sábado, outubro 08, 2016

Um homem triste

Tenho alguma simpatia para com António Guterres. Sempre me pareceu um gajo fixe metido em sarilhos muito maiores do que aqueles que estava preparado para enfrentar. Agora mais do que nunca.

Será necessário observar que Guterres não é santo embora possa parecê-lo, tais os panegíricos com que o têm presenteado nos últimos dias. É um homem vulgar com alguma predisposição para o sofrimento. Daí que seja escolhido para liderar causas perdidas.

A sua carreira política em Portugal não foi isenta de erros, alguns deles graves (como o de trazer José Sócrates para a ribalta) mas custa a crer que tenha errado em proveito próprio como o fazem tantos outros candidatos à canonização pública.

Enfim, agora que é secretário-geral da ONU resta desejar-lhe alguma felicidade. O homem parece sempre infeliz. Era tão bom que o mundo lhe pusesse um sorrisinho nos lábios...

quarta-feira, outubro 05, 2016

Releitor

Ontem concluí a releitura de Cem Anos de Solidão.

Quando fechei o livro tive a estranha sensação de que aquele livro nunca acaba. Podemos fechá-lo mas ele está sempre aberto dentro da nossa cabeça. A narrativa é um imenso e magnífico círculo, um estanho círculo limitado por uma circunferência repleta de centros.

Seja qual for o ponto onde colocamos o bico do compasso, quando o rodamos, o desenho da circunferência coincide uma e outra vez com o traçado anterior, contrariando todas as leis da geometria que tanto nos custaram a aprender e tão pouco nos custaram a aceitar, uma vez compreendidas.

Essa magnífica sensação encorajou-me a deixar de ser leitor, por uns tempos, para me transformar em releitor.

Fui à estante namorar as lombadas dos livros. Ali estavam, alinhadas, inúmeras paixões mais ou menos antigas. Tirei um livro de Roberto Bolaño: Estrela Distante. Estou a relê-lo. E estou a gostar de o fazer.

segunda-feira, outubro 03, 2016

Mundo de merda

Dizem por aí que este mundo é uma merda. Não sei o que pensar ao certo. Tem dias...

Qual seria o qualificativo a aplicar a um mundo que não fosse uma merda? O que diria? Que este mundo é um doce? Um mundo em que todos fôssemos obesos e com a dentição arruinada por excesso de açúcar seria melhor que um mundo que é uma merda, onde as coisas cheiram mal e estão sujas, mesmo quando são brilhantes e apetecíveis?

Qual é o antónimo de merda? Temo que a resposta seja muito complicada. Tão complicada que o mais certo é nem sequer existir. Antónimo de merda? Será mijo? Não, não me parece. Este mundo é um mijo! Não soa grande coisa.

Talvez por isso este mundo prossiga tal como vem sendo: uma merda. Talvez este mundo não tenha grande alternativa ou, então, teremos de inventar o contrário de merda e aplicá-lo ao nosso quotidiano na esperança de amanhã encontrarmos um lugar mais limpo. Ao menos isso.

sábado, outubro 01, 2016

Memória falsa

Eram como irmãos mas lutavam constantemente. Batiam-se com raiva e compaixão; quando um deles atingia o outro e o magoava era como se golpeasse o próprio corpo e sofria também.

"É assim que os rapazes devem ser - dizia a avó às amigas, enquanto bebiam chá na saleta e viam os miúdos em combate, lá fora, no jardim - um pouco cruéis e um pouco estúpidos. Só assim crescem saudáveis."

sexta-feira, setembro 30, 2016

Viva Miró!



A decisão de manter as tais 85 obras de Miró em Portugal é notável. O facto de virem a ficar no Porto é uma notícia excelente. Podem Passos Coelho e os seus rapazes franzir o depilado sobrolho pretendendo fazer passar a ideia de que as questões culturais não são tratadas de forma diferente quando temos a direita ou a esquerda no poder que, perante esta exemplar evidência, todos percebemos a realidade. A esquerda (ainda) encara a Cultura sob uma perspectiva muito diferente daquela que orienta a miopia direitista neste capítulo da nossa vida colectiva. Não vale a pena discursar, basta-nos olhar. E ver.

Os que se aprontavam para vender em leilão a célebre colecção Miró e lucrar com isso devem estar a roer nervosamente as unhas por terem deixado escapar entre os dedos tão apetecível oportunidade de negócio. Foi por pouco! Mesmo em termos meramente economicistas a venda em leilão seria um negócio fatela. Por muito elevado que fosse o montante amealhado tratar-se-ia de fraco lenitivo económico. A instalação da colecção na Cidade Invicta acrescenta valor ao Porto, à Região Norte e ao país. É uma espécie de produto de exportação ao contrário que atrai riqueza sem sair de Portugal. Ainda por cima significará mais alguns postos de trabalho directos e indirectos… qualquer pessoa que olhe para isto com boa-fé só vislumbra vantagens na decisão política tomada pela “geringonça”. O lucro será conseguido a longo prazo e, no fim das contas, o erário público irá ganhar muitíssimo mais do que ganharia com um negócio de mercearia feito à pressa como se tem feito quase sempre que se trata de vender a coisa pública a benevolentes e desinteressados investidores privados.

A rapaziada da direita precisa de estudar as fábulas moralistas com mais atenção. Talvez os jovens governantes laranjinhas não tenham compreendido bem a história da Galinha dos Ovos de Ouro; reconheço que não está ao alcance de todos. Deixo a sugestão de que abordem essa e outras fábulas na próxima Universidade de Verão do PSD em vez de andarem a aprender a fazer spin ou a descobrir a melhor forma de dar graxa ao chefe. Iam ficar melhores pessoas e líderes mais preparados, disso não tenho dúvidas.


quarta-feira, setembro 28, 2016

Nuvens

Nem a Utopia é o Paraíso nem o Paraíso é uma Utopia.

Ambos fazem parte do imaginário colectivo, caricaturas da ambição humana. Mas não será pelos seus traços exagerados e deformantes que iremos deixar de sonhar com uma e outra coisa, da mesma forma que sonhamos cada dia que vivemos.

Ainda ontem vivi horas inexplicavelmente felizes. Nunca me farto de viver horas assim.

segunda-feira, setembro 26, 2016

Almada (Mestre) Almada

Panfleto Social de José de Almada Negreiros

Eh comunistas! Eh fascistas!
Eu sei, eu sei:
«Não há esconderijo senão nas massas»!

Assim mesmo necessitais de inimigos.

Chamais construir: eliminar inimigos.

Volto à leviandade
a essa acrobata mágica
que realiza como a imaginação

volto ao meu poder
à minha colaboração terrena
volto às gaffes

ponho outra vez os meu olhos
inconvenientes como o amor

e tiro aliviado os óculos sociais
graduados de conveniência
e com os aros oficiais.

Desisto do escritor
prefiro o protagonista do livro do autor
fujo de casa e escondo-me na rua
fujo do nome e mais do renome

não há esconderijo senão nas massas.

A Arte só vale quando todos forem artistas
e não só os privilegiados
esses que responderam à chamada.

Morro farto de procurar semelhantes
só vejo chefes e secretários
mestres e discípulos
filhos e pais
secundários e principais
amos e servidores
criados e patrões
todos iguais.

Mais uma geração a cantar construção.
Conto quatro:
um, dois, três, quatro
Todos por bem.

Eu sei, eu sei:

«não há esconderijo senão nas massas!

Os ricos que paguem!

Os pobres que morram!

não seremos pobres nem ricos
todos iguais
iguais como os semelhantes

custa muito todos semelhantes

dá no mesmo todos iguais.»

Achei altas montanhas fora da geografia
longe da perseguição
mas o meu corpo vulnerável não passa
por onde me passa a alma.

in Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

domingo, setembro 18, 2016

La muerte

Hoje acordei com vontade de me irritar com qualquer coisa. Levantei-me a resmungar, deixei escorrer um pouco de café frio para cima de um pé descalço, tive de me apressar em direcção à sanita não fosse a natureza abusar da minha confiança.

As razões para que despertasse em mim a irritação desejada pareciam acumular-se com a precisão do mecanismo do relógio que não tenho no pulso mas que trago dentro da memória. Quando consegui uma chávena de café razoavelmente fumegante e me sentei na mesa da cozinha com os Cem Anos de Solidão à minha frente não tinha bem a noção do que fazia.

Continuo a leitura de Garcia Márquez (há quantos dias ando eu nisto?). Como sempre levo tempos infinitos para terminar um livro porque encaro a leitura como se fosse um peqeuno-almoço para o meu cérebro e para a minha imaginação. O que é verdade é que, após duas páginas, a irritação esfumou-se, o meu desejo matinal viu-se recusado pelo subconsciente que o havia convocado.

Estraguei a estragação do dia que se aprontava para me aparecer um pouco lá mais para a frente na linha do tempo. Percebi que não posso desejar irritar-me com alguma coisa e ler, em seguida, algumas páginas de um livro magnífico. Uma coisa não se compadece da outra.

O coronel Aureliano Buendía enforcou-se no castanheiro do quintal.

sábado, setembro 17, 2016

Um lugar

Todos os dias, desde o despertar ao momento de fechar os olhos, um gajo procura aquele lugar onde pode ser quem imagina que é. Ser humano, sem dores demasiado violentas nem angústias muito particulares. Não sei se toda a gente procura esse seu lugar. Eu procuro.

É um lugar aberto, todos podem encontrá-lo. Não tem portas nem janelas nem paredes nem nada que o defina, é assim mesmo, um lugar. Todos podem estar nele, só têm de aceitar a regra: ser humano. Sei que é pedir muito, para uns, quase nada, para outros.

Nem sempre sou capaz de encontrar o estado de espírito certo para lá estar embora saiba onde fica esse lugar. Por vezes consigo lá chegar e por ali ficar uns bons bocados.Mas não é sempre. Tem dias.

sexta-feira, setembro 09, 2016

Cartas de Guerra

Assisti a "Cartas de Guerra", o filme de Ivo Ferreira a partir de textos de António Lobo Antunes. Enquanto estava na sala de cinema várias vezes pensei que "este filme é o mais belo que já vi". À medida que a coisa foi avançando reformulei esta ideia e ficou mais ou menos "este filme é um dos mais belos que vi ultimamente".

Quando saí estava seguro de que "Cartas de Guerra" é, seguramente, um dos mais belos filmes que vi ao longo da vida. Agradou-me a fotografia a preto e branco, fui surpreendido pelas engenhosas soluções narrativas que entrelaçam voz off com diálogos, memória das personagens com o momento do presente que vivem no filme, deixei-me embalar pelo ritmo geral da coisa.

Como é possível fazer um filme de guerra assim? Muito bom. Recomendo vivamente.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Elegia de sarjeta

Há por aí tanta gente que vive de parecer! Gente que constrói uma falsidade com fortíssimos e visíveis blocos de ilusão, blocos atestados, carimbados, validados, blocos feitos de nuvem autenticada como se fosse cimento. Assim se constroem palácios de reputação duvidosa.

Olhando bem o mundo circundante todo ele é feito desse modo: ilusão autenticada. Quando se confundem a ilusão e a realidade? A partir de que momento estamos nós dispostos a fazer de conta que somos alguém, que a merda que fazemos é filet mignon?

O que me incomoda é o desplante que temos em pretender que o nada é tudo e que tudo pode ser exactamente igual a nada.

Ha, as aparências! Ha, a vacuidade do saber, a inconsistência do ser... acho que vou beber outro copázio. Outro copázio bem cheio e fazer um brinde à mentira.
Ela merece.

sábado, setembro 03, 2016

Trindade

Um gajo enfia-se dentro da sua cabeça e encontra uns quantos macacos a divertirem-se, enquanto vão fingindo que lhe limpam o pó às ideias e as arrumam mais ou menos em prateleiras húmidas e moles. Um gajo fica espantado por encontrar tantos macaquinhos no sótão. É uma surpresa.

Um gajo desce as escadas que levam ao seu próprio pedestal. Desce-as com panache, um pé após o outro, a pose é triunfal, os degraus escorregadios. Não há ninguém a olhar, ninguém aplaude, ninguém está extasiado com  o espectáculo daquela brilhantíssima descida. Ninguém, a não ser o próprio. É uma tristeza.

Um gajo tenta evitar uma incómoda sensação de abandono. A solidão não quer deixá-lo sonhar com a glória que julga merecer mais do que qualquer outro ser vivo. Um gajo sorri ao espelho mas a imagem reflectida não lhe devolve os dentes amarelos. É a vida.

Surpresa, tristeza, vida: santíssima trindade de uma existência fantasmática, quase humana.

sexta-feira, setembro 02, 2016

Cem Anos de Solidão

Ando a reler Cem Anos de Solidão. É um livro já amarelecido que tem viajado entre estantes. Da casa dos meus avós para a dos meus pais (onde o li aqui há uns bons anos) e, agora, saltou da estante de minha casa para a mesinha de cabeceira.

Que coisa magnífica!

A leitura proporciona-me momentos de tão grande intensidade que, por vezes, me sinto a pairar algures entre o dia de hoje e o dia, no passado, em que li estas palavras pela primeira vez.

Deve ser isto que consideramos uma obra intemporal.

quarta-feira, agosto 31, 2016

31 de Agosto

Com o final de Agosto regressam pessoas. Pelo menos é essa a sensação que tenho após algumas voltas pela cidade e arredores, agarrado ao volante do meu carro. Pareceu-me haver mais movimento e, sobretudo, um aumento muito acentuado dos níveis de stress que por aí andam.

Manobras automóveis mirabolantes, daquelas de arrepiar pelo desrespeito absoluto que representam seja às regras de trânsito seja à vida alheia; velhinhos e velhinhas em fila para jogar na raspadinha e um gajo à espera para poder comprar o jornal; grupos de pessoas a falar alto, narrando peripécias das férias na mesa do café, outras fazendo o mesmo gritando para o telemóvel; mais carros em cada cruzamento, em cada rua, em cada avenida; uma estranha sensação de preenchimento. Ainda assim, tudo na paz do Senhor.

Terminam as férias, regressa a ansiedade?

terça-feira, agosto 30, 2016

Ego

O reconhecimento faz-nos assim tanta falta?
Se calhar faz. Ou talvez não, já não tenho a certeza.

Um gajo precisa de ter um ego do tamanho de um autocarro para acreditar em si próprio, sem dar muita atenção ao facto de praticamente não existir.

domingo, agosto 28, 2016

Reflexo solar

Há um conceito um pouco vago e bastante maleável, plástico mesmo, que é o conceito de Cultura. A Cultura constrói-se, não se colhe na Natureza, não é uma coisa selvagem. Assim, num misto de tradição e de inovação, cada sociedade humana constrói a respectiva Cultura. 

A aceitação de uma determinada Cultura não é obrigatoriamente pacífica.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Dúvida existencial

Há dias em que me sinto sozinho. Sozinhinho, como dizia quando era criança e queria expressar aquela angústia que nos provoca a sensação de abandono e que, por sermos crianças, não dói tanto quanto virá a doer mais tarde mas já incomoda pra caralho. Um gajo é puto mas compreende mais ou menos.

Esta solidão é abstracta. Estou acompanhado, há muita gente, gente por todo o lado, mas a sensação de estar só mordisca-me o coração. É como se fosse adolescente outra vez ou nunca tivesse deixado de o ser realmente. Sinto que não tenho ninguém a quem possa explicar, com um mínimo de exactidão, as angústias que me trespassam a alma e que, caso tente fazê-lo, vou soar pedante e presunçoso.

Poderei alguma vez sentir-me um adulto completo? Em boa verdade: o que é isso?


quarta-feira, agosto 24, 2016

Informação

As notícias nos jornais reduzem-se a cabeçalhos. A vida vai boa para os míopes que, assim, conseguem ler tudo o que é importante. Aquelas letrinhas pequeninas, debaixo da gordalhufas que fazem os títulos, as pequeninas não interessam nada. Só chateiam.

Depois temos os canais televisivos de informação. São horas e horas de emissão que é necessário preencher dê lá por onde der. Os tais cabeçalhos dos jornais reproduzem-se nestes canais que funcionam como câmaras de eco; o cabeçalho uma, duas, três mil vezes repetido até ao final do dia.

Amanhã o assunto será outro.

Há sempre uma notícia mais importante (é a que consegue mais tempo de antena) e o tema vai mudando. É necessário satisfazer a gula por novidades que caracteriza os cidadãos que são mais consumidores que cidadãos. A ponderação e a reflexão são entregues a especialistas que enxameiam os écrãs como moscas da fruta num laboratório científico.

As histórias são mastigadas até nos serem devolvidas num autêntico vómito.

Estou cansado desta merda.

segunda-feira, agosto 22, 2016

Regresso

Sinto o tempo a regressar.
Os dias recomeçam ignorando o dia de ontem, imaginando dolorosamente o dia de amanhã.
Dentro do meu peito há coisas que se comprimem, coisas que se encostam umas nas outras, coisas que causam incómodo.
Sinto o tempo a regressar.
Vem montado nos ponteiros de um relógio anacrónico, qual fantasma sussurrando na vertigem de um mostrador digital, o tempo regressa e, com ele, vêm tantas coisas que havia já esquecido!
O meu corpo reconhece-se no espelho que é o regresso do tempo.
O mundo volta a ficar teimoso.

Esta sensação faz de mim eu, outra vez.
Sinto que regresso com o tempo.

domingo, agosto 21, 2016

Olímpico

Aos atletas portugueses que competiram nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro quero agradecer terem-me feito acreditar com eles que é possível ir até ao fim.

Mesmo que não tenham vencido as suas provas, ainda que tenham fracassado completamente ou quase alcançado a glória, estive com todos e cada um deles, como se tivesse viajado até ao estádio, como se me tivesse materializado no pavilhão, como se tivesse sulcado as águas numa velocidade alucinante.

Agora que os Jogos chegam ao fim apercebo-me que, mais do que nunca, os atletas portugueses puderam sonhar e seria injusto que não tivéssemos sonhado com eles.

A vitória não é mais do que um pormenor.

domingo, agosto 14, 2016

Vergonha

A história repete-se todos os anos. Verão é sinónimo de desgraça.

Os incêndios florestais saltitam um pouco por todo o território nacional, continente e ilhas atlânticas não escapam a esta estúpida fatalidade do destino. É em ocasiões como esta que podemos concluir em definitivo que o destino é mera consequência dos acontecimentos diários e que o destino dos homens e das suas coisas depende do que os homens fazem, não fazem ou poderiam ter feito.

O aproveitamento vampírico que os meios de comunicação de massas fazem desta desgraça é nojento. Não há acontecimentos mais importantes nem mais dignos de nota do que a miséria simbolizada pela bestialidade dos incêndios e a desolação das cinzas fumegantes.

Sinto vergonha.


sexta-feira, agosto 05, 2016

Palavras não bastam

Sentir um adorzinho nos olhos, uma nuvem de não-sei-bem-o-quê logo atrás, em direcção ao cérebro, uma grácil ternura em relação ao mundo todo... gosto de certas tonturas quase tanto como gosto de certas tontices.

Não ter responsabilidades imediatas, poder desligar o modo "sério", ser um pouco mais louco do que estou normalmente disposto a ser. Estas coisinhas são pequenas fontes de prazer imediato.

Poder não fazer nada, poder fazer tudo ou quase tudo o que imagino ser capaz de fazer. Desligar daqui, ir para ali, já ali! Pairar como uma nuvem, voar como uma serpente, rastejar como um elefante adormecido.

As palavras não chegam lá.

A felicidade pode ser um lugar solitário. 

terça-feira, agosto 02, 2016

Do caderninho


Andar muito tempo na Lua tem os seus custos. Perde-se alguma gravidade.


domingo, julho 31, 2016

Olhar a paisagem

A obra de arte não começa necessariamente com uma ideia.
Um desenho não tem obrigatoriamente de obedecer a um esboço prévio.
Um texto não resulta sempre de um trabalho aturado.
Há momentos inspirados que nos projectam pelos ares e fazem de nós coisas voadoras.
Quando voamos e olhamos para baixo podemos assustar-nos ou sentir uma liberdade imensa (há mais possibilidades).
Não é um pecado evidente querermos ser como Ícaro.

sábado, julho 30, 2016

Recuerdos


Saio de casa à hora do lobisomem
Agradeço à lua não estar cheia.
No carro evito o espelho,
apesar de tudo receio lá não estar.

Caixas de cartão como cadáveres de
objectos consumidos, peles de cobra esquecidas
na esquina de uma primavera


sexta-feira, julho 29, 2016

Criatividade

E se a criatividade for, essencialmente, potência desenfreada, necessidade absoluta de comunicar, deitar fora o que se acumula dentro; tudo isto e mais alguma coisa?

Será a criatividade uma alucinação, aquilo a que chamamos inspiração, quando poderíamos perfeitamente chamar-lhe expiração ou garandalhice ou altrinquitim ou outra coisa qualquer?

E se a criatividade estiver ao alcance de todos os que nela acreditarem, como estão as fadas e as bruxas? Talvez a criatividade seja um exclusivo dos néscios e dos ingénuos.

Talvez a criatividade não dependa tanto do conhecimento, do trabalho árduo e da técnica quanto nos ensinam na escola. Talvez a criatividade tenha a densidade do vento.

terça-feira, julho 19, 2016

Suores frios

Criar imagens é uma actividade fantástica.

A colagem em Adobe Phtoshop gerou o desenho a tinta da China. Fiz a colagem aqui há uns anos e dei-lhe o título de Night Rider, uma brincadeirazita com a designação de uma célebre série de televisão.

Ontem, dia 18 de Julho de 2016, realizei a versão desenhada. Enquanto ia desenhando o sentido da imagem foi-se alterando. Vieram-me à memória uns quantos atentados terroristas, centenas de pessoas desfeitas em bocadinhos, o medo a ganhar forma física. Desespero e violência.

Então, o título do desenho terá de ser outro.

Por agora o título é "Suores Frios" mas penso que venha ser ainda outro.


domingo, julho 17, 2016

Criançada

Brincamos uns com os outros como se não houvessem crianças neste mundo. Como se fôssemos todos crianças eternas. Como se ser criança fosse o nosso único e comum destino. Brincamos uns com os outros convencidos que somos diferentes das crianças.

Mas não somos.

quinta-feira, julho 14, 2016

Mistério

Quanto pode uma pessoa apaixonar-se?

(tragam uma balança, tragam uma fita métrica, tragam um doutor e um catedrático)

Quanto tempo pode durar essa paixão?

(tragam um calendário, uma ampulheta com todas as praias de Portugal enfiadas lá dentro, tragam alguém que não saiba do que estamos a falar)

Eu vos digo, compinchas meus, que não há regra nem limite.

A coisa é mais do que incomensurável, é coisa eterna!

Quando nos dizem que as paixões esmorecem e que, no benigno horizonte dos dias que passam, haverá de surgir uma coisa mais ou menos informe à qual muitos matrecos gostam de chamar "amor", eu vos aviso, ó compinchas... é treta!

A paixão dura mais tempo do que o tempo que dura uma vida como esta.

(texto reescrito)

terça-feira, julho 12, 2016

Atentado!

Quando, aqui há umas semanas escrevi um post sobre os primeiros dias do Campeonato da Europa de Futebol, temia um atentado terrorista a qualquer momento.  Portugal ia estrear-se jogando contra a Islândia e todos nós estávamos bem longe de imaginar a sucessão de acontecimentos que vieram a ter o resultado que agora sabemos.

Nem houve atentados nem a Selecção acabou, como de costume, a lamentar-se da má sorte, das arbitragens ou da inveja dos deuses do Olimpo. Pela primeira vez na História Portugal venceu uma grande competição do chuto na bola.

Na nossa perspectiva a coisa correu melhor que a encomenda. Os derrotados dizem que a nossa equipa apresentou um futebol nojento, que um campeão a jogar assim contribui para a morte do jogo.

Desta vez foram 11 contra 11 e, no fim, ganhou Portugal, um valente chuto na tradição futebolística.

Concluindo, afinal houve um atentado mortífero: Portugal foi campeão.

quarta-feira, julho 06, 2016

Pronto

Por vezes sinto vontade de ser uma outra coisa, não me sinto grande pessoa, talvez gostasse de me transformar num objecto. Uma escova de dentes. Um pneu de bicicleta. Um gancho de cabelo.

A dificuldade está na escolha.

Não, outro animal não é desejo que me seduza. Para ser animal estou bem assim, bicho homem.

Gosto de comer. Gosto de beber. Gosto de fumar.

Outro bicho fosse eu, dificilmente fumaria!

Por vezes sinto vontade de me transformar noutra pessoa, sonho com uma vida após esta que vou vivendo. Uma vida que fosse um prolongamento, que me permitisse aproveitar o que tenho aprendido para construir outra personagem, viver uma outra narrativa.

Por vezes escrevo só por escrever. Uma frase leva a outra, uma ideia transforma-se em imagem que gera um jogo de palavras que termina num ponto final.

E pronto.

segunda-feira, julho 04, 2016

Fronteiras

As fronteiras recomeçam a ganhar forma no interior da Europa. Cada dia que passa amanhece com certas fronteiras até aqui adormecidas que voltam a acordar para a vida de forma inquietante.

Nos limites físicos da União erguem-se muros e regressa o arame farpado. Dentro da própria União surgem nacionalismos revigorados que começam a marcar certas fronteiras, primeiro ideológicas que, mais tarde, tenderão a tomar formas mais palpáveis e agressivas.

Parece-me que vão ganhando nitidez certas diferenças entre os países do centro da Europa, principalmente os que faziam parte da Europa de Leste antes da queda do Muro de Berlim, e os países que estavam deste lado dessa terrível fronteira.

Olhando para a Polónia, a Eslováquia, a República Checa e a Hungria, para citar os casos que me parecem mais evidentes, assistimos a um nítido crescimento da influência política de forças da extrema direita, forças revolucionárias nestas áreas geográficas. Para um cidadão português ou espanhol, isto parece terrível. Ainda mais quando em França  ou na Áustria também forças com este pendor extremista ameaçam ganhar o poder.

A União terá de reflectir sobre qual é o caminho comum que pretende propor aos cidadãos dos, agora, 27 países membros. Há algum plano, algum objectivo, alguma ideiazinha, por pequena que seja, que vá para lá das questões económicas, alguma proposta civilizacional que estejamos dispostos a transformar em bandeira comum?

Enquanto andamos para aqui, feitos baratas tontas, a patinhar de um lado para o outro no meio do lixo ético e ideológico, as fronteiras vão ganhando nitidez, vão-se levantando, regressam em todo o seu tenebroso esplendor.

sábado, julho 02, 2016

Possibilidade

Talvez acredite num Deus que seja o resultado da ligação em cadeia de todas as consciências de todos os seres vivos que habitam o planeta. A existir, este Deus, seria algo informe e maravilhoso, uma omnipotente emanação de energia não assimilável, algo por nós disparado em direcção a uma outra dimensão, uma outra realidade na qual apenas a verdade pudesse ter lugar.

Este Deus seria o resultado da existência de vida e nunca o seu criador. Talvez eu acredite que um Deus possa ser criado e mantido vivo enquanto no planeta a vida existir, mesmo que apenas sobrevivam ratos e baratas a deambular por aí. Mesmo que restem apenas seres unicelulares.

Talvez eu acredite que Deus é um sopro de vida.

Talvez eu acredite nisto... não sei, sinceramente, não sei em que acredito.

quarta-feira, junho 29, 2016

Numerologia

Os números servem para significar tudo e mais alguma coisa.

A vontade popular expressa em números, é a única forma conhecida de revelar ao mundo uma síntese daquilo que não se consegue explicar de outra maneira.

É como quando avaliamos um trabalho de Desenho: pegamos na capacidade técnica, na construção espacial, na eficácia (!?) da comunicação, etc. e esprememos tudo muito bem espremido e.. cai um numerozinho que passa a significar a qualidade do objecto. Como exercício de magia não está nada mal.

Contar votos e esperar que eles signifiquem algo concreto é outro exercício de fé na santidade dos números.

terça-feira, junho 28, 2016

Vontade popular

Até que ponto o resultado do referendo britânico reflecte a divisão entre um mundo urbano e cosmopolita e um mundo rural, menos formado nas visões que o Mundo oferece aos que para ele olham e nele viajam?

Até que ponto a elaboração de um discurso complexo, resultado da observação do mundo, que tenta reflectir sobre a sua variedade, um discurso construído no coração da cidade, vai perdendo consistência e clareza à medida que se desloca em direcção às periferias, até ser transformado no antiquíssimo "bar-bar", a linguagem que os gregos da antiguidade clássica atribuíam aos povos que lhes eram estranhos?

Em Democracia, o conhecimento e a ignorância equivalem-se no momento do voto, misturam-se e diluem-se na contagem dos boletins e acabam por ser uma e a mesma coisa quando são publicados os resultados da votação, expressando a vontade popular.

segunda-feira, junho 27, 2016

Momentos

A avestruz enterrou a cabeça nos meus olhos e ficou a pensar-me os pensamentos.

"Xô, sua puta!" pensei eu, mas ela fez de conta que não ouvia e por ali fez menção de continuar.

Abanei a testa, enfiei um dedo no ouvido e nada. A avestruz parecia ter vindo com intenção muito firme de ficar.

O medo dela a confundir-se com o meu receio de que o mundo pudesse transformar-se de súbito em areia seca, areia do deserto, areia quente, areia a escorrer na ampulheta ferrugenta que pretendia marcar o Tempo que teimava em não passar.

Assim passei o resto do dia, com uma avestruz enorme a enfeitar-me a testa, as suas penas graciosas a marcarem o compasso dos meus passos e as pessoas a fingirem que não viam, as pessoas a fingirem que não se passava nada de extraordinário.

Quando cheguei a casa reparei que havia um elefante no meio da sala. Lá consegui arrancar a avestruz depois de muita luta e atirá-la para o fundo da sanita. Descarreguei o autoclismo e ficou tudo entupido.

O elefante era simpático.

domingo, junho 26, 2016

O medo de Astérix

Aquilo que Astérix e os irredutíveis gauleses mais temiam está a acontecer a todos os europeus que habitam dentro das fronteiras da União: o céu está prestes a cair-nos nas cabeças.

Sou dos que acreditam que a União Europeia é a melhor forma de sonhar o Futuro. Os objectivos a alcançar estão distorcidos, a forma de construir a União tem sido mal orientada? Sim. Mas isso não significa que troquemos um sonho por um pesadelo.

Sou dos que acreditam que, longe de destruir o espaço comum em que vivemos, deveríamos reflectir sobre a forma de o refundar.

Sinto-me, de novo, um adolescente a viver o tempo do "no future".

quarta-feira, junho 22, 2016

Ausência de graça

Eu sei que não tem graça mas não consigo evitar um sorriso; mais, não consigo segurar o sorriso que me rebenta na face: largo uma gargalhada que cai sobre a senhora como uma bomba!

Ela, coitada, tenta recuperar a vertical um pouco torcida para a frente que levava antes de escorregar na casca de banana, tal qual um desenho animado, antes de ter volteado pelo ar, antes de ter aterrado com a violência de uma cagadela de gaivota no pára-brisas do meu carro.

Toda torcida procura recuperar os objectos espalhados no alcatrão: um molho de chaves, um batom, uma revista Caras, algumas moedas, a carteira, enfim, a mala, vazia, repousa estranha e só, lá mais para a frente, aos pés de um homem alto que parece uma girafa.

Isto não aconteceu mas não sei como aqui cheguei que raio de imaginação foi esta? Ainda por cima sei que isto não tem graça.

segunda-feira, junho 20, 2016

Europa


Ficar na Europa ou sair dela? A poucos dias do referendo no Reino Unido a questão faz tremer muita gente e deixa os mercados à beira de um esgotamento nervoso. Os lideres europeus clamam a importância de pertencer à Europa, de contribuir para o fortalecimento do projecto europeu, de fazer nossos os Valores da Europa. Pessoalmente, não poderia estar mais de acordo com os nossos queridos lideres mas… que projecto, que Valores, que Europa?

                Olhando para a União Europeia fico confuso; o que une todos estes povos, que força contribui para que possam sonhar com um futuro comum, que raio de coisa faz de nós “europeus”? É uma questão cultural? Resumir-se-á a uma matriz religiosa? Ser “europeu” é uma imposição dos mercados? Creio que quando o debate se desenvolve são as questões económicas que ganham protagonismo. Os Valores são muito bonitos mas não criam dinamismo empresarial, o cristianismo resume-se a uma ladainha para acalmar os rebanhos, aquilo que realmente mexe com as consciências parece ser o vil metal. Mais nada.

                O que une um eslovaco a um português, um húngaro a um espanhol, um sueco a um cipriota, um inglês a um irlandês do Norte? O que haverá em comum que possa unir todos estes cidadãos? Está visto que o Valor da solidariedade não serve, que o amor pelo próximo é coisa sem o mínimo sentido, que o estudo da cultura clássica se esgotou há séculos; o património imaterial europeu é olhado com desdém, é uma treta. Já se falarmos de património material a coisa pia mais fino. A Economia parece ser a cola que vai pegando as partes que constituem esta nossa Europa. Mas é uma cola produzida com a saliva dos lideres que discursam perante as câmaras de televisão e agem na sombra fresca dos gabinetes. Esta Europa está colada com cuspo.

                Ficar na Europa ou sair dela? Regredir para um estádio medieval ou encarar a possibilidade de uma imensa nação do futuro? Talvez a questão seja outra, talvez devamos perguntar: o que é a Europa? Parece que antes de ser a designação de um continente foi nome de uma princesa fenícia que despertou a gula de Zeus que se transformou em touro e a raptou (terá isto alguma coisa a ver com aquele touro em Wall Street?). Se conseguirmos responder a esta pergunta talvez depois possamos questionar os povos sobre a sua vontade de pertencer ou não ao que quer que isto seja. Enquanto procuramos a resposta, um referendo como o britânico não passa de uma anedota de muito mau gosto.


                

sexta-feira, junho 17, 2016

Fato

Um gajo acorda soterrado em pensamentos confusos até que regressa ao corpo que irá vestir durante o dia. Os primeiros momentos dentro deste fato podem ter aspectos variados; umas vezes desilude-nos, outras alivia-nos, pode ainda surpreender-nos estar tão largo ou apertado. O corpo é uma coisa potencialmente estranha.

quarta-feira, junho 15, 2016

Rua escura

A música não era boa, o cão cantava um bocado mal.
A chuva caía ao contrário, subia em direcção às nuvens.
Os carros estavam todos estranhamente parados.
As pessoas sorriam, traziam as respectivas caras parvas e iguaizinhas umas às outras.
Eu tinha a tua imagem na carteira mas tu não estavas ali.
Os prédios deslizavam, discretos nas suas fachadas lisas.
Se isto fosse um sonho havia de acordar encharcado e a gritar o teu nome no escuro.

segunda-feira, junho 13, 2016

Euro 2016

Decorre o campeonato da Europa em futebol. Joga-se em França, país em estado catatónico. Atentados terroristas, greves, cheias, o que mais poderia acontecer à nação gaulesa? Uma invasão de hooligans vindos de todos os cantos da Europa, era o que faltava para deprimir ainda mais os conterrâneos de Asterix.

Apesar dos arraiais de porrada a que temos assistido em várias cidades gaulesas confesso que vou marcando cada jogo que termina com uma cruzinha. Já foram jogados 8 de 50 e tal jogos e ainda não houve nenhum atentado, nenhuma bomba explodiu a não ser as bombas da cretinice, habituais nestas andanças.

Amanhã estreia-se a selecção portuguesa. Que tudo corra pelo melhor.

Vazio, vazio, vazio!

Há dias em que me apetece não me interessar por nada. São dias em que gostava de poder apagar os pensamentos como se passasse a borracha sobre um desenho desinteressante. Limpar a folha até não restar mais nada.

Hoje é um dia desses.

Não me apetece escrever isto. Não me apetece deixar de o fazer. Não me apetece pensar. Nada me apetece.

"Então porque carga de água haverei de estar a ler esta porcaria?" Pensas tu, paciente leitor: "Porque carga de água há-de este gajo de estar a escrever estas linhas?"

É necessária muita paciência para me aturar, reconheço, mas também sei que só me atura quem quer.

quarta-feira, junho 08, 2016

Novos líderes

Donald Trump será candidato à presidência dos Estados Unidos da América.

No Perú assiste-se a uma luta acesa entre dois candidatos, sendo que Keiko Fujimori é filha do ex-ditador que se encontra a cumprir uma pena de prisão efectiva de 25 anos. Keiko poderá vir a ser eleita caso a diferença de 47 mil votos que a separa de Pedro Pablo Kuczynski venha a ser superada quando todos os votos forem contados.

Outra disputa eleitoral acesa aconteceu entre um representante da extrema-direita austríaca e um antigo elemento do Partido dos Verdes que acabou por ser eleito presidente com uma margem de diferença tão magrinha como aquela que separa a menina Fujimori do seu adversário. América e Europa, as posições políticas extremam-se, radicalizam-se e os povos dividem-se ao meio, irmãmente.

Nas Filipinas foi eleito Rodrigo Duterte, um político agressivo mais semelhante a um justiceiro de bairro que a um Presidente de República tal como o imaginamos na Europa. Mas, como imaginamos nós um Presidente?

No Brasil, Dilma Roussef foi impedida de continuar a presidir aos destinos da nação num processo que, aos olhos de um europeu, teve aspectos incompreensíveis, destapando uma lei que parece ter sido elaborada por um grupo de crianças a inventarem um jogo de faz-de-conta.

Donald Trump é candidato à presidência dos Estados Unidos da América.

A lista de acontecimentos perigosos para a Humanidade poderia continuar por aí fora. Se observarmos com atenção, os casos expostos têm qualquer de comum, há um traço grosseiro que os une. Personagens tresloucadas (ecos de Hitler? Ecos de Staline?) emergem do meio da merda como se fossem anjos anunciadores do Apocalipse.

São lideres eleitos através de campanhas televisivas emitidas entre um anúncio da McDonald's e outro da Coca-cola, eleitos entre um cagalhão e um arroto. São líderes eleitos não para construir algo (que não sejam muros) mas sim mandatados para destruirem alguma coisa.

Assistimos sentados ao fim da Democracia.




segunda-feira, junho 06, 2016

Memória

Recordar é uma coisa, recordar com precisão, é outra; e bem diferente!

Recordar recuperando sensações, vislumbres, objectos incompreensíveis, coisas incompletas que geram emoções inacabadas, momentos escorregadios, odores descomprometidos, pêras, nuvens, um sorriso a fugir na esquina, recordar assim é uma coisa.

Pretender fixar com exactidão cirúrgica a ordem precisa dos factos ocorridos, é outra coisa. Muito diferente.

A memória é como uma criança malcriada.

domingo, junho 05, 2016

Dúvida existencial

Ter convicções pode tornar-se cansativo. Uma maçada! Talvez o melhor seja fechar os olhos, suspirar, atirar a cabeça para trás e deixar a indiferença a ocupar-lhe o lugar.

Incomodo-me de cada vez que sou levado a reconhecer que os meus inimigos até podem ter razão num ou outro ponto, por vezes um ou outro ponto muito importante. Que fazer nestas circunstâncias? Admitir a visão alheia? Rebater, mesmo que sem convicção? Foda-se esta merda.

Ser Humano é a coisa mais complicada com que um Ser Humano se debate. De momento essa é a minha única certeza.

Hoje não quero pensar mais nisso. 

sábado, junho 04, 2016

Pensamento matinal.

Hoje não trago pinturas dentro da cabeça. Sinto-me desorientado.

sexta-feira, junho 03, 2016

Pensamento vespertino

A imagem digital é uma espécie de suicídio da estética.
A banalização do clique fotográfico é uma espada de Dâmocles suspensa sobre o gracioso pescoço da beleza.
Longe vai o tempo em que cada fotografia era resultado de um mínimo de reflexão pois a revelação e ampliação do material fotografado custavam dinheiro.

quarta-feira, junho 01, 2016

Amarelices

Pode a educação ser um negócio? Sim, pode, tal como a produção e comercialização de carne de porco, a venda de indulgências ou o tráfico de estupefacientes. Tudo se pode produzir, colocar no mercado e ser passível de proporcionar lucros aos comerciantes. É uma questão de "olho para o negócio". Simplicíssimo.

Deve o Estado investir no negócio da educação? Alto e pára o baile! Num estado que se pretende democrático, o Estado não deve investir na educação enquanto negócio. Quem quiser arriscar uma tentativa de comercialização no campo da educação que o faça por sua própria conta e risco. Tal como fazem outros comerciantes e empresários, seja no campo da agropecuária, das drogas leves e pesadas ou no comércio dos favores divinos.

Num estado que se pretende democrático, as instâncias do poder têm outros deveres quando se trata de educação. Os amarelos que se lixem.

terça-feira, maio 31, 2016

Nojo

Já nem se nota. Morreram mais umas mãos cheias de pessoas afogadas no Mar Mediterrâneo mas os jornais já quase não ligam. As pessoas já quase não ligam. É uma fatalidade, uma nova lei da natureza. Que se há-de fazer?

A comunidade ocidental já se fartou de chorar por estes mortos. A comunidade europeia já mostrou que não está disposta a recebê-los vivos. Até é preferível que morram no caminho. Assim poupam-se à desilusão dos campos de refugiados improvisados, aos insultos xenófobos, à angústia de estarem tão perto do sonho e perceberem que, afinal, é apenas um outro pesadelo... enfim, resta-lhes a consolação de morrerem esperançados num futuro melhor.

Isto mete nojo.

sábado, maio 28, 2016

Os porcos triunfam sempre

Não parece ser possível fazer grande coisa. Os porcos triunfam sempre.

Os mentirosos, os poderosos (a mentira é uma forma de poder e o poder é uma forma de mentira), os belos, os bem nutridos, os bem parecidos, os fortes, os atléticos, os bem falantes, os altos e os loiros, os de olhos azuis, todos os perfeitos, os de sorriso alinhado, os de dentes brancos, os bem vestidos, todos estes, todos eles, triunfam sempre pois é a imagem o factor fundamental.

Muito antes desta era estupidamente mediática, já dizia o povo que "quem vê caras não vê corações". A sabedoria popular é feita pelos que estão por baixo, pelos defeituosos, pelos baixotes e gorduchos, de beiça gordurosa, malga de tinto vazia a pender na mão titubeante. Este ditado é profecia.

Vivemos num mundo dominado por dentições ofuscantes. Os que têm dentes podres e barbela nunca poderão confrontar os limpinhos, dificilmente poderão refutar uma afirmação exalada num suspiro enfadado de um Ken, muito menos poderão contestar a autoridade luminosa de uma Barbie. Vivemos num mundo dominado por princesas Disney.

Poucas vezes a "tradução" de um título do inglês teve tão grande sublimidade quanto a de "Animal farm" para "O triunfo dos porcos". Houvesse Orwell tido o lampejo genial desse título para a sua fábula intemporal e, talvez, o mundo fosse um pouco diferente. Os porcos triunfam sempre.

quinta-feira, maio 26, 2016

Bom feriado

Esta 5.ª feira mais parece ser um Sábado. É estranha a forma como os dias da semana ganham personalidades próprias quando vivemos uma vida de rotinas. Os dias entram-nos no corpo e o corpo adapta-se aos dias como eles vão sendo.

Hoje o meu corpo não percebeu de imediato que era 5.ª feira pois não teve de obedecer ao relógio. O meu corpo deambulou pela casa um tanto confuso. Quando saiu para rua percebeu um ritmo diferente e, talvez por isso, deslocou os quadradinhos do calendário e passou a comportar-se em desacordo com a realidade.

Levei algum tempo a ligar o cérebro em modo autónomo. A partir daí fui construindo o sentido deste dia.

Bom feriado.

sexta-feira, maio 20, 2016

Zombie King

Cada povo tem o bandido que merece e cada bandido encontra o lugar que lhe compete no meio do povo a que pertence. Alguns bandidos acabam por ser amados outros impõem-se pelo temor que inspiram. Há mesmo aqueles que nunca chegam a ser identificados como tal; são os maiores de todos os bandidos.

Quando um bandido se torna demasiado mau e se transforma em monstro é hora de deitar as mãos à cabeça. Muitos bandidos são tolerados, apaparicados, levados em ombros pelo povo que finge não perceber a profundidade das burlas, dos logros e dos pequenos roubos com que o bandido vai marcando o seu percurso social.

Bem vestidos, bem lavados e perfumados, penteadinhos como se estivessem constantemente à porta de casa da tia, prontos para o chá das cinco antes de irem tratar de uns assuntos muito importantes, os bandidos podem ser ou não ser muito perigosos. É como no Hamlet.

O problema é conseguirmos perceber o que é que define um bandido, onde é traçada e quem traça a fronteira da bandidice? Entre nós, cá em Portugal, não nos temos preocupado muito com esta questão e acarinhamos indefinidamente os nossos bandidos e, até, mesmo alguns grandes filhos da puta. É como se eles fossem aquilo que gostaríamos de ser mas que não temos coragem para assumir a não ser defronte ao espelho.

Seremos um povo de bandidos? Talvez sejamos e talvez isso seja motivo de esperança.

Cada povo de bandidos tem o herói que merece e cada herói encontra o lugar que lhe compete no meio do povo a que pertence? Continuamos à espera de Dom Sebastião que, caso regresse na tal manhã de nevoeiro, será já pouco mais que um zombie.

terça-feira, maio 17, 2016

Angústia?

Por vezes um gajo tem a incómoda sensação de que as coisas estão a ficar bolorentas. Percebes o que quero dizer, leitor amigo? As coisas ganham, de súbito, mais uns gramas de peso, parecem ficar pastosas, a colarem-se aos ponteiros do relógio, as coisas ficam mais feias, menos belas, enrolam-se em papel manteiga engordurado... não sei explicar bem mas talvez estejas a compreender o que quero dizer.

Há dias em que as coisas ficam assim.

Para mim isto está a acontecer desde ontem. As pessoas notam o fenómeno estampado na minha cara; "isso não está bem" ou " estás com cara de caso", dizem-me. E eu acredito. Acredito que o meu corpo e a minha imagem deixam transparecer essa estranheza incomunicável por palavras.

Penso que é a isto que chamamos "angústia". Neste caso uma leve angústia mas, ainda assim, uma sensação capaz de transformar, de limitar, capaz de aprisionar o espírito numa espécie de teia tecida por uma inominável aranha.

domingo, maio 15, 2016

Ai, caramba!!!

Apercebo-me que sou incapaz de imaginar uma coisa que não esteja contida noutra coisa. A alma contida no corpo; a galáxia contida no universo; Deus contido no espírito humano; etc. e tal, por aí fora, por aí adiante... a noção de infinito, a possibilidade da ausência de limites é algo muito para lá da minha compreensão.

Isto traz-me uma angústia fundamental: o que é a Liberdade? Não é a Liberdade, por definição, uma ausência de limites?

 A Liberdade tem limites? Como pode a liberdade ter limites? Significa isto que a Liberdade está contida em alguma coisa? Não é isto uma tenebrosa contradição?

Ok, isto está ficar descontrolado, demasiado confuso. Um prisioneiro é livre de se movimentar no espaço da prisão que o confina? Uma pessoa que é livre de se deslocar num determinado espaço não encontrará um limite, uma fronteira que a impeça de ser totalmente livre?

Totalmente livre... ao dizer isto estarei a admitir a hipótese de que existe a possibilidade de sermos mais ou menos livres. Isto faz algum sentido? Como pode alguém ser mais livre ou menos livre? A Liberdade admite uma escala de valor?

Ai, estou a ficar nauseado!

Talvez a questão da Liberdade só possa ser colocada num plano ideal; talvez a questão da Liberdade não faça sentido no mundo real. Talvez a Liberdade seja possível apenas num mundo onírico. A Liberdade não cabe neste mundo em que nos cruzamos e somos aquilo que somos.

Como diz a canção dos GNR: "Horrorosa Natureza, pseudo-mãe, até há fronteiras na selva".

Por vezes penso que nunca saí da adolescência.

sexta-feira, maio 13, 2016

Magia

Tentar compreender o mundo que nos rodeia é tarefa impossível de concretizar. Sempre foi. Os grandes pensadores oferecem-nos lampejos clarividentes, iluminam por instantes o negrume universal.

Quando reflectimos sobre a imensidão percebemos que somos menos que um átomo no corpo frágil de uma formiga. Além disso, condenados que estamos à extinção, podemos sentir a angústia infinita de não sermos nada. Mas, no entanto, estamos aqui. Temos esta vida para viver e este universo para compreender.

É com estes pensamentos que entro no dia que se segue. Não posso dizer que esteja particularmente entusiasmado. Sei que, mais logo, terei esquecido esta deprimente reflexão. Quando der a primeira gargalhada do dia tudo se iluminará, como que por magia.

terça-feira, maio 10, 2016

Monstros

Perguntas:
- Quem nos protege dos monstros que assolam este mundo? Quem consegue impedir a brutalidade absoluta desses monstros? Quem tem força para derrotar os monstros?

Respostas:
- Outros monstros. Outros monstros. Outros monstros.


segunda-feira, maio 09, 2016

Vison

Um homem de cabeça branca passeia no palco com uma gola circular, reflectora, gola que lhe dá uma volta completa ao pescoço. A luz cai sobre a gola num gracioso ângulo de, mais ou menos, não sei  quantos graus e faz com que o homem, vestido de negro, se transforme numa cabeça planante (como a do Rei da Lua nas Aventuras do Barão Munchausen).

O homem sorri, arreganha os brancos lábios. Tem os dentes vermelhos. Acho que esteve a comer tomate. Molho de tomate. A beber sumo de tomate. O tomate é um estranho fruto.

Depois há aquele malabarista vestido com um fato de escamas de peixe que salta como um sapo ou como um coelho (não parece nada um canguru a saltar), que salta por ali e por acolá, que dá pinotes e pinotes, atirando objectos ao ar: um guarda-chuva, um telemóvel esperto, um tijolo cor de laranja e um ursinho de peluche ao qual está quase, quase, a saltar um dos olhos (que já é um botão de gabardina há bastante tempo).

Olha, agora é uma ave transparente que entra em cena. Tem rodinhas no lugar dos pés e rola sobre o palco com suavidade. A ave comeu uma rosa vermelha ao pequeno almoço, vê-se bem que foi isso o que comeu.

Mais atrás um casal flutua sobre o negrume do palco, equilibrando-se num esquife de metal. Uma das figuras encontra-se protegida por um pano azul que a cobre da cabeça aos pés (presumindo que tenha cabeça e que tenha pés).

Finalmente, um cavalo cujo corpo já é mais uma armadura que aquilo que deveria ser o corpo de um cavalo, passa em primeiro plano com um corneteiro incrustado no lombo, como um artilheiro enfiado na tampa aberta de um carro de combate.

sexta-feira, maio 06, 2016

Da vaidade

Folheio as páginas do suplemento cultural do "meu" jornal. Leio aqueles títulos em letras mais gordas que a vénus de Willendorf, frases magníficas, sugestões enigmáticas, descrições com elevado teor poético elogiam escritores, músicos e outros artistas, disparam-nos em direcção à categoria de pequenos deuses neste Olimpo de papel impresso. E sinto inveja, confesso que sinto inveja.

A inveja que arranha o interior do meu peito faz-me sentir que não sou digno daquele panteão da cultura. Um deus, mesmo um deus de papel impresso, decerto é superior a sentimento tão mesquinho, tão pequenino, tão provinciano, como esta inveja que aqui exponho. Inquieto-me, roo as unhas: não sou um artista? Sou um mero professorzeco, não sou um intelectual, sou um... nem sei o que sou.... um Joseph Merrick, na melhor das hipóteses.

Oh, como eu gostava de um dia ser página de suplemento cultural (página dupla levar-me-ia ao Paraíso!), como eu gostava de ver o meu nome elogiado por alguém com o dom da escrita e argúcia suficiente para ver nos meus trabalhos aquilo que nem eu serei capaz de perceber. Oh, como seria feliz se, por uma vez, pudesse despejar na gamela onde a minha vaidade chafurda e se alimenta substância suficiente que lhe saciasse a fomeca.

Foi em Narciso e Goldmund, de Herman Hesse, que li, há largos anos, uma frase que nunca esqueci (decerto a transformei, a memória é traiçoeira). Numa das conversas entre as personagens centrais deste romance, uma dizia à outra qualquer coisa como "a arte arrisca-se a ser apenas uma expressão de vaidade individual". Se não é isto, peço desculpas a Hesse, mas foi isto que me ficou gravado a ferro e fogo nos recessos do cérebro.

Hesse é bem capaz de ter ali fixado um ponto importante, digno de profunda reflexão.

quarta-feira, maio 04, 2016

Contrários

Não estar zangado não é o mesmo que estar feliz. Não estar morto não significa que se esteja vivo. O contrário do branco não é o preto. Nem o céu é o contrário da terra. O contrário de ser bom não é ser mau. O cão não é o contrário do gato. O contrário de contrário é, precisamente, o contrário.

Ok, estou a registar uma série de ideias controversas, parvoíces, admito. Acabo de escrever e fico imediatamente suspenso na dúvida.

Quero apenas notar que entre coisas aparentemente opostas existem outras, existem coisas intermédias. O contrário de alguma coisa pode ser mais ou menos evidente, mais ou menos vincado. O contrário de uma coisa pode ser apenas um bocadinho o seu contrário. O contrário absoluto não é mais que o extremo de uma escala.

Será? 

terça-feira, maio 03, 2016

Esfera

Podemos virar uma esfera ao contrário que ela não deixará de ser uma esfera. Podemos olhá-la de diferentes ângulos; parecer-nos-à idêntica. Será por isso que a esfera é considerada uma forma perfeita, por ser, aparentemente, incorruptível?