sábado, junho 16, 2018

Notas para uma reflexão


Os professores perderam autoridade na sala de aula e os encarregados de educação perderam-na na sala de jantar. Há um desprezo generalizado pela experiência de vida, cada vez mais substituída pelo Google, esse oráculo infalível capaz de todas as respostas em fracções de segundo. Os velhos são descartáveis, são chatos e não encontram um lugar confortável na hierarquia social do mundo contemporâneo.

Por outro lado, a voracidade consumista alcandorou os putos à categoria de consumidores. Desde que são capazes de influenciar os hábitos de consumo passaram a ser levados a sério. Na maior parte das situações passaram a ser levados demasiado a sério. As sociedades actuais tendem a valorizar os designados direitos do consumidor em detrimento dos direitos de cidadania. São coisas diferentes e nem sempre compatíveis. Não é nada extraordinário ver putos a berrar porque sim, a falarem por cima dos pais, a reclamarem tudo e nada só porque lhes apetece. E porque podem. Educamos as criancinhas num vazio de valores que tudo relativiza. E os encarregados de educação, muitas vezes porque perderam o pé, encontram nos professores os bodes expiatórios perfeitos para diluírem as suas próprias insuficiências.

Vivemos na sociedade da casa dos segredos e dos brunos de carvalho; uma sociedade boçal, carente de valores que possam irmanar-nos. Perdemos a religião enquanto factor unificador e não fomos capazes de a substituir por nada. A Ética não faz sentido sem uma divindade capaz de castigar os maus e premiar os bons. Ficou o consumismo. O resultado é o que está à vista. Mais adiante nem daremos conta que já não somos livres. Nem nada que se pareça.

quarta-feira, junho 13, 2018

Novo Mundo




Conta-se que Cristóvão Colombo atracou nas costas do Novo Mundo convencido que teria chegado à Índia (daí ainda hoje chamarmos índios aos habitantes daquele imenso continente). Um erro tão grande que poderá meter impressão mas sabemos que a ignorância proporciona muitos momentos extraordinários.

O encontro entre Trump e Kim tem tudo para ser um desses momentos estranhos em que sabemos que chegámos a um lugar qualquer mas não sabemos que lugar é esse ou o que esperar a seguir.

A encenação é caricata. Não só pela configuração anatómica dos actores (os seus penteados fazem história) mas também pela forma desaustinada como costumam agir e comportar-se. Entre hoje e amanhã existe um espaço de tempo que tende para o infinito e, nessa eternidade, tudo pode acontecer, bem como o seu contrário.

Assim vai o nosso mundo.

terça-feira, junho 12, 2018

Sangue da cor do mijo

Há uma lufada de ar bafiento a percorrer este mundo onde nos encavalitamos uns nos outros. É um ar dos tempos, um "je ne sais quoi", uma atitude de prepotência descarada que os poderosos adoptam na maior das calmas e com uma naturalidade preocupante.

Nós, o povoléu, elegemos figurões para nos governarem. Uma vez alcandorados ao vértice da pirâmide, os eleitos passam a actuar como se lhes não aplicassem leis nem regras; constituem uma espécie de novíssima realeza, mas com sangue cor de mijo.

Estes governantes tratam-nos frequentemente como se fôssemos estúpidos ou, quando muito, como se fôssemos imbecis ou meros idiotas. Mentem-nos, desprezam-nos, ignoram-nos; nós, o povoléu, somos meros pormenores pitorescos nesta vida de fausto e grandiosidade mediática que é a existência dos príncipes com sangue cor de mijo.

Não há princípios, não há valores, imperam as folhas de cálculo. Os problemas são analisados à luz da economia, as ciências humanas são encaradas como se fossem bruxaria. Não tarda regressam as fogueiras na praça pública para queimar os incréus.

Democracia? Justiça social? Estado? Previdência?

Tem cuidado com o que dizes, cabisbaixo leitor, tem, até, muito cuidado com o que pensas! A realeza do sangue cor de mijo é mesquinha, traiçoeira e compraz-se com questiúnculas de merda desde que sirvam os seus propósitos que, quase sempre, não passam de satisfação pessoal. Custe o que custar.

A nossas vidas são coisitas.

domingo, junho 10, 2018

Dia de Camões

De acordo com o calendário hoje é o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. É muita coisa para enfiocar num só dia mas fico sempre meio estonteado quando me apercebo que, no dia consagrado à portugalidade, prestamos homenagem a um poeta.

Não está em causa a grandeza da obra de Camões, ele foi um génio! Espanta-me que um povo que até há umas décadas era pouco mais que analfabeto e que, nos tempos que correm, é manco em termos de leitura, dedique tamanha reverência a um poeta.

Há muito para fazer até que o bom povo português esteja à altura da figura que hoje diz idolatrar, só não há vontade nem quem o faça.

Continuaremos, ano após ano, a prestar vassalagem a Camões até que um dia já ninguém se lembre bem de quem ele foi, muito menos do que ele fez, pensou e escreveu. Nesse dia Portugal cumprirá o seu destino.

O último a sair que apague a luz.

segunda-feira, junho 04, 2018

Morreu a senhora do 1.º esquerdo

Depois do Inverno da vida... puf, lá vamos. Com as pessoas não há cá a regeneração primaveril nem regressam os calores do estio. Temos direito a provar uma coisinha de cada vez e chega. Nada da alambazanços que a vida é como cozinha gourmet, criação de chef.

Ainda assim, é com a nossa assinatura individual que leva. Afinal de contas somos nós quem a vive, não é o vizinho do lado, que esse tem os seus próprios problemas; sonhos, pesadelos e pequenos-almoços.

A conversa vai meio parva. Não tenho coragem de cortar a direito para aquilo que estou a pensar. Custa-me dizê-lo, seja oralmente, seja por escrito. É a constatação de um certo óbvio horrendo que não valerá muito a pena estar a sublinhar com tinta fluorescente e a atirar para a frente dos teus olhos, camarada leitor.

Na verdade todas estas linhas são absolutamente inúteis... como tantas outras coisas.


domingo, junho 03, 2018

Pesadelo fôfo

Tudo treme. Abrem-se brechas enormes nas paredes. O telhado começa a ceder. Mas eu estou concentrado. Leio o meu livro, bebo o meu café, sinto os pés frios e isso preocupa-me. Não quero constipar-me.

Entretanto a casa desaba. Acabei de me levantar para ir buscar as pantufas.

sexta-feira, junho 01, 2018

Flashes macabros

O mundo teima em ser um lugar complicado, dá a sensação que tudo faz para se livrar da espécie humana, como um cão imenso que anseia livrar-se de multidões incontáveis de pulgas e carraças.

Não sei se sou pulga se carraça. Penso que sou mais pulga.

"Peixes grandes comem peixes pequenos", diz o ditado (penso que flamengo) magistralmente ilustrado por mestre Bruegel, o Velho. É uma imagem de indolente violência. Um homem agarra uma enorme navalha com que esventra um peixe gigantesco. Barriga e boca abertas deixam escorregar peixes mais pequenos que, das suas bocas, libertam outros num cenário delirante de morte.

A vida é uma guerra constante contra a morte, uma guerra infinita com vencedor anunciado. Um dia esta guerra irá terminar.

terça-feira, maio 29, 2018

O "A"

A Arte com "A" maiúsculo é coisa de gente especial. Vejo tanto pedantismo intelectual, tanta gente armada em fina, de olhar carregado, rugazinha inteligente a enfeitar-lhe a testa, gente que parece que está a cagar pedra-mármore, como diz uma fala da personagem Mozart na peça de Peter Shaffer. São os donos da coisa bela.

Não nego o direito à arte erudita (seja lá isso o que for), rejeito a menorização de certas formas de expressão artística desconsideradas porque se dirigem a públicos com pêlos no cu, que arrotam e batem palmas de forma entusiástica.

A arte é muito maior que o "A" com que alguns pretendem isolá-la do povão. A chamada arte popular não deve nada aos senhores de falas mansas com óculos de massa e corte de cabelo à escovinha.

domingo, maio 27, 2018

Pedido sincero

Talvez um dia eu precise de ser salvo mas, por enquanto, não me sinto lá muito perdido. Agradeço a todos aqueles que se preocupam tanto comigo que são capazes de perder tempo decidindo por mim.

Mas, sinceramente, não se preocupem com a minha vida (nem com a minha morte). Talvez devêsseis preocupar-vos mais com a vossa. Deixai os vizinhos em paz, a menos que eles vos peçam para lhes chateardes o toutiço.

terça-feira, maio 22, 2018

Alma e cérebro

Continuar a sonhar apesar de certos pesadelos é obrigação que temos para com a nossa consciência. Estou a falar de sonhar acordado (os pesadelos são coisas más do nosso quotidiano), continuar a querer mudar o mundo. Ou, pelo menos, mudar um bocadinho.

Sonhar acordado provoca frequentes lutas entre o cérebro e a alma. Por vezes, para continuar a sonhar, é necessário tomar medidas burocráticas que ponham o nosso cérebro na ordem.

É possível que, mais logo, releia estas frases e pense: que grande pimpineira!!! É bem possível que isso aconteça, que esta conversa me pareça lamechas, que sinta até uma pontinha de vergonha por ter escrito estas coisas. É quando isso (se) acontecer que terei de mandatar a alma no sentido de ir meter juízo no cérebro.

Ser cerebral pode revelar-se uma valente seca.

domingo, maio 20, 2018

Calma, gente!

Manter a compostura durante uma discussão quando nos apetece morder ou dar uma canelada no interlocutor é coisa que requer muita experiência. Apercebo-me que vou conseguindo dominar (a custo, reconheço) este requisito de civilidade.

Ser educado quando tudo dentro de nós parece queimar e prestes a incendiar-nos as palavras, é obra de arte. Agradeço a Deus o facto de me permitir imaginar ser um artista.

segunda-feira, maio 14, 2018

Três graças

Força, alegria e convicção. Três condições essenciais à construção de uma narrativa contundente e significativa. Não há que recear o vazio se imaginarmos ser capazes de o preencher.

Força na definição dos volumes, na marcação das formas, na vibração das cores ou na acentuação dos contrastes; alegria na desenvoltura do gesto, na definição dos ritmos, na velocidade com que nos afastamos deste lugar e vamos chegando mais adiante; convicção na abrangência daquilo que temos para dizer e afirmamos, convicção na bondade dos ideais que nos animam.

Tenhamos nós a felicidade do amparo destas três graças e teremos realizado um trabalho honesto  ao fim  do qual poderemos dormir um soninho descansado.

domingo, maio 13, 2018

Aparição

Hoje é dia de celebrar um milagre dos antigos.

Quantos anos faltarão até que a Virgem Maria se lembre de visitar o pessoal outra vez? Agora é que era! Com todos os telefones espertos que por aí andam não haveriam de faltar imagens em directo no Facebook nem selfies com a Senhora a brilhar levitando uns quantos palmos acima do chão.

Sim, sim, agora é que uma aparição havia de fazer autêntico furor! Convenhamos que os pastorinhos nos deixaram uma narrativa pouco eficaz. Coitadinhos.

A Virgem não teve sentido de oportunidade, faltou-lhe couching. Impõe-se uma aparição digna dos tempos que correm.

quinta-feira, maio 10, 2018

Imaginar

Não sei se alguém alguma vez se terá dado ao trabalho de compilar uma História da Imaginação. Imagino que sim, que alguém o tenha já feito. Há Histórias de tudo e mais alguma coisa, decerto haverá uma dedicada à Imaginação. Desconheço, apenas posso imaginar.

Veio-me isto à cabeça hoje de manhã ao ter um flash da minha mais tenra infância, uma imagem fugaz que de vez em quando se me acende cá dentro. Vejo uma fileira de pequenas pedras muito alinhadinha num chão que é o da Sernada (ou será Cernada?), um lugar onde ia frequentemente em criança, acompanhando o meu avô paterno. As pedrinhas são soldados. Falam: uma delas dá ordens, outras conversam entre si, temem o inimigo emboscado; continuam a marchar.

É só isto. Não consigo recordar a sorte da coluna de pequenos soldados-pedra; se foram assaltados por uma horda de pinhões vindos detrás de uma moita, se foram simplesmente abandonados, esquecidos em benefício de outro brinquedo, alguma imaginação maior ou, pelo menos, diferente.

Era muito assim.
Um pau tanto podia ser uma espada como uma espingarda ou um stick de hóquei ou uma bengala, caso decidisse envelhecer subitamente. A brincadeira era um bocado dadaísta, os objectos ganhavam conteúdos mais ou menos adequados, conforme as circunstâncias. Era assim que um gajo exercitava a imaginação, retirando conteúdos, espremendo significados, manipulando o sonho numa tentativa alquímica de o sintetizar em realidade.

Bem vistas as coisas um gajo imaginava o mundo, literalmente, no ar. Daí sermos apelidados de "cabeças-no-ar". Gostava de ser criança outra vez para voltar a inventar as coisas todas, para ver como se faz agora, uma vez que já poucos brincarão com pedrinhas e quase nenhuns brincarão, sequer, na rua.

Estamos perante as primeiras gerações que sonham quase exclusivamente sonhos eléctricos, fechados em ecranzinhos. Jogos, filmes, vídeos, fotos disto, fotos daquilo, selfies, selfies, selfies, crianças que aprendem a fazer sorrisos horríveis desde que têm dentes para os fazerem (tão depressa estão a sorrir para um telemóvel na sua própria mão como imediatamente fazem a maior cara-de-pau, depois do clic).

Isto tem de de influenciar a forma como se imaginam as coisas, como se perspectiva o mundo que nos rodeia, as relações que estabelecemos com a realidade (seja lá isso o que for).

segunda-feira, maio 07, 2018

Esbracejar

Trabalhar é o melhor antídoto contra a fantasmagoria. Ter que fazer ou, quando não tenho que fazer, inventar o que fazer, só assim consigo manter o nariz à tona do lamaçal. É como se estivesse sempre a esbracejar. Sim porque, para mim, trabalhar é desenhar ou pintar ou escrever ou falar para uma pequena plateia, sempre a dar aos braços, na verdade.

É como se nadasse na realidade. A realidade como piscina, como mar, como tanque; a realidade líquida, impossível de prender, de meter numa gaiola, impossível evitar que nos escape e fuja e se estenda infinito adiante.

Mesmo que naufrague salvo-me agarrado a um pedaço do mastro, a um patinho amarelo, agarrado a uma lasca de madeira. Não me afogarei pois aprendi a esbracejar. Não me afogo tão depressa. Enquanto esbracejar (pintar, desenhar, escrever, discursar) não me verão desaparecer entre este lugar e a linha do horizonte.

Enquanto esbracejar eu permaneço. Enquanto permaneço eu sobrevivo.

Quando acabei de escrever a palavra "sobrevivo" recebi um SMS de alguém que me dava a notícia da morte de um seu familiar. Este mar é estranho, esta piscina que não tem escadas, este tanque sem fundo que mais se assemelha a um poço. A realidade é demasiado mesquinha, tem curvas demasiado apertadas, coincidências tão exactamente coincidentes que parecem ser coisas inventadas à pressa.

quarta-feira, maio 02, 2018

Presidente-criança

Há aquele filme (aquele conto, aquela história) em que uma família inteira se encontra refém de uma criança caprichosa que detém estranhos poderes para moldar a realidade de acordo com os seus desejos infantis.

Não interessa de que forma o monstrinho adquiriu tão inquietantes poderes, é a situação que importa focar e explorar em termos narrativos.

Neste conto (neste filme, nesta história) os adultos e os irmãos do fedelho vivem em estado do mais puro terror, indefesos que estão perante os poderes absolutos que  a criança detém sobre o espaço que habitam. Ou bem que lhe agradam e satisfazem todos os seus caprichos, por muito grotescos que sejam, ou arriscam-se a ser castigados. Os castigos assumem proporções entre o previsível e o inimaginável. É uma criança-deus!

Quanto mais poder amealha, mais embirrenta, imprevisível e perigosa se torna a criança. Já não me recordo como acaba esta narrativa mas tenho cá a impressão que não acaba bem.

Pode a metáfora desta história (deste conto, deste filme) aplicar-se à realidade actual da nossa cidade? Está Almada a ser governada por uma presidente-criança? Uma presidente a quem ofereceram inesperadamente um brinquedo com o qual não lhe apetece brincar mas que se vê a isso obrigada para não desagradar aos mais velhos?

Até ver, não tem sido particularmente agradável viver dentro da realidade manipulada pela presidente-bebé. Tem sido aborrecido.

segunda-feira, abril 23, 2018

Cantoria

Há dias assim. Hoje, ao fazer o caminho de casa para o local de trabalho, reparei no canto dos pássaros. Ao longo destas ruas há bastantes árvores que, como toda a gente sabe, são como prédios de apartamentos para a passarada.

O dia estava um pouco acinzentado mas os pássaros cantavam. Distingui diferentes linguagens; um pombo, um melro, um pardal? Como era bastante cedo ainda os carros não tinham feito a habitual invasão do espaço urbano, o chilreado bailava límpido, quase estranho.

Duas horas depois, o sol ganhou força em luz e em calor. Os carros já estão por todo o lado, os ruídos da cidade instalaram-se, abafando tudo numa amálgama pastosa que nos tapa os ouvidos como se fosse algodão. Os pássaros devem andar por aí, nos seus afazeres costumeiros, mas não os ouço a menos que apure o ouvido a ponto de tentar isolar algum chilreio.

Perante o poder do sol compreendo agora a cantoria matinal.

terça-feira, abril 17, 2018

Reflexos do futuro

Tive um debate interessante com alguns dos meus alunos mais velhos sobre a forma como cada de um de nós olha para a cidade em que vivemos.

O debate foi a propósito da participação que aceitámos numa exposição com a designação de "Almada Futurista". Pretende-se expor a perspectiva dos jovens mais jovens sobre o espaço urbano entendido de forma abrangente, espaço não apenas físico.

Propus que reflectíssemos sobre a questão tendo duas abordagens: os nossos anseios e os nossos receios. A coisa fluiu, levou-nos em várias direcções, a conversa ora animou ora amainou. Houve duas ideias que me ficaram a martelar na cabeça.

Ideias encontradas depois de entrar pela porta dos receios: alguém afirmou peremptoriamente que "Almada está cheia de velhos!" Pareceu-me exagerado mas não rebati, pedi explicações, propus troca de argumentos. A ideia manteve-se inalterada: Almada está cheia de velhos.

A partir desse dia comecei a reparar com maior atenção nas pessoas que se cruzam comigo na rua. De um modo geral parecem-me exageradamente envelhecidas, a minha aluna tinha razão? Talvez eu estivesse a ser vítima da sugestão, talvez a realidade não fosse tão... enrugada.

Houve também quem mostrasse algum receio de que a cidade esteja a morrer. Prova? Os estabelecimentos comerciais que vão fechando sem que outros abram nos mesmos espaços gerando montras vazias em lojas sem luz no interior. Haverá algo mais deprimente nas ruas de uma cidade onde as pessoas ainda se vão movimentando?

Foi então que as duas ideias se cruzaram: a cidade envelhece e morre. Envelhecem as pessoas e, a primeira coisa a morrer, são os espaços comerciais. O que virá a seguir?

domingo, abril 15, 2018

Tamborileiros

Soam de novo os tambores da guerra batidos pelos percussionistas do costume: EUA, UK, La France.

Cada um destes beligerantes insistentes tem problemas complexos nos respectivos quintais. A coisa não corre bem lá por casa, põem-se os aviões a voar, largam-se umas quantas bombas sobre um território dominado por um aprendiz de tirano diabólico e... voilá! É remédio santo.

Trump, May e Macron, caricaturas de Bush, Blair, Aznar (e de Barroso, o bobo), já de si personagens grotescas, repetem a História ou, pelo menos, tentam repeti-la. Ontem no Iraque, hoje na vizinha Síria. O monstro viscoso arrasta-se na região. A Paz não tem a mínima oportunidade.

Alguns protagonistas de mais esta versão da velha história tentam encontrar o tom certo para a interpretação da sua personagem. Putin, Erdogan, o Irão (personagem menos nítida) os príncipes sauditas. O mundo acagaça-se perante as poses marciais e a vaidade destes seres vivos que espalham terror e morte com evidentes benefícios.

E nós, temente leitor, que nos resta fazer, que nos resta pensar?


quinta-feira, abril 12, 2018

Continuum fadista

Porque será tão difícil aceitar as coisas como elas parecem ser? Porque temos sempre de procurar algo que não deveria estar ali e, apesar de não existir, somos sempre capazes de encontrar essa coisa imaginária para comprovar a nossa razão, a nossa inultrapassável capacidade de compreender e ver tudo o que vem de dentro das nossas cabeças como se fosse absoluto? É como se o Mundo fosse criado por nós.

A nossa capacidade para  iludirmos o espelho é realização de fazer corar um camaleão.

A coisa vem de longe (nasce connosco?) mas agudiza-se quando somos adolescentes (quando deixamos de o ser?) e, temo bem, sobreviverá tanto à desaparição quanto ao esquecimento da espécie humana.

Nós morremos a nossa vaidade fica.

Lidar diariamente com grupos de adolescentes declarados é como estar perante um espelho que oferece o passado aos nossos olhos. São tantas as ocasiões em que me passo e repreendo algum deles para, imediatamente, ter a sensação de estar a repreender um outro eu, difuso, perdido no tempo, eu no passado!

Não consigo ver esse outro eu, pressinto-o mas já esqueci como ele era (como ele é?). Os contornos do rosto, a definição da silhueta, terei saudades do que fui? Não creio. Acredito que continuo a ser, não há que ser saudosista. A vida é um continuum até ao dia em se transforma em morte.

Há uma frase feita que nos permite declarar ter saudades do futuro. Treta? Sinceramente: é rara a ocasião em que sinto saudades. Talvez tenha de ouvir mais Fado para me aproximar do nível médio saudosista do português corrente. Talvez...

terça-feira, abril 10, 2018

Apoios


A Cultura é reconhecidamente um campo de acção do Estado. Há por aí muita voz que tenta chegar ao céu clamando contra os “subsídio-dependentes” na cultura. Nunca terão ouvido Mozart ou observado a obra de Leonardo de Vinci, célebres “subsídio-dependentes” de outras épocas, para dar apenas dois de entre milhares de exemplos de grandes criadores que dependeram da boa vontade de mecenas ou de instituições estatais. 

O mito Romântico do Artista é aquele que preenche o nosso imaginário: o artista torturado pela sua genialidade que vive isolado e incompreendido, veste de negro, padece de subnutrição e acaba falecendo tuberculoso não encaixa neste sistema que prevê a intervenção do Estado antes que um gajo vá parar ao sanatório em nome das suas musas.

Enquanto a poeira vai assentando fica a certeza de que o Ministério da Cultura precisa de pensar uma forma eficaz para a distribuição dos subsídios à criação artística. Se recordarmos a vertigem dos dias recentes percebemos que o problema será mais a ausência de uma política cultural do que falta de investimento (se bem que o investimento é muito poucochinho). Teremos, então, dois problemas, um de forma (um modelo de concurso que se compreenda) e outro de conteúdo (uma política cultural que faça sentido) para que a repartição dos parcos recursos económicos possa ser feita sem provocar terramotos nem indignação generalizada.

É tempo de debater com seriedade a questão dos apoios à Cultura. Esse debate deverá ser feito entre o Ministério e os agentes culturais procurando respostas objectivas para os problemas mais prementes. 

Na minha opinião os partidos políticos deverão manter-se ao largo nesta fase do campeonato.

segunda-feira, abril 09, 2018

Espelhos quebrados

Comprei Solaris pela 3ª vez na vida. O livro de Stanislaw Lem tem uma nova edição em português que, segundo rezam as crónicas, tem qualidades inovadoras (é traduzida directamente do polaco) e será bem mais interessante que a edição anterior (traduzida a partir da versão inglesa que, por sua vez, havia sido feita a partir de uma versão francesa... se não estou em erro).

Voltamos sempre à mesma questão: pode uma tradução dar uma ideia correcta do original?

O problema é irresolúvel; nunca uma tradução poderá chegar a oferecer mais que um aroma caso o original tenha o cheiro forte de um... um prado ou, melhor, o cheiro forte de uma estrebaria! Uma tradução será um perfuminho que tenta reproduzir um valente pivete.

Vieram-me à memória uma série de gravuras feitas a partir de trabalhos de Brueghel, o Velho. Estas gravuras são frequentemente atribuídas ao mestre quando, na verdade, foram produzidas por gravadores a partir de desenhos de Brueghel com  o objectivo de serem impressas e comercializadas. Negócio do mais puro e mais simples.

O resultado dessas gravuras será vagamente semelhante ao de uma tradução literária, mundos de espelhos e enganos quase, quase inocentes. Assim, cada tradução reproduz uma espécie de eco que vem lá de longe, da caverna craniana de um escritor perdido algures nas escarpas do tempo.

Espelhos quebrados no labirinto de uma biblioteca frequentada por cegos.

quarta-feira, abril 04, 2018

Fatalidade

Ouvir um debate na ARTV (sobre a preparação da próxima época de incêndios) torna-se um penoso exercício. Os deputados da anterior maioria desatam à traulitada no actual governo a pretexto das medidas que este propõe em tão sensível matéria. É natural, dir-me-ás tu, civilizado leitor, é assim que se faz política.

Será, admito, mas é uma forma doentia de entrançar verdade, mentira, realidade e delírio.

Também a propósito da questão dos concursos ao apoio do Estado nas áreas da criação artística tem havido discussão, crítica e algum regabofe. As coisas não correm bem, longe disso, mas a actual oposição levanta a voz para defender posições que anteriormente ignorou ou contestou sem que caia um dente ou o nariz a quem tece tais afirmações. Deus dorme e não castiga a mentira.

Feitas as contas permanece a sensação de que, para os cidadãos deputados, importa mais o partido respectivo que o conjunto da nossa sociedade. Desunham-se a esgadanhar-se uns aos outros enquanto os seus concidadãos tentam resolver os problemas.

Eu sei que é assim mas não devia ser.

terça-feira, março 27, 2018

Tempos dificeis

Talvez seja isto a tão badalada inteligência artificial. Na verdade (seja lá isso o que for) a IA é um sucedâneo da velha esperteza humana. Basta um gajo sem escrúpulos capaz de manipular informação com uma habilidade fora do comum e, pronto, eis uma entidade inteligente.

A ausência de ética é uma coisa banal. Sempre foi. Aliada às tecnologias da moda, a falta de ética, gera a tal IA. Estamos, assim, entregues a uma estranha bicharada.

A cibernética é muito isto, uma mistela entre o animal sem sentimentos e o mecanismo recolector e produtor de informação. Adivinha-se uma vigorosa selva habitada por um panteão de monstruosidades juvenis ainda desconhecidas mas que parecem alimentar-se daquilo que nós somos.

Para sobrevivermos nesta nova e perigosa floresta teremos de ser todos como o Capuchinho Vermelho só que mais desconfiados quando o Lobo Mau nos vier cheirar o cestinho da merenda.

domingo, março 18, 2018

Olvido

O tempo passado enfiado num frasquinho de vidro, mergulhado em vinagre (penso que fosse vinagre) ali estava, suspenso, perante o meu olhar mais ou menos espantado.

Eram duas revistas, uma publicada em 1984 e outra em 1991. Papel amarelecido, um leve odorzinho a môfo, coisas esquecidas, daquelas coisas que não existem e, no entanto, estão ali para nos mostrarem como a realidade é muito mais que o presente o que a torna algo cuja existência é absolutamente impossível.

Tentei recordar-me de alguma situação, algum acontecimento, qualquer coisinha que me transportasse de volta a esse passado esquecido (presente impossível). Népias, nadinha de nada. Néribi.

Fico assim mesmo, embasbacado a olhar o frasquinho, a massa informe do que fui misturada na solução translúcida em suspensão que mantém a existência do tempo que lhe corresponde. Confuso, não é?

Quando um gajo fica nostálgico e se põe a tentar recuperar acontecimentos enterrados na lixeira do olvido acaba a imaginar coisas que só fazem sentido dentro da sua cabeça. É isto que aqui escrevo. Exactamente.

quinta-feira, março 15, 2018

Perguntas que hibernam

Com a morte de Stephen Hawking, o grande génio da cadeira, regressam algumas questões que de vez em quando adormecem, como se hibernassem na caverna do meu crânio.

Como pode alguém conceber a ideia de Infinito? Alguém pode demonstrar essa qualidade (o Infinito é uma qualidade?)? Não sou capaz de compreender, nem um pouco mais ou menos, como pode algo existir sem estar contido em alguma coisa.

Alguém escreveu num artigo de jornal acerca de Hawking ser Eterno. Ora aqui está outra ideia que me põe a cabeça a andar às arrecuas. Que raio de coisa é essa, a Eternidade? Precisaremos de existir para que a Eternidade seja uma possibilidade? Existe Eternidade para além da Humanidade ou morrerá a Eternidade com o último da nossa espécie?

sábado, março 10, 2018

Aguardando a tempestade

As previsões meteorológicas avisam que, entre a noite e a madrugada, irá chegar ao território continental português a tempestade Félix, como o gato.

Um vento devastador empurrando chuva e granizo sobre as cabeças fugitivas dos animais desprotegidos poderá ser, alguma vez, prenúncio de felicidade? O baptismo de furacões e tempestades com nomes de gente é uma coisa algo perversa.

Que me lembre nunca nenhum destes desastres naturais foi baptizado com o meu nome. Rui, ao que parece, poderá ser um vocábulo pouco ortodoxo quando pronunciado para os lados da Rússia czarista. Talvez por isso eu esteja tranquilo no que toca a estas cenas e possa dormir descansadinho. Nunca se dirá que o Rui foi responsável pela morte de tantas pessoas ou pela destruição  de casario e queda de árvores ou inundações apocalípticas.

É um pouco isto. Esperar sentado que chegue a tempestade leva-me a divagar desta forma preguiçosa. As ideias vão fluindo, indolentes e erráticas. Reparo agora que a passarada, lá fora, está um tanto calada e o céu escureceu subitamente. Serão sinais de que Félix vem aí e se aproxima? Ainda é cedo, parece-me.

Seja como for estou em casa, sinto-me seguro. Não temo a tempestade, pelo menos enquanto estiver fechado no interior do meu castelo.

quarta-feira, março 07, 2018

Receio

Assistimos sentados ao levantamento nazi, alfinetes a ferver que se vão espetando um pouco por todo o mapa da Europa. Como é possível isto estar a acontecer?

O povo europeu que dá força a essa besta política. Não parece ser um movimento de elites. Dá a sensação que a coisa cresce aconchegada por um certo esterco social, ali entalado entre a classe média e a média baixa, uma espinha na garganta social democrata, cada vez mais seca, cada vez mais ferida de morte.

"Esterco social", disse eu. E se a sociedade for maioritariamente nazi? Serei eu a transformar-me em esterco ou viverei numa esterqueira de facto? É difícil decidir. Entretanto vou aproveitando a liberdade de expressão (enquanto a tenho).

Por vezes penso se irei assistir ao triunfo do nazismo. E, caso isso aconteça, como irei reagir? Serei capaz de aceitar o retrocesso social e civilizacional sem fazer nada? E, se fizer alguma coisa, como deverei actuar? Com nazis não se pode discutir, apenas se pode lutar.

Espero que o triunfo nazi não seja mais que um pesadelo que vou sonhando, por vezes acordado. Gostava que a minha filha pudesse viver numa sociedade tão livre como esta em que tenho vivido. Preciso que isso aconteça para poder ter a sensação de que a minha vida teve algum sentido.

domingo, março 04, 2018

O galináceo

Os pobres sobreviveriam bem sem os ricos. Os ricos não poderiam nunca existir caso não houvesse pobres.

Os pobres são a Galinha dos Ovos de Ouro dos ricos. Quer-me parecer que os ricos já lhe abriram a barriga para retirarem todos os ovos de uma vez só. Nos tempos que correm assistimos à agonia da galinha.

O nosso modo de vida no mundo ocidental é a perdição da espécie humana.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Ser artista

Será tudo isto uma questão de vaidade? Escrever, desenhar, querer fazer arte será uma mera questão de afirmação pessoal, uma necessidade insaciável de sair da massa, destacar-se da mediocridade mesmo arriscando ser medíocre?

Quando o dia amanhece ainda nocturno a dúvida ganha nitidez por contraste com a escuridão envolvente. Aquilo que passaria desapercebido lá para o fundo da sala, escombro desprezível encostado ao canto, fica visível como um néon a piscar, avariado.

A questão incomoda um pouco. Afinal de contas a velha "vanitas" é fortemente censurada pela moralidade construída a partir do sentimento cristão. Eu tive uma educação católica. Faz comichão e não consigo alcançar o ponto comichoso para o coçar, não sou capaz de aliviar o incómodo.

A primeira vez que fui confrontado com esta dúvida foi durante a leitura de Narciso e Goldmund, de Herman Hesse.  Passava então pelos meus 18 ou 19 anos e havia entrado na Escola Superior de Belas-artes. Li o livro no contexto da disciplina de Estética e, a partir dele, realizei um trabalho teórico de que já não consigo recordar o tema mas que estava, decerto, relacionado com o fascínio que então sentia (e que ainda sinto) pelo mundo e pela arte da Idade Média na Europa.

Desde então que esta pergunta habita a minha alma. A maior parte do tempo é uma pergunta adormecida mas, de vez em quando, ela acorda e deixa-me um pouco inerte, um pouco hesitante. Talvez seja necessário possuir um ego desmesurado para se ser artista, uma certa dose de soberba e um amor-próprio digno de um crocodilo.

Seja!

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Zombies sociais

Como é possível haver tantos estúpidos mal-intencionados em lugares de decisão e governo, ainda por cima, eleitos por nós. Ou somos maioritariamente estúpidos e, coligados com uma minoria de mal-intencionados, sentimos uma descontrolada atracção pelo abismo, ou então a ignorância é mais grave do que imaginamos e estamos a construir uma sociedade toda ao contrário daquilo que dizemos desejar. Somos como zombies sociais, cambaleamos sem destino e sem sentido em direcção a um horizonte repleto de escuridão onde não há absolutamente nada e alimentamo-nos de cadáveres de sonhos que vamos matando pelo caminho.



sábado, fevereiro 17, 2018

Canibalismo Cósmico (tentativa de explicação)

Comemos o que vemos. Pomos os olhos a mastigar imagens, alimentamos a mente que, estou em crer, não é mais que a pança da alma.

A alma bebe pelos nossos ouvidos (alguém que descreva a anatomia da alma).

Ontem almocei Van Eyck (Jan Van Eyck) bem regado com o Sandinista (dos Clash). Para sobremesa debiquei Bosch e, como digestivo, tomei "Take a walk on the wild side". Menu clássico.

Para fazer a digestão empunhei a caneta.

Isto é o Canibalismo Cósmico, a Hibridização Anárquica.


quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Sim e não

A variedade de pontos de vista sobre uma determinada questão parece complicar fortemente a fixação da coisa a que chamamos verdade. Parece ser mais fácil determinar aquilo que é mentira.

Tenho dificuldade em explicar com clareza aquilo que quero. É mais simples perceber o que não quero.

Será mais sólida a negação do que a afirmação?

terça-feira, fevereiro 13, 2018

Inveja

Imagino que, também tu, adorado leitor, sintas por vezes a terrível mordedura da inveja. É uma ferradela no coração (ou no espírito) com aqueles dentinhos, como se fossem alfinetes, que te faz contorcer o ego e te deixa um sabor a fel na boca dos sentidos.

Da parte que me toca é nessas ocasiões que invoco a minha educação católica na sua dimensão de santidade cristã. Tento combater a inveja com todas as forças que sou capaz de convocar para a batalha. Imagino-me vencedor, como um condenado capaz de matar um leão a mãos nuas numa fedorenta arena romana.

Luto com todas as minhas forças na tentativa de ignorar a dor que me causa tão pérfida mordidela. Não é nada fácil. Fácil seria entregar-me ao usufruto da vaidade mas, como estou longe a santidade, percebo que me comporto como a raposa da fábula que despreza as uvas por não lhes chegar quando espeta o focinho na sua direcção.

Sou um invejoso envergonhado, essa é que é essa. E, se o confesso nestas linhas, é por saber que só me fica bem ter inveja, reconhecê-lo e, ao mesmo tempo, declarar publicamente que a combato com denodo; isto faz de mim um ser humano com toda a parafernália de incongruências que tal condição implica.

Enfim, fico de bem com a minha consciência e pouco mais. Que, ainda assim, a puta da inveja não me larga.

domingo, fevereiro 11, 2018

Declaração inflamada

Tenho que dizê-lo! Calar a boca não é opção!

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Desvario

Anda por aí muito bicho estranho disfarçado de ser humano. À primeira vista não parecem muito avariados, podem até parecer coisinhas fofas a precisarem de quem lhes dê um niquinho de atenção. Pobres bichitos, pensas tu, carinhoso leitor. Mas tem cuidado quando lhes estenderes a mão para uma carícia desinteressada, eis que te mordem com os dentes todos, como se fossem piranhas.

Não é o facto de ficares com um ou dois dedos a menos que te irá demover de fazeres o que imaginas ser bom. O bicho precisa de amigos, que raio! E voltas a tentar passar-lhe a mão (o que te resta dela) no pêlo. Qual quê! És de novo posto à prova com outro festival de dentadas que nada têm de gulosas, são apenas maldosas.

Neste ponto já te estás a lixar para o bicho. O que era fôfo, vês agora, é nojento; o que parecia carência é afinal desvario. Desvario total, absoluto, absurdo. O bicho precisa é de ser mantido à distância. E ele ladra, ele gane, ele solta os mais estranhos grunhidos. Já não sabes se é porco, se é vaca, se é outra merda qualquer. Queres esquecê-lo, ignorar que te levou os dedos.

Mas esse bicho estranho agora não te larga. Cometeste o erro supremo de teres olhado para ele, de teres confundido a sua loucura com mera necessidade de atenção. A demência virulenta que o anima parece-te inesgotável. Apercebes-te que esse animal vive no inferno. Ainda consegues sentir uma réstia de empatia com aquela coisa, um sentimento confuso que mistura compaixão e repulsa mas já não queres saber.

O bicho que se lixe! Vai-te esconder no teu buraco fedorento, bicho tonto.

Antes que o mundo acabe (rascunho)

Santo Patriota (Janeiro 2018)

Desde pequenino que acredito que a arte deve estabelecer comunicação directa com o observador, que o objecto artístico é como, deixa cá ver… como um casaco que se veste. Pode servir-nos ou não, podemos olhar para ele no espelho com o nosso corpo lá dentro, experimentá-lo ou deixá-lo pendurado no cabide, podemos emprestá-lo ao vizinho ou dá-lo a alguém que no-lo peça. A analogia não é muito convincente mas, enfim… tentar explicar algo, chamar o observador para junto da ideia que pretendemos mostrar-lhe, isto não é assim tão fácil. Há sempre a opção de parecer que dizemos algo sublime, muito profundo, algo enorme, tão grande que nem virando a cabeça até a nuca nos bater na coluna vertebral conseguiremos sequer vislumbrar o topo da coisa. Sermos inacessíveis de tão bons. Essa é que é essa!
Temos, então e pelo menos, duas possibilidades (não sei se ficou explícito): ou queremos comunicar ou queremos dar a sensação de que queremos comunicar. Ou, se calhar, nada disto faz sentido e se me disserem o contrário é porque têm razão.
Se a arte for como o tampo de mármore branco de uma mesa toda estilosa; arte fria, arte lisa, escorregadia, arte limpinha e brilhante quando lhe bate a luz, misteriosa, inconcebível, críptica como o olho do cu de uma galinhola, se a arte for assim tem fortes probabilidades de ser considerada uma coisa digna. Se não compreendermos o melhor será fingir que é porque a coisa é muito… extraordinária. Se não compreendermos o melhor será esfurancar uma leitura do objecto, forçar-lhe um sentido, encontrar nele o que lá não está é prova de grande erudição. Como diz o dito: se não os podes vencer junta-te a eles. Se não compreendes o objecto artístico finge que és parte dele. Resulta sempre, só precisas de um pouco de lata, uma certa pose e o domínio de um pequeno conjunto de lugares-comuns, uma ou outra balela sobre A Fonte e o neo-dadaísmo, ou sobre o pós-modernismo e o valor de mercado das obras de Damien Hirst. É tiro-e-queda!

Desde pequenino que gosto de perceber quando não percebo e quando percebo alguma coisa sinto que dou um passinho em direcção à possibilidade de ser feliz. É assim que encaro a arte. Voltando à cena do casaco, gosto que a arte me assente. Mas isso sou eu. Quanto a ti, tu lá sabes ou haverás de saber, se te deres ao trabalho de pensar nisso. Podes até querer passar frio. Da parte que me toca apresento-te imagens na esperança que consigas com elas estabelecer algum tipo de diálogo. Não digo que venham a tornar-se íntimos mas seria agradável se, pelo menos, fosseis capazes de trocar dois dedos de conversa.

quarta-feira, janeiro 31, 2018

Caridade cristã


Miguel Relvas, esse político, por assim dizer, advoga a ideia de que, para se evitar a corrupção, os políticos deveriam ser mais bem pagos. Ou seja, mais dinheiro no bolso ao fim do mês diminuiria a tentação de ceder ao canto da sereia. Discordo.

Se um político ganha 5.000 por mês e é corrompido com uma oferta de 500.000, caso ganhasse 10.000 seria corruptível mediante o pagamento de 1.000.000, tão simples quanto isso: aritmética! Pessoalmente, estou convencido de que uma pessoa é honesta ou não é; independentemente das quantias envolvidas, a capacidade de resistir à tentação é intrínseca.

Na sociedade actual reina a convicção de que tudo se resolve com dinheiro. Existe um problema? Faça-se mais investimento e o problema tenderá a ser resolvido. Não me parece assim tão simples. A maior investimento terá de corresponder uma forma adequada de o aplicar. Talvez necessitemos de melhor investimento, um planeamento mais eficaz, uma atitude mais honesta e inteligente. Caso contrário o dinheiro investido poderá perder-se em corredores obscuros e bolsos fundos, como é costume.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com os Fundos Comunitários no Portugal cavaquista. Uma parte considerável do dinheiro vertido no nosso quintal através da torneira da CEE acabou por se perder e servir apenas para enriquecer uma "elite" que, pelos vistos, ganhava pouco.

Fossem os ricos muito mais ricos e sobrariam migalhas suficientes para que os pobres não morressem de fome. Pois, a gente sabe como funciona esta espécie de caridade cristã,... está à vista!

segunda-feira, janeiro 29, 2018

Universalidade

Valores universais... universais? Há aqui uma certa confusão pois os Valores só fazem sentido numa perspectiva estritamente humana.

As raposas, os carapaus e as serpentes não se regem pelo mesmo tipo de Valores que os seres humanos e, no entanto, fazem parte dos habitantes deste planeta. Que dizer, então, dos habitantes de outros planetas que façam perto do nosso Universo?

Imaginemos, na medida do possível, uma espécie alienígena.

Imaginemos seres gasosos ou com 50 metros de envergadura ou seres que não suportem a proximidade da água. Que tipo de Valores serão queridos por estas coisas tão diferentes de nós?

Como poderemos convencer uma galinha de que a Dignidade é um Valor Universal quando nos preparamos para a degolar, depenar e enfiar na panela? Assim como assim, a nossa capacidade de comunicar com um galináceo é de tal modo reduzida que a bicha se há-de estar bem a cagar na nossa conversa.

Imaginemos uma espécie alienígena que se apaixone perdidamente pela nossa carnucha e invente mil e uma receitas de como cozinhar o corpo humano. Imaginemos um talho intergaláctico com carcaças humanas penduradas nas vitrinas. Quem poderá, em boa consciência, criticar os extra terrestres por nos quererem comer se nos alambazamos em carne de vaca, de faisão, de coelho, lagosta, pato, seja o que for que nade, voe, caminhe sobre as patas ou rasteje sobre o ventre (esse castigo divino infligido à puta da serpente).

Valores universais? Imaginemos o nosso planeta invadido e ocupado por seres demasiado grandes, demasiado fortes, demasiado desenvolvidos tecnologicamente, com demasiados dentes nas bocas, línguas compridas e viscosas a lamberem uma espécie de beiças e com os quais sejamos incapazes de comunicar.

Imaginemos o que vai na cabeça de uma vaquinha que nos olha com aqueles olhos de carneiro mal morto enquanto mastiga a ervinha com toda a elegância...

Oxalá sejamos invadidos por uma espécie vegetariana que adore bróculos e beterrabas.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Pacientar ou não pacientar

Cheguei perto do balcão. Havia bastante gente; quase muita gente. Esperavam a sua vez numa distribuição algo caótica. Pessoas caladas, olhar em alvo, quietas. Fiz como os outros. Parei, olhei, fiquei.

Durante um minuto (ou terão sido dois?) esperei, mas algo começou a incomodar-me, senti-me inquieto. Não percebi imediatamente a razão que me levou a sair daquele lugar com alguma rapidez. Apesar da fomeca saí. Dei por mim na rua. Apercebi-me que ficara um pouco angustiado.

Imaginei os outros lá dentro: paradinhos, à espera da papa, normalidade tão estranha! Saquei          de um cigarro... que stress! O que sou eu? Um bicho! Um bicho que não o quer ser? Essa é uma ambição desmedida para um bicho. Hesito em regressar. Tenho fome.

Ando para um lado e para o outro, como se cambaleasse, como se estivesse aturdido pela dúvida. Ser ou não ser, fazer ou não fazer... rai's parta, William, que merdiosca. Já tenho idade para ter paciência.


segunda-feira, janeiro 22, 2018

Uma cena bué ambígua

O prazo encurta a cada dia.
A responsabilidade aumenta na razão directa da diminuição do espaço que resta para que cumpras o compromisso assumido. Quem te mandou a ti meteres-te numa destas!? Ainda por cima não havendo necessidade!

Quando tomas as dores de um compromisso que assumes voluntariamente, quando decides meter mãos a uma obra à qual não estavas obrigado e começas a sentir a dúvida a roer-te as abas do sossego, qual ratinho esfomeado e divertido, ficas com a tripa um bocadinho deslizante.

De súbito apercebes-te de que não possuis as capacidades necessárias para levar a bom termo a tal tarefa. Sentes as orelhas a crescer como as do príncipe do conto. Por que raio te meteste em tal alhada? Mas, ainda assim, sorris e expões um semblante que irradia confiança. Não há que recuar, caraças! Nem pensar.

E assim vais, alegremente, vida adiante, fazendo o que deves e até o que não seria suposto fazeres mas que decidiste transformar em objectivo muito teu. És personagem de epopeia. Quanto ao resultado... o que interessa isso? O importante é que mostraste ao mundo que não tens medo dele. Nem de ti.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Invasão

Ainda Janeiro vai fazendo o seu pedregoso caminho, a chuva não caiu como esperado, mais pessoas morreram queimadas em terríveis incêndios, metáforas tenebrosas do Inferno na Terra. Minuto aqui, minuto ali, seguimos na barrigota de Janeiro como soldados gregos no cavalo de Tróia: preparamos em segredo a invasão do futuro.

Imagino o que sentiria o soldado, anónimo e barbudo, dedos cravados no punho da espada, agachado na escuridão interior da falsa cavalgadura, como se fosse merda a vascolejar-lhe na tripa. Quanta ansiedade, quanta vontade de receber na fronte a luz do Sol, de saltar no vazio, arma em riste, golpeando inimigos com profunda raiva e surpresa sufocante. Ah, imagino que... não imagino nada. Posso lá imaginar-me um soldado grego enfiado no cu de um monstruoso cavalo de madeira!

Do mesmo modo sinto a insegurança do homem que vive cada dia como se não houvesse depois de amanhã (até ao dia de amanhã ainda sou capaz de me projectar um pouco mais ou menos), o homem que invade o futuro a cada passo, como se o futuro não lhe pertencesse até ao momento em que se encontram: homem e momento; vida e destino.

Não consigo largar esta sensação de que vivemos sempre o primeiro e o último instante em simultâneo. Que vamos assim desde o momento em que nascemos até ao da despedida derradeira. "O fio da navalha" não serve para ilustrar esta sensação, terá de ser outra expressão. Alguém que a invente.   

terça-feira, janeiro 16, 2018

O corpo e a mente que mente

A passagem do tempo sente-se nas marcas exteriores. É o espelho que nos fala disso. Cá dentro as coisas mudam muito pouco. Não houvesse espelhos e alguns anos eram como se não tivessem passado.

Mas há também os joelhos e os rins. Além das rugas que sobem dos cantos da boca à base do nariz. Há os cabelos que embranquecem e os que caem, cabelos esquecidos. O corpo não acompanha a mente. O corpo muda muito mais. O corpo e a mente vivem vidas diferentes, tempos diferentes.

Por vezes tenho a sensação de que o corpo e a mente existem em espaços não coincidentes e que a vida neste mundo (que mundo?) é a suprema ilusão de uma existência comum. Ser, parecer, parecer ser.

Estico as pernas e sinto-me melhor. Uma certa tensão muscular é fonte de algum regozijo. 

sábado, janeiro 06, 2018

Confusão interna

Há por aí muita gente com anseios de governação. Querem ser quem manda, quem orienta, quem aponta os horizontes para os quais deveremos apontar as nossas pencas. Em nome de quê? Quem lhes espevita a vontade de assim serem? Que coisa lhes acende a vaidade necessária à ambição?

Não sei, não compreendo. A alguns logo lhes vislumbramos o rabalhão gordo, a vigarice a iluminar-lhes a beiça luzidia. Mas outros há que não, que nada transparecem quando se lhes olha a gula das riquezas. São movidos apenas pelo sonho de mandar, pelo desejo de serem adorados, pela soberba de pisarem a vermelha passadeira?

Por vezes penso que melhor seria não haver Governo. Outras vezes dou por mim a desejar um Governo bem mais forte que o que há. Dança-me o entendimento em passos tão largos que por vezes me sinto muitíssimo estúpido. Fico confuso e desalentado. Não sei, não compreendo.

Olhando alguns desses ambiciosos cidadãos, ouvindo a torrente de palavras que largam boca fora, como se fosse um rio imparável na busca de um mar que desconhece, sinto uma espécie de raiva que não quero. Preferia o desprezo mas não posso, não consigo, não sei, não compreendo.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Fim de tarde cinzento (escuro)

Não sei se é de agora, se é coisa que venha já lá de trás, de tresantontem; não sei se é coisa nova, se velha. Está aqui. Agora mesmo. Está lá fora.

É uma histeria, um reboliço, gritaria, inquietude, uma boçalidade alarve, um ruído constante, irritante, com picos de estridência e trovões ocasionais de vozes mais grossas, encontrões nas portas, não sei bem. Estou cá dentro.


terça-feira, janeiro 02, 2018

Uma dúvida existencial



Estive a rever os meus desenhos de 2017. Foi um ano de grande produção, desenhei como raras vezes me lembro de o ter feito. Provavelmente foi o ano da minha vida de maior produção artística,criei dezenas de peças, ultrapassei, seguramente, a centena. Porquê?

Sim, por que razão se passou isto em 2017? Não é um número redondo, fiz 54 anos, não tive nenhuma exposição especial... o que me levou a desenhar tanto e de forma tão continuada?

De há uns anos para cá que, quando penso no tempo que já vivi, constato uma coisa óbvia: já lá vai muito mais de metade do tempo que tenho guardado na caixinha do meu destino. Já lá vão dois terços ou mais, como saber o tempo que me resta?

É essa dúvida que começa a mexer com os motores da minha existência quotidiana e me torna um pouco ansioso, quase muito, no que diz respeito à produção artística que imaginei ser capaz de conceber e transformar em objectos palpáveis? Será por isso que 2017 foi um ano tão produtivo?

Mal posso esperar por 2018.

segunda-feira, janeiro 01, 2018

Olá, outra vez

E pronto, hoje é o tal ano novo. Um dia sucede a outro e... punfas: passou um ano! Um ano inteiro metido no intervalo incomensurável que trauteia entre o final da 24.ª hora de um dia e o primeiro segundo da primeira hora de outro. É uma coisa pífia, um nada grandioso, um momento onde se descarregam sonhos como lixo a ser despejado numa grande lixeira. Daqui a nada já esquecemos a maioria.

A rua está tão sossegada. Antes fosse prenúncio dos tempos que se avizinham mas, amanhã, o trânsito ansioso, as pessoazinhas apressadas, o fulgor paranóico do quotidiano regressará em força para mostrar que um novo ano é sempre o prolongamento do velho. Nada mais.

Ainda assim, seja como for, que tenhas um novo ano cheio das banalidades que costumam desejar-se, ó meu muito caro leitor.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Tempo fora do Tempo

O tempo entalado entre o dia de Natal e o de Ano Novo é uma coisa em suspensão, são dias que não existem. Está tudo à espera que venha a noite de passagem de ano. As horas arrastam-se e as pessoas ora estão de férias, ora não estão. Mesmo as que trabalham já não trazem as ideias dentro da cabeça, já as atiraram lá para diante, para o dia 2 ou 3 do ano seguinte porque dia 1, decididamente, é um dia a menos no calendário, dia de Santa Ressaca.

Sinto uma certa propensão para a irritação. Apetece-me escrever coisas agressivas, arrasar tudo, dizer mal de todos. Ando carrancudo, a destilar maus fígados. Refugio-me no atelier, a desenhar. Faço mais uns quantos desenhos negros, revejo os antigos, aproveito para passar em revista o trabalho recente.

Tento distrair-me enquanto aguardo que o tempo regresse no seu fluxo normal.

terça-feira, dezembro 26, 2017

26 de Dezembro

26 de Dezembro é um dia como os outros mas com alguns pormenores um pouco lixados. É o dia das trocas, entre outras coisas.

Filas de pessoas com saquinhos que transportam prendas para troca. Coisas que se ofereceram a alguém que já tinha coisas iguais (ou equivalentes), prendas que se receberam com um sorriso nos lábios e algum desprezo no coração, várias são as razões que levam os consumidores a entrar nas lojas com sacos nas mãos, um pouco ao contrário do que é habitual (sair delas com os tais sacos pendendo).

Não é bem uma ressaca mas anda lá perto. O Natal do Consumo é, de facto, uma boa merda.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

É Natal

Sopra uma ligeira brisa. Imagino que venha da Lapónia embrulhada em papel estampado com renas de narizes vermelhos como papoilas. Sopra sobre a fila de carros ordenados em formato de serpente que se enfiam na barriga do centro comercial. Carros com pessoas dentro que têm desejos dentro de si, imensa matriosca natalícia: centro comercial, carros, pessoas, desejos, por esta ordem.

A brisa é fresquinha, agradável, um friozinho limpo que ajuda a compor a época que atravessamos. Imagino o Pai Natal, balofo, vagamente bonacheirão, um pouco desagradável nos modos porque responder a tantas solicitações não deve ser pêra doce. Além do mais é necessário meter na ordem todos aqueles duendes que trabalham afanosamente para que o trenó esteja pronto e preparado no dia certo.

Sobrevoar o mundo inteiro a descer por chaminés não é propriamente a profissão ideal para um gajo com problemas de obesidade. Se não fosse distribuidor de presentes o que faria o Pai Natal para pagar as contas? Talvez pudesse tentar uma carreira na publicidade. Teria ele um sucesso semelhante ao Cristiano Ronaldo ou à Charlize Theron?

Sopra esta brisa, quase vento, que confunde o calor do sol, o Menino Jesus a competir com o Astro-Rei, como é costume. A santidade a bater-se com sentimentos profanos e ansiedades consumistas... é Natal!

terça-feira, dezembro 19, 2017

Matemática desaplicada

Vivo entre multidões. Grandes ou pequenas multidões, todos os dias me movo dentro de algum grupo de pessoas. Tenho o hábito de as olhar, por vezes distraidamente, outras vezes de forma mais atenta. Imagino que haja ocasiões em que olho as pessoas de forma demasiado atenta mas... adiante.

Ontem, no centro comercial (essa multidão transmutada em edifício mastodôntico), reparei numa mulher que me fez lembrar uma outra, uma ex-colega que havia visto há coisa de uma semana durante uma travessia do Tejo. Não é habitual ver essa ex-colega mas aquela tal mulher pareceu-me de tal modo semelhante a ela que imaginei a possibilidade de serem irmãs.

Um pensamento assim é indolência cerebral, não tem a mínima importância. Continuei e, três passos adiante, ai caramba! Vejo a minha ex-colega a cumprimentar um amigo.

Ali estava ela, logo após me ter lembrado que uma mulher (que talvez nunca mais me aperceba de ter visto) poderia ser sua irmã ou algo do género. Logo após me ter lembrado de uma pessoa que raramente vejo e à qual mal me dirijo, uma pessoa cuja existência rara e dificilmente me ocorre, catrapunfas! Ali estava ela.

Ok, ok, eu sei, mas que merda de história é esta? Registo-a aqui apenas porque, quando vi a minha ex-colega a conversar mansamente com o amigo, me ocorreu uma pergunta: que possibilidade estatística havia de acontecer uma coisa destas? Lembrar-me de uma pessoa através de outra e ela aparecer-me imediatamente a seguir?

Soubesse eu alguma coisa para lá da Aritmética simples e talvez pudesse especular sobre a tal possibilidade estatística mas a Matemática nunca foi das minhas relações mais próximas.

Releio o que acima ficou escrito e apetece-me perguntar: esta coisa não tem interesse nenhum, pois não?

domingo, dezembro 17, 2017

Sensações

Estou a reler a "História Universal da Infâmia" de Jorge Luís Borges. É maravilhoso! Sempre que leio Borges é como se ouvisse uma voz dentro de mim (não é dentro da minha cabeça, nem dentro do coração, é dentro de mim, algures, eventualmente num pé ou no fígado, não consigo precisar).

Acontece com Borges como acontece com Bolaño ou com Paulo Varela Gomes ou Teresa Veiga, acontece com certos escritores de língua portuguesa ou castelhana (traduzida). Sinto vozes quando leio estes autores.

Com Ian McEwan, por exemplo, ou Paul Auster, não sinto vozes, viajo para lugares específicos. São espaços arquitectónicos que me envolvem (ou serão paisagens?).

Fico a pensar que os autores de língua latina me falam e os anglófonos me transportam.

terça-feira, dezembro 12, 2017

Ditados populares

Olhar a nossa sociedade com uma lente de aumentar não é nada boa ideia. A menos que tenhamos um cargo importante, que implique análise e decisão da coisa pública, melhor será padecer de uma certa miopia.

Quando a imprensa nos empresta uns óculos graduados e nos põe à frente do nariz certas cenas menos recomendáveis lá temos nós de olhar e ver. Ver é, por vezes, uma coisa extremamente desconfortável.

Quando vemos essas tais cenas horrendas ficamos a pensar no que não vemos, ficamos a pensar na bicharada imunda que se desloca nas sombras húmidas do anonimato.

"Longe da vista, longe do coração", diz o povo.
Longe do coração e longe do cérebro, longe de tudo, direi eu (que também sou povo): "quem não sabe é como quem não vê"... e vice-versa.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Rabo de fora

Não há nada mais estúpido do que ordenar a existência humana segundo padrões de comportamento pretensamente estabelecidos por uma divindade. É que, para podermos aceder aos desejos, objectivos e imposições do Ser que nos é superior, temos de aceitar uma qualquer intermediação. Para acedermos à informação necessária temos de confiar em quem no-la transmite. Isto é "bullshit", como dizem os outros.

Acreditar que a Bíblia contém a Palavra é uma patetice, baixar a cabeça em presença da Torah, crer no Corão... mais patetices. E por aí adiante. O mais perigoso nem é a literatura inclusa nestes livros, o perigo reside nas mentes distorcidas daqueles que estão encarregues de interpretar os textos de forma a que nós, comuns mortais, possamos obedecer cegamente a... a qualquer coisa difusa que eles vislumbram lá pelo meio das palavras, pois que misteriosos são os caminhos de todos os Senhores.

A Fé tem razão de ser. Mas obedecer cegamente a um exército de imbecis investidos de um poder fantasmático que lhes confere o poder de nos enviar direitos para uma Eternidade repleta de penas e castigos ou, pelo contrário, oferecer-nos as delícias de um paraíso que está sempre muito para além da nossa capacidade de imaginação, obedecer aos padres sejam eles de que cor ou credo forem, isso é uma violação que executamos sobre nós próprios.

Eu gostava de acreditar em Deus mas não sou capaz. Cada vez mais O vejo como sendo um gato. Um gato grande, gordo e pouco educado, escondido atrás do sofá mas com aquele enorme rabo de fora.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Mundo profundo

Pensamentos disparados por um cupido velho cruzam o horizonte dominado por um batatal que ninguém se deu ao trabalho de colher. Estou sentado na carapaça de uma tartaruga inerte. Crianças brincam displicentemente com objectos que, vistos daqui, me parecem ossos esbranquiçados pelo uso. É um sonho que me esqueci de ter sonhado.

domingo, novembro 26, 2017

Censurado

Leio o jornal, os suplementos dominicais, as revistas em papel acetinado, leio posts no facebook, artigos de opinião, prosas engraçadotas, palavras ditas nos bicos dos pés e há uma palavra que se esgueira até ao topo do meu pensamento: FODA-SE!

Devo estar maldisposto.

sábado, novembro 25, 2017

Um certo terror

Quanto mais por aí ando mais me convenço de que estar vivo é temer ser ignorado. Nada aterroriza mais um ser humano do que a irrelevância, a transparência absoluta do Ser. Sermos olhados e termos a sensação de que  aquele olhar nos trespassa que somos camaleões perfeitos que nos confundimos com as paredes com os placards publicitários com os faróis apagados dos automóveis. Ah, horror dos horrores, não sermos nada é muito pior que não sermos ninguém!

domingo, novembro 19, 2017

Globalização

Esta coisa da globalização é uma teia complexa tecida a fio de merda. Desde o início da coisa (lá para os noventas) que logo se percebeu o logro que nos era enfiado goela abaixo. A globalização era, apenas, a globalização da economia, essa deusa-puta.

Globalizava-se a facilidade de circulação do capital mas nada se fazia em termos sociais ou políticos, por exemplo. Melhor dizendo, as questões sociais e políticas deveriam moldar-se nos altares da deusa-puta e mais nada.

Passadas duas décadas (ou três) o resultado previsto confirma a monstruosidade da coisa: uma percentagem cada vez menor de cabrões detém uma percentagem cada vez maior da riqueza produzida. A desigualdade é cavalgante.

Os ricos não têm nacionalidade ou, melhor dizendo, a riqueza é a sua nacionalidade sejam eles originários de onde forem.

Fomos bem enganados, como patinhos que sabem bem nadar, cabeças para baixo, rabinhos para o ar. Agora assistimos em pânico ao desabar das estruturas sociais e agitamos braços e bandeiras em desespero. Estaremos a tempo de inverter a desgraça?

domingo, novembro 12, 2017

Memória

A memória é uma coisa estranha; inventa-se a si própria, autonomiza-se, deixa-me sem saber o que de facto aconteceu, leva-me a acreditar mais nela do que em mim. A memória é como um animal de estimação a tiranizar o dono: quem possui o quê?

A memória é como água perdida numa estrutura arquitectónica, a furar, a encontrar sempre um buraquinho por onde passar, a inundar os espaços mais largos: a memória é uma inundação inesperada e surpreendente.

Tenho uma memória tão subtil que sou levado por ela a acreditar que é fraquinha, que não tem poder, que falha. A minha memória é tramada. Prega-me partidas constantemente. Sinto-me indefeso perante as suas traquinices. É ela quem me constrói o passado mas não lhe permito que me influencie o futuro. Acho eu...!

sábado, novembro 11, 2017

Este nosso Ubu


Adaptar o Rei Ubu para o Teatro na Gandaia foi a coisinha mais apaixonante que me foi permitida experimentar desde que ando a fazer pelo teatro. A princípio senti-me um pouco (muito) intimidado; era o respeitinho a fazer-me tremer as manitas sobre o teclado, o não querer defraudar o autor, nem a tradição, muito menos a grandeza da coisa, enfim, estava um tanto ou quanto acagaçado. Li versões que fui encontrando, observei longamente milhentas imagens das milhentas encenações que pululam nas páginas da Net, nada me descansava, antes pelo contrário. Quanto mais penetrava o espírito da coisa mais me parecia estar com o rabo à mostra. Sentia uma espécie de frio nas nalgas, o nariz enregelado mas… eu seja corno, havia que meter mãos à obra e deixar pruridos merdosos no fundo da gaveta: ou bem que somos homens ou então somos ratos ou outra merda qualquer, gâmbias de Deus!
Acredito piamente que a arte é uma massa informe (uma coisa plástica) que se encontra eternamente em suspensão à espera que alguém lhe deite a unha e faça dela uma coisa nova. Uma forma artística depende do tempo e do lugar em que vê a luz, não há vacas sagradas. Traduzir um texto é sempre reescrevê-lo. Perante o Ubu não havia que temer. Afinal de contas trata-se de um texto tão desopilante que se pode fazer dele quase tudo o que se queira desde que se mantenha fidelidade absoluta à brutalidade daquele gajo hediondo que tem como objectivo principal viver acima das suas possibilidades à custa do sofrimento alheio. Uma personagem clássica, aquele Ubu.
Como referências tinha o exemplo da banda que dá pelo nome de Pére Ubu e o dos punks de um modo geral, admirava de toda a minha alma os dadaístas nas suas múltiplas e corrosivas formas de expressão artística (ah, o grande Dada Max!), sentia-me capaz de fazer alguma coisa concreta e consequente com aquela massa plástica que o texto de Jarry colocava à minha frente, só me faltava o atrevimento que, confesso, não será o meu ponto mais forte nem mais óbvio. Lá me convenci a meter mãos à obra; primeiro titubeante, às apalpadelas, depois, à medida que ia avançando, cada vez mais convicto e mais feliz por me permitir a liberdade de comungar daquela intemporalidade maravilhosa que ia descobrindo a cada passo. Quando terminei percebi que participara na gestação de uma coisa selvagem.
Entreguei o texto à Ana Nave confiando na sua capacidade de dar vida ao texto mais abstruso, a sua extraordinária capacidade de fazer o teatro acontecer. Agora havia que aguardar.
Passaram meses de ensaios. Domingos e segundas-feiras. O grupo de actores foi-se ajustando, tal como o texto. A tal massa informe a ganhar contornos visíveis. A Rafaela Mapril tornou reais as figuras das personagens com esplendorosos figurinos, o Zé Rui iria ser o responsável por esculpir o espaço cénico a golpes de luz, tudo se conjugava daquela forma próxima da magia que é própria do Teatro.
Quando assisti ao primeiro ensaio geral fiquei embevecido. Apesar de todas as irregularidades e arestas por limar a coisa tinha a força que imaginara: grotesca, excessiva, brutal, potencialmente repelente mas plena de força, carregada de um vigor e de uma boçalidade capazes de incomodar os espíritos sensíveis, tal qual imaginara que poderia ser. Acredito que o resultado deste trabalho apaixonado não envergonharia o próprio Jarry, passe a imodéstia.
No dia da estreia compreendi que das duas uma: o espectador iria amar aquele objecto teatral ou odiá-lo, não me parece que a magnífica representação de todos os actores que estiveram em palco possa ter proporcionado sentimentos próximos da indiferença aos que assistiram, sentados na plateia do António Assunção.
Não há agradecimentos a fazer. O Rei Ubu não se agradece, faz-se!

segunda-feira, novembro 06, 2017

Bom tempo

O sol brilha, faz calor, a cidade vive mais um dia sossegado. Está bom tempo.

Chove a cântaros, as pessoas passam encolhidas debaixo dos guarda-chuva, os carros circulam com dificuldade. A cidade vive um dia difícil. Está mau tempo.

É assim que consideramos o estado meteorológico: sol é bom, chuva é mau. Nada mais estúpido do que esta apreciação egoísta e inconsciente.

Sem chuva não tarda a faltar água. Aliás, o país vive há anos em situação de seca mais ou menos severa, extrema em certas zonas do território. Apesar de ainda não sentirmos essa escassez nas torneiras das nossas casas, quem vive fora das cidades e precisa de água para a agricultura ou para satisfazer as necessidades dos animais que cria sente uma angústia crescente.

Fiz uma viagem até à Beira Alta. Depois de sair da A1, entrando pela IP3 dentro, comecei a ver os efeitos devastadores dos incêndios que assolaram o país, naqueles dias em que, na cidade, fez um tempo maravilhoso. Ali, no interior do país, foram dias infernais, dias de muito mau tempo.

Talvez devêssemos pensar um pouco mais quando classificamos o tempo que faz. Nos dias que correm, para que o tempo seja bom, estamos desesperadamente necessitados de chuva. Precisamos de muita chuva, imensa chuva, para que os próximos dias sejam esplendorosos. 

quarta-feira, novembro 01, 2017

Afectos

Muito se tem por aí falado de afectos nos últimos tempos. A questão da forma como os políticos reagiram à tragédia contínua dos incêndios e das mortes por eles provocadas é uma questão muito pantanosa.

Costa não mostrou consternação adequada, já Marcelo foi autêntica Madalena  e muito comoveu o nosso povo. Encontrou-se ali uma nesga de oportunidade para desenvolver duvidosa narrativa com os afectos como pano de fundo.

Nunca gostei de velórios nem de funerais. Talvez porque não tenho a certeza de como é suposto comportar-me nesses momentos de dor. Tenho lágrima fácil e comovo-me com facilidade perante a dor alheia mas não sei medir se é muita dor ou se é poucochinha.

Quer-me parecer que esta história é coisa que mete muita lágrima de crocodilo. Não confio em pessoas que choram com excelência e no momento exacto. Os crocodilos usam gravata preta.

sábado, outubro 28, 2017

O perfume

Começa a cheirar a PPD e fica muita gente um pouco doida, um pouco inebriada. É como se a Primavera chegasse no lugar do Inverno, montada nele, a sorrir, disparando sorrisos na direcção da populaça.

Nota-se nas páginas dos jornais, nas entrelinhas, nos noticiários, nos discursos de gente boa (e de gente má também), enfim, sente-se a possibilidade de um Renascimento. Até já se fala outra vez do "arco da governação" e do bom que era o PPD e o PS serem outra vez amigalhaços. Ou ainda numa super-geringonça que metesse ao barulho os partidos todos, de esquerda e de direita e os que são nem uma coisa nem outra, uma espécie de grande cozido à portuguesa. Com todos, como o bacalhau.

O que me surpreende nesta história que agora se desvela é a facilidade com que se criam narrativas mediáticas e se dá a volta a um tão grande número de pessoas só assim, com um estalar de dedos.

Dizia o outro que venderia com a mesma eficácia sabonetes ou presidentes de república. Basta um bom perfume para que um monte de merda quase mude de figura.

quarta-feira, outubro 25, 2017

A coisa vai indo

Desde os tempos em que o PREC foi ao fundo que temos sido governados por uma facção do Parlamento, ali do centro para a direita do hemiciclo. Ora sós, com maiorias absolutas do PS e do PPD, ora mal acompanhados, com o CDS ou com o PPM, criou-se uma espécie de aristocracia democrática que foi orientando as cenas em proveito de... não sei que diga. Em proveito de alguém, pronto, não quero parecer demasiado injusto.

Foi o ministro que se demitiu irrevogavelmente, se não estou em erro, quem criou a expressão "arco da governação" para designar aqueles que, na sua visão muito particular, tinham o "savoir faire" necessário para meter as mãos na massa da República. Claro que o seu partido fazia parte daquela nata social e ele, mais do que qualquer outro, tinha todo o direito de decidir os destinos da nação, submarinos incluídos.

Foi também este rapaz-maravilha quem, em tom jocoso e confiando na vinda do Mafarrico, designou por Geringonça o arranjinho com que Costa, Jerónimo e Catarina Martins lixaram bem lixado o "arco da governação". À direita ninguém acreditava que os comunistas fossem capazes de engolir tantos sapos mas a verdade é que eles se habituaram ao desagradável menu e lá vão mantendo a geringonça a funcionar aos soluços.

Estou convicto que as maiorias absolutas tendem a corromper a Democracia. Principalmente quando são figurões da estirpe de um Relvas ou de um Lelo do PS (só para dar dois exemplos de vigaristas encartados que me vieram de repente à memória) a orientar a formação de listas de candidatos a deputados e a puxarem os cordelinhos que fazem levantar e sentar os rabisoques nas bancadas da Assembleia.

A Geringonça funciona mal? Podia funcionar melhor mas não é capaz disso. No entanto prefiro esta Geringonça a cagar e a tossir do que o "arco da governação" em todo o seu esplendor.

domingo, outubro 15, 2017

Declaração de amor

A acusação do malfadado Processo Marquês vem fazendo sonhar muitos cidadãos portugueses. Iremos andar embrulhados em questões processuais que, decerto, irão dourar muita pílula, entravar muita investigação e desviar atenções.

Iremos assistir a condenações em praça pública e a juras de amor à presunção de inocência; enfim: vamos assistir a uma sucessão de trambolhões magníficos e espectaculares para gáudio da populaça e exibição de extraordinários dotes jurídicos dos causídicos envolvidos no drama que se segue.

Os abutres aguardam, poisados num ramo seco de uma árvore morta.

É por estas a por outras que tenho um particular apreço pela Geringonça. O Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda nunca fizeram parte do malfadado "arco da governação", essa espécie de qualidade misteriosa que enformaria uma elite capaz de governar a nação portuguesa e que, quem não tinha percebido percebe agora, não era mais que uma associação de malfeitores, os vampiros da canção de Zeca Afonso.

Com a Geringoça a guardar o portão da quinta, a bicharada malcheirosa fica a rosnar do lado de fora. Um ou outro, mais atrevido, ladra alto e bom som, mas a coisa fica mais difícil para os monstros glutões que devoram a nossa riqueza comum. A imbecilidade de um Cavaco ou a sonsice de um qualquer Coelho já não fazem grande mossa.

Apesar de todas as suas incongruências e evidentes deficiências físicas, amo a Geringonça. Espero que se mantenha durante muitos e bons anos mas já se adivinha a impaciência dos adeptos do "centrão". Com Rui Rio a chegar-se ao cadeirão do PPD vai-se sentindo muito esfregar de manápula  e um certo pivete ansioso começa a sentir-se outra vez.

Tenhamos o bom senso necessário para evitar que os abutres desçam, de novo, em vôo picado sobre a carcaça agonizante do nosso país. Eles andam por aí!

sexta-feira, outubro 13, 2017

Bombas

Sinceramente não sei porque hei-de ficar inquieto caso o Irão consiga fabricar armas atómicas. Nem sei porque hei-de ficar mais inquieto por essas armas já fazerem parte dos brinquedos do rei-comunista da Coreia do Norte. Inquieto já eu estou pelo simples facto de armas desse género existirem um pouco por todo o planeta. É o bastante.

É suposto eu, na minha qualidade de cidadão ocidental, ser a favor da existência, manutenção e expansão dos arsenais nucleares dos países considerados democráticos? Veja-se o caso dos EUA e do tolo alucinado que agora senta o olho do cu no vértice da pirâmide do poder lá da terrinha. Com uma besta daquelas a ter acesso ao botãozinho nuclear podemos nós estar descansados? Claro que não.

O problema da sociedade global e informatizada parece ser a sua novíssima capacidade de eleger anormais para cargos de poder e publicitar com estrondo os peidos e arrotos de todos os mentecaptos que orientam os destinos dos povos. Sim, dos mentecaptos, porque aqueles que governam com sabedoria e equilíbrio raramente são motivo de notícia.


quinta-feira, outubro 05, 2017

Memória vaga

Lembro-me vagamente de ser criança e olhar para os mais velhos com admiração e respeito. Acreditava que os cabelos embranqueciam à medida que uma pessoa se tornava mais sábia.

Não eram só os mais velhos que me enchiam o peito daquela reverência infantil, também os que desempenhavam papéis sociais relevantes mereciam a minha admiração. Decerto seriam pessoas especiais para terem chegado ali, ao vértice da pirâmide que se erguia no lugar que ocupavam.

O tempo passou e eu próprio fui ganhando cabelos brancos e uma barba branca e percebi que, afinal, isso não tem nada de extraordinário, nem é isso que nos confere a autoridade que me fascinava quando vivi num corpo de criança.

A autoridade é um bicho estranho e inquieto e tem muitas origens diferentes, nem todas merecedoras de admiração, muito menos merecedoras de reverência.

segunda-feira, outubro 02, 2017

Armaduras pretas

O que se está a passar na Catalunha é uma grande confusão. Assistimos incrédulos a uma escalada de violência que poderia perfeitamente ser evitada caso houvesse interesse de parte a parte em que as coisas acontecessem de acordo com o bom senso. Mas não. A uns aproveita a violência, a outros está-lhes na massa do sangue.

No meio do terramoto o povo anónimo. Não duvido que, caso fosse catalão, haveria de andar a levar porrada da Guarda Civil. Mas, estando descansadinho cá no meu Portugal, olho para tudo aquilo com uma enorme dose de desconfiança.

Fica a imagem da brutalidade do estado policial. Aqueles cães de fila, enfiados nas suas armaduras, protegidos por capacetes negros, são o símbolo do poder, a sua materialização junto de quem protesta e clama por aquilo que acredita serem os seus direitos. Não há diálogo, apenas violência. Todos sabemos que a violência se propaga como um incêndio em dia de Verão.

Rajoy é um pirómano perigoso e Puigdemont, para apagar o fogoléu, traz um bidão de gasolina em cada mão. Não é preciso fazer um grande esforço de memória para recordarmos situações vagamente semelhantes um pouco por toda a Europa. Sempre que o povo sai à rua lá aparecem os gajos das armaduras pretas e dos capacetes fechados.

São as forças que garantem que a Democracia funciona como DEVE ser.

sábado, setembro 30, 2017

Putas Assassinas

Lendo Bolaño sinto uma estranha vertigem, um vago reconhecimento. As suas personagens parecem vogar indefinidamente num espaço que nunca lhes pertence, como se fossem sempre estrangeiras, mesmo no seu próprio país ou na sua cidade, até mesmo no seu corpo.

Nos seus contos e romances sinto a solidão como o mais perigoso dos animais selvagens. Um bicho terrível que procura enjaular-se nas almas das pessoas para depois as roer por dentro, como na mais terrível das torturas chinesas, aquela que implica uma gaiola e uma ratazana esfomeada.

Ando a ler As Putas Assassinas.

domingo, setembro 24, 2017

Domingo outra vez

Estar junto a alguém, pertencer a alguma coisa, não ser irrelevante, fugir da invisibilidade como se fôssemos o diabo a fugir de um padre pedófilo empunhando a cruz de Cristo. Olho as faces das pessoas, espio-lhes os gestos, as poses, ir ao centro comercial é como ir ao teatro.

Há uma ameaça séria a pairar sobre o planeta, um espectro maléfico de guerra nuclear. Regredimos 40 anos, mais uma vez tenho a sensação de que não há futuro só que agora sou outra pessoa. Tenho a sensação de que a diferença entre os tempos da Guerra Fria e estes que agora vivemos é que os líderes ficaram muito mais loucos, que são muito mais brutos.

Preparo para mim uma tarde descansada. Talvez pinte um pouco, talvez leia, talvez não faça nada e exerça o meu direito à preguiça. Por vezes penso como terão sido os últimos dias do Império Romano, como viveram os habitantes de Roma os dias que antecederam a invasão da cidade.

quarta-feira, setembro 13, 2017

O dia das eleições

É sempre a mesma bambochata, o dia das eleições em Portugal é como se fosse uma coisinha feita de cristal que é preciso tratar com o máximo dos cuidados não vá desfazer-se ao mais leve sussurro.

A abstenção tem vindo a aumentar, o povo eleitor parece cada vez mais arredado das urnas e das cruzinhas no boletim de voto. Tenta-se explicar a a abstenção das mais variadas formas: o povo baldou-se porque estava a chover ou porque estava calor e foi para a praia. Ou porque era um fim-de-semana prolongado e emigrou em direcção ao Sul, ou porque outra coisa qualquer.

Em suma, todas as razões são boas para não votar. Não é que o povo se esteja a marimbar para o seu dever cívico, não! O povo até queria cumprir o ritual democrático mas há sempre qualquer coisa a distraí-lo.

Desta vez a questão de lesa-democracia é a marcação de um jogo de futebol entre o Porto e o Sporting para esse dia 1 de Outubro de 2017. Haverá alguém que deixe votar porque se joga futebol lá para o fim da tarde? Se isso acontecer parece-me que o problema é do eleitor e não do jogo. Tal como não me parece correcto culpar a chuva ou o sol da falta de cultura democrática.

Talvez os partidos políticos e os candidatos e os meios de comunicação social tenham algumas culpas no cartório. Mas não, o futebol é bem mais fácil de culpar.


segunda-feira, agosto 21, 2017

Ter razão

Todos queremos ter razão!

Vá lá, não adianta estares a rebuscar na tua cabeça se queres ou não ter razão, surpreendido leitor, não vais conseguir encontrar uma justificação aceitável que comprove a tua humildade. Népias, não te safas com facilidade porque a tua Consciência (ou Alma ou lá o que é essa Coisa) está sempre a segredar-te coisas ao ouvido e não te deixa mentir a ti próprio.

A nossa necessidade de ter sempre razão leva-nos a estar constantemente a pensar na melhor maneira de o provarmos. Nota bem: não conseguimos ter razão mas podemos provar que a temos. Confuso, não? Pois, também me parece. É exactamente o que se está a passar comigo à medida que vou escrevendo estas palavras; eu quero ter razão quando afirmo que todos queremos ter (sempre) razão mas não sou capaz de encontrar um discurso suficientemente poderoso que justifique esta patranha.

Todos queremos ter sempre razão!

A melhor maneira de ter razão é ser agressivo, ser afirmativo, avançar como se o nosso pescoço não fosse capaz de nos voltar o olhar para trás. Ter razão é como ter um torcicolo. Só é doloroso se deixarmos a única posição confortável.

sábado, agosto 19, 2017

Macaquices

Ler, ver, filmes, ouvir música, conversar, é como aquela cena dos três macacos mas sem as patas a tapar os olhos, os ouvidos ou a boca. Somos feitos disto, é este alimento que, de alguma forma nos vai fortalecendo o corpo por via do espírito. Somos macacos cultos.

A cena dos macacos tem a ver com um provérbio eventualmente chinês mas que terá ganho os galardões de universalidade por via japonesa. A ideia é não ver o mal, não ouvir o mal e não falar mal, uma via para a sabedoria e a santidade, um manual de bons princípios e humanismo à maneira oriental.

É complicado cumprir o objectivo dos três macacos sábios, afinal de contas somos apenas humanos.

terça-feira, agosto 08, 2017

Estação tola

A "estação tola" (silly season segundo os súbditos de Sua Majestade William Shakespeare) traz consigo a imbecilidade elevada à condição de coisa divina e os incêndios são o inferno na Terra. É assim mesmo, uma época de extremos, um lugar sem fronteiras demarcadas. As coisas entram umas dentro das outras como balas, como setas disparadas por um lança-mísseis.

Dizem-se enormidades, sucedem-se as catástrofes, a estupidez veste fato de erudição e o contrário é uma ratazana com penas a cantar dentro de uma gaiola dourada. Mas...

... será que este mundo ao contrário acontece apenas nesta época do ano? Não vivemos nós uma eterna "estação tola", longa e imprevisível como um inverno no mundo da Guerra dos Tronos?

Tudo pode não acontecer, bem como o seu contrário.

segunda-feira, agosto 07, 2017

Metafórico

- Quando temos uma ideia que não se revela grande coisa, melhor será deixá-la pairar, como se fosse um abutre a voltear lá no alto, namorando o corpo moribundo da nossa imaginação. Mais tarde ou mais cedo o abutre vai agir e alguma coisa haverá de acontecer. Quanto mais não seja, a ideia-abutre levanta vôo outra vez...
- E depois?
- Depois? Depois voa...
- Que metáfora de merda.