler aqui) se está a chegar ao Comité Central do Partido Comunista Chinês é elucidativa.
O senhor Wengen representa "as mais avançadas forças produtivas", eufemismo chinês para designar uma sanguessuga capitalista, um empresário cujo único objectivo é o lucro, personagens que, durante a Revolução Cultural eram considerados pouco mais do que demónios (talvez até fossem considerados menos), mas que agora surgem como uma espécie de nova vanguarda, admirável e, sobretudo, vanguarda exemplar.
O que se pode esperar de um sistema como este? O Capitalismo Selvagem já nós conhecemos e sabemos (mais ou menos) do que ele é capaz para satisfazer o seu apetite impossível de satisfazer. E deste novo primo, um nadinha mais jovem, que agora vê despontar os primeiros pêlos púbicos, lá para os lados do Oriente, o que poderemos nós esperar?
domingo, setembro 25, 2011
Já podemos arrumar os capacetes
Pronto, "o satélite não comandado UARS da Agência Espacial Norte Americana afundou-se neste sábado algures no oceano Pacífico, entre as 4h23 e as 6h09 (hora de Lisboa), disse a NASA." (ver informação interessante aqui) Podemos arrumar os capacetes e voltar a sair à rua sem andarmos com o nariz apontado às nuvens, tentando descortinar algum parafuso que venha do espaço exterior em direcção às nossas cabeças.
A questão do lixo espacial deveria preocupar-nos um pouco mais mas a verdade é que também cá por baixo a lixaria não nos deixa sossegados. Uma economia global pujante e capaz de crescer todos os anos tem os seus custos. O crescimeto dos detritos que vão forrando o nosso planeta é directamente proporcional aos lucros económicos com que gostamos de enfeitar os discursos sobre o bem-estar das populações.
Resumindo e concluindo, o nosso bem-estar (leia-se: os nossos níveis de consumo) exige a produção de tanto lixo que, em breve, será impossível disfarçar a porcaria continuando a varrê-la para debaixo do tapete. Ou seja, o nosso bem-estar actual será a causa principal do nosso mal-estar futuro. Paradoxal, não?
A questão do lixo espacial deveria preocupar-nos um pouco mais mas a verdade é que também cá por baixo a lixaria não nos deixa sossegados. Uma economia global pujante e capaz de crescer todos os anos tem os seus custos. O crescimeto dos detritos que vão forrando o nosso planeta é directamente proporcional aos lucros económicos com que gostamos de enfeitar os discursos sobre o bem-estar das populações.
Resumindo e concluindo, o nosso bem-estar (leia-se: os nossos níveis de consumo) exige a produção de tanto lixo que, em breve, será impossível disfarçar a porcaria continuando a varrê-la para debaixo do tapete. Ou seja, o nosso bem-estar actual será a causa principal do nosso mal-estar futuro. Paradoxal, não?
quinta-feira, setembro 01, 2011
Amigos da Líbia
Estão reunidos em Paris uns quantos amigos da Líbia. Sim, são amigos do país, a Líbia, assim mesmo, em abstracto. Alguns já o são há muito tempo, outros serão mais recentes. Incluo umas quantas imagens para que possamos recordar algumas dessas amizades,
É fácil perceber que isto de ser amigo de um país obriga a tomar atitudes um tanto... como dizer? Um tanto discutíveis? Ou será esta amizade aquilo que poderemos designar sem rodeios como uma amizade de merda?
É fácil perceber que isto de ser amigo de um país obriga a tomar atitudes um tanto... como dizer? Um tanto discutíveis? Ou será esta amizade aquilo que poderemos designar sem rodeios como uma amizade de merda?
quinta-feira, agosto 11, 2011
Os monstros
A partir de agora, quando as crianças não queiserem comer a sopa poderemos ameaçá-las com os hooligans caso o papão já não faça efeito. Cada época tem direito aos seus próprios monstros e, nos últimos dias em Inglaterra, assistimos ao nascimento de toda uma nova estirpe de coisas más. Os bandos desvairados que têm posto a ferro e fogo as terras de Sua Majestade funcionam como estranhos espelhos da sociedade em que vamos vivendo.
Os bandidos são de géneros variados e diferentes proveniências. Vão desde crianças de tenra idade a rapariguinhas em idade escolar ou homens feitos, com responsabilidades em casa e família para educar. São de várias estratos sociais, uns pobres, outros nem por isso, alguns são assim-assim. A barbárie eclodiu em Londres mas depressa alastrou a outras cidades, um pouco por todo o reino. Isto mostra que o fenómeno é complexo e com múltiplas razões de ser.
O que tem toda esta gente em comum (ler aqui)? O que liga estas pessoas, aparentemente tão distintas? Meu deus, o que se passa? Ao que parece as motivações dos amotinados não são de ordem social, não têm a ver com questões raciais, não estamos perante um fenómeno de reivindicação de melhores condições de vida. Ao que tudo indica, os distúrbios generalizados por toda a Inglaterra estão relacionados com o mero e simples saque.
Sim, parece que é isso: saque, pirataria em terra firme. Tudo começou com um protesto junto a uma esquadra de polícia em Tottenham após a morte de um cidadão às balas da polícia mas a coisa descambou. Os bandos de delinquentes rapidamente concentraram as suas atenções em lojas de bens de consumo e foi isso que lhes serviu de motivação principal: consumir.
Os bandidos são, afinal de contas, consumidores que, de outro modo, não teriam acesso aos bens que tanto desejam. Vai daí, toca a partir, a pilhar, a incendiar, numa orgia consumista saída das profundezas do inferno. São monstros, terríveis monstros em busca de consumo fácil. Só isso. Tão simples e tão aterradoramente poético. Má poesia, mas, ainda assim, poesia urbana.
Os bandidos são de géneros variados e diferentes proveniências. Vão desde crianças de tenra idade a rapariguinhas em idade escolar ou homens feitos, com responsabilidades em casa e família para educar. São de várias estratos sociais, uns pobres, outros nem por isso, alguns são assim-assim. A barbárie eclodiu em Londres mas depressa alastrou a outras cidades, um pouco por todo o reino. Isto mostra que o fenómeno é complexo e com múltiplas razões de ser.
O que tem toda esta gente em comum (ler aqui)? O que liga estas pessoas, aparentemente tão distintas? Meu deus, o que se passa? Ao que parece as motivações dos amotinados não são de ordem social, não têm a ver com questões raciais, não estamos perante um fenómeno de reivindicação de melhores condições de vida. Ao que tudo indica, os distúrbios generalizados por toda a Inglaterra estão relacionados com o mero e simples saque.
Sim, parece que é isso: saque, pirataria em terra firme. Tudo começou com um protesto junto a uma esquadra de polícia em Tottenham após a morte de um cidadão às balas da polícia mas a coisa descambou. Os bandos de delinquentes rapidamente concentraram as suas atenções em lojas de bens de consumo e foi isso que lhes serviu de motivação principal: consumir.
Os bandidos são, afinal de contas, consumidores que, de outro modo, não teriam acesso aos bens que tanto desejam. Vai daí, toca a partir, a pilhar, a incendiar, numa orgia consumista saída das profundezas do inferno. São monstros, terríveis monstros em busca de consumo fácil. Só isso. Tão simples e tão aterradoramente poético. Má poesia, mas, ainda assim, poesia urbana.
segunda-feira, agosto 08, 2011
Luta de classes
Portugal, Egipto, Espanha, Israel, Inglaterra; as manifestações populares ganham formas e características particulares mas haverá algo de comum entre elas? Os problemas variam ligeiramente; desemprego entre as camadas mais jovens da população, dificuldades em conseguir um modo de vida que possa ser considerado digno, desencanto perante a realidade, desajustamento entre o sonho e a realidade. O mundo em que vivemos não é nada parecido com aquele em que julgamos viver. A constatação desse facto provoca a revolta e a rua é o palco de todas as representações desse desencanto.
Se isto a que assistimos não é uma luta de classes à escala global, alguém me explique que raio de coisa é esta? Se isto a que assistimos entre o almoço e o jantar não é a revelação da falência do sistema capitalista selvagem que engole o nosso modo de vida e a utopia civilizacional de matriz social-democrata que nos permitiu sonhar com uma Europa unida, alguém que me explique que porcaria é esta.
Deixámo-nos enganar, deixámo-nos seduzir por um modelo consumista de matriz hedonista e entregámos os nossos valores humanistas em troca de uma mão-cheia de gadgets made in Taiwan. Trocámos o sonho americano (que era muito semelhante ao sonho europeu) pelo pesadelo chinês e é isso que iremos viver. Nós e todos os outros.
Desigualdade, injustiça social, desequilíbrio na distribuição da riqueza, perda de direitos básicos, o retrato da realidade que nos apoquenta dificilmente poderia ser pintado com tons mais obscuros. A solidariedade é transformada numa anedota de mau gosto.
Por todo o planeta assistimos a manifestações que reclamam apenas uma e a mesma coisa, seja no mundo árabe ou na Europa, todos clamamos por justiça! Esse é o denominador comum: queremos justiça, queremos pôr fim à corrupção e à impunidade daqueles que, sob o manto diáfano do capitalismo, contribuem diariamente para atiçar este incêndio que está a consumir o mundo contemporâneo até o deixar num monte de cinzas fumegantes. Estamos em luta contra a única Internacional que sobreviveu à antiga (e reconhecida) luta de classes: a Internacional Capitalista. Enquanto não formos capazes de identificar o inimigo comum com a clareza que se impõe estaremos à beira do abismo civilizacional. É tempo de recuperar e reenquadrar o conceito de luta de classes.
É necessário refrear o ímpeto capitalista que transforma este mundo numa selva onde a única lei que perdura é a lei do mais forte.
quarta-feira, abril 06, 2011
Uma parábola
À liberdade inicial foram impostas regras restritivas
Nem de propósito. Logo após ter escrito o post anterior dou de caras com a notícia da detenção e subsequente desaparecimento em parte incerta do artista chinês Ai Weiwei.
Conhecido no Ocidente como co-autor do "Ninho de Pássaro", o estranhamente espantoso Estádio Nacional de Pequim, e de uma abstrusa instalação escultórica de milhões de sementes de girassol feitas de porcelana em exibição na Tate Modern em Londres, Weiwei é um crítico público e notório do actual regime "social capitalista" chinês.
O artista foi surripiado por agentes policiais e engavetado em local indeterminado. O crime dele? Nenhum, aos olhos de um regime democrático, algo grave, decerto, segundo os parâmetros dos poderosos chineses. Como podemos aceitar uma coisa destas? Ou encolher os ombros ou desviar o olhar? Como podemos partilhar um mundo global com regimes que não respeitam a dignidade humana nem compreendem o que sejam direitos de cidadania? Como podemos competir no processo de globalização com países que jogam o mesmo jogo que nós mas com regras completamente diferentes? Neste jogo estamos em nítida desvantagem e derrotados logo à partida.
Como tenho vindo a explicar nos últimos tempos, tenho a sensação de que a nossa sociedade deu início a um processo de "sinificação" irreversível (transformação do nosso sistema sociopolítico ocidental em algo próximo do sistema sociopolítico chinês). Este processo é confuso porque é composto de sinais contraditórios. Por um lado Xiaogang, o grande pintor, triunfa. Por outro Weiwei, o artista contestatário, esfuma-se. Por um lado os trabalhadores ocidentais reclamam condições de trabalho que consideram decentes e salários correspondentes ao que imaginam ser justo para eles, por outro os trabalhadores chineses dão o exemplo do que teremos num futuro muito próximo: mais horas de trabalho, menores salários e boquinha calada se não quisermos ir fazer companhia a Ai Weiwei.
Weiwei torna-se um símbolo deste estranho fenómeno de fusão sociopolítica à escala planetária.
O "Ninho de Pássaro" será adaptado para se tornar, preferencialmente, uma espécie de gigantesco centro comercial. Sintomático!
A instalação na Tate Modern, que Weiwei concebeu como um imenso tapete para ser pisado pelos visitantes, que também se poderiam submergir nas sementes de girassol de porcelana, acabou por ser declarada potencialmente prejudicial para a saúde dos visitantes. Ao que parece, a coisa liberta um pózinho que, se inalado repetidamente e durante um período de tempo alargado, poderá ter consequências nefastas.
Por isso, a Tate e o artista decidiram “não permitir membros do público a andar por cima da escultura”.(vale a pena ler aqui).
A instalação de Weiwei torna-se, assim, uma inquietante parábola do processo de "sinificação" do ocidente. É coisa para se ver ao longe por ser potencialmente perigosa para a saúde se por ela nos deixamos seduzir ao ponto de nela nos embrenhamos.
sexta-feira, março 25, 2011
Contas de mercearia
Hoje li um texto sobre a guerra na Líbia que terminava com a frase "A verdade é que o mundo tem pela frente uma guerra que lhe vai sair cara." Reli a dita frase uma e outra vez, tentando imaginar uma guerra que não tenha um preço elevado e dei por mim a fazer contas de cabeça.
Quanto custa uma guerra? Há a perspectiva puramente económica que tem a ver com os gastos em armamento e reconstrução dos espaços derrubados à força dos bombardeamentos. Coisa muito cara, decerto. Mas há uma outra perspectiva, a das pessoas que se vêem no meio do caos guerreiro. Mortos e feridos, estropiados físicamente e os que ficam com o cérebro feito em papa de aveia, os zumbis. Aqui as contas ficam mais difíceis de realizar.
Quanto custa uma vida transformada em coisa automática, um cérebro assaltado constantemente por terrores diurnos e pavorosos pesadelos quando se lhe fecham os olhos?
O preço que o mundo paga pelas guerras em que se vai metendo não é nada comparado com o preço pago pelos indivíduos que a fazem, sejam voluntários ou não na girândola da carnificina. Não façamos contas à guerra. Simplesmente não a façamos.
Quanto custa uma guerra? Há a perspectiva puramente económica que tem a ver com os gastos em armamento e reconstrução dos espaços derrubados à força dos bombardeamentos. Coisa muito cara, decerto. Mas há uma outra perspectiva, a das pessoas que se vêem no meio do caos guerreiro. Mortos e feridos, estropiados físicamente e os que ficam com o cérebro feito em papa de aveia, os zumbis. Aqui as contas ficam mais difíceis de realizar.
Quanto custa uma vida transformada em coisa automática, um cérebro assaltado constantemente por terrores diurnos e pavorosos pesadelos quando se lhe fecham os olhos?
O preço que o mundo paga pelas guerras em que se vai metendo não é nada comparado com o preço pago pelos indivíduos que a fazem, sejam voluntários ou não na girândola da carnificina. Não façamos contas à guerra. Simplesmente não a façamos.
domingo, março 20, 2011
A guerra é a guerra?
Índio com verdadeiro Tomahawk
A guerra chegou assim, de mansinho, quase sem se dar por ela. Desta vez é mesmo aqui em baixo, ali, na outra margem do Mar Mediterrâneo. Mais uma vez as forças militares ocidentais avançam sobre um país soberano com o objectivo de defender as populações locais da fúria do tiranete de serviço. Tiranete que ainda ontem era amigo do peito (e muito bem recebido) de alguns dos que agora cerram fileiras contra ele. Lembram-se de Saddam Hussein?
O folclore mitológico dos mísseis Tomahawk volta a ocupar as primeiras páginas dos nossos jornais. Mais uma vez estamos em guerra, na defesa dos ideais democráticos. Por acaso, tal como no Iraque, também a Líbia é um importante país produtor de petróleo. Mas deve ser apenas por acaso. No Sudão, para dar apenas um exemplo, há crimes confirmados contra a humanidade mas ninguém lá vai meter o bedelho. Ao que parece, ali, não vale a pena.
domingo, março 13, 2011
Nas costas do cão
Coisas como aquela que aconteceu no Japão deixam-me desarmado. Não tenho palavras, não consigo pensar em nada de jeito. Sinto-me como uma pulga que vive nas costas de um cão que está a dormir e que. de vez em quando, se coça ou estremece.
No Verão passado estive no Japão e saí de lá embevecido com tudo o que por lá vi e por lá vivi.
Se deus existe...
O filho da puta do cão está com insónias.
Madoka, você está aí?
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