A narrativa reduz-se a uma linha, um segmento de recta. O fundo anónimo aconchega toda a imaginação que uma mancha é capaz de conter. O olhar, desolado, vê-se substituído por uma avalanche de palavras, uma enxurrada de ideias muito mais inteligentes do que a representação de um corpo humano deitado sobre uma cama de pregos. A arte, por vezes, tortura-me o espírito.
domingo, janeiro 29, 2017
segunda-feira, janeiro 23, 2017
Dúvida espiritual
Substituir o Espírito Santo pelo Espírito Revolucionário não tem mostrado resultados particularmente entusiasmantes. Não sei bem porquê, talvez pela natureza imaterial de cada um deles? Residirá o problema no respectivo patrão? Talvez a merda sejam as divindades, elas próprias,... sinceramente não sei porque razão estes espíritos se revelam de tal modo incompetentes na sua função de inspirar os crentes e ajudá-los a trilhar o Caminho dos Justos.
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pensamento vespertino
sábado, janeiro 14, 2017
Este mundo
Os Pilares da Sociedade (George Grosz, 1926)
A cada dia que passa maior é a minha convicção de que estamos a entrar num ano de merda.
A Ética, irmã gémea da Estética, essa puta maluca, cada vez é mais ignorada por lhe serem reconhecidos cada vez menos atributos e menos atractivos de vária ordem. A degradação é gradual e em ritmo acelerado.
O mundo pula mas já não avança, como sugeria aquela canção melíflua intitulada "Pedra filosofal" (lembras-te?); agora, a cada pulo, o mundo enfia as patas fundo na lama, salpica o focinho com pingos de diarreia mental e outras coisas fedorentas que vão atascando a nossa sociedade.
A cada dia que passa este mundo é, cada vez mais, um cagalhão que flutua no espaço.
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estupidez pura e simples,
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domingo, janeiro 08, 2017
Adeus Marocas
Morreu Mário Soares. Esteve tanto tempo internado em estado terminal que os jornalistas tiveram oportunidade de escrever toneladas de artigos, quase todos elogiosos. Hoje, no dia imediato ao passamento do velho democrata, a coisa explode: são centenas, milhares de artigos nos jornais, documentários nas TV's, repetições de entrevistas e debates, depoimentos, testemunhos, recordações... por uns dias Soares será perfeito. Ele que foi o mais imperfeito de nós e, por isso mesmo, o mais admirável de todos.
Disse um dia que "só os burros não mudam de opinião". Entre muitas outras coisas que julgo ter aprendido com ele esta foi a que mais vezes recordo.
Disse um dia que "só os burros não mudam de opinião". Entre muitas outras coisas que julgo ter aprendido com ele esta foi a que mais vezes recordo.
sábado, janeiro 07, 2017
2017 tem 7 dias
Os dias vão passando e até já houve um ou outro com uns tonzinhos cor-de-rosa lá no céu, a ajudar a imaginação, a dizer-lhe que se componha e endireite que o ano não há-de ser a merda que parece adivinhar-se.
No entanto o passarito azul não tem descanso e caga e vomita todo o santo dia a fazer com que um gajo veja o rosa a ficar vermelho de raiva. Há um clima geral de crispação a formar-se, um sistema de altas pressões a carregar sobre as mentes que se julgavam limpas.
É o mundo a rodar sobre si próprio, tonto como só ele sabe ser, governado por bandos de abutres cada vez mais gordos, abutres rastejantes que as asas já não lhes permitem descolar as patorras do chão.
Vou continuar a olhar para o ar esperando que o céu ganhe outra vez as tais tonalidades mais rosadas, como as bochchinhas de um bebé saudável.
Sinto saudades do futuro.
No entanto o passarito azul não tem descanso e caga e vomita todo o santo dia a fazer com que um gajo veja o rosa a ficar vermelho de raiva. Há um clima geral de crispação a formar-se, um sistema de altas pressões a carregar sobre as mentes que se julgavam limpas.
É o mundo a rodar sobre si próprio, tonto como só ele sabe ser, governado por bandos de abutres cada vez mais gordos, abutres rastejantes que as asas já não lhes permitem descolar as patorras do chão.
Vou continuar a olhar para o ar esperando que o céu ganhe outra vez as tais tonalidades mais rosadas, como as bochchinhas de um bebé saudável.
Sinto saudades do futuro.
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ano novo,
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domingo, janeiro 01, 2017
2017
Tenho todas as razões para desconfiar do presente. As bestas-feras que miam loas ao passado e são encarados como arautos de amanhãs que, se não cantam, choram só um bocadinho estão aí para governar o Mundo.
Parece impossível que esses cabrões-filhos-da-puta se apresentem tão vigorosos, clamando por justiça sem pingo de vergonha nas ventas. Batem no peito como o King Kong, das fendas que lhes servem de boca escorrem princípios cristãos como se fossem baba, nhanha, uma coisa repulsiva.
Peido-me para eles com toda a convicção.
Bom Ano Novo.
Parece impossível que esses cabrões-filhos-da-puta se apresentem tão vigorosos, clamando por justiça sem pingo de vergonha nas ventas. Batem no peito como o King Kong, das fendas que lhes servem de boca escorrem princípios cristãos como se fossem baba, nhanha, uma coisa repulsiva.
Peido-me para eles com toda a convicção.
Bom Ano Novo.
sábado, dezembro 31, 2016
Proverbial
Se um gajo der uma cana a um outro, que não saiba pescar, melhor será que lhe não vire as costas.
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quinta-feira, dezembro 29, 2016
Energias
Somos nós meras carroças transportando um cérebro que lamenta não ter pernas para se movimentar livremente pelo mundo? Que raio de coisa é o corpo? Tão frágil, tão frágil, o corpo é uma coisa tão frágil!
Será o cérebro mera fonte de alimento para alguma coisa que não se deixa entender que não se consegue abarcar, uma coisa inexplicável, cósmica, uma coisa divina? A nossa vida como fonte de energia para um ser (à falta de melhor designação) impossível de compreender, um ser eternamente ligado às nossas mentes por invisíveis sensores. Guloso, a crescer, a ficar mais forte a cada momento...
Criará cada criatura cósmica o seu próprio alimento? Seremos nós um docinho? Teremos um sabor de merda?
Será o cérebro mera fonte de alimento para alguma coisa que não se deixa entender que não se consegue abarcar, uma coisa inexplicável, cósmica, uma coisa divina? A nossa vida como fonte de energia para um ser (à falta de melhor designação) impossível de compreender, um ser eternamente ligado às nossas mentes por invisíveis sensores. Guloso, a crescer, a ficar mais forte a cada momento...
Criará cada criatura cósmica o seu próprio alimento? Seremos nós um docinho? Teremos um sabor de merda?
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segunda-feira, dezembro 26, 2016
Crimes e outras coisas
Esta manhã li dois contos de Patricia Higsmith de uma colectânea com título genérico igual ao da primeira historinha: O Álibi Perfeito. Historinhas que me parecem geniais na invenção de situações surpreendentes mas com um problema terrível na edição que estive a ler, a tradução é escabrosa. Dizer que é péssima é fazer um favor ao autor de semelhante assassinato. A coisa é tão mal traduzida que a tradução é o mais hediondo e repugnante de todos os crimes contidos no livrinho.
Reparei que os contos seguintes foram traduzidos por outras pessoas mas tive de sair e o finíssimo volume ficou guardado para outra ocasião. Tivesse a tradução outra qualidade e decerto não deixaria o livro a descansar até voltar a pegar-lhe, o que não deverá acontecer tão cedo.
Ao fim da tarde fui surpreendido com a oferta da mais recente tradução da Bíblia, volume I, O Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, obra de Frederico Lourenço, considerada uma coisa digna de ser lida. O trabalho de tradução tem merecido os mais elevados encómios. Tenho que ler.
A tradução é fundamental. Entregar boas obras nas mãos de maus tradutores deveria ser considerado crime.
Reparei que os contos seguintes foram traduzidos por outras pessoas mas tive de sair e o finíssimo volume ficou guardado para outra ocasião. Tivesse a tradução outra qualidade e decerto não deixaria o livro a descansar até voltar a pegar-lhe, o que não deverá acontecer tão cedo.
Ao fim da tarde fui surpreendido com a oferta da mais recente tradução da Bíblia, volume I, O Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, obra de Frederico Lourenço, considerada uma coisa digna de ser lida. O trabalho de tradução tem merecido os mais elevados encómios. Tenho que ler.
A tradução é fundamental. Entregar boas obras nas mãos de maus tradutores deveria ser considerado crime.
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terça-feira, dezembro 20, 2016
Indolência
3 Palhaços (e uma galinha) tinta da China sobre papel craft; Dezembro de 2106
Tenho a cabeça muito vazia. Escrevo estas palavras sem saber bem porquê. Talvez sinta necessidade de fazer qualquer coisa por muito inútil que possa ser; talvez responda a um reflexo intelectual provocado pela escassez de posts ao longo deste mês natalício. Não sei. Na verdade não sei porque insisto em martelar gentilmente o teclado. Continuo.
Para ser sincero apetece-me desenhar. Mas o frio não convida uma subida ao sótão e não tenho condições para produzir os desenhos nas dimensões mais generosas que tenho vindo a exercitar nos últimos dias. Por isso fico aqui, sentado, a teclar sem destino nem sentido. Continuo...
Gostava de ser capaz de escrever outras coisas, dar forma a algumas ideias que me têm visitado com alguma insistência. Visitas de cortesia como só as ideias parecidas com sonhos podem fazer. Mas não sinto coragem, talvez não me apeteça, talvez esteja receoso de avançar em direcção a algum lugar que possa não ser o que imagino.
Fico assim.
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coisas sem sentido
domingo, dezembro 18, 2016
Contradição
Olhando os polícias que esbracejam o trânsito num Cais do Sodré esventrado por obras eternas, percebo perfeitamente que o Caos pode ser ordenado mas não é por isso que deixa de ser o Caos.
(avanço na cidade)
Há dias assim, dias em que gosto sinceramente de estar vivo. São dias que me parecem iguais aos outros, na verdade não percebo porque gosto mais de estar vivo nestes que naqueles. Se calhar gosto de viver, mais nada!
(a cidade brilha sob o sol)
Ele há dias que mais parecem noites e noites que trazem agarrada a fundura negra de um poço com pêndulo. Nem mesmo a luz espanta os monstros dos recantos desses dias, nem a escuridão das negras sombras os conforta. É uma angústia, uma agitação, como se fosse uma morte.
(avanço na cidade)
Há dias assim, dias em que gosto sinceramente de estar vivo. São dias que me parecem iguais aos outros, na verdade não percebo porque gosto mais de estar vivo nestes que naqueles. Se calhar gosto de viver, mais nada!
(a cidade brilha sob o sol)
Ele há dias que mais parecem noites e noites que trazem agarrada a fundura negra de um poço com pêndulo. Nem mesmo a luz espanta os monstros dos recantos desses dias, nem a escuridão das negras sombras os conforta. É uma angústia, uma agitação, como se fosse uma morte.
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poesia inquinada,
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segunda-feira, novembro 28, 2016
Um rabisco
Tanta gente a tentar perceber o que aconteceu, como foi possível? Quem votou em Trump, quais as razões desses votos?
Cada cabeça sua sentença (ou, como se diz neste blogue: 100 cabeças, 1000 sentenças) as opiniões dividem-se. Ora disparam em lucubrações fantásticas, ora serpenteiam em complexas associações de ideias mas, no fim das contas, ninguém pode afirmar que Trump foi eleito por estes ou por aqueles que o terão feito por isto ou por aquilo.
E se, lá no fundo, a razão principal que levou à eleição do homem dos cabelos complexos for tão simples quanto ele ser a imagem mais límpida de uma certa estupidez humana? E se ele foi eleito por mero reflexo, um gesto geral e impensado, executado por uma multidão de votantes pouco dados a reflectir sobre questões éticas ou morais?
Talvez o Trump-presidente seja apenas isso: um rabisco desorientado feito pela multidão numa página da História contemporânea. Seja lá isso o que for... quem sabe?
Nota: o 100 Cabeças completa hoje 11 anos de existência.
Cada cabeça sua sentença (ou, como se diz neste blogue: 100 cabeças, 1000 sentenças) as opiniões dividem-se. Ora disparam em lucubrações fantásticas, ora serpenteiam em complexas associações de ideias mas, no fim das contas, ninguém pode afirmar que Trump foi eleito por estes ou por aqueles que o terão feito por isto ou por aquilo.
E se, lá no fundo, a razão principal que levou à eleição do homem dos cabelos complexos for tão simples quanto ele ser a imagem mais límpida de uma certa estupidez humana? E se ele foi eleito por mero reflexo, um gesto geral e impensado, executado por uma multidão de votantes pouco dados a reflectir sobre questões éticas ou morais?
Talvez o Trump-presidente seja apenas isso: um rabisco desorientado feito pela multidão numa página da História contemporânea. Seja lá isso o que for... quem sabe?
Nota: o 100 Cabeças completa hoje 11 anos de existência.
terça-feira, novembro 22, 2016
Confissão
Eu gostava de ser bom como o Papa Francisco, gostava de ter aquela compaixão couraçada que ele mostra quando aconchega os fracos e os oprimidos e estica as orelhas aos exploradores e aos filhos da puta.
Eu gostava de ter a missão de espalhar a fé na justiça e na amizade entre os povos como vai fazendo António Guterres com aquele aspecto de suportar às costas um peso imenso sem nunca perder a coragem.
Oh, como gostava de sentir a inspiração das grandes causas, a força da esperança que outros depositassem em mim!
Mas não, sou um gajo com maus fígados. Dou por mim a desprezar certas pessoas que, se calhar, até nem merecem desprezo, a desejar que certos figurões se fodam forte e feio, não tenho a auréola de santo que gostaria de ter.
Enfim, sou obrigado a viver dentro de mim próprio, a suportar os pensamentos desviantes que me sopram aos ouvidos canções bandidas. É assim que sou. E, verdade, verdadinha, até que nem desgosto.
Eu gostava de ter a missão de espalhar a fé na justiça e na amizade entre os povos como vai fazendo António Guterres com aquele aspecto de suportar às costas um peso imenso sem nunca perder a coragem.
Oh, como gostava de sentir a inspiração das grandes causas, a força da esperança que outros depositassem em mim!
Mas não, sou um gajo com maus fígados. Dou por mim a desprezar certas pessoas que, se calhar, até nem merecem desprezo, a desejar que certos figurões se fodam forte e feio, não tenho a auréola de santo que gostaria de ter.
Enfim, sou obrigado a viver dentro de mim próprio, a suportar os pensamentos desviantes que me sopram aos ouvidos canções bandidas. É assim que sou. E, verdade, verdadinha, até que nem desgosto.
sábado, novembro 19, 2016
Manhã de Inverno
Encosto as pernas no Sol que a janela da cozinha deixa entrar sem grande cerimónia. O frio do Inverno chegou faz apenas dois dias (ou três). Veio atrasado mas é como se nunca tivesse ido embora.
O Frio, quando chega, é sempre o mesmo. É um viajante. Quando regressa poderá vir mais ou menos cansado mas o seu toque permanece vigoroso, inconfundível. Daí que eu, que nunca me detenho em grandes contactos com o Sol de Verão, me deixe estar assim, encostado a este Sol, sentado no mocho da cozinha, depois de um largo café, queijo fresco, doce alentejano de tomate e framboesa, tostas quase sem sal e umas quantas páginas de O Delfim.
Grande Cardoso Pires, grande Cardoso Pires...
O Frio, quando chega, é sempre o mesmo. É um viajante. Quando regressa poderá vir mais ou menos cansado mas o seu toque permanece vigoroso, inconfundível. Daí que eu, que nunca me detenho em grandes contactos com o Sol de Verão, me deixe estar assim, encostado a este Sol, sentado no mocho da cozinha, depois de um largo café, queijo fresco, doce alentejano de tomate e framboesa, tostas quase sem sal e umas quantas páginas de O Delfim.
Grande Cardoso Pires, grande Cardoso Pires...
terça-feira, novembro 15, 2016
Material e criatividade
As mulheres são, de facto, adoráveis. Olho-as e vejo a perfeição.
Da criação de Adão para a de Eva Deus melhorou muito. Fica provado que, por vezes, a matéria-prima é decisiva para a qualidade final do trabalho realizado.
Não sei se Deus fez alguma experiência anterior mas uma costela parece ser material mais indicado do que um punhado de terra quando se trata de criar um ser vivo.
Nesta cena estiveste bem, Deus, foste um bacano.
Da criação de Adão para a de Eva Deus melhorou muito. Fica provado que, por vezes, a matéria-prima é decisiva para a qualidade final do trabalho realizado.
Não sei se Deus fez alguma experiência anterior mas uma costela parece ser material mais indicado do que um punhado de terra quando se trata de criar um ser vivo.
Nesta cena estiveste bem, Deus, foste um bacano.
sexta-feira, novembro 11, 2016
So long Leonard
Esta noite recebi a notícia da morte de Leonard Cohen. Até um dia, Leonard, talvez te veja outra vez. Ou talvez não.
Reparo agora que os meus ídolos musicais estão, cada vez mais, enterrados na mesma cova da minha memória. Strummer, Reed, Bowie, agora Cohen, Morrison já morreu faz muito, muito tempo. Palma, meu amigo, continua bem vivo e dou graças a Deus, pelo menos por isso.
A estante onde vou amontoando os meus CD's cada vez mais se parece com um cemitério. Hoje, quando falei nisso à Ana ela perguntou-me se eu sabia o que poderia significar tal coisa? Eu sei o que ela queria sugerir, que estamos a envelhecer, mas respondi: sim, sei o que significa, significa que toda a gente morre, mesmo os imortais, qualquer coisa assim.
Resposta parva, provocada por uma mistura de desencanto e alguma raiva temperadas por um pouquinho de tristeza e desespero. Já só poderei ouvir o que eles fizeram, já não poderei esperar o que eles vão fazer.
Quando falecem estes seres humanos ficamos um pouco mais sozinhos, um pouco mais abandonados aos nossos sonhos. Já não poderemos ser estimulados pelas suas visões magníficas para vermos o mundo melhor iluminado. Resta-nos a memória, a revisita.
Até um dia Leonard, meu magnífico companheiro.
quinta-feira, novembro 10, 2016
Perguntas, perguntas…
É o presidente Trump um retrato do mundo actual? É ele o espelho mágico
no qual nos olhamos e a quem perguntamos se há alguém mais democrata do que
nós? Nós… nós… mas quem somos nós, aqueles por quem o Senhor Director fala no
seu editorial de 10 de Novembro, “Este território desconhecido”? Somos os que
estão surpreendidos com a vitória do Donald? Os que vivem preocupados com os movimentos
populistas de pendor totalitário que medram um pouco por toda a União Europeia? O que nos une, o que nos torna um todo?
Tal como nos comics
americanos, por cada super-herói há um super-vilão. Se “nós” existimos “eles”
também estão por aí e, de momento, são “eles” quem está a ganhar. Temo que o
problema resida precisamente na possibilidade que “nós” não existamos, que “nós”
sejamos uma personagem ficcional e “eles”, pelo contrário, sejam reais. Temo
que “eles” saibam o que (não) querem enquanto “nós” queremos coisas diferentes
uns dos outros. “Eles” têm inimigos definidos e unem-se, “nós” não temos como
nos unir pois não identificámos ainda o inimigo, estamos divididos. “Nós” acreditávamos que personagens
como Trump, Farage e Le Pen só poderiam crescer noutro tipo de contexto sociopolítico.
Erro crasso, percebemos agora. Seremos,"nós" e "eles", a mesma coisa, a mesma gente?
Olhando para os resultados das duas votações (a do
Brexit e a eleição do Donald) que obrigam
a reflectir sobre que mundo é este, verificamos que uma e outra foram
razoavelmente renhidas, que há uma tendência clara para uma divisão em duas
partes que se equivalem. Estará o Ocidente a partir-se ao meio, a abrir uma
brecha através da qual se esvaziará irrevogavelmente?
Se Trump for o tal espelho mágico decerto não tardará a dar-nos respostas.
Carta enviada ao Director do jornal Público
domingo, novembro 06, 2016
Monstro
Ser mau é o resultado de um amontoado de circunstâncias que se equilibram umas sobre as outras como aqueles chinezinhos incríveis que penso lembrar-me de ter visto um dia, num palco qualquer, algures no mundo. As coisas todas, umas em cima das outras, aquele momento inacreditável, tudo assim, como se pode imaginar: e a maldade irrompe, inundando o momento que vivemos!
O Ser mau é um veículo inesperado de um conjunto de forças cósmicas maiores do que a sua capacidade de entendimento. O Ser mau assume a sua inevitável condição de fantoche dos deuses e ali está, disponível para horrorizar os outros, os comuns mortais, incapazes de entenderem que raio de força é aquela que faz de uma pessoa normal a monstruosidade abjecta que ali se ergue, sentada no sofá, encostada à ombreira da porta da cozinha, com o dedo a premir a ponta do nariz e os lábios rasgados num sorriso assustador? As interrogações tropeçam nas certezas; que monstro é aquele dentro de nossa casa, dentro do nosso peito, dentro da nossa cabeça!?
Aquele monstro sou eu, és tu, o inferno somos nós.
O Ser mau é um veículo inesperado de um conjunto de forças cósmicas maiores do que a sua capacidade de entendimento. O Ser mau assume a sua inevitável condição de fantoche dos deuses e ali está, disponível para horrorizar os outros, os comuns mortais, incapazes de entenderem que raio de força é aquela que faz de uma pessoa normal a monstruosidade abjecta que ali se ergue, sentada no sofá, encostada à ombreira da porta da cozinha, com o dedo a premir a ponta do nariz e os lábios rasgados num sorriso assustador? As interrogações tropeçam nas certezas; que monstro é aquele dentro de nossa casa, dentro do nosso peito, dentro da nossa cabeça!?
Aquele monstro sou eu, és tu, o inferno somos nós.
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sábado, novembro 05, 2016
Feitiço
Havia muito tempo que o relógio da estação só marcava a hora certa duas vezes em cada dia. Quando reparei nesse pormenor apercebi-me que a minha vida é muito feita de esquecimentos. Talvez seja isso que me permite o espaço necessário à imaginação.
Talvez a imaginação necessite desses esquecimentos passageiros para que possamos encontrar-nos.
Tal como o bicho perseguido agora sai da toca, atraído pelos raios dourados do sol, esquecido do perigo que ali o enfiara, tão fundo na escuridão e no medo, também a imaginação sai da minha cabeça em busca do teu olhar.
Vivo enfeitiçado pela imaginação.
Talvez a imaginação necessite desses esquecimentos passageiros para que possamos encontrar-nos.
Tal como o bicho perseguido agora sai da toca, atraído pelos raios dourados do sol, esquecido do perigo que ali o enfiara, tão fundo na escuridão e no medo, também a imaginação sai da minha cabeça em busca do teu olhar.
Vivo enfeitiçado pela imaginação.
sexta-feira, novembro 04, 2016
Possibilidade de beleza
Acordas todas as manhãs para continuares a viver a tua vida no seguimento do sonho que sonhaste. Continuas dentro do teu corpo, cheiras-te, sentes-te, és tu! O mundo desfila perante os teus olhos, ajeita-se ao teu ser, és humano outra vez. O dia vem aí e tu irás com ele.
Não há nada de extraordinário. São as coisas a serem aquilo que são. Não tens noção, não sabes, não te apercebes. Vives a tua vida e, inevitavelmente, vives também um pouco as vidas de outras pessoas. Tudo se mistura, talvez isto seja belo.
Não há nada de extraordinário. São as coisas a serem aquilo que são. Não tens noção, não sabes, não te apercebes. Vives a tua vida e, inevitavelmente, vives também um pouco as vidas de outras pessoas. Tudo se mistura, talvez isto seja belo.
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