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domingo, julho 04, 2010

Pobrezas

"Bateu no fundo?" cartoon de Luís Afonso


Anda tudo afogueado com os anunciados cortes no orçamento de estado destinado ao investimento na cultura. São os artistas quem mais esperneia e com toda a razão, diga-se de passagem.

Há por aí muita gente que acha que as produções culturais não merecem apoios governamentais numa sociedade sujeita às leis do mercado que se baseiam na oferta e na procura. Muitos pensam que se um determinado produto cultural tem qualidade vende-se, garantindo dessa forma a subsistência dos produtores. Seria lindo que assim fosse mas a realidade não permite sonhos tão bonitos.

Há um factor que me parece não ser devidamente quantificado nesta situação. Falo do factor pobreza. Nos últimos tempos temos percebido que são cada vez mais os portugueses que têm extrema dificuldade me garantir os meios básicos de subsistência. Se os cidadãos têm dificuldade em arranjar dinheiro para comer ou pagar a renda de casa como podem investir o que quer que seja em produtos culturais? Ai, ai, a coisa é complicada.

Se os cidadãos não conseguem dinheiro extra para ao teatro como podem os teatros funcionar? Segundo as leis do mercado se não há procura a oferta está condenada.

Ui, vamos deixar de ter teatro em Portugal? E cinema? E dança? E orquestras? A coisa está mesmo complicada. Haverá solução para tão triste perspectiva? Pessoalmente não sei como se poderá descalçar esta bota. Os artistas procuram o apoio do estado mas, nos tempos que correm, é como um mendigo ir pedir esmola para a porta da sopa dos pobres.

terça-feira, junho 29, 2010

Aprender a gatinhar


Parece ser definitivo. A curva no gráfico da evolução das condições de vida para a maioria da população neste recanto da Velha Europa entrou em queda, vertigem de montanha russa.

Ainda ontem lia uma pequena notícia no jornal em que um empresário tuga, do sector têxtil, se mostrava esperançado por haver movimentações reinvindicativas na China, onde os operários fabris ganham, em média, 30 Euros por mês. Alvitrava esse empresário que, ganhando mais, os operários lá dos pequins e dos xangais do Oriente remoto, teriam outro poder de compra e, então, absorveriam parte significativa da sua própria produção que, nos dias que correm, inunda os mercados ocidentais como tsunamis, não deixando hipótese de concorrência.

30 Euros por mês? Ainda por cima, não havendo Natal, não há subsídio, nem acredito que o ano tenha mais meses de ordenado que os devidos ao calendário.

A China é a China e, num mundo tão desiquilibrado como o nosso, o prato chinês na balança das forças internacionais pesa mais sozinho que os outros todos juntos, fazendo com que a tendência das condições de vida por todo o planeta seja inclinada na sua direcção. Estamos ajoelhados e de cabeça baixa perante a força incontrolável da Economia, desumana e bestial.

Portugal é quase um acidente no panorama económico internacional, uma ruga no lençol da perfeição orçamental, uma insignificância a escorregar em direcção ao mar e a caír em África, não tarda. Imaginemos a coisa de outro modo, façamos uma revisão profunda dos nossos anseios e do nosso modo de vida. O futuro é risonho, há quem diga, mas é um sorriso desdentado esse que tem para nos oferecer, pois quando chegar decerto será um futuro velho.

Observemos bem os moçambicanos, os macaenses, os timorenses e outros povos próximos de nós, temos muito a aprender com eles. Temos de reaprender a viver... reaprender a sermos humanos.

sexta-feira, maio 14, 2010

O balão inchado


A crise económica veio para ficar. O primeiro país a tomar medidas para atenuar a queda das contas do estado foi a Irlanda. Depois chegou o susto total com a Grécia, como um daqueles zombies que nos caem à frente dos olhos no Comboio Fantasma sem sabermos de onde vêm. Agora Portugal tenta disfarçar os remendos no casaco. Tal como a Espanha. Até os novos governantes britânicos anunciam por longe que irão, tal como os países atrás citados, desinvestir nas obras públicas, reduzir salários, aumentar impostos e o diabo a quatro.

Já há alguns anos que vinha colocando a questão (haverá de estar algures para aí nos arquivos do 100 Cabeças um ou outro post sobre o assunto): até onde pode crescer a economia? Sim, porque todos os anos se fazem contas e se a economia não cresce um bocadinho que seja entra tudo em paranóia. É como nas empresas. Se os lucros caem há que sacrificar os trabalhadores, em último caso despede-se uma mão-cheia deles.

Aquela questão parecia não ter resposta. As pessoas esforçavam-se por acreditar que o crescimento económico era da mesma natureza que o do próprio Universo que, a fazer fé nas doutrinas científicas, dizem estar em permanente expansão num espaço já de si infinito.

Mas parece que a coisa, afinal tem limites. Teremos atingido a fronteira final da expansão económica? Durante quanto tempo poderemos continuar a viver com os actuais níveis de consumo?

A gente sabe, pelo menos desde Proudhon, que "toda a propriedade é um roubo". Ou seja, para nós vivermos na abundância do mundo global e tecnológico, alguém tem de estar a pagar a factura vivendo na miséria. Este nosso modo de vida poderá alguma vez alastrar a todo o planeta? Há alguém são dos miolos que acredite em tal coisa? No dia em que toda a Humanidade consumir energia e outro tipo de bens aos níveis médios do consumo na Europa o planeta dá um estoiro que até Deus vai acordar finalmente!

Resumindo e concluindo: acredito que a economia é como um balão e tem o seu limite. Acredito que atingimos o ponto em que não dá mais, não estica mais, não pode continuar a soprar-se para dentro do sistema económico sem corrermos o risco de que, na próxima sopradela, ele nos rebente nas beiças. O sitema económico começou a esvaziar e terá de encontrar um novo patamar de estabilidade. Resta saber que patamar será esse e a que níveis de consumo teremos de regredir para evitar que esta merda vá toda pelos ares.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Arte é dinheiro?


As notícias são esclarecedoras: 2006 foi um ano dourado (e de que maneira) para o mercado da arte. Grandes nomes da arte do século passado tiveram obras em leilão que atingiram preços estonteantes. O Top-5 do comércio de pintura teve 2 quadros de Klimt, um de Picasso, outro de Willem de Kooning tendo cabido a Pollock o número 1 com o seu Number 5 (na imagem) pintado em 1948, vendido por 106,6 milhões de euros a um mexicano cheio de guito.

O que leva a pintura a atingir preços tão elevados continua a ser um pequeno mistério. Ao que parece é o desejo de ostentação que estará por detrás de muitas destas aquisições. Tal como passear um Ferrari pelas ruas da cidade ou convidar os amigos para um chá no salão do palácio, ter um Pollock pendurado na parede faz as delícias de qualquer ricaço com queda para o espectáculo.

O valor da obra de arte continua a merecer rios de tinta gastos na tentativa de encontrar razões que justifiquem tão descabelado investimento. A arte não parece ter nenhum valor próprio. O seu valor será fruto da conjugação de diferentes factores mais ou menos objectivos, circunstancial, portanto.

No passado, os poderosos investiam somas consideráveis no financiamento de grandes obras que serviam de veículo à sua posição e poder para espantar os seus pares e a populaça. Reis, papas, comerciantes e outros indivíduos capazes de concentrar riquezas imensas, encontravam no objecto de arte o espelho perfeito da sua suposta grandeza.

Longe da sua magia original, a arte contemporânea não se explica facilmente. Aparentemente a obra de arte perdeu em objectivo concreto aquilo que foi ganhando em hermetismo. Os pintores das cavernas não estavam, decerto, a decorar as paredes quando realizavam as suas espectaculares e inultrapassáveis representações de manadas de animais. Os escultores românicos, mais do que decorarem as catedrais, criavam narrativas dos textos bíblicos em pedra para espanto e temor de uma população crédula e estupidificada perante a grandeza dos mistérios da existência humana.

Ao longo de milhares e milhares de anos, aquilo a que hoje chamamos arte estabeleceu o contacto entre a nossa dimensão e os mundos mágicos onde habitam os deuses e as coisas antes de terem um nome que nos permita conhecê-las. As obras de arte eram portas à espera de serem abertas, possibilidades de viagens entre este mundo e os outros.

Na nossa sociedade, consumista e desapaixonada das coisas que estão para lá do visível, a arte ganha uma função que é estranha à sua vocação original transformando-se em algo para olhar e admirar. Simplesmente. 106,6 milhões de euros são muitos euros e qualquer obra de arte que tenha tal carta de apresentação será sempre considerada uma obra-prima!

Perante o nº 5 de Pollock poucos sentirão a paixão do pintor pela pintura, a pureza da coisa-em-si. Pelo contrário. Mas muitos compreenderão facilmente que se houve alguém capaz de pagar por "aquilo" 106,6 milhões de euros, então "aquilo" tem um valor do caraças. Nos dias que correm arte é dinheiro e dinheiro é arte. Muito sinceramente não vejo Mal nenhum nisso, mas também não vejo Bem.