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terça-feira, julho 19, 2016

Suores frios

Criar imagens é uma actividade fantástica.

A colagem em Adobe Phtoshop gerou o desenho a tinta da China. Fiz a colagem aqui há uns anos e dei-lhe o título de Night Rider, uma brincadeirazita com a designação de uma célebre série de televisão.

Ontem, dia 18 de Julho de 2016, realizei a versão desenhada. Enquanto ia desenhando o sentido da imagem foi-se alterando. Vieram-me à memória uns quantos atentados terroristas, centenas de pessoas desfeitas em bocadinhos, o medo a ganhar forma física. Desespero e violência.

Então, o título do desenho terá de ser outro.

Por agora o título é "Suores Frios" mas penso que venha ser ainda outro.


segunda-feira, março 21, 2016

Dada-Punk-Romântico

Valha-nos Nossa Senhora! (Março de 2016)

Por vezes gosto de imaginar que, pelo menos dentro da minha cabeça, existe qualquer coisa que resulta do cruzamento do imaginário Punk Rock com a criatividade desvairada do movimento Dadaísta, tudo humedecido por uma singela chuva com gosto Romântico. Esta coisa a tomar forma nas folhas que cubro com papel colado com tintas por cima.

Na minha cabeça estas épocas e estes movimentos artísticos alinham-se de forma mais ou menos recta, mais ou menos sinuosa (na minha cabeça o Tempo não existe do mesmo modo que existe fora dela), o passado e o presente transmutam-se no futuro da imagem que vai surgindo e que, a cada micro-segundo, já é presente e já é passado na imagem que permanece.

A minha existência ganha sentido nestes objectos que vou criando.

terça-feira, janeiro 05, 2016

Autoria

Vai por aí uma certa polémica relacionada com a suspeita de que algumas obras atribuídas a Hyeronimus Bosch não serão da sua autoria. É uma questão complicada que merece, pelo menos, um sorriso.

Os argumentos apresentados por quem rebate a mão do mestre nas ditas obras baseiam-se, tanto quanto pude compreender, na observação do estilo do desenho ou na técnica da pincelada. Que são diferentes nestas obras quando comparadas com outras, assinadas. Acredito piamente.

A minha dúvida (e o meu sorriso) desprende-se da constatação de que um artista muda e evolui. Ninguém é constante ao longo do trabalho de uma vida. Outro ponto interessante é que o material acaba e, por vezes, experimenta-se outro. Ainda para mais, na época em que Bosch trabalhou, era nos ateliers que os artistas produziam os materiais com que trabalhavam, não existiam marcas de produtos artísticos à venda em grandes superfícies comerciais.

Enfim, esta treta toda para reflectir um pouco sobre a importância da autoria numa sociedade de consumo descontrolado, como é a nossa.

As obras referidas (3 que estão no Museu do Prado, em Madrid) foram, até hoje, admiradas como fazendo parte do legado extraordinário que Bosch deixou à Humanidade. Além dessa qualidade, por serem atribuídas ao Mestre, valiam milhões, o seu preço era incalculável. Convenhamos que, nos dias que correm, este é um factor determinante para a qualidade do que quer que seja. Se não é de Bosch, o valor em euros cai a pique, logo a qualidade da coisa cai ao lado.

Assim sendo, a partir do momento em que perderem o nome de Bosch, estas obras passam a ser uma merda? Estou-me bem a lixar se o trabalho é deste ou daquele. A qualidade está lá, na superfície pintada, na energia que emana da pintura, na magia do objecto. O nome, a assinatura, não passam de pormenores.

domingo, setembro 06, 2015

Peito feito

É na próxima 6ª feira, 11 de Setembro, data de má memória para este mundo que tento meter dentro das coisas que faço. É na próxima 6ª feira que tenho marcada a inauguração de uma exposição com trabalhos da minha autoria. Pinturas, fotomontagens em photoshop, desenhos, colagens, objectos que criei ao longo de anos. As datas não interessam para nada.

O local é o foyer do Teatro Estúdio António Assunção, em Almada. Não é um espaço particularmente nobre. Mas eu também não sou nenhum princípe das artes. Quero que se foda. Só quero apresentar algo que seja digno de ser apresentado, que me faça justiça, que mostre como sou um gajo empenhado nesta merda.

Mas porquê? Porque faço a exposição? Porque sou um gajo empenhado nesta merda? As perguntas são fáceis, as respostas nem por isso. Será tudo isto fruto de uma mera e intensa vaidade?  Se me ponho a matutar demasiado nestas questões traiçoeiras acabo agarrado à cabeça, cotovelos apoiados na mesa e olhos fechados para não ver nada que esteja fora da minha cabeça.  O equivalente ao mito da avestruz com a cabeça enterrada na areia.

Vou espalhando objectos pelo atelier. Ora sinto uma forte convicção, ora sou amolecido por uma sensação merdosa de que tudo isto não serve para nada. Mas as coisas são o que são e os compromissos, para mim, são tudo. Comprometi-me a montar esta exposição. Portanto está tudo dito.

Não há tempo para dúvidas nem para questões retóricas nem para filosofias covardes. Agora trata-se de seleccionar e montar os objectos. É isto que eu vou fazer. O resto... o resto logo se vê.

domingo, julho 19, 2015

Arte sem artistas

A sequência de acontecimentos rocambolescos desencadeada pela inauguração das novas instalações no Museu do Chiado dá que pensar. Fica a sensação de que falta bom senso e sobra rigidez de espírito. Tantos doutores, curadores, suas excelências, pessoas tão cultas, tão informadas, a fina flor dos que pensam e organizam o pensamento alheio nos assuntos das artes plásticas, ofereceram, a quem lhes quis prestar atenção, um espectáculo de ópera bufa com argumento muito pobrezinho.

Parece impossível que gente tão embrenhada no trabalho, conhecedora dos mecanismos mais complexos em termos de museologia e exposição de beleza, seja incapaz de encontrar o ponto de equilíbrio necessário à ultrapassagem de conflitos que, assim à primeira vista, parecem ser fruto de coisitas menores, mesquinhas sementes de conflito. Encabeçados por um secretário de estado aparentemente despojado de poder de decisão, hesitante e subserviente, personagem menor num elenco executivo de baixa qualidade, os senhores das artes portuguesas andaram à cotovelada e à canelada à vista de toda a gente.

Da mesma forma que passámos de uma sociedade rural, com 30% de analfabetos em 1970, para uma sociedade ao estilo europeu, com os actuais 5% de analfabetos, saltando da miséria total para um consumismo acéfalo, deslocando os basbaques dos bancos das igrejas para os corredores dos centros comerciais, também no nosso pequeno universo artístico saltámos de um estado de indigência fascistóide para um admirável mundo de novos intelectuais que aprenderam tudo sobre arte mas parecem não saber nada sobre relações humanas ou interesse público. Terão faltado à aula onde foi explicada a relação entre Ética e Estética?

Presidentes disto, directores daquilo, extensas filas de variados doutores, agarrados ao croquete e ao copinho de vinho doce, olham a populaça lá do alto das janelas do palácio onde a beleza é encerrada e curtem a glamourosa vernissage. Muita finesse, muita beautiful people que, no fim do dia, olhou as obras expostas com a mesma elegância com que o boi olha o palácio enquanto rumina a erva do almoço. Muita arte sem artistas.


sexta-feira, abril 17, 2015

Hélder e Helder

Quem não cria arte facilmente mete o pezinho na poça manhosa do mito romântico do artista. O ser arrebatado, vestido de negro, vivendo no alto de uma torre de marfim rodeada por um fosso repleto de crocodilos metafísicos; um ser soturno, constantemente atormentado por grandiosas visões nas quais o mundo lhe é revelado tal qual ele é (insuportável visão para o mortal comum que o génio se vê obrigado a carregar qual besta albardada calcorreando os caminhos da eternidade); artista tristonho, cara fechada, cara pálida, lilases e brilhantes olheiras, a carne prestes a ser rasgada por ossos pontiagudos: assim é um artista que merece ser admirado! 

É este ser misterioso e pouco dado ao calor do contacto humano, este ser habitante das longas sombras que a solidão projecta sobre a aridez do mundo, este ser de nevoeiro feito, este monstro da sensibilidade inteligente, este génio inalcançável, que olhamos com uma expressão de contido espanto, é uma coisa mais ou menos com esta forma de assim que nos habituamos a imaginar ser “o” artista.

Um artista será tudo e isso e, precisamente, o oposto absoluto ou, mais concretamente, uma incerta mistura de ambos e mais um ou outro que não consigo agora imaginar como seja. Resumindo: um artista é uma pessoa tão vulgar como as outras e tão invulgar como as demais. É abusivo pretender que o artista se confunda com a sua obra e vice-versa. Pode acontecer mas não é uma constante obrigatória. Já os conheci chatos como o caraças com obras espantosas e excitantes; extremamente interessantes, de verbo fácil e conhecimento vasto com obras mais enfadonhas que a biqueira de um sapato; convencidos, arrebatados, modestos, altos, baixos, magros, de todos os sexos, alguns nem uma coisa nem outra, nem um pouco mais ou menos. As suas obras, por vezes a carinha chapada do autor, outras vezes surpresas absolutas (Nunca imaginaria que eras capaz de fazer uma cena como essa!).


Tal e qual os meus amigos que trabalham nas mais variadas profissões, que vivem as mais diferentes vidas. Uns sofrem, outros são felizes e estas condições são flutuantes. Nem todas as pessoas extraordinárias são artistas, nem todos os artistas são pessoas extraordinárias. Lá no fundo todos somos pessoas. É só isso. 

domingo, março 29, 2015

Je suis Frankenstein

Não sei me comovem os esforços (tantas vezes patéticos) daqueles que pretendem desvendar grandiosas intenções pré-determinadas quando olham, observam e veneram a obra de algum artista, objecto da sua devoção.

Quem se dedica ao acto criativo sabe bem que a sua criatura é algo independente. Somos todos Frankenstein, o criador alucinado, o visionário deslumbrado que gerou um monstro; magnífica metáfora do mais negro e belo Romantismo!

Quem cria sabe bem que a criatura deseja sempre a liberdade (pelo menos até ser capaz de compreender o que significa Liberdade).

Quem cria deve ter grandeza de espírito suficiente para se aguentar à bronca com as consequências da sua criação.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Do Amor

Foi no Dia dos Namorados. Na peixaria encontrei o coração que a imagem acima ilustra. Uma representação de um coração ou, talvez seja mais exacto, uma representação do Amor.

Quem idealizou aquela pequena instalação artística? Não faço ideia. Talvez uma peixeira, não sei. Quando os meus olhos embateram na coisa fiquei meio hipnotizado.

Grotesco.

Aterrador ou enternecedor? O meu coração balançou perigosamente à beira de um abismo estético.

Discretamente fotografei a coisa com o meu telemóvel. Enquanto esperava a minha vez para ser atendido (Um polvo, se faz favor.) reflecti sobre o impulso de quem concebeu aquele pequeno mas fascinante horror.

As pescadas formando um coração, o pormenor colorido dos morangos, como dois coraçõezinhos mais pequenos (ou dois pingos de sangue?). Decerto aquela imagem fora concebida e construída sob o signo da Beleza. Quem fez aquilo, decerto considerou o conjunto como uma expressão de Beleza. Disso não restarão grandes dúvidas.

Esta manifestação de sensibilidade artística merecia lugar em qualquer galeria de arte contemporânea.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Homenagem





A arte contemporânea não se cansa de tentar morder a própria cauda, reflectindo sobre si própria num jogo de espelhos infinito e tantas vezes monótono. Deslumbram-se alguns com a sua capacidade de síntese, outros com a complexidade intelectual do artista. 

Com frequência somos conduzidos para espaços imensos, sem referência espacial perceptível nem narrativa que nos permita fingir que olhar para aquilo faz algum sentido. É a velha (e estafada) história do boi e do palácio tantas vezes já contada e utilizada neste blogue.


Vem esta revisitação a propósito da genialidade revelada pela criação de algumas obras de arte de rua, . A síntese sugestiva de muitas delas é absolutamente extraordinária. A forma directa e eloquente como atingem os seus propósitos comunicacionais colocam estes objectos ao nível das maiores criações do génio humano.


Muitas considerações poderia aqui explanar (talvez em próximos posts) mas não pretendo alongar-me. Quero apenas prestar homenagem a tantos artistas geniais, muitos dos quais nem o nome conheço, que muito admiro e muito me fazem pensar.






quinta-feira, fevereiro 12, 2015

É a realidade autêntica?

Aqui há dias tinha lido a notícia sobre a descoberta de duas esculturas em bronze atribuídas a Miguel Ângelo Buonarroti, o celebérrimo escultor renascentista que foi imortalizado por ter pintado o tecto da Capela Sistina, em Roma.

Apesar dos indícios que apontam Miguel Ângelo como mentor da criação das referidas esculturas, a dúvida mantém-se.

Agora surge nova notícia, desta vez sobre a recuperação de uma pintura atribuída a Leonardo Da Vinci. Em ambos os casos o que me rói a curiosidade é imaginar o que rola dentro da cabeça dos sábios historiadores de arte que têm o poder de declarar, ou não, a autenticidade das peças.

Basta uma palavra destes senhores (ou senhoras) para que aquele pedaço de tela (ou de bronze) passe a valer uma fortuna incalculável. Que tipo de sensações andarão aos saltos no coração e dentro da cabeças destes homens (ou mulheres)?

Quantas obras se perderam (e continuam a perder), quantos artistas geniais foram (e são) ignorados? Quem escreve a História constrói a realidade.

A questão final: até que ponto é a realidade autêntica?

sexta-feira, setembro 05, 2014

100 cabeças num outro lugar

No último mês dediquei grande parte do meu tempo à execução de 5 pinturas em superficíes quadrangulares de 1 metro de lado. Se tudo correr conforme o previsto irei expor estes trabalhos num bar/oficina de bicicletas que fica em Cacilhas, o Mundofixie. O título da coisa será 5m2; óbvio. A organização do evento tem o selo do Cidadão Exemplar.
Aqui ficam imagens dos trabalhos a apresentar nessa exposição que ainda não tem data marcada.




De cima para baixo: "Escravos do Dever"; "Marilyn"; "Nightmare in Escola Primária Street"; "O Mundo Morreu na Guerra" e "Canção de Embalar".

sexta-feira, julho 18, 2014

Ser ou não ser (arte)


Avaliar é tarefa complexa. Pretender classificar com um valor numérico o objecto da nossa avaliação é praticamente magia.

Analisamos um texto, forma e conteúdo, comparamos o que vamos compreendendo com uma tabela onde estão definidos os critérios segundo os quais devemos orientar a nossa leitura... ou então observamos atentamente um desenho e aplicamos à nossa alma esse tratamento que consiste em acreditar que podemos seriar de forma justa e sistemática uma quantidade maior ou menor de objectos, artísticos, nos casos acima referidos. Escrita e desenho, artes.

Se olharmos bem para os desenhos na parede e depois para a pauta onde se alinham os valores que lhes atribuímos estamos a ver coisas muito diferentes que se referem ao mesmo objecto. Temos o desenho e uma sua representação abstracta, a nota atribuída. Temos na parede uma natureza-morta (um faisão e duas esferográficas) e na pauta temos 16 (dezasseis). Isto é alquimia!

Poderemos substituir a exposição de vinte desenhos por uma simples pauta afixada na parede? Vinte desenhos com características específicas, muito diferentes uns dos outros, resumidos e retratados assim, de forma sintética, por uma coluna de números e algarismos.

Ou, no lugar de um caderno de contos, uma pauta colada à parede, a prosa e a poesia reduzidas à condição de uns e dois e três e por aí adiante, sem nunca atingir, sequer, o infinito.

Se uma pauta afixada na parede não é arte conceptual então não sei o que possa ser arte conceptual.

quarta-feira, junho 25, 2014

Manifesto escondido?

O caso tem todos os contornos de uma coisa infinitamente estúpida. Quem terá decidido que a obra "Portugal Enforcado", um trabalho escolar da autoria de um tal Élsio Menau, era merecedora de censura por parte do estado? Fazendo uma pesquisa breve na Net compreendemos tratar-se de um trabalho inofensivo e pueril.

O que me surpreende mais até é a nota de 18 valores com que o objecto acabou por ser avaliado. Eu sei que nessa avaliação está também considerada a dimensão conceptual da proposta plástica mas, tendo em conta a redundância da coisa, é precisamente por isso que me parece uma avaliação exagerada. Decerto os avaliadores estão lixados com a forma como o governo tem apertado o nó na garganta de cada um de nós, aqui representados por uma bandeira de algum modo colocada numa forca.

Decerto que não foi a discordância com a nota atribuída que levou um cidadão deste país a acusar de desrespeito ao símbolo nacional o "Portugal Enforcado" e, por arrasto, o seu autor. A motivação pidesca e rasteira de tal denúncia diz tudo o que haja a dizer sobre o seu autor.

Há, no entanto, uma possibilidade que ainda não foi considerada: e se o denunciante for um artista plástico (assumido ou que ainda não tenha compreendido a sua vocação artística) e a denúncia for a sua obra? E se este caricato caso de justiça não for mais do que um manifesto artístico escondido que reflecte sobre a vacuidade da justiça em Portugal? Se o artista pretender insinuar que os tribunais são uma das traves que sustentam a forca em que Portugal vai dependurado?

A Arte Conceptual leva-nos para territórios verdadeiramente selvagens.

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Ai, Miró!


Há 40 anos era muito pior. Há 40 anos uma percentagem assustadora dos nossos não sabia ler nem escrever embora fosse capaz de fazer contas. Uns contavam pelos dedos outros faziam contas de cabeça. 

Há 40 anos poucos (mas mesmo muito poucos) dos nossos sabiam quem era Miró que ainda por aí andava a fazer coisas daquelas. Há 40 anos o nosso Secretário de Estado da Cultura actual já sabia ler e, decerto, já saberia escrever.

Muitos de nós passavam uma fome de cão e tinham de se meter no comboio para “as franças” de garrafão em punho e chouriço no bolso. 

Há 40 anos éramos um povo de pobres labregos, um país sem estradas nem comércio e, apesar de termos já muitos ladrões de fato e gravata, estávamos longe de atingir os níveis de corrupção de que hoje nos orgulhamos nas reuniões da Internacional Capitalista. 

Há 40 anos Portugal era a preto e branco, hoje já vai havendo uns arco-íris a espreitar detrás da porta do armário. Há 40 anos éramos governados por um bando de velhacos hoje… bom, hoje somos governados por um grupo de senhoras e senhores que me abstenho de classificar.

Há 40 anos foi-nos permitido sonhar que a Educação haveria de pôr muita coisa no lugar que nos parecia devido mas não fomos capazes de imaginar que, 40 anos e 26 ministros mais tarde, a Educação haveria de ser considerada novamente um empecilho.

Hoje, como há 40 anos, poucos dos nossos (mas ainda assim muitos mais do que há 40 anos) têm consciência de quem foi Miró e o que fez enquanto por aí andou. Hoje o Secretário de Estado sabe ler, escrever e assinar despachos (deve ser lixado representar a Cultura num governo como este!). 

O pessoal já emigra de avião, com uma revista científica debaixo do braço. Hoje temos muitas autoestradas e o Presidente da República, embora pouco mais faça que descerrar placas comemorativas, é eleito, efectivamente, por nós. Continuamos a ter muitos tubarões aldrabões mas isso é fado de um país que vive junto ao mar. 

Miró faz-me pensar no resto, no que era realmente importante e ficou por cumprir. As 85 telas do mestre apenas servem para mostrar quão surreal é o mundo em vivemos. O “caso” Miró lembra a quem pode a urgência de uma verdadeira revolução, uma revolução Dadaísta, que faça dos urinóis deste mundo peças de arte nas quais possamos mijar à vontade, aliviando a bexiga à boleia do alívio da alma. 

A sensação com que fico é que, 40 anos depois de termos imaginado um país decente e de alguns de nós, que ainda por aí andam, terem sonhado com isso, falhámos completamente o nosso objectivo. 

Somos um povo que habita um país falhado. Precisamos de recomeçar tudo de novo mas agora os meninos maus ficam de castigo e os mais estúpidos não podem ser chefes de nada.

sábado, janeiro 11, 2014

A moldura

Nunca fui grande admirador da pintura de Renoir. Nem quando a conhecia apenas através de fotografias, bastante menos, ainda, depois de ter visto ao vivo umas quantas obras do grande mestre francês. Parece-me uma coisa pesada, sofrida, um tanto forçada. Mas é a minha opinião pessoal que vale o que vale.

Serve este introito para chamar a atenção do delicado leitor para o episódio rocambolesco do "pequeno" Renoir desaparecido que foi comprado por uma senhora americana numa feira da ladra por 7 dólares entre outros objectos (ler aqui a interessante notícia com links para outras narrativas relacionadas com o episódio).

Não pretendo reflectir sobre a questão legal que se desencadeou quando a senhora tentou vender a obra em leilão e o Museu de Arte de Baltimore veio reclamar a posse legal da pinturinha que havia sido roubada em 1951. O Museu acabou por reaver a coisa. O que me chamou a atenção nesta historieta foi a razão que levou a tal senhora a adquirir a obra.

A senhora comprou a pintura porque gostou da moldura. O facto de ter uma plaquinha com o nome de Renoir não lhe disse nada pois não fazia ideia de quem fosse o artista. Foi a moldura que a fascinou o suficiente para desembolsar os tais 7 dólares. Isto deixa-me a pensar sobre as razões que podem levar-nos a amar um objecto.

A velha questão da forma e do conteúdo que, no caso de Renoir e outros artistas seus contemporâneos (ah, os Impressionistas...), é muito mais forma que conteúdo. É de tal modo forma que a moldura se pode tornar mais chamativa que as pinceladas do mestre.

Mas é, convenhamos, uma belíssima moldura!

domingo, dezembro 29, 2013

Ver



Três magníficas obras em Veneza

Ontem vi pinturas de Tintoretto na Galleria dell'academia em Veneza. Vi outras obras de grandes artistas mas foram as pinturas de Tintoretto que me preencheram. A pintura deste gajo parece mentira, parece milagre, parece extraterrestre. É deslumbrante.
Esta figura flutua, literalmente, sobre o altar da capela

Hoje estou em Roma e fui à capela Sistina. Se esquecer o facto de me ter sentido como sardinha em lata ou ovelha num rebanho pastoreado por gajos maus (no photo, no video, go the left e sei lá que mais) posso dizer que vi outro milagre.

Diz o ditado católico que "ver é pecar", é mas é o caraças! Ver é uma dádiva divina quando se vêem coisas como as que vi ontem e vi hoje. A viagem já valeu a pena, mas isso já eu suspeitava.

sexta-feira, novembro 01, 2013

Artista (mais ou menos) imortal

Terminou ontem a residência artística de Banksy nas ruas de Nova Iorque. Os trabalhos realizados foram sendo expostos aos olhos do resto do mundo neste site (clica aqui).

Banksy já se tornou o maior fenómeno da chamada street art e é conhecido um pouco por todo o lado onde houver meios de comunicação de massas que ultrapassem as notícias sobre a lingerie sexy de artistas pimba e os pensamentos profundos de dirigentes e jogadores de futebol. A cada dia que passa Banksy vai-se transformando numa autêntica lenda urbana.

O facto de manter uma identidade secreta faz dele uma espécie de super-herói de banda desenhada. Tal como o Batman ou o Homem-aranha, Banksy está a ser colocado num pedestal  na sala do museu da cultura Pop. Ele é um dos primeiros artistas a garantir que o seu nome fará parte da História da Arte do século XXI. Isto partindo do princípio que haverá alguém para virar a página do calendário para o século XXII.

Banksy já é um artista mais ou menos imortal (como todos os outros). O problema é que a imortalidade já não tem condições de garantir aos que dela gozam o triunfo definitivo sobre a morte. Só um bocadinho.

sexta-feira, setembro 06, 2013

Descrição

Ia à procura da ilustração de hoje de O Inimigo Público onde Obama está a cagar, na pose de O Pensador de Rodin. Obama de cócoras, calças em baixo, mão no queixo, pensativo, caga bombas que vão explodir lá em baixo, como se ele fosse um gigante (o gigante louco da guerra na pintura de Goya) ou um deus distante e aborrecido. Cagando.

Procurei no google em António Jorge Gonçalves, o autor do cartoon, e fui, mais uma vez dar à página online que tem o seu nome (clicar aí ao lado) que é uma página que, quanto a mim, merece um olhar demorado.

A ilustração referida não está lá (pelo menos ainda não está) mas há muito para ver. Já em 2009 tinha feito referência a AJG aqui, no 100 Cabeças (ver aqui) sugerindo a visita à sua obra gráfica. Agora insisto, não é demais.

À falta de imagem fica a minha descrição da ilustração de hoje (O Pensador, d'aprés Rodin). O leitor pode sempre imaginá-la.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Bizarria

Todos sabemos quem é Edward Snowden. Perseguido pelo longo (mas torto) braço da justiça norte-americana, Snowden acabou por encontrar na Rússia um buraquito onde se esconder, pelo menos, durante um ano (ver aqui, por exemplo).

Como na Rússia nada se faz sem o consentimento de Putin, fica a sensação de que o desfecho deste episódio resulta da sua vontade de irritar um pouco o amigo americano. Quem vir no gesto deste ditador democrático (eu sei que isto é uma contradição) a concretização de uma qualquer visão altruísta provocada pelo amor à liberdade de expressão só pode estar a precisar de uma operação aos olhos e à mioleira. Com urgência.

A notícia de que o pintor russo Konstantin Altunin fugiu da Rússia a sete pés após ter exposto uma obra em que Putin e o seu alter ego Medved surgem em lingerie (ver aqui em português), lança uma luz clara sobre o buraco onde se esconde Snowden.

Com Putin não se brinca. Só ele pode brincar, os outros, quando muito, têm apenas direito a sorrir sorrisos bem amarelos. A obra de Altunin pode ter desrespeitado várias leis russas que defendem a imagem dos governantes e reprimem a apologia da homossexualidade. Por via das dúvidas o pintor achou que o melhor era mesmo por-se ao fresco.

segunda-feira, junho 10, 2013

Suspensão

O tema já foi aqui várias vezes abordado. Não é nada de novo mas é algo que me (pre)ocupa a cabeça com uma frequência quase diária.

Trata-se da questão que sempre se coloca quando pretendo terminar um trabalho criativo. Seja qual for a técnica ou a natureza do objecto (seja escrito, pintado, desenhado, falado) como saber se está, de facto, terminado?

A verdade é que nunca nenhum objecto é definitivo. Nem a Mona Lisa, nem a catedral de Notre-Damme, nem Os Lusíadas ou outra coisa qualquer. Pretender que um objecto artístico tem uma forma perfeita é desconhecer a própria essência da Arte (ena, ena, escrevi arte com "A", isto é importante!).

Todo o objecto artístico resulta de uma suspensão (esta ideia já tem barbas brancas e faltam-lhe alguns dentes). O artista pára de trabalhar o objecto (suspende a acção), considerando-o apto a ser observado. Na verdade há sempre mais uma pincelada, uma vírgula que poderia mudar de lugar, uma esquina que poderia ser arredondada. Mas o artista precisa de parar, tem necessidade de suspender os gestos, abrandar a intensidade reflexiva, a cabeça já começa a fumegar...

Volto a esta questão porque hoje, ao pensar sobre isso pela enésima vez, senti um pequeno sobressalto: e se aquilo a que chamo "suspensão" não for mais do que mera desistência? Ai Jesus! Se for assim, então toda a obra de arte resulta da incapacidade do artista para ir mais longe na criação da sua obra. Toda a obra de Arte resulta de uma desistência do artista. Isto soa-me mal, parece-me coisa grave.

Ou talvez não. Talvez seja assim mesmo. Talvez toda a Arte (ou "arte" com "a") seja desistência, talvez seja o reconhecimento da grandeza do acto criativo. Talvez todo o artista seja apenas um ser humano perdido na infinitude das suas capacidades individuais. Ou talvez não... preferia que talvez não...