quarta-feira, maio 24, 2017

Mudam-se os tempos...

Eles andam por aí. Rastejam sobre duas patas carregando uns expositores com rodinhas onde expõem uns escritos ranhosos oferecendo felicidade a troco de devoção total. Devoção a um deus merdoso que só existe lá na igreja deles.

São os modernos evangelizadores da treta, pobres diabos mal disfarçados de anjos. Trazem asas presas no rabo, asas que arrastam pelo chão. O Verbo não os ilumina. A igreja que representam é um negociozito tão mal amanhado que só pode atrair os analfabetos e os desesperados por um pouco de conforto. Seriam dignos de dó, não fossem tão assanhados e convictos de serem os israelitas dos subúrbios.

Os antigos encomendavam-se a Deus implorando boas colheitas e uma Natureza benévola. Os modernos pedem-Lhe bons negócios e um emprego. É a diferença entre uma sociedade agrícola, na qual os seres humanos viviam com as ventas enfiadas na terra e uma sociedade urbana, na qual os seres humanos vivem com as ventas enfiadas nos mass media.

Sinto-me acabrunhado.

quarta-feira, maio 17, 2017

Escárnio e maldizer (com final esperançoso)

Durante anos venderam-nos a ideia de que Portugal seria o "bom aluno" da Europa. O que caracterizava o nosso país para merecer tal designação?

Ser subserviente, fazer sempre aquilo que era esperado que fizesse e obedecer sem questionar as ordens vindas de quem era suposto mandar. Obedecer e, para ficar mais bonito aos olhos dos grandalhões, ser ainda mais severo consigo próprio do que aquilo que lhe era imposto. Um toque de masoquismo: abraçar o sacrifício com aquela alegria beata dos gajos que se autoflagelam para expiarem os seus pecados.

O bom aluno da era cavaquista copiava com atenção o que o mestre escrevia, nem que o escrevesse nos tomates, e reproduzia com a exactidão que as suas vistas curtas lhe permitissem tudo aquilo, mesmo que não percebesse bem que raio de merda estava a fazer. O mestre escreveu é porque é importante. Assim se comporta o bom aluno.

O bom aluno não tem opinião ou, se a tem e não coincide com a do mestre, fica calado, engole e faz de conta que não se passa nada. De facto, com o bom aluno, nunca se passa nada.

Quantos anos perdemos nós a ser governados por estes borra-botas, estes pichas-murchas, alforrecas corcundas, seres destituídos de coluna vertebral? Ainda por cima havia uns quantos ladrõezecos entre estes bardamerdas enfatuados.

O puto Salvador mostrou, num contexto muito diferente, é certo, que andar a lamber a cartilha do mestre nem sempre dá bom resultado, nem sequer é uma atitude particularmente inteligente. Quem não tivesse percebido talvez tenha agora compreendido que arriscar ser quem somos pode ser a melhor forma de alcançar o sucesso. Só temos de valer alguma coisa e acreditar em alguma coisa que se pareça com a Verdade.

segunda-feira, maio 15, 2017

Um gajo esquisito



Finalmente Portugal conseguiu um objectivo muito antigo (na época contemporânea 53 anos corresponde à quase totalidade do tempo bíblico) e um cantor luso venceu o célebre Festival da Canção ou da Eurovisão, não tenho bem a certeza da designação actual.

Quando eu era puto o Festival era um acontecimento do caraças. A família reunia-se na expectativa de que alguém pudesse reparar no nosso artista, rezando para que, pelo menos os espanhóis, votassem na nossa cançãozinha. Por favor senhores...

Mas a coisa nunca resultava e o pessoal ficava a matutar nas razões que estariam na base de tanta indiferença para com os nossos artistas da cantoria: que o problema era esta nossa língua (demasiado bela ou demasiado complexa, conforme as opiniões), que o problema era o arranjo musical, demasiado antiquado, que a gente não era nunca capaz de acompanhar o ar dos tempos, mil e uma explicações que seriam esquecidas no ano seguinte durante um bocadinho, o bocadinho que durava a tal esperança de sermos notados.

Fui crescendo e deixei de ver a coisa. Para um jovem amante de boa música o Festival era algo execrável: uma merda! E quem quer enfiar merda pelos ouvidos dentro?

Agora que estou... crescido, por assim dizer, já não temo que me caiam os parentes na lama só por prestar atenção ao dito concurso musical. Em boa hora pois, por uma vez na vida, Portugal, através de Salvador Sobral, conseguiu superar todas as expectativas vencendo a coisa.

O rapaz, que é um anti-herói, tornou-se um herói nacional. Já tudo foi dito e redito sobre tão feliz desenlace mas o que me deu especial prazer foi que o tão ambicionado troféu foi conseguido por alguém que se distinguiu da massa através de uma original estranheza.

Sempre que se tentou copiar as formas consideradas canónicas para parir um objecto musical capaz de ombrear com os "estrangeiros" o resultado foi pouco menos que patético, horripilante na maior parte das ocasiões.

Quando Salvador venceu o Festival cá do burgo houve logo quem gozasse com o aspecto dele, com a forma esquisita como interpretava a canção. Habituados ao fracasso imaginavam mil e uma maneiras de minimizar a personagem que iria representar, mais uma vez, a desgraçada miséria nacional.

Mas, desta vez, não foi assim. Salvador venceu e mostrou que ser um gajo esquisito não é, obrigatoriamente, um factor negativo. Antes pelo contrário.

sábado, maio 13, 2017

Momento (pouco) zen

Cada um de nós é fruto de uma determinada árvore genealógica. Pendemos dos ramos da nossa árvore com aspecto mais ou menos apetecível, dependendo da fome de quem nos olha. Estamos neste mundo para comermos e sermos comidos. Sim, somos frutos carnívoros.

A complexidade patética do ser-se humano é tão grande que não percebemos nada. Não sabemos de onde vimos, não sabemos onde estamos... como poderemos, sequer, imaginar para onde vamos?

Esta cena deixa-nos assim, como somos: desprotegidos, vulneráveis; desorientados. Olhamos em redor procurando algo que nos ilumine, qualquer coisinha que alumie tenuemente as trevas que envolvem esta nossa condição.

A muitos de nós custa a crer que a vida seja isto. Que seja só isto. Temo bem que seja assim.

sexta-feira, maio 12, 2017

Perguntem ao Chico

Fátima, Fátima... Fátima. Nos últimos dias, como sempre acontece por esta altura, não se ouve falar de outra coisa. Este ano o falatório começa a chatear de tão intenso, pois temos entre nós o Santo Padre, o Papa Chico.

O Chico vem para canonizar os pastorinhos. Ok, o gajo é o boss da igreja católica, está a desempenhar o seu papel. Terá o Santuário apinhado de ovelhas, as do seu rebanho, uma espécie de Woodstock religioso. A coisa promete.

As dúvidas que me fazem cócegas na cachimónia é: o Chico acredita mesmo nesta cena das aparições em Fátima? É com convicção que vai enfiar mais 3 bonequitos na prateleira dos santos católicos?

Gostava de poder perguntar-lhe estas coisas mas, como não dá para chegar à fala com o amigo Chico ficarei para sempre com as dúvidas enfiadas na garganta.

Alguém que possa que lhe pergunte e depois diga qualquer coisinha. Gostava mesmo de saber, porra!

sábado, maio 06, 2017

Sob um céu cinzento

Tiramos a religião a uma comunidade e o que lhe deixamos em troca? Sai Deus do cadeirão mais elevado do Tribunal e quem lá vai sentar o cu? A coisa é complicada. A Lei divina substituída por um Código Penal trabalhado por homens pouco escrupulosos é a resposta a que temos direito?

As grandes catedrais foram substituídas por centros comerciais. As famílias deslocam-se em peregrinação dominical aos McDonald's de todos os tipos, a devoção à Palavra é transformada em devoção ao Consumo. Isto é complicado, caraças.

Teremos, de facto, matado Deus? Ou Ele, simplesmente, amuou e foi pregar para outra freguesia? Talvez tenha criado outro tipo de vida capaz de O adorar nalgum planeta longínquo e tenha agora a forma de uma lula ou de um veado com asas de morcego, uma coisa assim, tão incompreensível para nós, seres humanos, como nós seremos para as espécies alienígenas que eventualmente existam algures no Universo.

A desagregação do espaço humano vai corroendo o Mundo, a Lei de Lavoisier aplicada à escala da existência da nossa espécie, este mundo que se achata e vai perdendo a esfericidade sob um céu muito cinzento.

terça-feira, maio 02, 2017

Dada Combatendo a Maldade

Passei a última hora a tentar recolher dois ou três textos deste vosso 100 Cabeças que possam servir de apoio a quem visitar a próxima exposição de desenho que vou realizar conforme consta na imagem acima.

Clico na etiqueta "arte" e, catrapunfas, logo surgem 229 textos que fui escrevendo ao longo dos anos neste blogue. É muita coisa, a escolha decerto terá sido difícil.

Nem por isso. Mais difícil foi escrever este post sem parecer lamechas.

sábado, abril 29, 2017

Valha-nos Deus (Nosso Senhor)

Foi algures aí atrás, numa curva da estrada, perdemo-nos, ficámos desorientados. Foi quando deixámos de ser cidadãos e passámos a ser consumidores. Quando aconteceu tal coisa?

Nos dias que correm, ao percorrermos o nosso caminho, ouvimos falar primeiro em Economia e depois, se tivermos tempo para isso, ouvimos falar em Democracia. Se repararmos bem só ouvimos falar em Democracia caso sobre tempo para tal.

Os nossos direitos são os do consumidor, que se lixe a cidadania.

Quando aconteceu isto, Deus meu!?

quinta-feira, abril 27, 2017

Visão mística?

Ó Deus glorioso, eu Te agradeço esta cagadela tão boa.

Grato estou, eternamente grato, por me teres oferecido um aparelho intestinal deste gabarito, por me possibilitares estes sublimes vislumbres do mundo quando, em pleno esforço de expulsar a coisa, no tremelique do "já lá vem", a quase-dor é transformada em alívio total, calmaria absoluta; é como se subitamente olhasse o gracioso frol a enfeitar-me os dedinhos dos pés após o ribombar monstruoso de uma onda de 10 metros que viesse assustar a areia da praia.

Tenho, por vezes, a ímpia sensação de Te ver encostado à parede, sorrindo na minha direcção, quando a coisa lá vai, sanita abaixo e o tremelique cessa de me confundir os olhos.

Será isto uma visão mística?

segunda-feira, abril 24, 2017

Podia ser pior...

A cena é essa: um gajo está tão ocupado a tentar sobreviver que não tem espaço mental para reflectir sobre a vida e a morte, sobre o que é a felicidade, essas coisas.

Um gajo está tão ocupado a imaginar que raio de imagem exporta em direcção aos olhos dos outros que não tem tempo para pensar no que significa um olhar.

Um gajo está tão enfronhado na vida quotidiana que acaba por se elevar ao nível básico do bicho. Já não é mau, já não é mau... podia ser pior.

E como podia ser pior acabamos a dar-nos por satisfeitos: é uma merda, eu sei, mas podia ser pior, podia ser pior...

domingo, abril 23, 2017

Domingo

Hoje só saíram à rua as pessoas feias, acompanhadas por um ou outro bebé. Tenho a sensação de estar no interior de um tríptico de Bosch iluminado por lâmpadas de néon. As pessoas surgem grotescas aos meus olhos, como se estivessem todas trocadas e as peles que lhes envolvem os ossos fossem peles de outros seres, alguns deles nem sequer humanos.

sexta-feira, abril 21, 2017

Academia

Já não consigo aguentar sem ripostar a opinião douta e definitiva dos grandes académicos que sabem muito bem o que é e o que não é arte. Aliás, Arte, pois que aquilo que tão extraordinárias personagens sabem, conhecem e preservam, o Conhecimento, a Beleza, estas coisas escrevem-se sempre com uma letra Maiúscula a abrir a palavra, não vá algum ignorante desrespeitar a coisa.

É frequente perder-me nos discursos labirínticos destes doutores e destas doutoras que pretendem balizar o fenómeno da criação artística, que lhe definem as fronteiras e montam postos alfandegários onde alguém nos perguntará, lá do alto do seu posto: tem algo a declarar?

E, caso declaremos algo, de imediato nos sujeitamos ao julgamento do douto alfandegário e às sanções que ele considerar convenientes. A maior parte das vezes somos obrigados a permanecer do lado de cá, não nos é reconhecido valor suficiente para atravessar a fronteira; a nossa ignorância, a nossa rudeza e falta de sensibilidade impedem-nos de apreciar o que os Grandes Académicos guardam do lado de lá.

Ok. Fiquem lá com essa merda para vocês. Espero que, pelo menos, sejam felizes.

quarta-feira, abril 19, 2017

F......

A sensação não me tranquiliza, antes pelo contrário.

Tenho a sensação de que estamos a construir uma sociedade onde um gajo entra por uma porta e é cidadão e sai por outra transformado em consumidor. Os direitos e deveres são alterados ao longo deste estranho processo de transmutação.

É todo um novo Contrato Social que nos orienta a partir daqui. Consumir implica uma atitude que não se coaduna lá muito bem com o ideal de solidariedade que importava observar quando éramos cidadãos de uma sociedade democrática. O Consumidor é um predador.

Tenho a sensação de que, nesta sociedade, há mais espaço para a intolerância e o que o fascismo apresenta muitos rostos. A maior parte deles sorridentes. Os fascistas aprenderam a sorrir sem parecer que estão apenas a rilhar os dentes ou a espumar de raiva.

Em que parte do caminho é que nos enganámos? Quando foi que desobedecemos a nossa mãe e saímos do caminho no meio da floresta? Quando foi que metemos conversa com a merda do Lobo Mau?

Tenho a sensação de que esta sociedade de consumidores acabará por rebentar e com ela rebentará uma parte considerável do planeta (se não todo o planeta).

Tenho a sensação que estamos f......

terça-feira, abril 18, 2017

Ir ao Porto e regressar

Num país como este as grandes distâncias são sempre pequenas.

quinta-feira, abril 13, 2017

A velha questão volta a atacar

Quando o discurso do artista se enrola em volta daquilo que lhe interessa (a ele, enquanto indivíduo) qual a possibilidade de o resultado da sua reflexão e do seu trabalho vir a interessar, também, o espectador?

Há uma questão que me dança constantemente dentro da cabeça: qual o futuro de um objecto artístico que não convoque uma narrativa? Sim, eu sei, esta pergunta interessa-me a mim, enquanto indivíduo, qual a possibilidade ela vir a interessar-te também a ti, paciente leitor?

Seja como for, estou para aqui a escrevinhar estas palavras como se estivesse a berrar para um desfiladeiro e nada mais me preocupa do que reflectir simplesmente.

terça-feira, abril 11, 2017

La vida loca



As viagens de finalistas ao sul de Espanha funcionam como uma espécie de ritual contemporâneo de passagem à idade adulta da juventude lusitana. Tal como noutras épocas e noutras culturas, os nossos jovens são colocados à prova numa situação em que, muitos deles, estão pela primeira vez entregues a si próprios, longe do ambiente familiar, confrontados com a sua capacidade de responder a preceito a questões desafiantes. Talvez aquilo a que vamos assistindo nestas viagens, ano após ano, seja um reflexo da sociedade que construímos. O excesso, a boçalidade, a ausência de espírito crítico, a vontade de explodir, de ultrapassar os limites, sejamos justos, não são exclusivos desta geração, sempre fizeram parte da condição da adolescência. Apenas têm crescido de intensidade.

Desde que se tornaram um alvo para as campanhas publicitárias que excitam a vontade de consumir, os jovens são bombardeados com mensagens cada vez mais excessivas. O apelo à plenitude absoluta do prazer, a associação do prazer a situações extremas, são factores corriqueiros no quotidiano mediático, há uma idolatria da loucura que potencia comportamentos esquizoides. A coisa vai-se entranhando num crescendo ansioso, as expectativas da viagem de finalistas vão sendo colocadas em patamares altíssimos, a necessidade de viver tudo o que ainda não foi vivido no curto período de uma semana faz com que os filtros sociais sejam desligados; aqueles dias têm de valer a pena, têm de ser experienciados como se não houvesse amanhã!

Depois há a amplificação mediática (outra característica do tempo actual) e as notícias são marteladas em ritmo de hip-hop, a toda a hora, uma e outra vez, com especial ênfase na espectacularidade alarmista. Os meios de comunicação comportam-se como aqueles jovens: pintam manchetes com frases bombásticas, atiram os factos para dentro de serviços noticiosos que os mastigam como se fossem chiclete, todos os jornais se transformam em correios da manhã. Dentro de alguns dias tudo será esquecido, outros escândalos irão ocupar o espaço mediático, os jovens regressarão à vida académica, agora pressionados pela aproximação dos exames nacionais. Se tudo tiver corrido bem, as memórias destes dias loucos irão contribuir para que se entreguem com maior afinco ao estudo. Afinal de contas agora são adultos, já cumpriram o ritual.

sábado, março 25, 2017

Crocodile Bambi (6)

Vomitar é um impulso higiénico que a nossa alma adquire ou não. Depende do grau de lucidez que o teu corpo mantém quando é desligado do cérebro. Imagino que os meus músculos, os meus ossos, as minhas entranhas, tenham vontade própria e se reúnam em plenário de cada vez que o álcool irrompe tomando de assalto o castelo do meu crânio. Tentam isolar a bebedeira, tomam as rédeas do cavalo estúpido em que me transformo, a gatinhar (transformo-me em gato? Não.), a andar em quatro patas pelo passeio seboso, como se procurasse um pasto que não existe, tão bêbado como um autocarro abandonado à beira do passeio. Penso em coisas sem sentido, como poderia ser de outro modo? O cérebro não tem hipóteses, o corpo é, agora, um animal autónomo e triste que lhe pede, por favor, que reconsidere: cérebro, por favor, volta para mim, não me deixes, não me abandones, tenho medo quando fico sozinho.
Não sei se isto é verdade, não sei se as coisas funcionam assim pois este pensamento é registado muito depois de ter vivido os acontecimentos daquela fatídica noite e nunca mais voltei a embebedar-me daquele modo. Nunca mais voltei a vomitar. Nunca mais o meu corpo se desligou do cérebro que me serve de morada. Desde aquela noite tenho vivido uma vida tristemente sóbria, uma vida de uma lucidez arrepiante.

quarta-feira, março 22, 2017

Crocodile Bambi (5)

- Aquilo não foi normal. O Sr. António estava a convencer um cliente a pagar a conta. Era um tipo franzino com ar de intelectual, não sei se está a ver? Um tipo daqueles que não sabem beber sem ficarem a cair de bêbados. O Sr. António estava com dificuldades em fazer ver ao betinho que as contas são sagradas e resolveu recorrer à sua Maria, uma tranca simpática que costumava guardar por trás do balcão. Só queria explicar-lhe melhor a sua ideia, está a perceber? Mas aquilo não foi normal. O betinho estava todo cagado, a patinar nos calcanhares, agarrado a uma mesa, imagino que a ver a vida a andar para trás, quando a gaja que veio com ele pareceu que caía do tecto ou o caraças. De onde veio aquela fúria? Nem deu para perceber. O Sr. António vinha de tranca levantada, o betinho vomitou-lhe em cima o que fez com que ele hesitasse no gesto de lhe arriar e foi então que a tipa foi como se tivesse entrado pelo Sr. António dentro: deu-lhe um soco nas trombas com tanta força que até lhe desapareceu o punho nas fuças do homem ou o caraças! O Sr. António largou a Maria e foi dar com o lombo num banco. Esguichava sangue do nariz às golfadas. O betinho desequilibrou-se (acho que escorregou no próprio vómito) e foi ao chão, deve ter sido aí que se magoou porque a gaja é que tratou da saúde ao Sr. António. Atirou-se para cima do homem ao pontapé e ao soco com tanta rapidez de gestos que era impossível perceber bem com que partes do corpo é que o ia aviando. Parecia uma cena de efeitos especiais ou de desenhos animados, não sei se está a ver? O Sr. António nunca mais foi o mesmo. Mudou de cara e mudou de atitude. Tornou-se mais meiguinho para a clientela e agora arrasta a perna esquerda.
- E a gaja? E o betinho?
- Depois de deixar o Sr. António feito num oito, a gaja foi para o betinho que estava apoiado num cotovelo a olhar para o chão como se tivesse perdido alguma coisa. Acho que estava apenas a tentar focar o olhar, a ordenar ideias. Tinha parado de vomitar mas não parecia muito melhor. Branco! A tipa ria-se a bandeiras despegadas. Nem se baixou para ajudar o outro, até lhe deu um pontapé no cu! E depois outro, conduziu-o até à porta, aos pontapés no cu e o gajo de gatas, a parar de vez em quando para vomitar mais um bocadinho, uma cena do caraças! Eu e os meus parceiros ficámos um bocado enxofrados, não sabíamos o que fazer. O Mauro tinha pousado as cartas, o Diocleciano continuava a olhar para as que tinha não mão como se o jogo nunca tivesse parado. Eu o Zé António lá acabámos por nos levantar quando o gajo e a gaja saíram porta fora, ele de rojo, ela atrás, lá no alto dos sapatos. Acho que foi com os saltos dos sapatos que abriu aqueles buracos todos nas pernas do Sr. António. Ajudámos o homem a levantar-se, devagarinho para não se desconjuntar, não sei se está a ver. Fui em quem chamou a ambulância.
- Ok. Obrigado pelo seu depoimento. Foi muito útil.

segunda-feira, março 20, 2017

Crocodile Bambi (4)

Ele sentou-se primeiro... ela sentou-se. Ao balcão. O lugar estava imundo. Cheirava a mijo que tresandava, aquele cheiro acre que nos rasteja pelas narinas como se tivesse patas peludas, o cheiro a subir-nos em direcção ao cérebro como um insecto rastejante. Já me tinha esquecido que existem pivetes assim. Ele... ela, atirou-me aquele olhar tipo facada mortal, tipo a Casca a endrominar o Mogli, o hipnotizador e o basbaque. Lá fui, depositar o cu no banco alto e seboso ao lado do Zeca Punk, "Chama-me Camomila", pedira ele há coisa de um quarto de hora. Ordenara ela. Sentei-me ao lado da Camomila, portanto. Não me atrevi a perguntar-lhe de forma directa qual o seu género, optei por uma pergunta tão parva que ainda estava a desfazê-la e já me apercebia da imbecilidade da coisa "Ainda mijas em pé?". Ela pousou a sua mão ossuda sobre a minha. Senti um frio medonho a enrolar-se-me na espinha; não que a mão dela estivesse demasiado fria, aquela incómoda sensação atacou-me na forma de um flash, uma recordação súbita que se me espetou na memória com toda a força "Ó filho, gostas do que estás a ver, dou-te tusa?". E sorriu daquela forma assustadora. Fui salvo pelo empregado que arrotou lá detrás do balcão "O que é que vai ser?".
Começámos com um simples submarino, uma caneca de cerveja com um cálice de bagaço mergulhado, passámos às 1920, mais uns submarinos, mais umas cervejas e novas aguardentes velhas ou nem por isso. Aterrámos numa sucessão de cálices de Licor Beirão e lambretas para ajudarem a coisa a deslizar mais depressa.
A conversa foi errática, nada de muito pessoal, nada de referências ao passado, muito menos sobre perspectivas de futuro. Falámos de coisas que estavam à nossa volta: o espelho por trás das filas de garrafas, das garrafas, do poster de uma rapariga com mamas descomunais reclinada sobre o capot de um carro vermelho e provocante no entender de Camomila (Camomila... que nome mais ridículo!). Falámos com o Sr. Tó, o empregado-patrão que nos ia servindo os copos com as suas mãos como presuntos de onde saíam salsichas em forma de dedos com unhas compridas debruadas a negro; fomos falando, falando, falando, até que comecei a sentir dificuldade em produzir palavras com todas as sílabas, até que comecei a enrolar a língua, a sentir-me descontraído, a gozar da libertação alcoólica. Se tivesse caído do alto do meu banco decerto teria voado.
Numa viagem ao urinol tive um pequeno lampejo de lucidez "Como vou safar-me desta merda?", mas foi sol de pouca dura. Já nem o fedor me incomodava. Mijei abundantemente e regressei ao meu lugar. Zé Camomila não estava onde a deixara. "45 euros." informou o Sr. Tó. Olhei em volta e nem sombra do meu anfitrião. "Não tenho assim tanto dinheiro comigo, aceita multibanco?" O homem olhou-me como se me tivesse transformado de súbito numa barata gigante, "Esta a armar-se em engraçado comigo?" Não, não estava a armar-me em engraçado, antes pelo contrário, cambaleei, estava até a ser muito honesto e sincero, apoiei-me numa mesa e senti os dedos a colarem-se ao tampo, assegurei a minha honestidade, a pureza das minhas intenções mas, nada feito, o Sr. Tó queria dinheiro vivo e queria-o já. "Imediatamente!" disse ele. Comecei a entrar em pânico. O homem saiu de trás do balcão segurando uma tranca ameaçadora. Não percebi se ele queria de facto o dinheiro, se queria apenas um pretexto para me rachar a cabeça de alto a baixo. As pernas tremeram-me e colei a mão à mesa com mais força. Foi então que tudo se precipitou, como acontece nos filmes.

domingo, março 19, 2017

Crocodile Bambi (3)

A memória não é de fiar. A minha memória é um buraco. Faltam-me os momentos, sobram as sensações. Tenho guardada uma vertigem, um incómodo, uma torrente de medo a abrir caminho, imparável, a atingir-me, a rebentar-me no peito como uma bomba de excrementos.O Zeca Punk era um gajo mau que tinha prazer em criar situações embaraçosas, armadilhas emocionais que montava com minúcia de relojoeiro onde apanhava patinhos como eu. Fazia aquilo por puro divertimento. Não ganhava nem perdia nada quando me deixava imerso em merda e vergonha e embaraço. Recordo vagamente a sua cara de fuínha a fazer caretas horripilantes de divertimento. Alguns gajos saíram magoados; houve ossos partidos, feridas abertas e sangue em abundância. Nunca foi o meu caso. Apenas recordo vergonha e embaraço. Talvez ele gostasse de mim. Sempre que aparecia com uma ganza ou uma garrafa de cerveja no início da noite, eu já sabia que aquilo iria acabar mal mas não havia como recusar embarcar na aventura. Seria indelicado da minha parte tentar esquivar-me e não convinha nada ser indelicado com aquele filho da puta. Acho que não convinha, não tenho bem a certeza, porque nunca me recusei a ir por ali fora, noite dentro, à procura do medo, a sentir o perigo a formar-se à nossa volta como uma onda de calor, como um nevoeiro, como uma cidade inteira sem portas nem janelas.