Se um gajo der uma cana a um outro, que não saiba pescar, melhor será que lhe não vire as costas.
sábado, dezembro 31, 2016
quinta-feira, dezembro 29, 2016
Energias
Somos nós meras carroças transportando um cérebro que lamenta não ter pernas para se movimentar livremente pelo mundo? Que raio de coisa é o corpo? Tão frágil, tão frágil, o corpo é uma coisa tão frágil!
Será o cérebro mera fonte de alimento para alguma coisa que não se deixa entender que não se consegue abarcar, uma coisa inexplicável, cósmica, uma coisa divina? A nossa vida como fonte de energia para um ser (à falta de melhor designação) impossível de compreender, um ser eternamente ligado às nossas mentes por invisíveis sensores. Guloso, a crescer, a ficar mais forte a cada momento...
Criará cada criatura cósmica o seu próprio alimento? Seremos nós um docinho? Teremos um sabor de merda?
Será o cérebro mera fonte de alimento para alguma coisa que não se deixa entender que não se consegue abarcar, uma coisa inexplicável, cósmica, uma coisa divina? A nossa vida como fonte de energia para um ser (à falta de melhor designação) impossível de compreender, um ser eternamente ligado às nossas mentes por invisíveis sensores. Guloso, a crescer, a ficar mais forte a cada momento...
Criará cada criatura cósmica o seu próprio alimento? Seremos nós um docinho? Teremos um sabor de merda?
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segunda-feira, dezembro 26, 2016
Crimes e outras coisas
Esta manhã li dois contos de Patricia Higsmith de uma colectânea com título genérico igual ao da primeira historinha: O Álibi Perfeito. Historinhas que me parecem geniais na invenção de situações surpreendentes mas com um problema terrível na edição que estive a ler, a tradução é escabrosa. Dizer que é péssima é fazer um favor ao autor de semelhante assassinato. A coisa é tão mal traduzida que a tradução é o mais hediondo e repugnante de todos os crimes contidos no livrinho.
Reparei que os contos seguintes foram traduzidos por outras pessoas mas tive de sair e o finíssimo volume ficou guardado para outra ocasião. Tivesse a tradução outra qualidade e decerto não deixaria o livro a descansar até voltar a pegar-lhe, o que não deverá acontecer tão cedo.
Ao fim da tarde fui surpreendido com a oferta da mais recente tradução da Bíblia, volume I, O Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, obra de Frederico Lourenço, considerada uma coisa digna de ser lida. O trabalho de tradução tem merecido os mais elevados encómios. Tenho que ler.
A tradução é fundamental. Entregar boas obras nas mãos de maus tradutores deveria ser considerado crime.
Reparei que os contos seguintes foram traduzidos por outras pessoas mas tive de sair e o finíssimo volume ficou guardado para outra ocasião. Tivesse a tradução outra qualidade e decerto não deixaria o livro a descansar até voltar a pegar-lhe, o que não deverá acontecer tão cedo.
Ao fim da tarde fui surpreendido com a oferta da mais recente tradução da Bíblia, volume I, O Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, obra de Frederico Lourenço, considerada uma coisa digna de ser lida. O trabalho de tradução tem merecido os mais elevados encómios. Tenho que ler.
A tradução é fundamental. Entregar boas obras nas mãos de maus tradutores deveria ser considerado crime.
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terça-feira, dezembro 20, 2016
Indolência
3 Palhaços (e uma galinha) tinta da China sobre papel craft; Dezembro de 2106
Tenho a cabeça muito vazia. Escrevo estas palavras sem saber bem porquê. Talvez sinta necessidade de fazer qualquer coisa por muito inútil que possa ser; talvez responda a um reflexo intelectual provocado pela escassez de posts ao longo deste mês natalício. Não sei. Na verdade não sei porque insisto em martelar gentilmente o teclado. Continuo.
Para ser sincero apetece-me desenhar. Mas o frio não convida uma subida ao sótão e não tenho condições para produzir os desenhos nas dimensões mais generosas que tenho vindo a exercitar nos últimos dias. Por isso fico aqui, sentado, a teclar sem destino nem sentido. Continuo...
Gostava de ser capaz de escrever outras coisas, dar forma a algumas ideias que me têm visitado com alguma insistência. Visitas de cortesia como só as ideias parecidas com sonhos podem fazer. Mas não sinto coragem, talvez não me apeteça, talvez esteja receoso de avançar em direcção a algum lugar que possa não ser o que imagino.
Fico assim.
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domingo, dezembro 18, 2016
Contradição
Olhando os polícias que esbracejam o trânsito num Cais do Sodré esventrado por obras eternas, percebo perfeitamente que o Caos pode ser ordenado mas não é por isso que deixa de ser o Caos.
(avanço na cidade)
Há dias assim, dias em que gosto sinceramente de estar vivo. São dias que me parecem iguais aos outros, na verdade não percebo porque gosto mais de estar vivo nestes que naqueles. Se calhar gosto de viver, mais nada!
(a cidade brilha sob o sol)
Ele há dias que mais parecem noites e noites que trazem agarrada a fundura negra de um poço com pêndulo. Nem mesmo a luz espanta os monstros dos recantos desses dias, nem a escuridão das negras sombras os conforta. É uma angústia, uma agitação, como se fosse uma morte.
(avanço na cidade)
Há dias assim, dias em que gosto sinceramente de estar vivo. São dias que me parecem iguais aos outros, na verdade não percebo porque gosto mais de estar vivo nestes que naqueles. Se calhar gosto de viver, mais nada!
(a cidade brilha sob o sol)
Ele há dias que mais parecem noites e noites que trazem agarrada a fundura negra de um poço com pêndulo. Nem mesmo a luz espanta os monstros dos recantos desses dias, nem a escuridão das negras sombras os conforta. É uma angústia, uma agitação, como se fosse uma morte.
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segunda-feira, novembro 28, 2016
Um rabisco
Tanta gente a tentar perceber o que aconteceu, como foi possível? Quem votou em Trump, quais as razões desses votos?
Cada cabeça sua sentença (ou, como se diz neste blogue: 100 cabeças, 1000 sentenças) as opiniões dividem-se. Ora disparam em lucubrações fantásticas, ora serpenteiam em complexas associações de ideias mas, no fim das contas, ninguém pode afirmar que Trump foi eleito por estes ou por aqueles que o terão feito por isto ou por aquilo.
E se, lá no fundo, a razão principal que levou à eleição do homem dos cabelos complexos for tão simples quanto ele ser a imagem mais límpida de uma certa estupidez humana? E se ele foi eleito por mero reflexo, um gesto geral e impensado, executado por uma multidão de votantes pouco dados a reflectir sobre questões éticas ou morais?
Talvez o Trump-presidente seja apenas isso: um rabisco desorientado feito pela multidão numa página da História contemporânea. Seja lá isso o que for... quem sabe?
Nota: o 100 Cabeças completa hoje 11 anos de existência.
Cada cabeça sua sentença (ou, como se diz neste blogue: 100 cabeças, 1000 sentenças) as opiniões dividem-se. Ora disparam em lucubrações fantásticas, ora serpenteiam em complexas associações de ideias mas, no fim das contas, ninguém pode afirmar que Trump foi eleito por estes ou por aqueles que o terão feito por isto ou por aquilo.
E se, lá no fundo, a razão principal que levou à eleição do homem dos cabelos complexos for tão simples quanto ele ser a imagem mais límpida de uma certa estupidez humana? E se ele foi eleito por mero reflexo, um gesto geral e impensado, executado por uma multidão de votantes pouco dados a reflectir sobre questões éticas ou morais?
Talvez o Trump-presidente seja apenas isso: um rabisco desorientado feito pela multidão numa página da História contemporânea. Seja lá isso o que for... quem sabe?
Nota: o 100 Cabeças completa hoje 11 anos de existência.
terça-feira, novembro 22, 2016
Confissão
Eu gostava de ser bom como o Papa Francisco, gostava de ter aquela compaixão couraçada que ele mostra quando aconchega os fracos e os oprimidos e estica as orelhas aos exploradores e aos filhos da puta.
Eu gostava de ter a missão de espalhar a fé na justiça e na amizade entre os povos como vai fazendo António Guterres com aquele aspecto de suportar às costas um peso imenso sem nunca perder a coragem.
Oh, como gostava de sentir a inspiração das grandes causas, a força da esperança que outros depositassem em mim!
Mas não, sou um gajo com maus fígados. Dou por mim a desprezar certas pessoas que, se calhar, até nem merecem desprezo, a desejar que certos figurões se fodam forte e feio, não tenho a auréola de santo que gostaria de ter.
Enfim, sou obrigado a viver dentro de mim próprio, a suportar os pensamentos desviantes que me sopram aos ouvidos canções bandidas. É assim que sou. E, verdade, verdadinha, até que nem desgosto.
Eu gostava de ter a missão de espalhar a fé na justiça e na amizade entre os povos como vai fazendo António Guterres com aquele aspecto de suportar às costas um peso imenso sem nunca perder a coragem.
Oh, como gostava de sentir a inspiração das grandes causas, a força da esperança que outros depositassem em mim!
Mas não, sou um gajo com maus fígados. Dou por mim a desprezar certas pessoas que, se calhar, até nem merecem desprezo, a desejar que certos figurões se fodam forte e feio, não tenho a auréola de santo que gostaria de ter.
Enfim, sou obrigado a viver dentro de mim próprio, a suportar os pensamentos desviantes que me sopram aos ouvidos canções bandidas. É assim que sou. E, verdade, verdadinha, até que nem desgosto.
sábado, novembro 19, 2016
Manhã de Inverno
Encosto as pernas no Sol que a janela da cozinha deixa entrar sem grande cerimónia. O frio do Inverno chegou faz apenas dois dias (ou três). Veio atrasado mas é como se nunca tivesse ido embora.
O Frio, quando chega, é sempre o mesmo. É um viajante. Quando regressa poderá vir mais ou menos cansado mas o seu toque permanece vigoroso, inconfundível. Daí que eu, que nunca me detenho em grandes contactos com o Sol de Verão, me deixe estar assim, encostado a este Sol, sentado no mocho da cozinha, depois de um largo café, queijo fresco, doce alentejano de tomate e framboesa, tostas quase sem sal e umas quantas páginas de O Delfim.
Grande Cardoso Pires, grande Cardoso Pires...
O Frio, quando chega, é sempre o mesmo. É um viajante. Quando regressa poderá vir mais ou menos cansado mas o seu toque permanece vigoroso, inconfundível. Daí que eu, que nunca me detenho em grandes contactos com o Sol de Verão, me deixe estar assim, encostado a este Sol, sentado no mocho da cozinha, depois de um largo café, queijo fresco, doce alentejano de tomate e framboesa, tostas quase sem sal e umas quantas páginas de O Delfim.
Grande Cardoso Pires, grande Cardoso Pires...
terça-feira, novembro 15, 2016
Material e criatividade
As mulheres são, de facto, adoráveis. Olho-as e vejo a perfeição.
Da criação de Adão para a de Eva Deus melhorou muito. Fica provado que, por vezes, a matéria-prima é decisiva para a qualidade final do trabalho realizado.
Não sei se Deus fez alguma experiência anterior mas uma costela parece ser material mais indicado do que um punhado de terra quando se trata de criar um ser vivo.
Nesta cena estiveste bem, Deus, foste um bacano.
Da criação de Adão para a de Eva Deus melhorou muito. Fica provado que, por vezes, a matéria-prima é decisiva para a qualidade final do trabalho realizado.
Não sei se Deus fez alguma experiência anterior mas uma costela parece ser material mais indicado do que um punhado de terra quando se trata de criar um ser vivo.
Nesta cena estiveste bem, Deus, foste um bacano.
sexta-feira, novembro 11, 2016
So long Leonard
Esta noite recebi a notícia da morte de Leonard Cohen. Até um dia, Leonard, talvez te veja outra vez. Ou talvez não.
Reparo agora que os meus ídolos musicais estão, cada vez mais, enterrados na mesma cova da minha memória. Strummer, Reed, Bowie, agora Cohen, Morrison já morreu faz muito, muito tempo. Palma, meu amigo, continua bem vivo e dou graças a Deus, pelo menos por isso.
A estante onde vou amontoando os meus CD's cada vez mais se parece com um cemitério. Hoje, quando falei nisso à Ana ela perguntou-me se eu sabia o que poderia significar tal coisa? Eu sei o que ela queria sugerir, que estamos a envelhecer, mas respondi: sim, sei o que significa, significa que toda a gente morre, mesmo os imortais, qualquer coisa assim.
Resposta parva, provocada por uma mistura de desencanto e alguma raiva temperadas por um pouquinho de tristeza e desespero. Já só poderei ouvir o que eles fizeram, já não poderei esperar o que eles vão fazer.
Quando falecem estes seres humanos ficamos um pouco mais sozinhos, um pouco mais abandonados aos nossos sonhos. Já não poderemos ser estimulados pelas suas visões magníficas para vermos o mundo melhor iluminado. Resta-nos a memória, a revisita.
Até um dia Leonard, meu magnífico companheiro.
quinta-feira, novembro 10, 2016
Perguntas, perguntas…
É o presidente Trump um retrato do mundo actual? É ele o espelho mágico
no qual nos olhamos e a quem perguntamos se há alguém mais democrata do que
nós? Nós… nós… mas quem somos nós, aqueles por quem o Senhor Director fala no
seu editorial de 10 de Novembro, “Este território desconhecido”? Somos os que
estão surpreendidos com a vitória do Donald? Os que vivem preocupados com os movimentos
populistas de pendor totalitário que medram um pouco por toda a União Europeia? O que nos une, o que nos torna um todo?
Tal como nos comics
americanos, por cada super-herói há um super-vilão. Se “nós” existimos “eles”
também estão por aí e, de momento, são “eles” quem está a ganhar. Temo que o
problema resida precisamente na possibilidade que “nós” não existamos, que “nós”
sejamos uma personagem ficcional e “eles”, pelo contrário, sejam reais. Temo
que “eles” saibam o que (não) querem enquanto “nós” queremos coisas diferentes
uns dos outros. “Eles” têm inimigos definidos e unem-se, “nós” não temos como
nos unir pois não identificámos ainda o inimigo, estamos divididos. “Nós” acreditávamos que personagens
como Trump, Farage e Le Pen só poderiam crescer noutro tipo de contexto sociopolítico.
Erro crasso, percebemos agora. Seremos,"nós" e "eles", a mesma coisa, a mesma gente?
Olhando para os resultados das duas votações (a do
Brexit e a eleição do Donald) que obrigam
a reflectir sobre que mundo é este, verificamos que uma e outra foram
razoavelmente renhidas, que há uma tendência clara para uma divisão em duas
partes que se equivalem. Estará o Ocidente a partir-se ao meio, a abrir uma
brecha através da qual se esvaziará irrevogavelmente?
Se Trump for o tal espelho mágico decerto não tardará a dar-nos respostas.
Carta enviada ao Director do jornal Público
domingo, novembro 06, 2016
Monstro
Ser mau é o resultado de um amontoado de circunstâncias que se equilibram umas sobre as outras como aqueles chinezinhos incríveis que penso lembrar-me de ter visto um dia, num palco qualquer, algures no mundo. As coisas todas, umas em cima das outras, aquele momento inacreditável, tudo assim, como se pode imaginar: e a maldade irrompe, inundando o momento que vivemos!
O Ser mau é um veículo inesperado de um conjunto de forças cósmicas maiores do que a sua capacidade de entendimento. O Ser mau assume a sua inevitável condição de fantoche dos deuses e ali está, disponível para horrorizar os outros, os comuns mortais, incapazes de entenderem que raio de força é aquela que faz de uma pessoa normal a monstruosidade abjecta que ali se ergue, sentada no sofá, encostada à ombreira da porta da cozinha, com o dedo a premir a ponta do nariz e os lábios rasgados num sorriso assustador? As interrogações tropeçam nas certezas; que monstro é aquele dentro de nossa casa, dentro do nosso peito, dentro da nossa cabeça!?
Aquele monstro sou eu, és tu, o inferno somos nós.
O Ser mau é um veículo inesperado de um conjunto de forças cósmicas maiores do que a sua capacidade de entendimento. O Ser mau assume a sua inevitável condição de fantoche dos deuses e ali está, disponível para horrorizar os outros, os comuns mortais, incapazes de entenderem que raio de força é aquela que faz de uma pessoa normal a monstruosidade abjecta que ali se ergue, sentada no sofá, encostada à ombreira da porta da cozinha, com o dedo a premir a ponta do nariz e os lábios rasgados num sorriso assustador? As interrogações tropeçam nas certezas; que monstro é aquele dentro de nossa casa, dentro do nosso peito, dentro da nossa cabeça!?
Aquele monstro sou eu, és tu, o inferno somos nós.
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sábado, novembro 05, 2016
Feitiço
Havia muito tempo que o relógio da estação só marcava a hora certa duas vezes em cada dia. Quando reparei nesse pormenor apercebi-me que a minha vida é muito feita de esquecimentos. Talvez seja isso que me permite o espaço necessário à imaginação.
Talvez a imaginação necessite desses esquecimentos passageiros para que possamos encontrar-nos.
Tal como o bicho perseguido agora sai da toca, atraído pelos raios dourados do sol, esquecido do perigo que ali o enfiara, tão fundo na escuridão e no medo, também a imaginação sai da minha cabeça em busca do teu olhar.
Vivo enfeitiçado pela imaginação.
Talvez a imaginação necessite desses esquecimentos passageiros para que possamos encontrar-nos.
Tal como o bicho perseguido agora sai da toca, atraído pelos raios dourados do sol, esquecido do perigo que ali o enfiara, tão fundo na escuridão e no medo, também a imaginação sai da minha cabeça em busca do teu olhar.
Vivo enfeitiçado pela imaginação.
sexta-feira, novembro 04, 2016
Possibilidade de beleza
Acordas todas as manhãs para continuares a viver a tua vida no seguimento do sonho que sonhaste. Continuas dentro do teu corpo, cheiras-te, sentes-te, és tu! O mundo desfila perante os teus olhos, ajeita-se ao teu ser, és humano outra vez. O dia vem aí e tu irás com ele.
Não há nada de extraordinário. São as coisas a serem aquilo que são. Não tens noção, não sabes, não te apercebes. Vives a tua vida e, inevitavelmente, vives também um pouco as vidas de outras pessoas. Tudo se mistura, talvez isto seja belo.
Não há nada de extraordinário. São as coisas a serem aquilo que são. Não tens noção, não sabes, não te apercebes. Vives a tua vida e, inevitavelmente, vives também um pouco as vidas de outras pessoas. Tudo se mistura, talvez isto seja belo.
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segunda-feira, outubro 31, 2016
Santa estupidez!
Olhando de relance para os livros de História fico pensando: quantas vezes os que acreditaram agir em nome de Deus acabaram abrindo as portas de suas almas ao Diabo? Quantas vezes os que têm fé na própria santidade convidam o Vampiro a entrar nas suas casas. Ovelhas mansas são perfeitas para ferrar dentes aguçados.
A força da religião é proporcional à debilidade mental. A crendice alimenta-se da estupidez como besouro se alimenta de merda.
Levámos tantos séculos a separar o Estado da Igreja, a construir a Democracia à custa de tantos sacrifícios e agora assistimos, incrédulos, ao cristianismo na sua pior versão, a versão exploradora, assassina da Humanidade, parasita da miséria, assistimos à chegada do fundamentalismo cristão aos lugares do poder Democrático no Brasil.
O resultado disto só pode ser a morte da Democracia. Fundamentalismo religioso e Democracia são como a água e o azeite, não se misturam por mais que o tentemos fazer. As igrejas evangélicas são como serpentes, demónios com asas feitas com penas de galinha, a fingir que são anjos.
Atenção que a coisa medra em Portugal. Eles estão aí, fingindo que não existem, passando despercebidos, a martelar nos bairros pobres, a arrebanhar os analfabetos sociais, fazendo o trabalho do Diabo com frieza e método. A IURD não dorme. A Besta está activa.
Santa estupidez!
A força da religião é proporcional à debilidade mental. A crendice alimenta-se da estupidez como besouro se alimenta de merda.
Levámos tantos séculos a separar o Estado da Igreja, a construir a Democracia à custa de tantos sacrifícios e agora assistimos, incrédulos, ao cristianismo na sua pior versão, a versão exploradora, assassina da Humanidade, parasita da miséria, assistimos à chegada do fundamentalismo cristão aos lugares do poder Democrático no Brasil.
O resultado disto só pode ser a morte da Democracia. Fundamentalismo religioso e Democracia são como a água e o azeite, não se misturam por mais que o tentemos fazer. As igrejas evangélicas são como serpentes, demónios com asas feitas com penas de galinha, a fingir que são anjos.
Atenção que a coisa medra em Portugal. Eles estão aí, fingindo que não existem, passando despercebidos, a martelar nos bairros pobres, a arrebanhar os analfabetos sociais, fazendo o trabalho do Diabo com frieza e método. A IURD não dorme. A Besta está activa.
Santa estupidez!
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sábado, outubro 29, 2016
Apetite por papel
Pode a designada "arte urbana" ("street art" soa mais fino) ir parar
dentro de uma galeria ou de um museu? Perderá fulgor a obra do activista
urbano quando exposta num espaço domesticado pelo comércio?
Bom, se um retábulo de Vasco Fernandes (Grão Vasco para os amigos) pode ser reconstituído no interior de um museu com o nome do mestre, perdendo toda a envolvência mística do local para o qual foi criado e onde foi exposto originalmente, não vislumbro qual o problema de enfiar arte de rua dentro de um edifício. Marcel Duchamp fez-nos entender que estas coisas são muito mais terra-a-terra do que gostaríamos de acreditar.
A transcendência do objecto artístico está muito perdida nos labirintos das nossas alminhas. Haja saúde que o resto interessa pouco (como diz a minha vizinha do rés-do-chão).
Bom, se um retábulo de Vasco Fernandes (Grão Vasco para os amigos) pode ser reconstituído no interior de um museu com o nome do mestre, perdendo toda a envolvência mística do local para o qual foi criado e onde foi exposto originalmente, não vislumbro qual o problema de enfiar arte de rua dentro de um edifício. Marcel Duchamp fez-nos entender que estas coisas são muito mais terra-a-terra do que gostaríamos de acreditar.
A transcendência do objecto artístico está muito perdida nos labirintos das nossas alminhas. Haja saúde que o resto interessa pouco (como diz a minha vizinha do rés-do-chão).
quarta-feira, outubro 26, 2016
Antes pelo contrário
Alemães, austríacos, belgas (valões e flamengos), búlgaros, cipriotas,
croatas, dinamarqueses, eslovacos, eslovenos, estónios, espanhóis, finlandeses,
franceses, gregos, húngaros, irlandeses, italianos, letões, lituanos, luxemburgueses,
malteses, holandeses, polacos, portugueses (minhotos, beirões, ribatejanos,
alentejanos e algarvios), ingleses (de malas aviadas), escoceses e irlandeses
do norte (a hesitarem no aviamento das respectivas malas), checos, romenos e
suecos. Tantos povos, tanta gente, uma só União, a Europeia.
A pergunta que me dança na caverna craniana é: o que une esta União? É a
Cultura? A religião? É uma ideologia política? Algum Herói, algum sonho, um
ideal que seja? Não. Não me parece que haja outra coisa em comum além da deusa
Economia.
Mas, tal como o Cristianismo tem diferentes interpretações que se
materializam em Igrejas particulares que apontam diferentes caminhos para a
redenção das almas, também a Economia divinizada suscita debates acalorados e diferentes
vias para a redenção dos orçamentos dos estados. A confusão instala-se, a
coesão é uma espécie de batata que obedece a múltiplas lógicas voláteis. Pautar
a construção europeia por princípios económicos equivale a desfazê-la em
pedacinhos peçonhentos.
A Economia é uma divindade prostituta, pode
proporcionar prazeres momentâneos, êxtases magníficos mas, no fim do dia, exige
o pagamento devido sem oferecer qualquer tipo de afecto ao pagador.
Somos um
cadáver andante, um zombie sociopolítico, uma coisa votada ao esquecimento. Sem
solidariedade esta coisa de que fazemos parte não faz sentido. Sem cultura
Democrática somos uma bosta. E, como bosta que somos, havemos de ir esgoto
abaixo e, connosco, toda a magnífica utopia social-democrata será despejada no
Mar Mediterrâneo.
Sinto algum pesar por fazer parte deste epílogo histórico
mas, por outro lado, não me pesa o coração. A tristeza que me assalta é fruto
de não conseguir cumprir aquele que acredito ser o sentido da vida: deixar para
as gerações futuras um mundo melhor do que aquele que encontrámos. Antes pelo
contrário.
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mundo fantasma
segunda-feira, outubro 24, 2016
Bestial
É com indisfarçável incómodo que vejo a Besta crescer à luz do dia. É um bicho imundo, feio, malcheiroso, que consegue iludir-nos ao ponto de lhe irmos dar de comer à boca. Sem nojo, sem receio. A Besta é hipnótica.
Imagens da Besta são sempre coisas complexas, nem todos (seremos poucos?) conseguem compreender a essência da coisa, a estrutura que sustenta o animal. Vemos algo que lá não está mas, para percebermos o logro, precisamos de uns óculos especiais que se colocam no quiasma óptico e são feitos de coisas impalpáveis: ideais, sonhos, conceitos... a Besta é metamórfica.
A Besta pode disfarçar-se de gatinho, de coelhinho, de velhinho, de menina ou menino, pode assumir a forma de uma coisinha fôfa para melhor nos atrair e depois nos devorar. A verdade é que muitos de nós nem se apercebem que estão a ser mastigados quando a Besta se prepara para os engolir e transformar em merda. A Besta tem um aspecto inofensivo.
Imagens da Besta são sempre coisas complexas, nem todos (seremos poucos?) conseguem compreender a essência da coisa, a estrutura que sustenta o animal. Vemos algo que lá não está mas, para percebermos o logro, precisamos de uns óculos especiais que se colocam no quiasma óptico e são feitos de coisas impalpáveis: ideais, sonhos, conceitos... a Besta é metamórfica.
A Besta pode disfarçar-se de gatinho, de coelhinho, de velhinho, de menina ou menino, pode assumir a forma de uma coisinha fôfa para melhor nos atrair e depois nos devorar. A verdade é que muitos de nós nem se apercebem que estão a ser mastigados quando a Besta se prepara para os engolir e transformar em merda. A Besta tem um aspecto inofensivo.
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filosofia de tasca
sexta-feira, outubro 21, 2016
Momentito
Encontrar pessoas com um universo de referências culturais semelhante ao nosso pode proporcionar momentos de grande desembaraço intelectual. Isso e uma garrafa de bom vinho.
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pensamento nocturno
quinta-feira, outubro 20, 2016
Premonição
Um dia serei apenas um nome (mais um nome) escrito em qualquer lado e, como todas as coisas escritas, estarei sujeito ao apagamento.
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