terça-feira, agosto 28, 2018

Chateação

Não gosto nada de estar chateado. Haverá quem tenha prazer nisso? Na minha opinião, a chatice atravanca o cérebro, ocupa demasiado espaço. A solução é descarregar-lhe o autoclismo e deixá-la ir cloaca abaixo. Ainda assim, mesmo depois de a mandar para o esgoto a que pertence, fica sempre um bocadinho de chatice agarrado às paredes do crânio. Um bocadinho de nada, insignificante, mas capaz de deixar um gajo incomodado.

Benza-me Deus, estar chateado não é mesmo coisa para a minha cabeça.

sábado, agosto 25, 2018

Decadência

O corpo envelhece, as faculdades mentais degradam-se na razão inversa ao acumular de informação. A decadência do indivíduo é como uma perversão imposta por uma figura divina: quanto mais sabes menos serás capaz de processar aquilo que compreendes. Toma lá e não te queixes!

Obrigadinho, ó figura divina, bem podes enfiar a tua grandiosidade num sítio que eu cá sei.

Enquanto corpo social (verdadeiro protótipo daquilo que imaginamos ser uma divindade) também o processamento e aplicação do saber se torna um caso bicudo. Sendo mais as vozes que as nozes é uma confusão de ideias e princípios que se enredam uns nos outros e fazem tropeçar a nossa vida em comum. Cambaleamos em direcção ao abismo.

Imagino que o azedume que hoje me faz escrever estas linhas seja um sintoma de envelhecimento da alma que me anima. Ou talvez não, isso não interessa nada (nadinha!) quando penso no conjunto da Humanidade.

Não é por morrer uma formiga que o Inverno não regressa.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Eça pode esperar


Parece-me discutível afirmar que, ao retirar dos programas escolares a obrigatoriedade da leitura de “Os Maias”, se esteja a “não dar aos alunos a hipótese de ler a obra-prima de Eça de Queirós” e a “impedir o acesso dos jovens a um monumento literário (…)” como afirma António Carlos Cortez em texto publicado neste jornal no dia 14 do corrente mês de Agosto. Quando frequentei o ensino secundário, nos anos 70 do século passado, apesar de todas as pressões sobre mim exercidas, resisti heroicamente à leitura integral do referido monumento. Embora tivesse o hábito da leitura os meus interesses naquela época eram outros. Preferia, de longe, a Colecção Argonauta depois de ter papado os clássicos que eram uso e costume papar naquela época. Lembro-me como se fosse hoje do fascínio que exerceu sobre o meu imaginário “O Romance da Raposa” logo após ter aprendido a juntar as primeiras letras. A comoção que me causou “O Príncipe e o Pobre” ou o fascínio aventureiro de “A Ilha do Tesouro”, o doce terror que me provocaram “As Aventuras de Huckleberry Finn” ou as peripécias de Tom Sawyer. Isto, lá em casa. Na escola tentaram impingir-me coisas difíceis de tragar. “Constantino, guardador de vacas e de sonhos” ainda vá que não vá, já “Os Esteiros”, para um rapaz de 12 ou 13 anos, vai lá vai! Logo me atiraram “Os Lusíadas” à cabeça. O hematoma foi de tal sorte que, até hoje, não li integralmente a obra-prima da nossa literatura. Com “Os Maias” foi diferente. Já adulto, senti curiosidade e li o livro de fio a pavio. Na escola tudo fiz para iludir a professora tentando convencê-la de que lia a obra quando, na verdade, contava as páginas que faltavam para chegar ao fim, saltando capítulos inteiros e fintando expressões que não compreendesse às primeiras. Uma seca, como diria o Eça. Seja como for, hoje sou um leitor razoavelmente curioso. A minha dúvida é perceber se o sou graças aos trabalhos forçados que me quiseram impor na escola ou se o sou apesar deles. As carpideiras da cultura que têm choramingado por aí a perda (!?) de Os Maias, querem mostrar-nos a grandeza da arte com argumentos que fariam roncar de tédio uma estátua de mármore. Estou convencido que há na vida um tempo certo para cada coisa e que há, de facto, aprendizagens essenciais que se afiguram muito mais prementes e determinantes que qualquer monumento literário nacional ou obra-prima universal. A mais essencial de todas é aprender a ser curioso e encontrar prazer no conhecimento. Se não conseguirmos impingir tais evidências à rebeldia adolescente bem podemos munir-nos de marretas e obras-primas para lhas martelarmos diariamente no meio da testa. Não adianta. Se, por outro lado, formos capazes de despertar na turbamulta a vontade de aprender Eça pode esperar descansado. Terá clientes.

Carta enviada ao director do jornal Público

quarta-feira, agosto 15, 2018

Tempo

Hoje tive a sensação de que o tempo não passa, antes se vai amontoando sobre nós. E isso nos verga e nos dificulta cada vez mais a acção, faz-nos acreditar que envelhecemos. O tempo torna-se um facto ao moldar o nosso corpo e a nossa mente.

Senti, depois, uma vaga esperança: talvez, se conseguirmos ignorá-lo, não lhe dar muita importância, talvez assim possamos permanecer menos velhos, fintando o tempo.

quarta-feira, agosto 08, 2018

Da luta contra a estupidez

Lutar contra a estupidez é complicado por ser uma luta que temos de começar a travar dentro de nós próprios. Nenhuma luta na qual somos o primeiro adversário a vergar prenuncia uma vitória que nos possa proporcionar orgulho suficiente e justifique o facto de termos apertado o pescoço ao inimigo.

Enfim, só poderemos almejar uma vaga esperança de vitória nesta luta caso estejamos dispostos a admitir que somos umas verdadeiras bestas em potência.

Convenhamos que não é empresa aliciante.

segunda-feira, agosto 06, 2018

Caraças!

É o caraças. é o caraças! Pode a arte, a grande arte, estou a pretender falar da grande arte, ser independente do poder? Quando me refiro ao poder estou a referir-me ao guito, ao carcanhol, à pasta, ao vil metal (onde é que isso já vai, o vil metal?): estou a referir-me ao glamour  de produzir objectos artísticos capazes de convocar a necessidade, por parte dos que detêm o dinheirame, de se fazerem representar na qualidade de possuidores da coisa. Pode o artista transformar-se em vedeta e continuar a ser o gajo genial que cagou no prato do senhor doutor?

sexta-feira, agosto 03, 2018

Ensino e aprendizagens


Quem ler algumas opiniões que vão sendo publicadas a propósito das Aprendizagens Essenciais recentemente impostas pelo Ministério da Educação pode ficar com a impressão de que estamos perante um recomeço ou que esta nova medida administrativa vem deitar por terra um edifício educativo que importa preservar. Nem uma coisa nem outra. É mais do mesmo, mais um remendo num edifício estranho, a ameaçar ruína. A qualidade do ensino sempre foi e será desigual; de escola para escola, de uma sala de aula para a sala do lado. Há bons professores, outros que são mais ou menos e alguns dos quais é melhor fugir. Os directores não são todos iguais, as instalações e equipamentos variam muito. A origem social dos estudantes é um dado importante mas não é impossível de combater. Em suma, com ou sem Aprendizagens Essenciais houve e haverá casos de sucesso e casos de insucesso. Colégios para meninos ricos e escolas para meninos pobres.
Penso que, numa futura reforma educativa (que não deverá tardar muito), seria importante debater a relação entre os diferentes ciclos de aprendizagem. Não parece justificável que a avaliação no Ensino Básico seja estabelecida numa escala de níveis entre 1 e 5 (alguém se recorda porque se instituiu esta escala nos finais dos anos 70?) para ser alterada no Ensino Secundário, quando os alunos passam a ser escalonados numa tabela que vai de zero a 20 valores que se manterá até à conclusão das suas licenciaturas à bolonhesa. O secretário de estado tem razão quando refere a extensão dos programas disciplinares. Muita gente concorda com ele. Fica a sensação de que, em algumas disciplinas, se quer ensinar tudo o que há para aprender no tempo curto que dura o Secundário (quem se der ao trabalho de analisar, a título de exemplo, o programa de História da Cultura e das Artes, que é ministrado em dois aninhos apenas, fica com os cabelos em pé!). Talvez isto se pudesse resolver se não existisse um abismo de incomunicabilidade entre o Secundário e o Ensino Superior. As Universidades, olhando-se no espelho da sua pretensa superioridade, reclamam da qualidade da matéria-prima que lhes chega todos os anos mas não se preocupam em procurar uma solução para o problema. Queixinhas e inacção, muito à boa maneira portuguesa. Quanto à choradeira que por aí vai por “Os Maias” deixarem de ser leitura obrigatória, sempre vos digo, caros amigos e colegas professores, todos nós lemos a obra quando frequentámos a escola (ou fingimos que a lemos) e, avaliando o estado em que se encontra o nosso sistema de ensino, podemos concluir que o resultado não terá sido lá muito famoso.

carta enviada ao director do jornal Público

segunda-feira, julho 30, 2018

Razão (e relevância)

Ter razão e ser relevante, é na ânsia de alcançar esta quimera que muita gente tropeça e se atropela correndo em direcção à luz da fama e do reconhecimento; ainda que construam ideias desossadas de um pensamento que lhes confira o suporte sólido de uma estrutura de suporte.

Ter razão implica que aquilo que se diz (pode não coincidir exactamente com aquilo que se pensa) é definitivo e pulveriza qualquer argumento que se aproxime a menos de vinte metros de distância.

Uma razão assim não é fácil de obter, muito menos será mansa. Uma razão assim é difícil de domar. Ser senhor de tal razão, uma razão que elimina e faz eliminar qualquer um que lhe pretenda mover oposição, é deter um temível poderio. É como ser um Deus que emana uma verdade absoluta e fundamental.

domingo, julho 29, 2018

Reflexão dominical

Ouvi dizer que ter consciência é lixado. Logo pensei que ter consciência disso é um passo direitinho na direcção do abismo. Lembras-te do slogan "droga, loucura, morte"? Sim, benévolo leitor, a consciência é a mais intoxicante das drogas. Para sobreviver neste mundo o melhor é evitá-la.

"Bem-aventurados os pobres de espírito porque é deles o reino dos céus" é um dito crístico que, com o tempo e o aturado trabalho de imbecilização levado a cabo pelos sacerdotes das mais variadas seitas, acabou transformado em incitação à beatitude fanática. É como se a finalidade da nossa existência fosse a de nos transformarmos em bovinos, ruminando enquanto contemplamos o misterioso palácio da sabedoria.

Ouvi dizer que ter consciência é lixado. Logo me apercebi que poderá ser uma razão para recusar a ajuda oferecida por pastores e missionários que nos abrem as portas do Paraíso a troco das nossas almas. Dar-lhes ouvidos é como traficar a alma com o diabo. Um diabo com penas brancas a disfarçarem-lhe o par de chavelhos, mas um diabo, sem sombra para a menor das dúvidas.

Ó leitor irmão, não querendo maçar-te mais com problemas alheios, concluo olhando o céu (que hoje está mais azul que a veste da Virgem) enquanto solto um suspiro e penso, sem querer pensar assim (mas penso): valha-me Deus.

quinta-feira, julho 26, 2018

Estar alforreca

Juram-nos uma sociedade democrática e enfiam-nos com esta merda pelas trombas abaixo! Um golpe de anca, uma sobrancelha franzida, uma negaça com o calcanhar alçado num gesto relampejante... estão a gozar connosco e nós a ver. Parados. Nós: quietos. Nem mexemos um musculozito que seja. Nada. Estamos alforrecas.

Garantem-nos que a Lei existe e nós não temos como duvidar. Está certo. Lá que existe, disso ninguém duvida. O problema está na forma como é aplicada. Passa de Lei a lei num abrir e fechar d'olhos.

Nunca teremos vivido num mundo tão abundante e tão pleno de possibilidades e recursos. E, no entanto, nunca teremos sido tão enganadinhos, benza-nos Deus.

domingo, julho 22, 2018

Tudo Pode Não Acontecer (1)

O melhor é um gajo dizer logo ao que vem!
Porque isto é como uma paixão, é como estar apaixonado. As coisas vêm por ondas e caem-te em cima. É um turbilhão que te leva de pantanas. Já nem sabes o que fazes; vais fazendo.

Sentes o coração a bater, a bater, a bater, és uma pista de dança onde a arte vem fazer o gosto ao pé. Ouviste bem? A arte não vem dançar contigo, vem dançar em ti. Ela é toda energia, toda flashes luminosos, é um descontrolo mas não é uma loucura. A arte não é uma loucura. Não. A arte é uma outra forma de consciência.

Pode ser apenas pensar com as mãos. Pode ser pensar com o que trazes dentro da cabeça ou com o que te acompanha o coração. As mais das vezes é um vazio que te sentes compelido a preencher. Mas, um conselho: o melhor é que mantenhas a serenidade porque tudo pode não acontecer.

sexta-feira, julho 20, 2018

Pensar com as mãos

Talvez a arte seja mais devedora de uma possibilidade de verdade que de uma possibilidade de beleza. Verdade e beleza, uma e outra tão difíceis de conter como água do mar na palma da mão. Poderemos capturar uma quantidade ínfima por um curto espaço de tempo até que nos fuja, escapando de novo para o lugar de onde tentámos retirá-la.

Como tento reflectir sobre algo que só muito vagamente compreendo, tenho noção de que escrevo e afirmo coisas mais do que discutíveis. Sei bem de milhentos cérebros muitíssimo mais aptos à especulação sobre o fenómeno artístico que o meu. Na verdade eu penso mais com as mãos quando entro neste quarto escuro. Penso com as mãos.

Pensar com as mãos é uma forma de inconsciência. Pensar com as mãos é concentrar energia física na esperança de que venha a transmutar-se em comunicação, é fazer magia verdadeira e deixá-la estar, deixá-la ser, à tua espera, para que a vejas, a sintas, para que a transformes em algo que seja teu e pertença ao mundo. A qualquer mundo.

quarta-feira, julho 18, 2018

Cristianismo

Parece-me haver um paradoxo curioso quando reflectimos sobre os fundamentos do Cristianismo e a forma como esta filosofia de vida (ou religião) acabou por se cristalizar na sociedade contemporânea.

As mensagens seminais de que os homens são todos iguais perante Deus-Pai (a autoridade suprema) e de que devemos amar-nos uns aos outros como nos amamos a nós próprios, acabam por constituir os fundamentos do pensamento esquerdista. Isto apesar de ser o esquerdista tendencialmente ateu ou, no limite, agnóstico.

Os movimentos sócio-políticos mais próximos das instituições religiosas acabam por se identificar mais com os vendilhões do templo do que com a mítica figura de Jesus Cristo. Isto terá muito a ver com o facto de o pensamento religioso original ser essencialmente poético e, quando capturado pelas instituições religiosas, as igrejas, se verificar uma operacionalização dos seus fundamentos filosóficos de modo a colocá-los ao serviço de uma casta de sacerdotes, tradicionalmente mais próxima dos poderosos deste mundo.

Muito mais haveria para dizer (ou para calar), tudo isto é infinitamente discutível, sei bem, caríssimo leitor, mas penso que há um fundo razoável de verdade na minha afirmação: em termos políticos a esquerda é muito mais Cristã que a direita.

domingo, julho 15, 2018

Massacre

Dêem-se as voltas que se queiram dar, olhe-se o nosso tecido social do direito ou do avesso, o resultado da observação é sempre o mesmo: subalternização e esmagamento dos mais fracos perante as instituições, estatais ou privadas, tanto faz. A nossa sociedade é desigual, é injusta e não protege os mais desfavorecidos, como seria de esperar de uma sociedade que se afirma democrática.

A cada dia que passa vai crescendo o fosso em volta do castelo da riqueza e vão-se multiplicando os crocodilos que o povoam e protegem os felizes locatários. A distribuição da riqueza produzida é cada vez mais assimétrica; os ricos muito mais ricos, os pobres muito mais tristes. Não nos venham com tretas, a luta de classes só não existe porque não é de uma luta que se trata, é puro e simples massacre.

Vão distraindo o povo com papas e bolos, fingem ser prejudicados por políticas que lhes cerceiam a liberdade de enriquecer mas que mais querem os ricos e poderosos? Quando saciarão a sua gula por riquezas e poder? Será necessário que tudo morra, que tudo desabe e impluda para que algo mude sem que fique tudo na mesma?

quinta-feira, julho 12, 2018

Felicidade




Ontem fui assistir ao espectáculo de David Byrne em Cascais. Há muito tempo que não me sentia tão feliz, tão preenchido e completo. Que performance! Quanta criatividade, quanta excelência!!! Ontem vivi momentos de extrema felicidade.
Eternamente grato.

terça-feira, julho 10, 2018

Uma guerra secreta

Nos últimos tempos tenho-me confrontado com duas perspectivas diferentes sobre o papel da Arte (assim, com "A", para não desfazer o equívoco): de um lado posicionam-se aqueles que pensam na Arte enquanto forma de expressão superior, veículo de afirmação daqueles que a produzem e difundem, irmanados numa manifestação algo pedante de uma certa intelectualidade capaz de produzir os discursos mais crípticos e complexos; do outro barricam-se os que têm da coisa uma visão mais terra-a-terra, menos elitista, são pessoas que acreditam que é tão válida a visita do tasqueiro quanto a do crítico de arte. Há mesmo quem sonhe debater ética e estética com o tasqueiro e nem se atreva a abordar o assunto com o crítico de arte, por receio de ter que lhe enfiar um tabefe trombas abaixo lá pró meio da conversa.

Eu gostava de manter alguma equidistância nesta luta surda e pouco mediática, até porque a minha formação académica permite-me compreender a elite mas a minha educação de base põe-me ao nível da populaça. É tramado. Talvez pudesse não tomar partido... mas tomo. Eu sou da populaça.

 

sábado, julho 07, 2018

Explosão anunciada

Como chegámos nós a este ponto? Somos reféns do Capitalismo, hoje tal como sempre fomos. Vivemos uns quantos anos na ilusão de que tínhamos afugentado o bicho mas ele está de regresso e com tal pujança que vai destruindo o mundo todo de passagem.

Os episódios de especulação imobiliária que se vêm acumulando nos últimos tempos são uma foto-tipo-passe do rosto do capital selvagem. As pessoas são escorraçadas das suas habitações para que as casas se venham a transformar em locais de passagem.

É a lógica capitalista da livre circulação do dinheiro associada à lógica pós-moderna da movimentação das populações, em trânsito no gozo dos seus tempos de férias.

Nos tempos que correm há muito capital que circula nos bolsos dos turistas (veja-se o peso do turismo na economia portuguesa ou nos países que têm um défice de produção industrial, o turismo é mesmo considerado uma indústria!), logo interessa desenvolver os processos de trânsito das pessoas (as viagens aéreas banalizam-se ao ponto de surgirem as empresas low cost) ao mesmo tempo que se facilita o acesso destas ao capital onde quer que estejam por esse mundo fora (as máquinas de dinheiro nas paredes e em caixotes pululam por esse mundo fora e podemos aceder à nossa conta bancária em segundos estejamos na Ásia ou na América).

Nesta construção vertiginosa os indígenas transformam-se em peças de baixo valor. Ou são empecilhos, e por isso se dão os despejos, ou são mão-de-obra barata para manter esta lógica de resort em que se vem apostando como mais uma forma de fazer fluir o capital.

Este é um exemplo. Muitos outros poderemos convocar quando reflectimos sobre o desvario total que se apoderou da Humanidade e a conduz, inexoravelmente, na direcção do precipício. Um dia tudo isto vai rebentar.

terça-feira, julho 03, 2018

Pessimismo crónico

Há maleitas incuráveis. Para se livrar delas um gajo vê-se à rasquinha. Parece contraditório mas não é. Um gajo, na verdade, nunca se livra de tais maleitas, elas deixam sempre uma cicatriz ou outra, passam de mortais a crónicas mas conseguimos sobreviver-lhes e com elas conviver mais ou menos.

Uma dessas maleitas que me ensombram o sossego é o pessimismo. Vi-me e desejei-me para conseguir transformar esse receio constante em algo de positivo. Depois de muitos anos aprendi a imaginar que o aparente obstáculo pode ser ultrapassado a qualquer momento; não há que desanimar! O desastre iminente terá menos hipóteses de acontecer caso consigamos olhá-lo com espírito positivo.

Ok, ok, meu pessimista leitor, eu sei que muitas vezes acabamos por levar no toutiço seja lá como for que encaremos o problema mas terás de concordar comigo: se partimos derrotados, derrotados chegamos à meta. Urge transformar pessimismo em optimismo por estranha que tal atitude te possa parecer. Leva tempo e soa a patetice mas olha que vale a pena!

domingo, julho 01, 2018

Desenhos Negros

 Vou bater à tua porta (desenho negro nº 240)
 6 capas com 40 desenhos dentro cada uma

Hoje acabei o sexto bloco de 40 folhas negras. Iniciei este trabalho em Janeiro de 2015, quando a minha filha me ofereceu o primeiro desses blocos de tamanho A3 por ocasião do meu aniversário. São 240 desenhos realizados com recurso a técnicas variadas, sempre com colagem e acrílico, pastéis de óleo, marcadores, tintas em spray, etc.

Fazer estes desenhos tornou-se um ritual; de cada vez que acabo um retiro-o da prancha e agrafo nova folha. Depois colo algo (tenho uma espécie de lixeira de pedaços de papel: jornais, revistas, papéis variados que vou acumulando) e olho, volto a olhar, risco, pinto, o tema surge com a execução do trabalho.

Estes desenhos servem-me como base para outros trabalhos. Fotografo-os e depois projecto-os sobre papéis de diferentes dimensões e desenho com esferográfica, canetas de gel ou pastéis de óleo. É como praticar uma religião. Estou convertido.

sábado, junho 30, 2018

Arte e artistas

Muitos pretendem oferecer ao espectador comum a possibilidade de compreender o processo criativo de um artista. Tenta-se lá chegar de diferentes maneiras, seja o artista vivo ou morto. Com os vivos é sempre possível fazer uma entrevista, tentar pô-lo a explicar como lhe saem os objectos artísticos lá de dentro. Com os mortos, caso não haja registos escritos de declarações suas, a coisa fica mais complicada.

Não me parece que, perante um artista e a sua obra, seja objectivo fundamental tentar a compreensão do processo criativo que o anima. Na minha qualidade de espectador e fruidor do fenómeno artístico, parece-me mais interessante a relação que consigo estabelecer com o objecto e, por via dessa relação, talvez também com o artista.

Não se tenta compreender a magia. Ela acontece.