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sábado, setembro 30, 2017

Putas Assassinas

Lendo Bolaño sinto uma estranha vertigem, um vago reconhecimento. As suas personagens parecem vogar indefinidamente num espaço que nunca lhes pertence, como se fossem sempre estrangeiras, mesmo no seu próprio país ou na sua cidade, até mesmo no seu corpo.

Nos seus contos e romances sinto a solidão como o mais perigoso dos animais selvagens. Um bicho terrível que procura enjaular-se nas almas das pessoas para depois as roer por dentro, como na mais terrível das torturas chinesas, aquela que implica uma gaiola e uma ratazana esfomeada.

Ando a ler As Putas Assassinas.

segunda-feira, agosto 21, 2017

Ter razão

Todos queremos ter razão!

Vá lá, não adianta estares a rebuscar na tua cabeça se queres ou não ter razão, surpreendido leitor, não vais conseguir encontrar uma justificação aceitável que comprove a tua humildade. Népias, não te safas com facilidade porque a tua Consciência (ou Alma ou lá o que é essa Coisa) está sempre a segredar-te coisas ao ouvido e não te deixa mentir a ti próprio.

A nossa necessidade de ter sempre razão leva-nos a estar constantemente a pensar na melhor maneira de o provarmos. Nota bem: não conseguimos ter razão mas podemos provar que a temos. Confuso, não? Pois, também me parece. É exactamente o que se está a passar comigo à medida que vou escrevendo estas palavras; eu quero ter razão quando afirmo que todos queremos ter (sempre) razão mas não sou capaz de encontrar um discurso suficientemente poderoso que justifique esta patranha.

Todos queremos ter sempre razão!

A melhor maneira de ter razão é ser agressivo, ser afirmativo, avançar como se o nosso pescoço não fosse capaz de nos voltar o olhar para trás. Ter razão é como ter um torcicolo. Só é doloroso se deixarmos a única posição confortável.

sábado, agosto 19, 2017

Macaquices

Ler, ver, filmes, ouvir música, conversar, é como aquela cena dos três macacos mas sem as patas a tapar os olhos, os ouvidos ou a boca. Somos feitos disto, é este alimento que, de alguma forma nos vai fortalecendo o corpo por via do espírito. Somos macacos cultos.

A cena dos macacos tem a ver com um provérbio eventualmente chinês mas que terá ganho os galardões de universalidade por via japonesa. A ideia é não ver o mal, não ouvir o mal e não falar mal, uma via para a sabedoria e a santidade, um manual de bons princípios e humanismo à maneira oriental.

É complicado cumprir o objectivo dos três macacos sábios, afinal de contas somos apenas humanos.

sexta-feira, junho 30, 2017

Imparcialidade

A imparcialidade pode revelar-se uma doença da alma. Não tomar partido, observar o mundo e os acontecimentos de uma forma absolutamente justa, sem o julgamento inquinado por um ponto de vista específico? Tenho a impressão de quem nem Deus será capaz de tão extraordinária façanha.

Para um mortal comum, o esforço de olhar o mundo de forma imparcial poderá provocar um caos desapaixonado pela percepção de que tudo é mesquinho, pode sugerir que a existência humana emporcalha tudo e destrói o planeta arrastando tudo o que a rodeia para o vórtice do aniquilamento absoluto.

A constatação de que cada um de nós tem um nariz e um umbigo, limites óbvios da perspectiva individual do universo, também não ajuda.

A imparcialidade é uma coisa impossível?

terça-feira, junho 20, 2017

Mentira

Várias coisas me enojam ao ponto de fazer crescer em mim uma incómoda vontade de fazer mal, também ela nojenta a gastar. Não pretendo justificar a baixeza de certos impulsos que de tempos a tempos me animam, sou um bicho, assumo-o com plena consciência da minha animalidade; mas tenho de reconhecer que, se não fosse devidamente estimulada, uma certa besta imunda que trago cá dentro talvez nunca saísse do seu sono mais profundo.

À estupidez suporta-a a custo, à mentira premeditada, tal como à sonsice, não admito qualquer tipo de espaço por ínfimo que seja. Aqueles que mentem de forma deliberada espevitam o tal bicharoco imundo que habita as profundezas das minhas entranhas.

A mentira terá diferentes graus numa escala que lhe determine a gravidade, admito. Há mentiras inofensivas, mentiras piedosas, essas são suportáveis. Há até mentiras que são proferidas com uma profunda convicção de se estar a falar verdade. Essas podemos mesmo respeitar. Mas a ignorância não pode justificar todas as baboseiras que possamos engendrar.

Finalmente há as grandes mentiras. São essas que me tiram do sério e me transformam numa autêntica besta.

sábado, maio 13, 2017

Momento (pouco) zen

Cada um de nós é fruto de uma determinada árvore genealógica. Pendemos dos ramos da nossa árvore com aspecto mais ou menos apetecível, dependendo da fome de quem nos olha. Estamos neste mundo para comermos e sermos comidos. Sim, somos frutos carnívoros.

A complexidade patética do ser-se humano é tão grande que não percebemos nada. Não sabemos de onde vimos, não sabemos onde estamos... como poderemos, sequer, imaginar para onde vamos?

Esta cena deixa-nos assim, como somos: desprotegidos, vulneráveis; desorientados. Olhamos em redor procurando algo que nos ilumine, qualquer coisinha que alumie tenuemente as trevas que envolvem esta nossa condição.

A muitos de nós custa a crer que a vida seja isto. Que seja só isto. Temo bem que seja assim.

sábado, maio 06, 2017

Sob um céu cinzento

Tiramos a religião a uma comunidade e o que lhe deixamos em troca? Sai Deus do cadeirão mais elevado do Tribunal e quem lá vai sentar o cu? A coisa é complicada. A Lei divina substituída por um Código Penal trabalhado por homens pouco escrupulosos é a resposta a que temos direito?

As grandes catedrais foram substituídas por centros comerciais. As famílias deslocam-se em peregrinação dominical aos McDonald's de todos os tipos, a devoção à Palavra é transformada em devoção ao Consumo. Isto é complicado, caraças.

Teremos, de facto, matado Deus? Ou Ele, simplesmente, amuou e foi pregar para outra freguesia? Talvez tenha criado outro tipo de vida capaz de O adorar nalgum planeta longínquo e tenha agora a forma de uma lula ou de um veado com asas de morcego, uma coisa assim, tão incompreensível para nós, seres humanos, como nós seremos para as espécies alienígenas que eventualmente existam algures no Universo.

A desagregação do espaço humano vai corroendo o Mundo, a Lei de Lavoisier aplicada à escala da existência da nossa espécie, este mundo que se achata e vai perdendo a esfericidade sob um céu muito cinzento.

segunda-feira, abril 24, 2017

Podia ser pior...

A cena é essa: um gajo está tão ocupado a tentar sobreviver que não tem espaço mental para reflectir sobre a vida e a morte, sobre o que é a felicidade, essas coisas.

Um gajo está tão ocupado a imaginar que raio de imagem exporta em direcção aos olhos dos outros que não tem tempo para pensar no que significa um olhar.

Um gajo está tão enfronhado na vida quotidiana que acaba por se elevar ao nível básico do bicho. Já não é mau, já não é mau... podia ser pior.

E como podia ser pior acabamos a dar-nos por satisfeitos: é uma merda, eu sei, mas podia ser pior, podia ser pior...

quarta-feira, março 08, 2017

A pele e os sapatos

Realmente, a questão da perspectiva individual é uma coisa bastante estúpida. O facto de termos o cérebro agarrado aos olhos e os olhos como espelho da alma não nos ajuda muito a percebermos o mundo circundante com a distância que gostaríamos de manter em relação ao Bem e ao Mal.

É demasiado fácil considerarmos aqueles que têm uma visão diferente da nossa como sendo uns autênticos camelos. E nem nos damos muito ao trabalho de pensar como seria estarmos enfiados na pele do outro (ou nos seus sapatos, como dizem os ingleses).

Estou a esforçar-me por pensar positivamente, tento manter os valores humanistas em alta, enfim, quero olhar para o espelho e ver um tipo fixe... mas tenho uma vontade indomável de desprezar certos dromedários, de invectivar uns quantos borregos e ridicularizar uma mão-cheia de ratazanas de esgoto. O gajo no espelho não me parece assim tão bonzinho nem justo nem nada disso.

O gajo no espelho sou eu.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Da persistência da memória

Quando foi que a arte deixou de se preocupar com os pêlos nas pernas e pôs a gillette de lado? Quando teve ela a ideia de que um chapéu de côco pode usar-se com um kilt escocês e uma camisa de alças branca com um urinol estampado?
Não há um registo rigoroso mas quando terá a arte deixado as peneiras para vir comer uma bifana com o pessoal do arrôto?
A memória é uma buraqueira do caraças mas as coisas aconteceram e não dependem dela para terem existido. Já não estou tão certo da necessidade dessa dependência quando se trata de existirem no presente. As coisas que esquecemos nunca aconteceram? Há quem pense assim.

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Confessionário

Por vezes sinto-me como se tivesse sido talhado em madeira. Uma coisa entre o Pinóquio e algum santo de pau carunchoso pintado à mão mas com a tinta já meio comida e a cair. Sinto-me pasto de caruncho gordo.

São tantas as dúvidas que não deixam espaço nenhum às certezas. Fico meio abananado, a tremelicar no alto da minha soberba, tenho medo de cair... e caio. Como num sonho, sou sugado por aquela queda infinita sem saber o que está no fundo ou, sequer, se existe fundo.

Talvez isto seja um reflexo da minha educação católica: o receio de ser mau, a ânsia de praticar a bondade. Seja lá o que for é algo que me faz fugir para a frente de quem sou, algo que me faz desejar o futuro; talvez no futuro haja redenção!

Limpo os óculos, volto a encavalitá-los na cana do nariz. As letras no écran ganham de novo nitidez suficiente para que possa compreender o que estou a escrever. Compreender!? Mentira, posso ler as frases anteriores, mas compreendê-las.... isso fica para uma outra vida.

sábado, janeiro 14, 2017

Este mundo

 Os Pilares da Sociedade (George Grosz, 1926)

A cada dia que passa maior é a minha convicção de que estamos a entrar num ano de merda.

A Ética, irmã gémea da Estética, essa puta maluca, cada vez é mais ignorada por lhe serem reconhecidos cada vez menos atributos e menos atractivos de vária ordem. A degradação é gradual e em ritmo acelerado.

O mundo pula mas já não avança, como sugeria aquela canção melíflua intitulada "Pedra filosofal" (lembras-te?); agora, a cada pulo, o mundo enfia as patas fundo na lama, salpica o focinho com  pingos de diarreia mental e outras coisas fedorentas que vão atascando a nossa sociedade.

A cada dia que passa este mundo é, cada vez mais, um cagalhão que flutua no espaço.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Energias

Somos nós meras carroças transportando um cérebro que lamenta não ter pernas para se movimentar livremente pelo mundo? Que raio de coisa é o corpo? Tão frágil, tão frágil, o corpo é uma coisa tão frágil!

Será o cérebro mera fonte de alimento para alguma coisa que não se deixa entender que não se consegue abarcar, uma coisa inexplicável, cósmica, uma coisa divina? A nossa vida como fonte de energia para um ser (à falta de melhor designação) impossível de compreender, um ser eternamente ligado às nossas mentes por invisíveis sensores. Guloso, a crescer, a ficar mais forte a cada momento...

Criará cada criatura cósmica o seu próprio alimento? Seremos nós um docinho? Teremos um sabor de merda?

domingo, novembro 06, 2016

Monstro

Ser mau é o resultado de um amontoado de circunstâncias que se equilibram umas sobre as outras como aqueles chinezinhos incríveis que penso lembrar-me de ter visto um dia, num palco qualquer, algures no mundo. As coisas todas, umas em cima das outras, aquele momento inacreditável, tudo assim, como se pode imaginar: e a maldade irrompe, inundando o momento que vivemos!

O Ser mau é um veículo inesperado de um conjunto de forças cósmicas maiores do que a sua capacidade de entendimento. O Ser mau assume a sua inevitável condição de fantoche dos deuses e ali está, disponível para horrorizar os outros, os comuns mortais, incapazes de entenderem que raio de força é aquela que faz de uma pessoa normal a monstruosidade abjecta que ali se ergue, sentada no sofá, encostada à ombreira da porta da cozinha, com o dedo a premir a ponta do nariz e os lábios rasgados num sorriso assustador? As interrogações tropeçam nas certezas; que monstro é aquele dentro de nossa casa, dentro do nosso peito, dentro da nossa cabeça!?

Aquele monstro sou eu, és tu, o inferno somos nós.

segunda-feira, outubro 24, 2016

Bestial

É com indisfarçável incómodo que vejo a Besta crescer à luz do dia. É um bicho imundo, feio, malcheiroso, que consegue iludir-nos ao ponto de lhe irmos dar de comer à boca. Sem nojo, sem receio. A Besta é hipnótica.

Imagens da Besta são sempre coisas complexas, nem todos (seremos poucos?) conseguem compreender a essência da coisa, a estrutura que sustenta o animal. Vemos algo que lá não está mas, para percebermos o logro, precisamos de uns óculos especiais que se colocam no quiasma óptico e são feitos de coisas impalpáveis: ideais, sonhos, conceitos... a Besta é metamórfica.

A Besta pode disfarçar-se de gatinho, de coelhinho, de velhinho, de menina ou menino, pode assumir a forma de uma coisinha fôfa para melhor nos atrair e depois nos devorar. A verdade é que muitos de nós nem se apercebem que estão a ser mastigados quando a Besta se prepara para os engolir e transformar em merda. A Besta tem um aspecto inofensivo.

segunda-feira, outubro 17, 2016

E no entanto...

Não sei quantas vezes já escrevi sobre o que vou escrever, decerto não será a primeira vez nem, seguramente, será a última. Ou estarei confuso?

Sinto-me cansado. É verdade que esta noite dormi poucas horas, poderá esse facto contribuir para esta sensação de embrutecimento que me vai inundando o cérebro. É uma inundação lenta, mais como um charco de águas fedorentas que sobe de nível porque alguém lhe vai mijando dentro do que como um tsunami provocado pelo batimento inexorável de duas placas tectónicas.

Os dias passam mas parecem lentos. O mundo vai-se esboroando como um castelo de areia que seca com o passar dos dias, longe da rebentação das ondas, um castelo que é derrotado pelo calor e pela gravidade implacável e vai caindo, aos poucos, para dentro de si próprio.

O mais estranho é que eu penso que vivemos no melhor dos mundos que até hoje este planeta selvagem conheceu. Estou convicto de que, ao longo da História, nunca a riqueza foi tão bem distribuída nem a miséria tão eficazmente combatida pela nossa lamentável espécie. E, no entanto...

segunda-feira, outubro 03, 2016

Mundo de merda

Dizem por aí que este mundo é uma merda. Não sei o que pensar ao certo. Tem dias...

Qual seria o qualificativo a aplicar a um mundo que não fosse uma merda? O que diria? Que este mundo é um doce? Um mundo em que todos fôssemos obesos e com a dentição arruinada por excesso de açúcar seria melhor que um mundo que é uma merda, onde as coisas cheiram mal e estão sujas, mesmo quando são brilhantes e apetecíveis?

Qual é o antónimo de merda? Temo que a resposta seja muito complicada. Tão complicada que o mais certo é nem sequer existir. Antónimo de merda? Será mijo? Não, não me parece. Este mundo é um mijo! Não soa grande coisa.

Talvez por isso este mundo prossiga tal como vem sendo: uma merda. Talvez este mundo não tenha grande alternativa ou, então, teremos de inventar o contrário de merda e aplicá-lo ao nosso quotidiano na esperança de amanhã encontrarmos um lugar mais limpo. Ao menos isso.

quarta-feira, setembro 28, 2016

Nuvens

Nem a Utopia é o Paraíso nem o Paraíso é uma Utopia.

Ambos fazem parte do imaginário colectivo, caricaturas da ambição humana. Mas não será pelos seus traços exagerados e deformantes que iremos deixar de sonhar com uma e outra coisa, da mesma forma que sonhamos cada dia que vivemos.

Ainda ontem vivi horas inexplicavelmente felizes. Nunca me farto de viver horas assim.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Dúvida existencial

Há dias em que me sinto sozinho. Sozinhinho, como dizia quando era criança e queria expressar aquela angústia que nos provoca a sensação de abandono e que, por sermos crianças, não dói tanto quanto virá a doer mais tarde mas já incomoda pra caralho. Um gajo é puto mas compreende mais ou menos.

Esta solidão é abstracta. Estou acompanhado, há muita gente, gente por todo o lado, mas a sensação de estar só mordisca-me o coração. É como se fosse adolescente outra vez ou nunca tivesse deixado de o ser realmente. Sinto que não tenho ninguém a quem possa explicar, com um mínimo de exactidão, as angústias que me trespassam a alma e que, caso tente fazê-lo, vou soar pedante e presunçoso.

Poderei alguma vez sentir-me um adulto completo? Em boa verdade: o que é isso?


quarta-feira, julho 06, 2016

Pronto

Por vezes sinto vontade de ser uma outra coisa, não me sinto grande pessoa, talvez gostasse de me transformar num objecto. Uma escova de dentes. Um pneu de bicicleta. Um gancho de cabelo.

A dificuldade está na escolha.

Não, outro animal não é desejo que me seduza. Para ser animal estou bem assim, bicho homem.

Gosto de comer. Gosto de beber. Gosto de fumar.

Outro bicho fosse eu, dificilmente fumaria!

Por vezes sinto vontade de me transformar noutra pessoa, sonho com uma vida após esta que vou vivendo. Uma vida que fosse um prolongamento, que me permitisse aproveitar o que tenho aprendido para construir outra personagem, viver uma outra narrativa.

Por vezes escrevo só por escrever. Uma frase leva a outra, uma ideia transforma-se em imagem que gera um jogo de palavras que termina num ponto final.

E pronto.