quarta-feira, abril 04, 2018

Fatalidade

Ouvir um debate na ARTV (sobre a preparação da próxima época de incêndios) torna-se um penoso exercício. Os deputados da anterior maioria desatam à traulitada no actual governo a pretexto das medidas que este propõe em tão sensível matéria. É natural, dir-me-ás tu, civilizado leitor, é assim que se faz política.

Será, admito, mas é uma forma doentia de entrançar verdade, mentira, realidade e delírio.

Também a propósito da questão dos concursos ao apoio do Estado nas áreas da criação artística tem havido discussão, crítica e algum regabofe. As coisas não correm bem, longe disso, mas a actual oposição levanta a voz para defender posições que anteriormente ignorou ou contestou sem que caia um dente ou o nariz a quem tece tais afirmações. Deus dorme e não castiga a mentira.

Feitas as contas permanece a sensação de que, para os cidadãos deputados, importa mais o partido respectivo que o conjunto da nossa sociedade. Desunham-se a esgadanhar-se uns aos outros enquanto os seus concidadãos tentam resolver os problemas.

Eu sei que é assim mas não devia ser.

terça-feira, março 27, 2018

Tempos dificeis

Talvez seja isto a tão badalada inteligência artificial. Na verdade (seja lá isso o que for) a IA é um sucedâneo da velha esperteza humana. Basta um gajo sem escrúpulos capaz de manipular informação com uma habilidade fora do comum e, pronto, eis uma entidade inteligente.

A ausência de ética é uma coisa banal. Sempre foi. Aliada às tecnologias da moda, a falta de ética, gera a tal IA. Estamos, assim, entregues a uma estranha bicharada.

A cibernética é muito isto, uma mistela entre o animal sem sentimentos e o mecanismo recolector e produtor de informação. Adivinha-se uma vigorosa selva habitada por um panteão de monstruosidades juvenis ainda desconhecidas mas que parecem alimentar-se daquilo que nós somos.

Para sobrevivermos nesta nova e perigosa floresta teremos de ser todos como o Capuchinho Vermelho só que mais desconfiados quando o Lobo Mau nos vier cheirar o cestinho da merenda.

domingo, março 18, 2018

Olvido

O tempo passado enfiado num frasquinho de vidro, mergulhado em vinagre (penso que fosse vinagre) ali estava, suspenso, perante o meu olhar mais ou menos espantado.

Eram duas revistas, uma publicada em 1984 e outra em 1991. Papel amarelecido, um leve odorzinho a môfo, coisas esquecidas, daquelas coisas que não existem e, no entanto, estão ali para nos mostrarem como a realidade é muito mais que o presente o que a torna algo cuja existência é absolutamente impossível.

Tentei recordar-me de alguma situação, algum acontecimento, qualquer coisinha que me transportasse de volta a esse passado esquecido (presente impossível). Népias, nadinha de nada. Néribi.

Fico assim mesmo, embasbacado a olhar o frasquinho, a massa informe do que fui misturada na solução translúcida em suspensão que mantém a existência do tempo que lhe corresponde. Confuso, não é?

Quando um gajo fica nostálgico e se põe a tentar recuperar acontecimentos enterrados na lixeira do olvido acaba a imaginar coisas que só fazem sentido dentro da sua cabeça. É isto que aqui escrevo. Exactamente.

quinta-feira, março 15, 2018

Perguntas que hibernam

Com a morte de Stephen Hawking, o grande génio da cadeira, regressam algumas questões que de vez em quando adormecem, como se hibernassem na caverna do meu crânio.

Como pode alguém conceber a ideia de Infinito? Alguém pode demonstrar essa qualidade (o Infinito é uma qualidade?)? Não sou capaz de compreender, nem um pouco mais ou menos, como pode algo existir sem estar contido em alguma coisa.

Alguém escreveu num artigo de jornal acerca de Hawking ser Eterno. Ora aqui está outra ideia que me põe a cabeça a andar às arrecuas. Que raio de coisa é essa, a Eternidade? Precisaremos de existir para que a Eternidade seja uma possibilidade? Existe Eternidade para além da Humanidade ou morrerá a Eternidade com o último da nossa espécie?

sábado, março 10, 2018

Aguardando a tempestade

As previsões meteorológicas avisam que, entre a noite e a madrugada, irá chegar ao território continental português a tempestade Félix, como o gato.

Um vento devastador empurrando chuva e granizo sobre as cabeças fugitivas dos animais desprotegidos poderá ser, alguma vez, prenúncio de felicidade? O baptismo de furacões e tempestades com nomes de gente é uma coisa algo perversa.

Que me lembre nunca nenhum destes desastres naturais foi baptizado com o meu nome. Rui, ao que parece, poderá ser um vocábulo pouco ortodoxo quando pronunciado para os lados da Rússia czarista. Talvez por isso eu esteja tranquilo no que toca a estas cenas e possa dormir descansadinho. Nunca se dirá que o Rui foi responsável pela morte de tantas pessoas ou pela destruição  de casario e queda de árvores ou inundações apocalípticas.

É um pouco isto. Esperar sentado que chegue a tempestade leva-me a divagar desta forma preguiçosa. As ideias vão fluindo, indolentes e erráticas. Reparo agora que a passarada, lá fora, está um tanto calada e o céu escureceu subitamente. Serão sinais de que Félix vem aí e se aproxima? Ainda é cedo, parece-me.

Seja como for estou em casa, sinto-me seguro. Não temo a tempestade, pelo menos enquanto estiver fechado no interior do meu castelo.

quarta-feira, março 07, 2018

Receio

Assistimos sentados ao levantamento nazi, alfinetes a ferver que se vão espetando um pouco por todo o mapa da Europa. Como é possível isto estar a acontecer?

O povo europeu que dá força a essa besta política. Não parece ser um movimento de elites. Dá a sensação que a coisa cresce aconchegada por um certo esterco social, ali entalado entre a classe média e a média baixa, uma espinha na garganta social democrata, cada vez mais seca, cada vez mais ferida de morte.

"Esterco social", disse eu. E se a sociedade for maioritariamente nazi? Serei eu a transformar-me em esterco ou viverei numa esterqueira de facto? É difícil decidir. Entretanto vou aproveitando a liberdade de expressão (enquanto a tenho).

Por vezes penso se irei assistir ao triunfo do nazismo. E, caso isso aconteça, como irei reagir? Serei capaz de aceitar o retrocesso social e civilizacional sem fazer nada? E, se fizer alguma coisa, como deverei actuar? Com nazis não se pode discutir, apenas se pode lutar.

Espero que o triunfo nazi não seja mais que um pesadelo que vou sonhando, por vezes acordado. Gostava que a minha filha pudesse viver numa sociedade tão livre como esta em que tenho vivido. Preciso que isso aconteça para poder ter a sensação de que a minha vida teve algum sentido.

domingo, março 04, 2018

O galináceo

Os pobres sobreviveriam bem sem os ricos. Os ricos não poderiam nunca existir caso não houvesse pobres.

Os pobres são a Galinha dos Ovos de Ouro dos ricos. Quer-me parecer que os ricos já lhe abriram a barriga para retirarem todos os ovos de uma vez só. Nos tempos que correm assistimos à agonia da galinha.

O nosso modo de vida no mundo ocidental é a perdição da espécie humana.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Ser artista

Será tudo isto uma questão de vaidade? Escrever, desenhar, querer fazer arte será uma mera questão de afirmação pessoal, uma necessidade insaciável de sair da massa, destacar-se da mediocridade mesmo arriscando ser medíocre?

Quando o dia amanhece ainda nocturno a dúvida ganha nitidez por contraste com a escuridão envolvente. Aquilo que passaria desapercebido lá para o fundo da sala, escombro desprezível encostado ao canto, fica visível como um néon a piscar, avariado.

A questão incomoda um pouco. Afinal de contas a velha "vanitas" é fortemente censurada pela moralidade construída a partir do sentimento cristão. Eu tive uma educação católica. Faz comichão e não consigo alcançar o ponto comichoso para o coçar, não sou capaz de aliviar o incómodo.

A primeira vez que fui confrontado com esta dúvida foi durante a leitura de Narciso e Goldmund, de Herman Hesse.  Passava então pelos meus 18 ou 19 anos e havia entrado na Escola Superior de Belas-artes. Li o livro no contexto da disciplina de Estética e, a partir dele, realizei um trabalho teórico de que já não consigo recordar o tema mas que estava, decerto, relacionado com o fascínio que então sentia (e que ainda sinto) pelo mundo e pela arte da Idade Média na Europa.

Desde então que esta pergunta habita a minha alma. A maior parte do tempo é uma pergunta adormecida mas, de vez em quando, ela acorda e deixa-me um pouco inerte, um pouco hesitante. Talvez seja necessário possuir um ego desmesurado para se ser artista, uma certa dose de soberba e um amor-próprio digno de um crocodilo.

Seja!

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Zombies sociais

Como é possível haver tantos estúpidos mal-intencionados em lugares de decisão e governo, ainda por cima, eleitos por nós. Ou somos maioritariamente estúpidos e, coligados com uma minoria de mal-intencionados, sentimos uma descontrolada atracção pelo abismo, ou então a ignorância é mais grave do que imaginamos e estamos a construir uma sociedade toda ao contrário daquilo que dizemos desejar. Somos como zombies sociais, cambaleamos sem destino e sem sentido em direcção a um horizonte repleto de escuridão onde não há absolutamente nada e alimentamo-nos de cadáveres de sonhos que vamos matando pelo caminho.



sábado, fevereiro 17, 2018

Canibalismo Cósmico (tentativa de explicação)

Comemos o que vemos. Pomos os olhos a mastigar imagens, alimentamos a mente que, estou em crer, não é mais que a pança da alma.

A alma bebe pelos nossos ouvidos (alguém que descreva a anatomia da alma).

Ontem almocei Van Eyck (Jan Van Eyck) bem regado com o Sandinista (dos Clash). Para sobremesa debiquei Bosch e, como digestivo, tomei "Take a walk on the wild side". Menu clássico.

Para fazer a digestão empunhei a caneta.

Isto é o Canibalismo Cósmico, a Hibridização Anárquica.


quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Sim e não

A variedade de pontos de vista sobre uma determinada questão parece complicar fortemente a fixação da coisa a que chamamos verdade. Parece ser mais fácil determinar aquilo que é mentira.

Tenho dificuldade em explicar com clareza aquilo que quero. É mais simples perceber o que não quero.

Será mais sólida a negação do que a afirmação?

terça-feira, fevereiro 13, 2018

Inveja

Imagino que, também tu, adorado leitor, sintas por vezes a terrível mordedura da inveja. É uma ferradela no coração (ou no espírito) com aqueles dentinhos, como se fossem alfinetes, que te faz contorcer o ego e te deixa um sabor a fel na boca dos sentidos.

Da parte que me toca é nessas ocasiões que invoco a minha educação católica na sua dimensão de santidade cristã. Tento combater a inveja com todas as forças que sou capaz de convocar para a batalha. Imagino-me vencedor, como um condenado capaz de matar um leão a mãos nuas numa fedorenta arena romana.

Luto com todas as minhas forças na tentativa de ignorar a dor que me causa tão pérfida mordidela. Não é nada fácil. Fácil seria entregar-me ao usufruto da vaidade mas, como estou longe a santidade, percebo que me comporto como a raposa da fábula que despreza as uvas por não lhes chegar quando espeta o focinho na sua direcção.

Sou um invejoso envergonhado, essa é que é essa. E, se o confesso nestas linhas, é por saber que só me fica bem ter inveja, reconhecê-lo e, ao mesmo tempo, declarar publicamente que a combato com denodo; isto faz de mim um ser humano com toda a parafernália de incongruências que tal condição implica.

Enfim, fico de bem com a minha consciência e pouco mais. Que, ainda assim, a puta da inveja não me larga.

domingo, fevereiro 11, 2018

Declaração inflamada

Tenho que dizê-lo! Calar a boca não é opção!

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Desvario

Anda por aí muito bicho estranho disfarçado de ser humano. À primeira vista não parecem muito avariados, podem até parecer coisinhas fofas a precisarem de quem lhes dê um niquinho de atenção. Pobres bichitos, pensas tu, carinhoso leitor. Mas tem cuidado quando lhes estenderes a mão para uma carícia desinteressada, eis que te mordem com os dentes todos, como se fossem piranhas.

Não é o facto de ficares com um ou dois dedos a menos que te irá demover de fazeres o que imaginas ser bom. O bicho precisa de amigos, que raio! E voltas a tentar passar-lhe a mão (o que te resta dela) no pêlo. Qual quê! És de novo posto à prova com outro festival de dentadas que nada têm de gulosas, são apenas maldosas.

Neste ponto já te estás a lixar para o bicho. O que era fôfo, vês agora, é nojento; o que parecia carência é afinal desvario. Desvario total, absoluto, absurdo. O bicho precisa é de ser mantido à distância. E ele ladra, ele gane, ele solta os mais estranhos grunhidos. Já não sabes se é porco, se é vaca, se é outra merda qualquer. Queres esquecê-lo, ignorar que te levou os dedos.

Mas esse bicho estranho agora não te larga. Cometeste o erro supremo de teres olhado para ele, de teres confundido a sua loucura com mera necessidade de atenção. A demência virulenta que o anima parece-te inesgotável. Apercebes-te que esse animal vive no inferno. Ainda consegues sentir uma réstia de empatia com aquela coisa, um sentimento confuso que mistura compaixão e repulsa mas já não queres saber.

O bicho que se lixe! Vai-te esconder no teu buraco fedorento, bicho tonto.

Antes que o mundo acabe (rascunho)

Santo Patriota (Janeiro 2018)

Desde pequenino que acredito que a arte deve estabelecer comunicação directa com o observador, que o objecto artístico é como, deixa cá ver… como um casaco que se veste. Pode servir-nos ou não, podemos olhar para ele no espelho com o nosso corpo lá dentro, experimentá-lo ou deixá-lo pendurado no cabide, podemos emprestá-lo ao vizinho ou dá-lo a alguém que no-lo peça. A analogia não é muito convincente mas, enfim… tentar explicar algo, chamar o observador para junto da ideia que pretendemos mostrar-lhe, isto não é assim tão fácil. Há sempre a opção de parecer que dizemos algo sublime, muito profundo, algo enorme, tão grande que nem virando a cabeça até a nuca nos bater na coluna vertebral conseguiremos sequer vislumbrar o topo da coisa. Sermos inacessíveis de tão bons. Essa é que é essa!
Temos, então e pelo menos, duas possibilidades (não sei se ficou explícito): ou queremos comunicar ou queremos dar a sensação de que queremos comunicar. Ou, se calhar, nada disto faz sentido e se me disserem o contrário é porque têm razão.
Se a arte for como o tampo de mármore branco de uma mesa toda estilosa; arte fria, arte lisa, escorregadia, arte limpinha e brilhante quando lhe bate a luz, misteriosa, inconcebível, críptica como o olho do cu de uma galinhola, se a arte for assim tem fortes probabilidades de ser considerada uma coisa digna. Se não compreendermos o melhor será fingir que é porque a coisa é muito… extraordinária. Se não compreendermos o melhor será esfurancar uma leitura do objecto, forçar-lhe um sentido, encontrar nele o que lá não está é prova de grande erudição. Como diz o dito: se não os podes vencer junta-te a eles. Se não compreendes o objecto artístico finge que és parte dele. Resulta sempre, só precisas de um pouco de lata, uma certa pose e o domínio de um pequeno conjunto de lugares-comuns, uma ou outra balela sobre A Fonte e o neo-dadaísmo, ou sobre o pós-modernismo e o valor de mercado das obras de Damien Hirst. É tiro-e-queda!

Desde pequenino que gosto de perceber quando não percebo e quando percebo alguma coisa sinto que dou um passinho em direcção à possibilidade de ser feliz. É assim que encaro a arte. Voltando à cena do casaco, gosto que a arte me assente. Mas isso sou eu. Quanto a ti, tu lá sabes ou haverás de saber, se te deres ao trabalho de pensar nisso. Podes até querer passar frio. Da parte que me toca apresento-te imagens na esperança que consigas com elas estabelecer algum tipo de diálogo. Não digo que venham a tornar-se íntimos mas seria agradável se, pelo menos, fosseis capazes de trocar dois dedos de conversa.

quarta-feira, janeiro 31, 2018

Caridade cristã


Miguel Relvas, esse político, por assim dizer, advoga a ideia de que, para se evitar a corrupção, os políticos deveriam ser mais bem pagos. Ou seja, mais dinheiro no bolso ao fim do mês diminuiria a tentação de ceder ao canto da sereia. Discordo.

Se um político ganha 5.000 por mês e é corrompido com uma oferta de 500.000, caso ganhasse 10.000 seria corruptível mediante o pagamento de 1.000.000, tão simples quanto isso: aritmética! Pessoalmente, estou convencido de que uma pessoa é honesta ou não é; independentemente das quantias envolvidas, a capacidade de resistir à tentação é intrínseca.

Na sociedade actual reina a convicção de que tudo se resolve com dinheiro. Existe um problema? Faça-se mais investimento e o problema tenderá a ser resolvido. Não me parece assim tão simples. A maior investimento terá de corresponder uma forma adequada de o aplicar. Talvez necessitemos de melhor investimento, um planeamento mais eficaz, uma atitude mais honesta e inteligente. Caso contrário o dinheiro investido poderá perder-se em corredores obscuros e bolsos fundos, como é costume.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com os Fundos Comunitários no Portugal cavaquista. Uma parte considerável do dinheiro vertido no nosso quintal através da torneira da CEE acabou por se perder e servir apenas para enriquecer uma "elite" que, pelos vistos, ganhava pouco.

Fossem os ricos muito mais ricos e sobrariam migalhas suficientes para que os pobres não morressem de fome. Pois, a gente sabe como funciona esta espécie de caridade cristã,... está à vista!

segunda-feira, janeiro 29, 2018

Universalidade

Valores universais... universais? Há aqui uma certa confusão pois os Valores só fazem sentido numa perspectiva estritamente humana.

As raposas, os carapaus e as serpentes não se regem pelo mesmo tipo de Valores que os seres humanos e, no entanto, fazem parte dos habitantes deste planeta. Que dizer, então, dos habitantes de outros planetas que façam perto do nosso Universo?

Imaginemos, na medida do possível, uma espécie alienígena.

Imaginemos seres gasosos ou com 50 metros de envergadura ou seres que não suportem a proximidade da água. Que tipo de Valores serão queridos por estas coisas tão diferentes de nós?

Como poderemos convencer uma galinha de que a Dignidade é um Valor Universal quando nos preparamos para a degolar, depenar e enfiar na panela? Assim como assim, a nossa capacidade de comunicar com um galináceo é de tal modo reduzida que a bicha se há-de estar bem a cagar na nossa conversa.

Imaginemos uma espécie alienígena que se apaixone perdidamente pela nossa carnucha e invente mil e uma receitas de como cozinhar o corpo humano. Imaginemos um talho intergaláctico com carcaças humanas penduradas nas vitrinas. Quem poderá, em boa consciência, criticar os extra terrestres por nos quererem comer se nos alambazamos em carne de vaca, de faisão, de coelho, lagosta, pato, seja o que for que nade, voe, caminhe sobre as patas ou rasteje sobre o ventre (esse castigo divino infligido à puta da serpente).

Valores universais? Imaginemos o nosso planeta invadido e ocupado por seres demasiado grandes, demasiado fortes, demasiado desenvolvidos tecnologicamente, com demasiados dentes nas bocas, línguas compridas e viscosas a lamberem uma espécie de beiças e com os quais sejamos incapazes de comunicar.

Imaginemos o que vai na cabeça de uma vaquinha que nos olha com aqueles olhos de carneiro mal morto enquanto mastiga a ervinha com toda a elegância...

Oxalá sejamos invadidos por uma espécie vegetariana que adore bróculos e beterrabas.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Pacientar ou não pacientar

Cheguei perto do balcão. Havia bastante gente; quase muita gente. Esperavam a sua vez numa distribuição algo caótica. Pessoas caladas, olhar em alvo, quietas. Fiz como os outros. Parei, olhei, fiquei.

Durante um minuto (ou terão sido dois?) esperei, mas algo começou a incomodar-me, senti-me inquieto. Não percebi imediatamente a razão que me levou a sair daquele lugar com alguma rapidez. Apesar da fomeca saí. Dei por mim na rua. Apercebi-me que ficara um pouco angustiado.

Imaginei os outros lá dentro: paradinhos, à espera da papa, normalidade tão estranha! Saquei          de um cigarro... que stress! O que sou eu? Um bicho! Um bicho que não o quer ser? Essa é uma ambição desmedida para um bicho. Hesito em regressar. Tenho fome.

Ando para um lado e para o outro, como se cambaleasse, como se estivesse aturdido pela dúvida. Ser ou não ser, fazer ou não fazer... rai's parta, William, que merdiosca. Já tenho idade para ter paciência.


segunda-feira, janeiro 22, 2018

Uma cena bué ambígua

O prazo encurta a cada dia.
A responsabilidade aumenta na razão directa da diminuição do espaço que resta para que cumpras o compromisso assumido. Quem te mandou a ti meteres-te numa destas!? Ainda por cima não havendo necessidade!

Quando tomas as dores de um compromisso que assumes voluntariamente, quando decides meter mãos a uma obra à qual não estavas obrigado e começas a sentir a dúvida a roer-te as abas do sossego, qual ratinho esfomeado e divertido, ficas com a tripa um bocadinho deslizante.

De súbito apercebes-te de que não possuis as capacidades necessárias para levar a bom termo a tal tarefa. Sentes as orelhas a crescer como as do príncipe do conto. Por que raio te meteste em tal alhada? Mas, ainda assim, sorris e expões um semblante que irradia confiança. Não há que recuar, caraças! Nem pensar.

E assim vais, alegremente, vida adiante, fazendo o que deves e até o que não seria suposto fazeres mas que decidiste transformar em objectivo muito teu. És personagem de epopeia. Quanto ao resultado... o que interessa isso? O importante é que mostraste ao mundo que não tens medo dele. Nem de ti.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Invasão

Ainda Janeiro vai fazendo o seu pedregoso caminho, a chuva não caiu como esperado, mais pessoas morreram queimadas em terríveis incêndios, metáforas tenebrosas do Inferno na Terra. Minuto aqui, minuto ali, seguimos na barrigota de Janeiro como soldados gregos no cavalo de Tróia: preparamos em segredo a invasão do futuro.

Imagino o que sentiria o soldado, anónimo e barbudo, dedos cravados no punho da espada, agachado na escuridão interior da falsa cavalgadura, como se fosse merda a vascolejar-lhe na tripa. Quanta ansiedade, quanta vontade de receber na fronte a luz do Sol, de saltar no vazio, arma em riste, golpeando inimigos com profunda raiva e surpresa sufocante. Ah, imagino que... não imagino nada. Posso lá imaginar-me um soldado grego enfiado no cu de um monstruoso cavalo de madeira!

Do mesmo modo sinto a insegurança do homem que vive cada dia como se não houvesse depois de amanhã (até ao dia de amanhã ainda sou capaz de me projectar um pouco mais ou menos), o homem que invade o futuro a cada passo, como se o futuro não lhe pertencesse até ao momento em que se encontram: homem e momento; vida e destino.

Não consigo largar esta sensação de que vivemos sempre o primeiro e o último instante em simultâneo. Que vamos assim desde o momento em que nascemos até ao da despedida derradeira. "O fio da navalha" não serve para ilustrar esta sensação, terá de ser outra expressão. Alguém que a invente.   

terça-feira, janeiro 16, 2018

O corpo e a mente que mente

A passagem do tempo sente-se nas marcas exteriores. É o espelho que nos fala disso. Cá dentro as coisas mudam muito pouco. Não houvesse espelhos e alguns anos eram como se não tivessem passado.

Mas há também os joelhos e os rins. Além das rugas que sobem dos cantos da boca à base do nariz. Há os cabelos que embranquecem e os que caem, cabelos esquecidos. O corpo não acompanha a mente. O corpo muda muito mais. O corpo e a mente vivem vidas diferentes, tempos diferentes.

Por vezes tenho a sensação de que o corpo e a mente existem em espaços não coincidentes e que a vida neste mundo (que mundo?) é a suprema ilusão de uma existência comum. Ser, parecer, parecer ser.

Estico as pernas e sinto-me melhor. Uma certa tensão muscular é fonte de algum regozijo. 

sábado, janeiro 06, 2018

Confusão interna

Há por aí muita gente com anseios de governação. Querem ser quem manda, quem orienta, quem aponta os horizontes para os quais deveremos apontar as nossas pencas. Em nome de quê? Quem lhes espevita a vontade de assim serem? Que coisa lhes acende a vaidade necessária à ambição?

Não sei, não compreendo. A alguns logo lhes vislumbramos o rabalhão gordo, a vigarice a iluminar-lhes a beiça luzidia. Mas outros há que não, que nada transparecem quando se lhes olha a gula das riquezas. São movidos apenas pelo sonho de mandar, pelo desejo de serem adorados, pela soberba de pisarem a vermelha passadeira?

Por vezes penso que melhor seria não haver Governo. Outras vezes dou por mim a desejar um Governo bem mais forte que o que há. Dança-me o entendimento em passos tão largos que por vezes me sinto muitíssimo estúpido. Fico confuso e desalentado. Não sei, não compreendo.

Olhando alguns desses ambiciosos cidadãos, ouvindo a torrente de palavras que largam boca fora, como se fosse um rio imparável na busca de um mar que desconhece, sinto uma espécie de raiva que não quero. Preferia o desprezo mas não posso, não consigo, não sei, não compreendo.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Fim de tarde cinzento (escuro)

Não sei se é de agora, se é coisa que venha já lá de trás, de tresantontem; não sei se é coisa nova, se velha. Está aqui. Agora mesmo. Está lá fora.

É uma histeria, um reboliço, gritaria, inquietude, uma boçalidade alarve, um ruído constante, irritante, com picos de estridência e trovões ocasionais de vozes mais grossas, encontrões nas portas, não sei bem. Estou cá dentro.


terça-feira, janeiro 02, 2018

Uma dúvida existencial



Estive a rever os meus desenhos de 2017. Foi um ano de grande produção, desenhei como raras vezes me lembro de o ter feito. Provavelmente foi o ano da minha vida de maior produção artística,criei dezenas de peças, ultrapassei, seguramente, a centena. Porquê?

Sim, por que razão se passou isto em 2017? Não é um número redondo, fiz 54 anos, não tive nenhuma exposição especial... o que me levou a desenhar tanto e de forma tão continuada?

De há uns anos para cá que, quando penso no tempo que já vivi, constato uma coisa óbvia: já lá vai muito mais de metade do tempo que tenho guardado na caixinha do meu destino. Já lá vão dois terços ou mais, como saber o tempo que me resta?

É essa dúvida que começa a mexer com os motores da minha existência quotidiana e me torna um pouco ansioso, quase muito, no que diz respeito à produção artística que imaginei ser capaz de conceber e transformar em objectos palpáveis? Será por isso que 2017 foi um ano tão produtivo?

Mal posso esperar por 2018.

segunda-feira, janeiro 01, 2018

Olá, outra vez

E pronto, hoje é o tal ano novo. Um dia sucede a outro e... punfas: passou um ano! Um ano inteiro metido no intervalo incomensurável que trauteia entre o final da 24.ª hora de um dia e o primeiro segundo da primeira hora de outro. É uma coisa pífia, um nada grandioso, um momento onde se descarregam sonhos como lixo a ser despejado numa grande lixeira. Daqui a nada já esquecemos a maioria.

A rua está tão sossegada. Antes fosse prenúncio dos tempos que se avizinham mas, amanhã, o trânsito ansioso, as pessoazinhas apressadas, o fulgor paranóico do quotidiano regressará em força para mostrar que um novo ano é sempre o prolongamento do velho. Nada mais.

Ainda assim, seja como for, que tenhas um novo ano cheio das banalidades que costumam desejar-se, ó meu muito caro leitor.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

Tempo fora do Tempo

O tempo entalado entre o dia de Natal e o de Ano Novo é uma coisa em suspensão, são dias que não existem. Está tudo à espera que venha a noite de passagem de ano. As horas arrastam-se e as pessoas ora estão de férias, ora não estão. Mesmo as que trabalham já não trazem as ideias dentro da cabeça, já as atiraram lá para diante, para o dia 2 ou 3 do ano seguinte porque dia 1, decididamente, é um dia a menos no calendário, dia de Santa Ressaca.

Sinto uma certa propensão para a irritação. Apetece-me escrever coisas agressivas, arrasar tudo, dizer mal de todos. Ando carrancudo, a destilar maus fígados. Refugio-me no atelier, a desenhar. Faço mais uns quantos desenhos negros, revejo os antigos, aproveito para passar em revista o trabalho recente.

Tento distrair-me enquanto aguardo que o tempo regresse no seu fluxo normal.

terça-feira, dezembro 26, 2017

26 de Dezembro

26 de Dezembro é um dia como os outros mas com alguns pormenores um pouco lixados. É o dia das trocas, entre outras coisas.

Filas de pessoas com saquinhos que transportam prendas para troca. Coisas que se ofereceram a alguém que já tinha coisas iguais (ou equivalentes), prendas que se receberam com um sorriso nos lábios e algum desprezo no coração, várias são as razões que levam os consumidores a entrar nas lojas com sacos nas mãos, um pouco ao contrário do que é habitual (sair delas com os tais sacos pendendo).

Não é bem uma ressaca mas anda lá perto. O Natal do Consumo é, de facto, uma boa merda.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

É Natal

Sopra uma ligeira brisa. Imagino que venha da Lapónia embrulhada em papel estampado com renas de narizes vermelhos como papoilas. Sopra sobre a fila de carros ordenados em formato de serpente que se enfiam na barriga do centro comercial. Carros com pessoas dentro que têm desejos dentro de si, imensa matriosca natalícia: centro comercial, carros, pessoas, desejos, por esta ordem.

A brisa é fresquinha, agradável, um friozinho limpo que ajuda a compor a época que atravessamos. Imagino o Pai Natal, balofo, vagamente bonacheirão, um pouco desagradável nos modos porque responder a tantas solicitações não deve ser pêra doce. Além do mais é necessário meter na ordem todos aqueles duendes que trabalham afanosamente para que o trenó esteja pronto e preparado no dia certo.

Sobrevoar o mundo inteiro a descer por chaminés não é propriamente a profissão ideal para um gajo com problemas de obesidade. Se não fosse distribuidor de presentes o que faria o Pai Natal para pagar as contas? Talvez pudesse tentar uma carreira na publicidade. Teria ele um sucesso semelhante ao Cristiano Ronaldo ou à Charlize Theron?

Sopra esta brisa, quase vento, que confunde o calor do sol, o Menino Jesus a competir com o Astro-Rei, como é costume. A santidade a bater-se com sentimentos profanos e ansiedades consumistas... é Natal!

terça-feira, dezembro 19, 2017

Matemática desaplicada

Vivo entre multidões. Grandes ou pequenas multidões, todos os dias me movo dentro de algum grupo de pessoas. Tenho o hábito de as olhar, por vezes distraidamente, outras vezes de forma mais atenta. Imagino que haja ocasiões em que olho as pessoas de forma demasiado atenta mas... adiante.

Ontem, no centro comercial (essa multidão transmutada em edifício mastodôntico), reparei numa mulher que me fez lembrar uma outra, uma ex-colega que havia visto há coisa de uma semana durante uma travessia do Tejo. Não é habitual ver essa ex-colega mas aquela tal mulher pareceu-me de tal modo semelhante a ela que imaginei a possibilidade de serem irmãs.

Um pensamento assim é indolência cerebral, não tem a mínima importância. Continuei e, três passos adiante, ai caramba! Vejo a minha ex-colega a cumprimentar um amigo.

Ali estava ela, logo após me ter lembrado que uma mulher (que talvez nunca mais me aperceba de ter visto) poderia ser sua irmã ou algo do género. Logo após me ter lembrado de uma pessoa que raramente vejo e à qual mal me dirijo, uma pessoa cuja existência rara e dificilmente me ocorre, catrapunfas! Ali estava ela.

Ok, ok, eu sei, mas que merda de história é esta? Registo-a aqui apenas porque, quando vi a minha ex-colega a conversar mansamente com o amigo, me ocorreu uma pergunta: que possibilidade estatística havia de acontecer uma coisa destas? Lembrar-me de uma pessoa através de outra e ela aparecer-me imediatamente a seguir?

Soubesse eu alguma coisa para lá da Aritmética simples e talvez pudesse especular sobre a tal possibilidade estatística mas a Matemática nunca foi das minhas relações mais próximas.

Releio o que acima ficou escrito e apetece-me perguntar: esta coisa não tem interesse nenhum, pois não?

domingo, dezembro 17, 2017

Sensações

Estou a reler a "História Universal da Infâmia" de Jorge Luís Borges. É maravilhoso! Sempre que leio Borges é como se ouvisse uma voz dentro de mim (não é dentro da minha cabeça, nem dentro do coração, é dentro de mim, algures, eventualmente num pé ou no fígado, não consigo precisar).

Acontece com Borges como acontece com Bolaño ou com Paulo Varela Gomes ou Teresa Veiga, acontece com certos escritores de língua portuguesa ou castelhana (traduzida). Sinto vozes quando leio estes autores.

Com Ian McEwan, por exemplo, ou Paul Auster, não sinto vozes, viajo para lugares específicos. São espaços arquitectónicos que me envolvem (ou serão paisagens?).

Fico a pensar que os autores de língua latina me falam e os anglófonos me transportam.

terça-feira, dezembro 12, 2017

Ditados populares

Olhar a nossa sociedade com uma lente de aumentar não é nada boa ideia. A menos que tenhamos um cargo importante, que implique análise e decisão da coisa pública, melhor será padecer de uma certa miopia.

Quando a imprensa nos empresta uns óculos graduados e nos põe à frente do nariz certas cenas menos recomendáveis lá temos nós de olhar e ver. Ver é, por vezes, uma coisa extremamente desconfortável.

Quando vemos essas tais cenas horrendas ficamos a pensar no que não vemos, ficamos a pensar na bicharada imunda que se desloca nas sombras húmidas do anonimato.

"Longe da vista, longe do coração", diz o povo.
Longe do coração e longe do cérebro, longe de tudo, direi eu (que também sou povo): "quem não sabe é como quem não vê"... e vice-versa.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Rabo de fora

Não há nada mais estúpido do que ordenar a existência humana segundo padrões de comportamento pretensamente estabelecidos por uma divindade. É que, para podermos aceder aos desejos, objectivos e imposições do Ser que nos é superior, temos de aceitar uma qualquer intermediação. Para acedermos à informação necessária temos de confiar em quem no-la transmite. Isto é "bullshit", como dizem os outros.

Acreditar que a Bíblia contém a Palavra é uma patetice, baixar a cabeça em presença da Torah, crer no Corão... mais patetices. E por aí adiante. O mais perigoso nem é a literatura inclusa nestes livros, o perigo reside nas mentes distorcidas daqueles que estão encarregues de interpretar os textos de forma a que nós, comuns mortais, possamos obedecer cegamente a... a qualquer coisa difusa que eles vislumbram lá pelo meio das palavras, pois que misteriosos são os caminhos de todos os Senhores.

A Fé tem razão de ser. Mas obedecer cegamente a um exército de imbecis investidos de um poder fantasmático que lhes confere o poder de nos enviar direitos para uma Eternidade repleta de penas e castigos ou, pelo contrário, oferecer-nos as delícias de um paraíso que está sempre muito para além da nossa capacidade de imaginação, obedecer aos padres sejam eles de que cor ou credo forem, isso é uma violação que executamos sobre nós próprios.

Eu gostava de acreditar em Deus mas não sou capaz. Cada vez mais O vejo como sendo um gato. Um gato grande, gordo e pouco educado, escondido atrás do sofá mas com aquele enorme rabo de fora.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Mundo profundo

Pensamentos disparados por um cupido velho cruzam o horizonte dominado por um batatal que ninguém se deu ao trabalho de colher. Estou sentado na carapaça de uma tartaruga inerte. Crianças brincam displicentemente com objectos que, vistos daqui, me parecem ossos esbranquiçados pelo uso. É um sonho que me esqueci de ter sonhado.

domingo, novembro 26, 2017

Censurado

Leio o jornal, os suplementos dominicais, as revistas em papel acetinado, leio posts no facebook, artigos de opinião, prosas engraçadotas, palavras ditas nos bicos dos pés e há uma palavra que se esgueira até ao topo do meu pensamento: FODA-SE!

Devo estar maldisposto.

sábado, novembro 25, 2017

Um certo terror

Quanto mais por aí ando mais me convenço de que estar vivo é temer ser ignorado. Nada aterroriza mais um ser humano do que a irrelevância, a transparência absoluta do Ser. Sermos olhados e termos a sensação de que  aquele olhar nos trespassa que somos camaleões perfeitos que nos confundimos com as paredes com os placards publicitários com os faróis apagados dos automóveis. Ah, horror dos horrores, não sermos nada é muito pior que não sermos ninguém!

domingo, novembro 19, 2017

Globalização

Esta coisa da globalização é uma teia complexa tecida a fio de merda. Desde o início da coisa (lá para os noventas) que logo se percebeu o logro que nos era enfiado goela abaixo. A globalização era, apenas, a globalização da economia, essa deusa-puta.

Globalizava-se a facilidade de circulação do capital mas nada se fazia em termos sociais ou políticos, por exemplo. Melhor dizendo, as questões sociais e políticas deveriam moldar-se nos altares da deusa-puta e mais nada.

Passadas duas décadas (ou três) o resultado previsto confirma a monstruosidade da coisa: uma percentagem cada vez menor de cabrões detém uma percentagem cada vez maior da riqueza produzida. A desigualdade é cavalgante.

Os ricos não têm nacionalidade ou, melhor dizendo, a riqueza é a sua nacionalidade sejam eles originários de onde forem.

Fomos bem enganados, como patinhos que sabem bem nadar, cabeças para baixo, rabinhos para o ar. Agora assistimos em pânico ao desabar das estruturas sociais e agitamos braços e bandeiras em desespero. Estaremos a tempo de inverter a desgraça?

domingo, novembro 12, 2017

Memória

A memória é uma coisa estranha; inventa-se a si própria, autonomiza-se, deixa-me sem saber o que de facto aconteceu, leva-me a acreditar mais nela do que em mim. A memória é como um animal de estimação a tiranizar o dono: quem possui o quê?

A memória é como água perdida numa estrutura arquitectónica, a furar, a encontrar sempre um buraquinho por onde passar, a inundar os espaços mais largos: a memória é uma inundação inesperada e surpreendente.

Tenho uma memória tão subtil que sou levado por ela a acreditar que é fraquinha, que não tem poder, que falha. A minha memória é tramada. Prega-me partidas constantemente. Sinto-me indefeso perante as suas traquinices. É ela quem me constrói o passado mas não lhe permito que me influencie o futuro. Acho eu...!

sábado, novembro 11, 2017

Este nosso Ubu


Adaptar o Rei Ubu para o Teatro na Gandaia foi a coisinha mais apaixonante que me foi permitida experimentar desde que ando a fazer pelo teatro. A princípio senti-me um pouco (muito) intimidado; era o respeitinho a fazer-me tremer as manitas sobre o teclado, o não querer defraudar o autor, nem a tradição, muito menos a grandeza da coisa, enfim, estava um tanto ou quanto acagaçado. Li versões que fui encontrando, observei longamente milhentas imagens das milhentas encenações que pululam nas páginas da Net, nada me descansava, antes pelo contrário. Quanto mais penetrava o espírito da coisa mais me parecia estar com o rabo à mostra. Sentia uma espécie de frio nas nalgas, o nariz enregelado mas… eu seja corno, havia que meter mãos à obra e deixar pruridos merdosos no fundo da gaveta: ou bem que somos homens ou então somos ratos ou outra merda qualquer, gâmbias de Deus!
Acredito piamente que a arte é uma massa informe (uma coisa plástica) que se encontra eternamente em suspensão à espera que alguém lhe deite a unha e faça dela uma coisa nova. Uma forma artística depende do tempo e do lugar em que vê a luz, não há vacas sagradas. Traduzir um texto é sempre reescrevê-lo. Perante o Ubu não havia que temer. Afinal de contas trata-se de um texto tão desopilante que se pode fazer dele quase tudo o que se queira desde que se mantenha fidelidade absoluta à brutalidade daquele gajo hediondo que tem como objectivo principal viver acima das suas possibilidades à custa do sofrimento alheio. Uma personagem clássica, aquele Ubu.
Como referências tinha o exemplo da banda que dá pelo nome de Pére Ubu e o dos punks de um modo geral, admirava de toda a minha alma os dadaístas nas suas múltiplas e corrosivas formas de expressão artística (ah, o grande Dada Max!), sentia-me capaz de fazer alguma coisa concreta e consequente com aquela massa plástica que o texto de Jarry colocava à minha frente, só me faltava o atrevimento que, confesso, não será o meu ponto mais forte nem mais óbvio. Lá me convenci a meter mãos à obra; primeiro titubeante, às apalpadelas, depois, à medida que ia avançando, cada vez mais convicto e mais feliz por me permitir a liberdade de comungar daquela intemporalidade maravilhosa que ia descobrindo a cada passo. Quando terminei percebi que participara na gestação de uma coisa selvagem.
Entreguei o texto à Ana Nave confiando na sua capacidade de dar vida ao texto mais abstruso, a sua extraordinária capacidade de fazer o teatro acontecer. Agora havia que aguardar.
Passaram meses de ensaios. Domingos e segundas-feiras. O grupo de actores foi-se ajustando, tal como o texto. A tal massa informe a ganhar contornos visíveis. A Rafaela Mapril tornou reais as figuras das personagens com esplendorosos figurinos, o Zé Rui iria ser o responsável por esculpir o espaço cénico a golpes de luz, tudo se conjugava daquela forma próxima da magia que é própria do Teatro.
Quando assisti ao primeiro ensaio geral fiquei embevecido. Apesar de todas as irregularidades e arestas por limar a coisa tinha a força que imaginara: grotesca, excessiva, brutal, potencialmente repelente mas plena de força, carregada de um vigor e de uma boçalidade capazes de incomodar os espíritos sensíveis, tal qual imaginara que poderia ser. Acredito que o resultado deste trabalho apaixonado não envergonharia o próprio Jarry, passe a imodéstia.
No dia da estreia compreendi que das duas uma: o espectador iria amar aquele objecto teatral ou odiá-lo, não me parece que a magnífica representação de todos os actores que estiveram em palco possa ter proporcionado sentimentos próximos da indiferença aos que assistiram, sentados na plateia do António Assunção.
Não há agradecimentos a fazer. O Rei Ubu não se agradece, faz-se!

segunda-feira, novembro 06, 2017

Bom tempo

O sol brilha, faz calor, a cidade vive mais um dia sossegado. Está bom tempo.

Chove a cântaros, as pessoas passam encolhidas debaixo dos guarda-chuva, os carros circulam com dificuldade. A cidade vive um dia difícil. Está mau tempo.

É assim que consideramos o estado meteorológico: sol é bom, chuva é mau. Nada mais estúpido do que esta apreciação egoísta e inconsciente.

Sem chuva não tarda a faltar água. Aliás, o país vive há anos em situação de seca mais ou menos severa, extrema em certas zonas do território. Apesar de ainda não sentirmos essa escassez nas torneiras das nossas casas, quem vive fora das cidades e precisa de água para a agricultura ou para satisfazer as necessidades dos animais que cria sente uma angústia crescente.

Fiz uma viagem até à Beira Alta. Depois de sair da A1, entrando pela IP3 dentro, comecei a ver os efeitos devastadores dos incêndios que assolaram o país, naqueles dias em que, na cidade, fez um tempo maravilhoso. Ali, no interior do país, foram dias infernais, dias de muito mau tempo.

Talvez devêssemos pensar um pouco mais quando classificamos o tempo que faz. Nos dias que correm, para que o tempo seja bom, estamos desesperadamente necessitados de chuva. Precisamos de muita chuva, imensa chuva, para que os próximos dias sejam esplendorosos. 

quarta-feira, novembro 01, 2017

Afectos

Muito se tem por aí falado de afectos nos últimos tempos. A questão da forma como os políticos reagiram à tragédia contínua dos incêndios e das mortes por eles provocadas é uma questão muito pantanosa.

Costa não mostrou consternação adequada, já Marcelo foi autêntica Madalena  e muito comoveu o nosso povo. Encontrou-se ali uma nesga de oportunidade para desenvolver duvidosa narrativa com os afectos como pano de fundo.

Nunca gostei de velórios nem de funerais. Talvez porque não tenho a certeza de como é suposto comportar-me nesses momentos de dor. Tenho lágrima fácil e comovo-me com facilidade perante a dor alheia mas não sei medir se é muita dor ou se é poucochinha.

Quer-me parecer que esta história é coisa que mete muita lágrima de crocodilo. Não confio em pessoas que choram com excelência e no momento exacto. Os crocodilos usam gravata preta.

sábado, outubro 28, 2017

O perfume

Começa a cheirar a PPD e fica muita gente um pouco doida, um pouco inebriada. É como se a Primavera chegasse no lugar do Inverno, montada nele, a sorrir, disparando sorrisos na direcção da populaça.

Nota-se nas páginas dos jornais, nas entrelinhas, nos noticiários, nos discursos de gente boa (e de gente má também), enfim, sente-se a possibilidade de um Renascimento. Até já se fala outra vez do "arco da governação" e do bom que era o PPD e o PS serem outra vez amigalhaços. Ou ainda numa super-geringonça que metesse ao barulho os partidos todos, de esquerda e de direita e os que são nem uma coisa nem outra, uma espécie de grande cozido à portuguesa. Com todos, como o bacalhau.

O que me surpreende nesta história que agora se desvela é a facilidade com que se criam narrativas mediáticas e se dá a volta a um tão grande número de pessoas só assim, com um estalar de dedos.

Dizia o outro que venderia com a mesma eficácia sabonetes ou presidentes de república. Basta um bom perfume para que um monte de merda quase mude de figura.

quarta-feira, outubro 25, 2017

A coisa vai indo

Desde os tempos em que o PREC foi ao fundo que temos sido governados por uma facção do Parlamento, ali do centro para a direita do hemiciclo. Ora sós, com maiorias absolutas do PS e do PPD, ora mal acompanhados, com o CDS ou com o PPM, criou-se uma espécie de aristocracia democrática que foi orientando as cenas em proveito de... não sei que diga. Em proveito de alguém, pronto, não quero parecer demasiado injusto.

Foi o ministro que se demitiu irrevogavelmente, se não estou em erro, quem criou a expressão "arco da governação" para designar aqueles que, na sua visão muito particular, tinham o "savoir faire" necessário para meter as mãos na massa da República. Claro que o seu partido fazia parte daquela nata social e ele, mais do que qualquer outro, tinha todo o direito de decidir os destinos da nação, submarinos incluídos.

Foi também este rapaz-maravilha quem, em tom jocoso e confiando na vinda do Mafarrico, designou por Geringonça o arranjinho com que Costa, Jerónimo e Catarina Martins lixaram bem lixado o "arco da governação". À direita ninguém acreditava que os comunistas fossem capazes de engolir tantos sapos mas a verdade é que eles se habituaram ao desagradável menu e lá vão mantendo a geringonça a funcionar aos soluços.

Estou convicto que as maiorias absolutas tendem a corromper a Democracia. Principalmente quando são figurões da estirpe de um Relvas ou de um Lelo do PS (só para dar dois exemplos de vigaristas encartados que me vieram de repente à memória) a orientar a formação de listas de candidatos a deputados e a puxarem os cordelinhos que fazem levantar e sentar os rabisoques nas bancadas da Assembleia.

A Geringonça funciona mal? Podia funcionar melhor mas não é capaz disso. No entanto prefiro esta Geringonça a cagar e a tossir do que o "arco da governação" em todo o seu esplendor.

domingo, outubro 15, 2017

Declaração de amor

A acusação do malfadado Processo Marquês vem fazendo sonhar muitos cidadãos portugueses. Iremos andar embrulhados em questões processuais que, decerto, irão dourar muita pílula, entravar muita investigação e desviar atenções.

Iremos assistir a condenações em praça pública e a juras de amor à presunção de inocência; enfim: vamos assistir a uma sucessão de trambolhões magníficos e espectaculares para gáudio da populaça e exibição de extraordinários dotes jurídicos dos causídicos envolvidos no drama que se segue.

Os abutres aguardam, poisados num ramo seco de uma árvore morta.

É por estas a por outras que tenho um particular apreço pela Geringonça. O Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda nunca fizeram parte do malfadado "arco da governação", essa espécie de qualidade misteriosa que enformaria uma elite capaz de governar a nação portuguesa e que, quem não tinha percebido percebe agora, não era mais que uma associação de malfeitores, os vampiros da canção de Zeca Afonso.

Com a Geringoça a guardar o portão da quinta, a bicharada malcheirosa fica a rosnar do lado de fora. Um ou outro, mais atrevido, ladra alto e bom som, mas a coisa fica mais difícil para os monstros glutões que devoram a nossa riqueza comum. A imbecilidade de um Cavaco ou a sonsice de um qualquer Coelho já não fazem grande mossa.

Apesar de todas as suas incongruências e evidentes deficiências físicas, amo a Geringonça. Espero que se mantenha durante muitos e bons anos mas já se adivinha a impaciência dos adeptos do "centrão". Com Rui Rio a chegar-se ao cadeirão do PPD vai-se sentindo muito esfregar de manápula  e um certo pivete ansioso começa a sentir-se outra vez.

Tenhamos o bom senso necessário para evitar que os abutres desçam, de novo, em vôo picado sobre a carcaça agonizante do nosso país. Eles andam por aí!

sexta-feira, outubro 13, 2017

Bombas

Sinceramente não sei porque hei-de ficar inquieto caso o Irão consiga fabricar armas atómicas. Nem sei porque hei-de ficar mais inquieto por essas armas já fazerem parte dos brinquedos do rei-comunista da Coreia do Norte. Inquieto já eu estou pelo simples facto de armas desse género existirem um pouco por todo o planeta. É o bastante.

É suposto eu, na minha qualidade de cidadão ocidental, ser a favor da existência, manutenção e expansão dos arsenais nucleares dos países considerados democráticos? Veja-se o caso dos EUA e do tolo alucinado que agora senta o olho do cu no vértice da pirâmide do poder lá da terrinha. Com uma besta daquelas a ter acesso ao botãozinho nuclear podemos nós estar descansados? Claro que não.

O problema da sociedade global e informatizada parece ser a sua novíssima capacidade de eleger anormais para cargos de poder e publicitar com estrondo os peidos e arrotos de todos os mentecaptos que orientam os destinos dos povos. Sim, dos mentecaptos, porque aqueles que governam com sabedoria e equilíbrio raramente são motivo de notícia.


quinta-feira, outubro 05, 2017

Memória vaga

Lembro-me vagamente de ser criança e olhar para os mais velhos com admiração e respeito. Acreditava que os cabelos embranqueciam à medida que uma pessoa se tornava mais sábia.

Não eram só os mais velhos que me enchiam o peito daquela reverência infantil, também os que desempenhavam papéis sociais relevantes mereciam a minha admiração. Decerto seriam pessoas especiais para terem chegado ali, ao vértice da pirâmide que se erguia no lugar que ocupavam.

O tempo passou e eu próprio fui ganhando cabelos brancos e uma barba branca e percebi que, afinal, isso não tem nada de extraordinário, nem é isso que nos confere a autoridade que me fascinava quando vivi num corpo de criança.

A autoridade é um bicho estranho e inquieto e tem muitas origens diferentes, nem todas merecedoras de admiração, muito menos merecedoras de reverência.

segunda-feira, outubro 02, 2017

Armaduras pretas

O que se está a passar na Catalunha é uma grande confusão. Assistimos incrédulos a uma escalada de violência que poderia perfeitamente ser evitada caso houvesse interesse de parte a parte em que as coisas acontecessem de acordo com o bom senso. Mas não. A uns aproveita a violência, a outros está-lhes na massa do sangue.

No meio do terramoto o povo anónimo. Não duvido que, caso fosse catalão, haveria de andar a levar porrada da Guarda Civil. Mas, estando descansadinho cá no meu Portugal, olho para tudo aquilo com uma enorme dose de desconfiança.

Fica a imagem da brutalidade do estado policial. Aqueles cães de fila, enfiados nas suas armaduras, protegidos por capacetes negros, são o símbolo do poder, a sua materialização junto de quem protesta e clama por aquilo que acredita serem os seus direitos. Não há diálogo, apenas violência. Todos sabemos que a violência se propaga como um incêndio em dia de Verão.

Rajoy é um pirómano perigoso e Puigdemont, para apagar o fogoléu, traz um bidão de gasolina em cada mão. Não é preciso fazer um grande esforço de memória para recordarmos situações vagamente semelhantes um pouco por toda a Europa. Sempre que o povo sai à rua lá aparecem os gajos das armaduras pretas e dos capacetes fechados.

São as forças que garantem que a Democracia funciona como DEVE ser.

sábado, setembro 30, 2017

Putas Assassinas

Lendo Bolaño sinto uma estranha vertigem, um vago reconhecimento. As suas personagens parecem vogar indefinidamente num espaço que nunca lhes pertence, como se fossem sempre estrangeiras, mesmo no seu próprio país ou na sua cidade, até mesmo no seu corpo.

Nos seus contos e romances sinto a solidão como o mais perigoso dos animais selvagens. Um bicho terrível que procura enjaular-se nas almas das pessoas para depois as roer por dentro, como na mais terrível das torturas chinesas, aquela que implica uma gaiola e uma ratazana esfomeada.

Ando a ler As Putas Assassinas.

domingo, setembro 24, 2017

Domingo outra vez

Estar junto a alguém, pertencer a alguma coisa, não ser irrelevante, fugir da invisibilidade como se fôssemos o diabo a fugir de um padre pedófilo empunhando a cruz de Cristo. Olho as faces das pessoas, espio-lhes os gestos, as poses, ir ao centro comercial é como ir ao teatro.

Há uma ameaça séria a pairar sobre o planeta, um espectro maléfico de guerra nuclear. Regredimos 40 anos, mais uma vez tenho a sensação de que não há futuro só que agora sou outra pessoa. Tenho a sensação de que a diferença entre os tempos da Guerra Fria e estes que agora vivemos é que os líderes ficaram muito mais loucos, que são muito mais brutos.

Preparo para mim uma tarde descansada. Talvez pinte um pouco, talvez leia, talvez não faça nada e exerça o meu direito à preguiça. Por vezes penso como terão sido os últimos dias do Império Romano, como viveram os habitantes de Roma os dias que antecederam a invasão da cidade.

quarta-feira, setembro 13, 2017

O dia das eleições

É sempre a mesma bambochata, o dia das eleições em Portugal é como se fosse uma coisinha feita de cristal que é preciso tratar com o máximo dos cuidados não vá desfazer-se ao mais leve sussurro.

A abstenção tem vindo a aumentar, o povo eleitor parece cada vez mais arredado das urnas e das cruzinhas no boletim de voto. Tenta-se explicar a a abstenção das mais variadas formas: o povo baldou-se porque estava a chover ou porque estava calor e foi para a praia. Ou porque era um fim-de-semana prolongado e emigrou em direcção ao Sul, ou porque outra coisa qualquer.

Em suma, todas as razões são boas para não votar. Não é que o povo se esteja a marimbar para o seu dever cívico, não! O povo até queria cumprir o ritual democrático mas há sempre qualquer coisa a distraí-lo.

Desta vez a questão de lesa-democracia é a marcação de um jogo de futebol entre o Porto e o Sporting para esse dia 1 de Outubro de 2017. Haverá alguém que deixe votar porque se joga futebol lá para o fim da tarde? Se isso acontecer parece-me que o problema é do eleitor e não do jogo. Tal como não me parece correcto culpar a chuva ou o sol da falta de cultura democrática.

Talvez os partidos políticos e os candidatos e os meios de comunicação social tenham algumas culpas no cartório. Mas não, o futebol é bem mais fácil de culpar.


segunda-feira, agosto 21, 2017

Ter razão

Todos queremos ter razão!

Vá lá, não adianta estares a rebuscar na tua cabeça se queres ou não ter razão, surpreendido leitor, não vais conseguir encontrar uma justificação aceitável que comprove a tua humildade. Népias, não te safas com facilidade porque a tua Consciência (ou Alma ou lá o que é essa Coisa) está sempre a segredar-te coisas ao ouvido e não te deixa mentir a ti próprio.

A nossa necessidade de ter sempre razão leva-nos a estar constantemente a pensar na melhor maneira de o provarmos. Nota bem: não conseguimos ter razão mas podemos provar que a temos. Confuso, não? Pois, também me parece. É exactamente o que se está a passar comigo à medida que vou escrevendo estas palavras; eu quero ter razão quando afirmo que todos queremos ter (sempre) razão mas não sou capaz de encontrar um discurso suficientemente poderoso que justifique esta patranha.

Todos queremos ter sempre razão!

A melhor maneira de ter razão é ser agressivo, ser afirmativo, avançar como se o nosso pescoço não fosse capaz de nos voltar o olhar para trás. Ter razão é como ter um torcicolo. Só é doloroso se deixarmos a única posição confortável.

sábado, agosto 19, 2017

Macaquices

Ler, ver, filmes, ouvir música, conversar, é como aquela cena dos três macacos mas sem as patas a tapar os olhos, os ouvidos ou a boca. Somos feitos disto, é este alimento que, de alguma forma nos vai fortalecendo o corpo por via do espírito. Somos macacos cultos.

A cena dos macacos tem a ver com um provérbio eventualmente chinês mas que terá ganho os galardões de universalidade por via japonesa. A ideia é não ver o mal, não ouvir o mal e não falar mal, uma via para a sabedoria e a santidade, um manual de bons princípios e humanismo à maneira oriental.

É complicado cumprir o objectivo dos três macacos sábios, afinal de contas somos apenas humanos.

terça-feira, agosto 08, 2017

Estação tola

A "estação tola" (silly season segundo os súbditos de Sua Majestade William Shakespeare) traz consigo a imbecilidade elevada à condição de coisa divina e os incêndios são o inferno na Terra. É assim mesmo, uma época de extremos, um lugar sem fronteiras demarcadas. As coisas entram umas dentro das outras como balas, como setas disparadas por um lança-mísseis.

Dizem-se enormidades, sucedem-se as catástrofes, a estupidez veste fato de erudição e o contrário é uma ratazana com penas a cantar dentro de uma gaiola dourada. Mas...

... será que este mundo ao contrário acontece apenas nesta época do ano? Não vivemos nós uma eterna "estação tola", longa e imprevisível como um inverno no mundo da Guerra dos Tronos?

Tudo pode não acontecer, bem como o seu contrário.

segunda-feira, agosto 07, 2017

Metafórico

- Quando temos uma ideia que não se revela grande coisa, melhor será deixá-la pairar, como se fosse um abutre a voltear lá no alto, namorando o corpo moribundo da nossa imaginação. Mais tarde ou mais cedo o abutre vai agir e alguma coisa haverá de acontecer. Quanto mais não seja, a ideia-abutre levanta vôo outra vez...
- E depois?
- Depois? Depois voa...
- Que metáfora de merda.

sábado, julho 29, 2017

Heroísmo

E se o problema dos incêndios descontrolados fosse potenciado por um excesso de voluntarismo heróico por parte de bombeiros nem sempre bem preparados para o combate? E se os nossos heróis fossem demasiado corajosos e pouco cerebrais?

Esta possibilidade é terrível. Levantá-la é uma atitude arriscada. Eu posso fazê-lo aqui pois a minha voz dificilmente chegará ao Céu, mas que essa hipótese tem fundamento, lá isso tem.

Temos muitos bombeiros voluntários, problemas na coordenação de acção de combate a incêndios e o país vai ardendo. E arde (percentualmente) mais que os outros países europeus. Somos o Inferno na Europa mas temos dificuldade em debater a proveniência do Diabo que preside a esta devastação. Porque arde mais Portugal do que arde Espanha, do que arde França, do que ardem todos os restantes?

Haverá alguém interessado em debater este "pormenor", para lá da questão das listas de nomes das vítimas, do populismo ou não populismo, do raio que os parta? Hércules, o maior de todos os heróis, foi empurrado para o heroísmo por razões sórdidas.

segunda-feira, julho 24, 2017

Traduções

Abri duas edições diferentes de Coração das Trevas de Joseph Conrad. Li a primeira página de uma, depois a primeira página de outra. Eram tão diferentes! Não fixei os nomes dos tradutores (podiam ser tradutoras) mas uma das traduções era deselegante a outra parecia muito melhor. Qual delas seria fidedigna?

Quando pego no Moby Dick fico a olhar a capa, a pensar. Não tenho muita vontade de ler. Quem me garante que não estou a ler uma merda qualquer? Não tenho dúvidas que qualquer tradução é uma interpretação mas ter consciência disso é bastante aborrecido. Como sei que estou a ler uma boa tradução ou uma tradução manhosa?

Preciso de aprender inglês o suficiente para poder ler os originais. E aprender mais francês e mais espanhol. Não vou ler nunca autores japoneses nem chineses nem indianos nem os clássicos gregos. Claro que isto sou eu a gozar comigo próprio, nunca serei capaz de aprender aquelas línguas e daqui a uns dias já me esqueci desta experiência traumática e vou voltar a ler traduções.

Não há como escapar desta armadilha.

quarta-feira, julho 19, 2017

Um sonho

Gostava de um dia descer a rua conversando com alguns gregos mortos, um ou outro romano e, porque não, um grande pintor flamengo. Lá mais adiante havíamos de parar numa esplanada e sentar os ossos para bebermos uma imperial e continuar divagando.

Eu e os meus amigos zombies, ali, bebendo e conversando como se a morte não fosse nada ou, pelo menos, como se a morte fosse igual à vida. As coisas espantosas que havia de vê-los descobrir!

Havíamos de falar cada um na sua língua mas tudo seria perceptível e perfeitamente compreensível porque a verdade não teria obstáculos para fluir entre nós. Nem a mentira. A vida igual à morte, a verdade igual à mentira.

Risos e palmadas nas costas. 

Gostava que um dia tudo fizesse parte de uma coisa só. Só não consigo imaginar que coisa pudesse ser. Talvez possa sonhá-lo.

terça-feira, julho 18, 2017

Liberdade de expressão

Nos tempos que correm, uma opinião pessoal publicamente assumida pode ser fonte de uma enxurrada de insultos, exigências de castigo, uma tremenda dor de cabeça para quem, à partida, nada mais fez do que dizer aquilo que pensa.

Vivemos numa sociedade democrática onde a liberdade de expressão é um dos nossos bens mais preciosos. No entanto a sua utilização sem barreiras é cada vez mais um problema para quem acredita poder fazê-lo.

Há grupos significativos de cidadãos que, sempre que se confrontam com opiniões que consideram reprováveis, em vez de as rebaterem com argumentos pedem de imediato a intervenção repressiva seja dos tribunais, seja de associações de profissionais com o intuito de castigarem aquele que emitiu uma opinião com a qual não concordam. Isto parece-me lamentável.

Se vamos perseguir pessoas por delito de opinião o que resta da nossa dignidade social? 

domingo, julho 16, 2017

Indolência absoluta

Por vezes sentia-se cansado de viver consigo próprio. Apesar de se conceder largos momentos de descanso, momentos que desejava de pasmaceira absoluta (moscas a voar, vento a passar, sol a brilhar, simplicidades deste género); ainda assim era um gajo cansativo. E cansava-se.

Que raio! A mosca levava-o com ela, o vento desarranjava-lhe a pose e o sol torrava o horizonte. Cansava-se de tanto procurar o descanso.

Este texto, inútil e desprovido de sentido, era o tipo de coisa que ele seria capaz de fazer. Tédio puro, indolência absoluta.

segunda-feira, julho 10, 2017

Pequena historieta de embalar

Vendem-te armas, fazem-te promessas de amizade e dizem que te apoiam. São amigos, faz-se negócio. Depois retiram-se e deixam-te a trabalhar. Tu lutas, matas, destróis, escapas por pouco. O teu país fica em ruínas. É hora para os teus amigos regressarem. Agora vêm apresentar-te toda uma outra linha de investimento, trata-se de reconstruir aquilo que as armas destruíram. Trazem novos empresários, outras ideias para te vender. São amigos, o negócio faz-se sempre.

sexta-feira, julho 07, 2017

Reflexão preguiçosa

EUA, Coreias, Arábia Saudita, Qatar, Egipto, Venezuela, Iémen, Sudão, Líbia, Filipinas, a lista é curta, como a minha memória, um esboço deste mundo feito com traço tosco. Leio o jornal e a sensação é a de que o mundo está dentro de uma panela de pressão posta ao lume.
A temperatura sobe.

Por aqui as coisas vão rolando calmas. O festival de Teatro de Almada oferece espectáculos diários. O povo assiste, sereno e divertido, discutem-se qualidades e defeitos de encenações, cenografias, interpretações... visões artísticas do tal mundo, da tal panela de pressão.

Por vezes recordo vagamente os anos 80, a Guerra Fria, o no future, nem sequer me apetece sorrir. A espécie humana é uma ameaça constante para si própria e, no entanto, é também a sua única esperança. Deus não é para aqui chamado embora, numa certa perspectiva, faça muita falta.

segunda-feira, julho 03, 2017

Beleza?

 Anjo da Covilhã (Junho 2017)


Por vezes questiono-me: por que razão pareço possuído por um espírito obscuro e melancólico sempre que avanço de encontro a uma folha de papel com a intenção de desenhar? Não há espaço na minha arte para um passarinho, uma flor bonita, uma criança a sorrir?

Nem sempre me apetece responder a mim próprio, ainda menos em questões deste teor.

Tenho a impressão consciente de que desenho para interpretar o mundo que me rodeia e que este mundo se transmuta dentro de mim naquilo que sou e, por extensão, naquilo que penso e sinto. Será que não tenho esperança na possibilidade de existência da beleza? Será que tenho da beleza uma imagem pouco consistente com o senso comum? Que raio!?

Acho que vou experimentar mais um desenho.

sexta-feira, junho 30, 2017

Imparcialidade

A imparcialidade pode revelar-se uma doença da alma. Não tomar partido, observar o mundo e os acontecimentos de uma forma absolutamente justa, sem o julgamento inquinado por um ponto de vista específico? Tenho a impressão de quem nem Deus será capaz de tão extraordinária façanha.

Para um mortal comum, o esforço de olhar o mundo de forma imparcial poderá provocar um caos desapaixonado pela percepção de que tudo é mesquinho, pode sugerir que a existência humana emporcalha tudo e destrói o planeta arrastando tudo o que a rodeia para o vórtice do aniquilamento absoluto.

A constatação de que cada um de nós tem um nariz e um umbigo, limites óbvios da perspectiva individual do universo, também não ajuda.

A imparcialidade é uma coisa impossível?

domingo, junho 25, 2017

Confusão

A exposição mediática é uma coisa monstruosa. Qualquer assunto que caia na malha apertada das redes dos pescadores de desgraças que distribuem o seu produto aos serviços noticiosos, corre o risco de crescer subitamente, uma lombriga transmutada em anaconda num abrir e fechar de olhos.

A catástrofe de Pedrógão Grande é mais um entre mil casos de consumo mediático, tão característicos da era digital e da TV por cabo.

Mesmo as questões mais graves, os momentos mais significativos, incham como um tumor e esvaziam-se de conteúdo quando submergidas por maremotos opinativos que tudo levam na enxurrada. É uma confusão, um fastio, um tédio infinito.

Consumimos a dor e a miséria como se fossem iogurtes ou bebidas frescas numa tarde quente. Todos se aproveitam, muitos exploram, mas, no fim e lá no fundo, ninguém sai completamente limpo de uma cena destas: nem os que mostram, os que oferecem, nem os que vêem, os que consomem.

Tudo isto me parece extremamente complexo e me deixa extraordinariamente confuso.


terça-feira, junho 20, 2017

Mentira

Várias coisas me enojam ao ponto de fazer crescer em mim uma incómoda vontade de fazer mal, também ela nojenta a gastar. Não pretendo justificar a baixeza de certos impulsos que de tempos a tempos me animam, sou um bicho, assumo-o com plena consciência da minha animalidade; mas tenho de reconhecer que, se não fosse devidamente estimulada, uma certa besta imunda que trago cá dentro talvez nunca saísse do seu sono mais profundo.

À estupidez suporta-a a custo, à mentira premeditada, tal como à sonsice, não admito qualquer tipo de espaço por ínfimo que seja. Aqueles que mentem de forma deliberada espevitam o tal bicharoco imundo que habita as profundezas das minhas entranhas.

A mentira terá diferentes graus numa escala que lhe determine a gravidade, admito. Há mentiras inofensivas, mentiras piedosas, essas são suportáveis. Há até mentiras que são proferidas com uma profunda convicção de se estar a falar verdade. Essas podemos mesmo respeitar. Mas a ignorância não pode justificar todas as baboseiras que possamos engendrar.

Finalmente há as grandes mentiras. São essas que me tiram do sério e me transformam numa autêntica besta.

segunda-feira, junho 19, 2017

Terrível beleza

Sinto-me incomodado com a estilização da catástrofe. Imagens editadas num serviço noticioso mostram a estrada da morte no incêndio de Pedrógão em artísticos planos e graciosos movimentos de câmara. Uma música em fundo dramatiza ainda mais a peça (noticiosa?) e contribui para conferir ao cenário desolador uma esmagadora beleza. Como se fosse um filme, como se fosse uma obra de ficção.

Nestas ocasiões o coração confunde-se de tal modo com a razão que não percebemos muito bem as sensações que nos rolam na mente. Desligo a TV, tento não pensar no inferno. Mas isso é muito complicado. O calor sufocante que paira na rua e me entra em casa não permite que a abstracção seja eficaz.

A dor, o drama humano, a violência descontrolada das forças que a Natureza é capaz de convocar para nos reduzir à nossa insignificância, tudo isto, em conjunto, me confunde. Acho que vou regressar à leitura. Estou a ler, pela primeira vez, Moby Dick.

domingo, junho 18, 2017

Ter coragem

Ontem morreu tanta gente! Foi o inferno. Mais um, outro inferno, um novo inferno. Após o inferno na torre de apartamentos em Londres vimos o inferno nas florestas e estradas de Pedrógão. Dezenas de cadáveres carbonizados, centenas de famílias em pranto, milhares de pessoas aterrorizadas, milhões a lamentar no espaço virtual estas ocorrências.

Não podemos fazer nada. Vivemos o desespero da impotência, desesperamos com a percepção da fragilidade da vida. "Quando um gajo não tem sorte até os cães lhe mijam em cima". Quando um gajo não tem sorte arde como uma folha de papel. É terrível.

Que podemos fazer? Ter coragem. Penso que é a única coisa que nos resta: ter coragem e continuar a viver.

sábado, junho 17, 2017

Fantasmita

Diz-se que o cão é o melhor amigo do homem, que um livro é uma óptima companhia, coisas assim. Não me parece nada que estas ideias sejam sinceras, parece-me que são tentativas de espantar o mais melancólico dos fantasmas, aquele que ali está e que tem Solidão por apelido.

Quando passamos muito tempo sozinhos sentimos uma mordida no coração. Não é muito forte, não quer despedaçar-nos o músculo vital, não. É apenas assim mesmo, um fincar de dentes para não largar, uma coisinha teimosa ali pendurada, a tremelicar a cada batida, uma coisa bastante melancólica, até.

Pessoalmente, são mais as ocasiões em que opto por ficar só do que aquelas a que tal sou obrigado. Ainda que muito preze a companhia das letras, que não desdenhe a presença de um canídeo e ame  a Humanidade muito mais do que gosto de admitir, tenho por este bichito que mordisca o meu coração um carinho especial. Gosto deste fantasmita.

quinta-feira, junho 15, 2017

Metáfora

Cada vez menos sou capaz de acreditar que haja, de facto, uma separação de poderes na forma como interpretamos o sistema democrático no nosso país.

Os responsáveis pela elaboração das leis parecem estar profundamente comprometidos com as forças obscuras do vampirismo que tem a dentuça ferrada na jugular do Estado. É como ter raposas a guardar o galinheiro e um bando de furões como encarregados dos serviços de limpeza da gaiola onde pomos os nossos ovos. Anda a galinhada num virote, a levar dentadas, a perder penas, a sofrer de desorientação e com inveja da vizinha a quem apenas foi levada uma pernoca na última investida das bestas que zelam pelo nosso bem-estar.

Quando olho, por exemplo, para o que se passa no Brasil ou em Angola, não sinto qualquer tipo de alívio por estar enfiado neste galinheiro lusitano. Sinto uma espécie de solidariedade melancólica por perceber que eles têm leões no lugar das raposas e jacarés no lugar dos furões.

Vivemos um tempo em que as máscaras das bestas que nos devoram caem com facilidade. Vemos com nitidez a deformação hedionda dos seus focinhos, aspiramos o hálito fedorento que exalam enquanto cirandam ao redor das nossas vidinhas. E, no entanto, parecemos hipnotizados, imobilizados perante o poder encantatório das ilusões que nos oferecem para nos amolecer as carnes antes de lhes ferrarem o dente.

No meio desta merda toda Portugal não passa de metáfora, coisa pequenina. Mas, para mim, para os que vivem neste galinheiro, é coisa enorme por ser o lugar das nossas vidas.

quarta-feira, junho 14, 2017

Um sonho

Esta noite tive um sonho de que me recordo. Sonhei que caminhava calmamente rua abaixo.  Era a rua em que moro mas não era, compreendes-me? Nunca te aconteceu sonhar que passeias num espaço que te é familiar mas onde não reconheces nada?

Mas, o que interessa para o caso, é que eu caminhava sem dor nem esforço nem muletas: nada! Durante o sonho isso era algo perfeitamente adequado (ia escrevendo "natural") e não me obrigou a pensar muito nos gestos vigorosos que o corpo me permitia executar.

Foi um sonho particularmente bizarro devido ao encontro inesperado com uma amiga que já não via há muito, muito tempo e que, num flash, desatou a cabecear um muro repetindo insistentemente a frase "sou boa pessoa". Espero que ela esteja a passar bem, cá fora, fora do mundo dos sonhos.

Entretanto acordei com o ruído vibrante do berbequim ou lá o que é aquela merda que os operários vêm utilizando na obra que decorre no andar de baixo. Acordei e apercebi-me que ainda não recuperei da lesão muscular que me mantém fechado em casa.

Aqui estou, sentado, perna esticada, enquanto tento fazer durar o tempo de escrever estas palavras. Um dia destes vou poder sair de novo e caminhar, calmamente, rua abaixo. Se encontrar a minha amiga...

segunda-feira, junho 12, 2017

Chateação

O tempo está parado; é espesso como uma malga de sopa morna. Compreendo o que sentiria uma ervilha ou um pedaço de cenoura que tivesse escapado ao passevite, ficando a boiar enquanto não viesse a colher recolher-lhe a alma para a levar à boca de quem come.

O tédio é um bicho gordo e egoísta que se deita sobre os teus pensamentos e ali fica, sem fazer nada, a tapar a vista à imaginação, a peidar-se e a fingir que abana a cauda. Tentas enxotar a bestiola mas... qual quê! Dali não sai, dali ninguém a tira que ela é uma estátua plantada no jardim da tua inutilidade.

Não sinto o vento no rosto. Não sei se por estar um dia sossegado, se por ter as janelas todas fechadas. Não sei. Não me apetece saber.

Nem a leitura me ajuda a completar tanto espaço vazio que me entrou dentro do corpo.

domingo, junho 11, 2017

Vontade de desenhar

Continuo para aqui sentado, perna esticada, a secar. Ter os movimentos condicionados é chato (terrível seria expressão exagerada, caríssimo leitor; mais adiante iremos reflectir sobre isso mesmo), surpreendentemente muito mais chato do que era capaz de imaginar olhando outra pessoa nas mesmas condições em que me encontro.

Imagino (tento imaginar!) como será um gajo poder movimentar-se com eficácia motora mas estar emparedado, prisioneiro num espaço exíguo. Querer e não poder dar mais que cinco passos seguidos em linha recta; terrível! Isto sim, será certamente algo terrível. Esta merdice que por ora me atormenta irá ser debelada. A lesão diluir-se-à no tempo e com o tempo, desaparecerá de forma discreta, a contrastar com a estridência estapafúrdia da sua chegada, serei livre de novo.

Pensei que esta pasmaceira, esta imobilidade, imaginei que estar assim, sentado horas a fio fosse propício ao desenho. Pedi À minha filha um certo bloco, rodeei-me de lápis e canetas. Já lá vão dois dias e... nada. Nem sequer vontade de desenhar.

Talvez a minha vontade de desenhar resulte da liberdade de movimentos, talvez o apetite pela criação me exija alguma capacidade de levar o cérebro daqui para ali. Talvez alguns consigam criar quando estão em cativeiro ou sintam necessidade de se expressar quando têm o cu irremediavelmente agarrado ao tampo de uma cadeira.

Agora que reflecti um pouco sobre este assunto talvez seja capaz de desenhar alguma coisa.

sexta-feira, junho 09, 2017

Frágil

Como na canção de Jorge Palma, "sinto-me frágil". Ontem, ao atravessar uma rua movimentada, fiz um gesto qualquer, daqueles que não chegamos a perceber que fazemos e logo senti um músculo na barriga da perna a abrir-se como um folha de papel a ser rasgada. A dor foi forte e de imediato tive de me sentar. Ainda caminhei um pouco, coxeando muito mas tive de parar e procurar ajuda.

Uma ida ao hospital de Almada e uma consulta médica de urgência atiraram-me para aqui, para o sofá, com a perna esticada e apoiada na mesa, isto por um período nunca inferior a uma semana. Num momento um gajo está descontraído e confiante até à inconsciência de si próprio, no momento seguinte está incapacitado de se movimentar livremente e muito mais consciente do seu corpo do que  desejaria.

Ok, estás de férias, dirias tu, angelical leitor, numa tentativa de elevares o meu ânimo. O caraças, responderia eu, prefiro trabalhar que nem um cão mas manter a mobilidade e poder levantar-me e caminhar quando me apetecer sem necessitar de deitar mão a um par de muletas.

É quando ficamos assim, frágeis, que percebemos aquele desejo que normalmente é formulado pelos mais velhos quando nos dizem: "saúdinha!"

quarta-feira, maio 24, 2017

Mudam-se os tempos...

Eles andam por aí. Rastejam sobre duas patas carregando uns expositores com rodinhas onde expõem uns escritos ranhosos oferecendo felicidade a troco de devoção total. Devoção a um deus merdoso que só existe lá na igreja deles.

São os modernos evangelizadores da treta, pobres diabos mal disfarçados de anjos. Trazem asas presas no rabo, asas que arrastam pelo chão. O Verbo não os ilumina. A igreja que representam é um negociozito tão mal amanhado que só pode atrair os analfabetos e os desesperados por um pouco de conforto. Seriam dignos de dó, não fossem tão assanhados e convictos de serem os israelitas dos subúrbios.

Os antigos encomendavam-se a Deus implorando boas colheitas e uma Natureza benévola. Os modernos pedem-Lhe bons negócios e um emprego. É a diferença entre uma sociedade agrícola, na qual os seres humanos viviam com as ventas enfiadas na terra e uma sociedade urbana, na qual os seres humanos vivem com as ventas enfiadas nos mass media.

Sinto-me acabrunhado.

quarta-feira, maio 17, 2017

Escárnio e maldizer (com final esperançoso)

Durante anos venderam-nos a ideia de que Portugal seria o "bom aluno" da Europa. O que caracterizava o nosso país para merecer tal designação?

Ser subserviente, fazer sempre aquilo que era esperado que fizesse e obedecer sem questionar as ordens vindas de quem era suposto mandar. Obedecer e, para ficar mais bonito aos olhos dos grandalhões, ser ainda mais severo consigo próprio do que aquilo que lhe era imposto. Um toque de masoquismo: abraçar o sacrifício com aquela alegria beata dos gajos que se autoflagelam para expiarem os seus pecados.

O bom aluno da era cavaquista copiava com atenção o que o mestre escrevia, nem que o escrevesse nos tomates, e reproduzia com a exactidão que as suas vistas curtas lhe permitissem tudo aquilo, mesmo que não percebesse bem que raio de merda estava a fazer. O mestre escreveu é porque é importante. Assim se comporta o bom aluno.

O bom aluno não tem opinião ou, se a tem e não coincide com a do mestre, fica calado, engole e faz de conta que não se passa nada. De facto, com o bom aluno, nunca se passa nada.

Quantos anos perdemos nós a ser governados por estes borra-botas, estes pichas-murchas, alforrecas corcundas, seres destituídos de coluna vertebral? Ainda por cima havia uns quantos ladrõezecos entre estes bardamerdas enfatuados.

O puto Salvador mostrou, num contexto muito diferente, é certo, que andar a lamber a cartilha do mestre nem sempre dá bom resultado, nem sequer é uma atitude particularmente inteligente. Quem não tivesse percebido talvez tenha agora compreendido que arriscar ser quem somos pode ser a melhor forma de alcançar o sucesso. Só temos de valer alguma coisa e acreditar em alguma coisa que se pareça com a Verdade.

segunda-feira, maio 15, 2017

Um gajo esquisito



Finalmente Portugal conseguiu um objectivo muito antigo (na época contemporânea 53 anos corresponde à quase totalidade do tempo bíblico) e um cantor luso venceu o célebre Festival da Canção ou da Eurovisão, não tenho bem a certeza da designação actual.

Quando eu era puto o Festival era um acontecimento do caraças. A família reunia-se na expectativa de que alguém pudesse reparar no nosso artista, rezando para que, pelo menos os espanhóis, votassem na nossa cançãozinha. Por favor senhores...

Mas a coisa nunca resultava e o pessoal ficava a matutar nas razões que estariam na base de tanta indiferença para com os nossos artistas da cantoria: que o problema era esta nossa língua (demasiado bela ou demasiado complexa, conforme as opiniões), que o problema era o arranjo musical, demasiado antiquado, que a gente não era nunca capaz de acompanhar o ar dos tempos, mil e uma explicações que seriam esquecidas no ano seguinte durante um bocadinho, o bocadinho que durava a tal esperança de sermos notados.

Fui crescendo e deixei de ver a coisa. Para um jovem amante de boa música o Festival era algo execrável: uma merda! E quem quer enfiar merda pelos ouvidos dentro?

Agora que estou... crescido, por assim dizer, já não temo que me caiam os parentes na lama só por prestar atenção ao dito concurso musical. Em boa hora pois, por uma vez na vida, Portugal, através de Salvador Sobral, conseguiu superar todas as expectativas vencendo a coisa.

O rapaz, que é um anti-herói, tornou-se um herói nacional. Já tudo foi dito e redito sobre tão feliz desenlace mas o que me deu especial prazer foi que o tão ambicionado troféu foi conseguido por alguém que se distinguiu da massa através de uma original estranheza.

Sempre que se tentou copiar as formas consideradas canónicas para parir um objecto musical capaz de ombrear com os "estrangeiros" o resultado foi pouco menos que patético, horripilante na maior parte das ocasiões.

Quando Salvador venceu o Festival cá do burgo houve logo quem gozasse com o aspecto dele, com a forma esquisita como interpretava a canção. Habituados ao fracasso imaginavam mil e uma maneiras de minimizar a personagem que iria representar, mais uma vez, a desgraçada miséria nacional.

Mas, desta vez, não foi assim. Salvador venceu e mostrou que ser um gajo esquisito não é, obrigatoriamente, um factor negativo. Antes pelo contrário.

sábado, maio 13, 2017

Momento (pouco) zen

Cada um de nós é fruto de uma determinada árvore genealógica. Pendemos dos ramos da nossa árvore com aspecto mais ou menos apetecível, dependendo da fome de quem nos olha. Estamos neste mundo para comermos e sermos comidos. Sim, somos frutos carnívoros.

A complexidade patética do ser-se humano é tão grande que não percebemos nada. Não sabemos de onde vimos, não sabemos onde estamos... como poderemos, sequer, imaginar para onde vamos?

Esta cena deixa-nos assim, como somos: desprotegidos, vulneráveis; desorientados. Olhamos em redor procurando algo que nos ilumine, qualquer coisinha que alumie tenuemente as trevas que envolvem esta nossa condição.

A muitos de nós custa a crer que a vida seja isto. Que seja só isto. Temo bem que seja assim.

sexta-feira, maio 12, 2017

Perguntem ao Chico

Fátima, Fátima... Fátima. Nos últimos dias, como sempre acontece por esta altura, não se ouve falar de outra coisa. Este ano o falatório começa a chatear de tão intenso, pois temos entre nós o Santo Padre, o Papa Chico.

O Chico vem para canonizar os pastorinhos. Ok, o gajo é o boss da igreja católica, está a desempenhar o seu papel. Terá o Santuário apinhado de ovelhas, as do seu rebanho, uma espécie de Woodstock religioso. A coisa promete.

As dúvidas que me fazem cócegas na cachimónia é: o Chico acredita mesmo nesta cena das aparições em Fátima? É com convicção que vai enfiar mais 3 bonequitos na prateleira dos santos católicos?

Gostava de poder perguntar-lhe estas coisas mas, como não dá para chegar à fala com o amigo Chico ficarei para sempre com as dúvidas enfiadas na garganta.

Alguém que possa que lhe pergunte e depois diga qualquer coisinha. Gostava mesmo de saber, porra!

sábado, maio 06, 2017

Sob um céu cinzento

Tiramos a religião a uma comunidade e o que lhe deixamos em troca? Sai Deus do cadeirão mais elevado do Tribunal e quem lá vai sentar o cu? A coisa é complicada. A Lei divina substituída por um Código Penal trabalhado por homens pouco escrupulosos é a resposta a que temos direito?

As grandes catedrais foram substituídas por centros comerciais. As famílias deslocam-se em peregrinação dominical aos McDonald's de todos os tipos, a devoção à Palavra é transformada em devoção ao Consumo. Isto é complicado, caraças.

Teremos, de facto, matado Deus? Ou Ele, simplesmente, amuou e foi pregar para outra freguesia? Talvez tenha criado outro tipo de vida capaz de O adorar nalgum planeta longínquo e tenha agora a forma de uma lula ou de um veado com asas de morcego, uma coisa assim, tão incompreensível para nós, seres humanos, como nós seremos para as espécies alienígenas que eventualmente existam algures no Universo.

A desagregação do espaço humano vai corroendo o Mundo, a Lei de Lavoisier aplicada à escala da existência da nossa espécie, este mundo que se achata e vai perdendo a esfericidade sob um céu muito cinzento.

terça-feira, maio 02, 2017

Dada Combatendo a Maldade

Passei a última hora a tentar recolher dois ou três textos deste vosso 100 Cabeças que possam servir de apoio a quem visitar a próxima exposição de desenho que vou realizar conforme consta na imagem acima.

Clico na etiqueta "arte" e, catrapunfas, logo surgem 229 textos que fui escrevendo ao longo dos anos neste blogue. É muita coisa, a escolha decerto terá sido difícil.

Nem por isso. Mais difícil foi escrever este post sem parecer lamechas.